Por
que a violência já não comove tanto?
Os
números são representações gráficas de uma quantidade, que é uma “propriedade
que existe em magnitude e acumulação e que designa tudo aquilo que pode ser
medido ou contado, que é suscetível de aumentar ou diminuir e que possui uma
substância e forma”. E também “está entre as classes básicas da classificação
dos objetos, a par com a qualidade, a substância, a mudança e a relação”
(Wikipedia). São importantes para a estatística, o campo da matemática que
relaciona fatos e números, em que há um conjunto de métodos que possibilita
coletar dados e analisá-los, possibilitando realizar alguma interpretação
deles, trabalhando com objetividade. É muito utilizada em atividades públicas e
privadas, como programas de governo, políticas públicas, trabalhos científicos,
pesquisas em vendas, de mercado, eleitorais e outras formas de apresentação de
dados que procuram, de modo geral, demonstrar a relação entre fenômenos,
facilitar sua análise e fazer compreender melhor algum problema.
No
cotidiano, quando deparamos com fatos e notícias, notamos que muitas vezes os
dados numéricos perdem importância, sendo relativizados por percepções que
podem ser, ou não, resultado de ação de pessoas ou grupos formadores de
opinião. Podemos associar esta observação com casos de violência. Qual tipo de
violência chama mais a atenção? Quais são os motivos para que fatos violentos
envolvendo algumas poucas pessoas atraiam mais interesse e causem maior comoção
em comparação com fatos atingindo grande número de pessoas? Representariam
perda de significado dos números de vítimas?
A
resposta pode abranger algumas variáveis: condição social das vítimas,
identificação com grupos sociais, país ou nação, tipo de audiência,
preconceitos arraigados, entre outras. Ademais, a forma de apresentação dos
fatos e de notícias pela grande mídia e pelas redes sociais pode mascarar
preconceitos dos divulgadores e seus canais quanto ao conteúdo dessas
informações, aplicando seus valores ou interesses de grupos que representam, ao
desqualificar as vítimas de violência envolvida, conforme o pertencimento
destas a grupos, como classe social, econômica, nacional, étnica ou política. O
próprio público receptor da informação ou da notícia pode assimilar os dados
sobre violência de formas diversas.
As
formas de violência estão contempladas na ideia do triângulo da violência
formulada por Johann Galtung, sociólogo, matemático e pesquisador norueguês,
cujo gráfico aparece a seguir.
Galtung
posicionou a violência direta no vértice superior e nos outros as formas
indiretas de violência: a estrutural e a cultural. A violência direta é fato
visível; violência estrutural é um processo, e a violência cultural é
permanência. Apresenta a violência direta abarcando também a manifestação de
violências estrutural e cultural, subjacentes, não visíveis e mais latentes.
Segundo
Galtung, é a identificação do sujeito da violência que diferencia a violência
pessoal da violência estrutural. Esta última é uma forma indireta e mais
disfarçada de violência, relacionada com a injustiça social, consequência das
desigualdades sociais, da exploração, da opressão, tendo raízes na distribuição
desigual dos recursos nas sociedades ou entre as sociedades. A violência
cultural (1990) é ainda uma forma mais profunda e indireta e tem como função
legitimar as demais formas de violência, direta e estrutural, normalizando sua
aceitação, por meio de linguagem, mitos, religião, patriarcado, colonialismo,
preconceitos e demais expressões simbólicas da existência humana.
Aprofundando
na distinção entre essas categorias de violência e respectivas abrangências,
pode-se apreender melhor as possíveis causas da relativização pelo público,
receptor das informações, dos números de vítimas de atos de violência diversos
e a percepção desses fatos.
Tomando
como exemplo a fome, ela pode ser analisada como violência estrutural por
resultar de um processo de ações econômicas e políticas estruturantes da
sociedade nacional e/ou global, sob uma visão micro ou macro a depender do
universo do estudo a ser realizado. Também pode ser vista como violência
cultural, ao consolidar e legitimar as causas para a existência da fome que
decorrem da forma de colonialismo da agricultura hegemônica do agronegócio no
Brasil, os mitos relacionados aos benefícios do agronegócio para o país
apresentados pela grande mídia, o patriarcado dominante no modelo do
agronegócio, e toda a falácia da narrativa dos defensores dessa forma de
agricultura como solução para a fome e que criou e estimulou preconceitos
contra outras formas de agricultura, como a familiar, entre outras, e contra os
defensores da reforma agrária no Brasil, que tem caráter inclusivo da
população. Desta maneira, os grandes meios de comunicação contribuíram para
naturalizar como questão individual o fenômeno da fome, que tem causas sociais.
Desta maneira, a fome não é percebida como violência direta e nem atrai comoção
pública, embora afete fisicamente a vítima do fenômeno.
A
identificação das duas formas de violência, estrutural e cultural, requer o
aprofundamento na raiz dos problemas analisados e um nível de interesse social
mais amplo das pessoas, o que, por sua vez, depende da evolução da educação dos
indivíduos na sociedade para a cidadania, onde se interioriza a relação
intrínseca entre os problemas individuais e os coletivos.
A
violência direta afeta fisicamente alguma pessoa ou grupo de pessoas. No
cotidiano, ela é mais visível e mais perceptível, sendo tratada como questão
individual pelos órgãos de segurança. O aumento do número de casos registrados
dessa forma de violência é divulgado pela mídia e facilmente absorvido pela
população, enquanto os estudos existentes sobre suas causas têm pouca
divulgação para o público, podendo estar associados à violência estrutural
acompanhada pela violência cultural.
É
reconhecido que o máximo de violência direta, por afetar a segurança física de
grande número de pessoas, é representado pelas guerras, que têm presença
marcante no atual cenário mundial. A guerra pode ser definida como a luta ou
enfrentamento com utilização de armas bélicas e atuação de tropas regulares
entre dois ou mais grupos de pessoas, por causa de antagonismos e rupturas
graves e recíprocas e que traz como resultado uma ruptura das relações normais
entre eles (Mapfre). Na base, a guerra constitui a ruptura das relações entre
os antagonistas que não conseguiram resolver disputas por meios pacíficos que
podiam ter fundamento em questões de violência estrutural e cultural.
A
denominação empregada para a guerra sofre nuances conforme os interesses
daqueles que apresentam dados sobre essa forma extrema de violência. Assim, o
termo para o fato pode ser empregado de maneira errada, na maioria das vezes de
forma proposital, para atribuir valor depreciativo a algum contendor. Por falta
da neutralidade necessária, a grande imprensa utiliza artifícios e contribui
para alienar a opinião pública sobre as causas.
O
próprio estímulo às guerras contém interesses ocultos que contribuem para
reforçar determinadas informações, pouco verdadeiras, direcionadas para a
aceitação do fato. Em vídeo sobre a guerra dos Estados Unidos no Afeganistão, o
jornalista Julian Assange afirmava que o objetivo da guerra sem fim naquele
país não visava dominar totalmente o Afeganistão, mas seria uma forma de usar o
ataque a esse país para fazer lavagem de dinheiro das verbas usadas fora do
controle orçamentário dos EUA e fazer retornar esse dinheiro com segurança para
algum grupo transnacional. Em outra manifestação, o criador do Wikileaks expõe
que a forma da concentração na mídia, a sua dependência de verbas de
corporações e a lógica geopolítica dos grandes centros de poder geram desinformação
estrutural, valendo-se até de mentiras e de marcos de narrativas, de silêncios
estratégicos com interesses diversos na hierarquização de apresentação dos
acontecimentos. A informação passou a ser um instrumento de controle político e
econômico, em especial em contextos de guerra, de conflitos internacionais e na
disputa por recursos. Considera ele que a compreensão dessa forma de
funcionamento constitui a chave para analisar de maneira crítica o papel da
imprensa, a liberdade de expressão e o direito real à informação.
Johann
Galtung, ainda em 1958, havia se insurgido contra o círculo vicioso da
“naturalização da guerra”, vinculada, desde a Guerra Fria, com a corrida
armamentista de prontidão para a guerra e do poderio militar autojustificado
pelos burocratas da linha de “defesa”, que se limitava aos “estudos de
segurança”, objeto de suas críticas.
É
importante considerar essas posições como abordagem crítica para afastar as
formas automáticas de absorver as notícias e contribuir para gerar percepções
sobre os fatos sob a perspectiva de manutenção da paz. Para realizar esse
objetivo, é necessário entender a dimensão e o nível de expressão dos três
tipos de violência gaultianos geradores de conflitos, que cobram medidas
promotoras de transformações nas causas e nas contradições estruturais e
culturais em suas bases mais profundas, e que não se limitam apenas à cessação
dos efeitos diretos das violências.
A
distância física dos acontecimentos violentos não parece um obstáculo para a
informação por conta da globalização da tecnologia das grandes empresas de
comunicação, apesar do uso de seus filtros nas divulgações, que alteram os
fatos e suas causas. Portanto, sejam fatos próximos ou distantes, a percepção
das pessoas sobre a violência depende do nível de abstração dos interesses
pessoais para sentir solidariedade e empatia com as vítimas fora do contato e
de conhecimento diretos.
Em
síntese, a educação para a cidadania, na busca pela justiça social e pela
paz, constitui elemento fundamental para
fortalecer os laços de solidariedade entre os seres humanos em suas múltiplas
diversidades, num mundo capitalista, complexo e globalizado, onde os grupos
detentores do poder da tecnologia da comunicação filtram as notícias, por
interesses diversos, e impactam negativamente na percepção dos números elevados
de vítimas das diversas formas de violência espalhadas pelo Brasil e pelo
mundo.
Fonte:
Por Marie Madeleine Hutyra de Paula Lima, em Outras Palavras

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