DrumWave:
Uma agenda ainda obscura
Em
2025, escrevemos, como pesquisadores da ELA-IA (Estratégia Latino-Americana de
Inteligência Artificial), um texto denso publicado pelo Outras Palavras com
detalhes a respeito da progressiva consolidação de uma agenda ainda pouco
problematizada envolvendo o que vem sendo chamado de monetização de dados. A
promessa de retornos financeiros a titulares de dados funciona como chave de
legitimação da sua potencial transformação em ativos financeiros
transacionáveis, sendo precificados (o que até agora não se explica) a partir
de um compartilhamento que envolveria a Infraestrutura Nacional de Dados.
A
DrumWave aparece como protagonista desse desenho: uma startup sediada na
Califórnia que se apresenta como construtora da infraestrutura para uma “nova”
economia. Essa proposta se acopla a um arranjo institucional que integra o
Estado, o sistema financeiro e fornecedores de tecnologia. Uma transformação,
que avança silenciosamente, pode ser tida por tecnicamente complexa, mas é –
acima de tudo – uma aposta na liderança do mercado financeiro em tempos nos
quais vemos o caso mais emblemático de suas entranhas: quem não está
acompanhando as manchetes sobre o Banco Master, bem como a rede de influência
qualificada envolvida no tema?
O
assunto da monetização de dados é opaco e embalado por uma retórica pouco
precisa: “soberania digital, com renda para titulares de dados em um contexto
de pura eficiência e inovação”. Há um quê de charlatanismo inegável que não
impediu o tema de avançar, inclusive legislativamente. O PLP 234/2023 é
apresentado como uma chave mestra para instituir a monetização de dados no
Brasil, permitindo a expansão do Open Finance para o Open X – em outras
palavras, a interoperabilidade potencial de dados de saúde, energia,
telecomunicações, consumo, mobilidade, redes sociais e bases governamentais.
A
questão central não é a circulação de dados em si, mas sua monetização em um
modelo que delega padrões técnicos e operacionais a convenções entre os
próprios participantes do sistema financeiro. De novo, é pedagógico rememorar o
caso do Banco Master. Desculpem a insistência. É necessária. Até porque, fora o
modelo absurdo de gestão da matéria, as melhores promessas de anonimização já
levaram a estudos que comprovam a reidentificação como risco estrutural sempre
presente. Na prática, quase todos os registros digitais poderiam ser
convertidos em insumo econômico – e não tente dizer que seu histórico médico
estaria protegido.
O Open
Finance é analisado como protótipo dessa lógica: compartilhamento de dados com
base em consentimento formal, governança privada e infraestrutura tecnológica
concentrada. Open Finance, Pix e Drex surgem como partes de um mesmo trilho que
pode sustentar, no futuro, a integração ampla entre dados e transações. O
problema central já deixou de ser a concentração simultânea de poder normativo,
operacional e informacional… não podemos esquecer que 2026 nos mostrou que o
sequestro de presidentes é uma alternativa existente e que grandes empresas de
tecnologia atuam em prol de Estados nacionais (como os Estados Unidos ou
Israel) – o que escancara a igualdade nas relações internacionais como
absolutamente formal. Fora casos envolvendo vieses algorítmicos em face de um
suposto discurso da eficiência: camadas e camadas de problemas.
Uma
outra: a infraestrutura proposta pela DrumWave (especialmente a dWallet e os
mecanismos de valoração de dados) tende a revelar que a prometida renda
individual pode se configurar como marginal. O verdadeiro benefício econômico
não está no dado bruto, mas no seu processamento, cruzamento, modelagem e
comercialização de produtos derivados. Quem controla a infraestrutura e os
padrões sobrepuja quem licencia o insumo, mesmo que estejamos falando de dados
de crianças coletados desde seu nascimento. Não há limites.
Agora,
atentemos ao papel das empresas públicas, que é central no problema anunciado.
Serpro e Dataprev aparecem como pontes institucionais que podem conectar bases
estatais sensíveis a um ecossistema de monetização de dados. Provas de conceito
e protocolos de intenção com a DrumWave estão envoltos em opacidade sob
alegação de segredo comercial – e enfatizamos a questão, pois obtivemos
respostas por meio da Lei de Acesso à Informação nesse sentido. Publicamente, a
informação não circula; o que não quer dizer que não haja pessoas com acesso
privilegiado a ela. Então, a dependência tecnológica é apenas mais um problema
no meio de campo. Aliás, tentamos nos reunir com a Secretaria Nacional de
Transparência e Acesso à Informação da Controladoria-Geral da União e ainda não
tivemos retorno de agenda para essa conversa.
O uso
de ambientes públicos para testar tecnologias patenteadas no exterior amplia o
problema da influência internacional, e já vimos que subestimar esse fator não
é mais possível – até mesmo porque uma “economia de dados” baseada em perfis
comportamentais amplia a capacidade de microdirecionamento político.
Defendemos, então, que esse assunto não pode ser esquecido durante o ano
eleitoral. A agenda avança de forma “técnica” e invisível, criando fatos
consumados que podem blindar decisões estratégicas por décadas,
independentemente do envolvimento popular.
Como
pesquisadores da ELA-IA, em conformidade com seu objetivo social de garantir a
proteção de dados e a autonomia dos indivíduos sobre suas informações digitais
por meio da pesquisa, do ensino e do desenvolvimento de tecnologias éticas,
propomos a criação de um grupo de trabalho parlamentar para detalhamento da
arquitetura técnica envolvida, a fim de que danos potenciais fiquem nítidos. O
ponto de fundo é político: alargar a influência do mercado financeiro sobre
políticas sociais vem se mostrando uma péssima aposta.
Fonte:
Por Fabiana Cunha, Henrique Pinto Coelho, Raquel Rachid e Hernán Poblete, em
Outras Palavras

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