Pluribus
e o pior dos mundos possíveis
Uma das
contradições mais fundamentais da existência humana foi formulada de maneira
muito precisa pelo filósofo alemão do século XIX Arthur Schopenhauer. Para ele,
a vida de todos os seres é irredutivelmente atravessada pela Vontade, um
princípio vital cego e incessante que se impõe como desejo contínuo, porém
insaciável. A Vontade exige que a totalidade dos seres vivos se entreguem a um
ímpeto cego e irresistível que permeia todo o universo, desde suas forças
físicas mais básicas, como o eletromagnetismo, até o desejo sexual, que leva as
espécies a se multiplicarem.
A
Vontade impõe o desejo como impulso cego e incessante que dilacera os
organismos vivos, pois desejar implica carência, e esta pressupõe a dor como
princípio que identifica a vida ao sofrimento. Por esse motivo, para o
filósofo, a vida humana é um pêndulo que oscila entre dois polos. Um deles é o
sofrimento decorrente da tensão imposta pelo desejo, anseio vital que mobiliza
todas as forças do organismo. O outro é o tédio, decorrente do vazio
existencial que se manifesta a cada vez que o desejo é satisfeito. O dualismo
entre sofrimento e tédio explicita o fato de que a dor e a tragédia são a
essência dos seres vivos e de toda a história da humanidade.
Segundo
Schopenhauer, uma possibilidade exemplar de redenção da tragédia existencial
imposta pela Vontade consiste em atingir o estado de nirvana, princípio
metafísico da filosofia oriental que corresponde à supressão do desejo e
cessação do sofrimento. O nirvana tem um papel central nas técnicas de
meditação e ascese do hinduísmo e do budismo, e representa para Schopenhauer um
horizonte de libertação da existência, pois torna possível a superação do ciclo
de sofrimento e tédio interminavelmente imposto pela Vontade.
Pluribus
é uma série televisiva que tematiza um cenário pós-apocalíptico no qual o fim
do mundo não é caracterizado pelo caos, pela tirania ou pela destruição, mas
sim por um estado universal de felicidade. A humanidade de Pluribus experimenta
uma existência pacífica que se sucede a uma epidemia causada por um vírus
alienígena que elimina nos seres humanos todos os impulsos agressivos e
egoístas, substituindo-os por um consenso absoluto avesso a todo tipo de
conflito. A tensão trágica dessa série televisiva é proporcionada por Carol
Sturka, uma personagem impulsiva e temperamental que encarna a resistência
humana a essa espécie de felicidade totalitária.
Embora
seja um produto da indústria cultural classificado como série de ficção
científica, Pluribus expõe alguns conflitos temáticos de imenso alcance
filosófico. O mais imediato deles diz respeito justamente à supressão da
Vontade schopenhauriana, pois os habitantes dessa espécie de colmeia humana
constituem uma mente coletiva que desconhece inteiramente todo tipo de dor ou
sofrimento. Essa comunidade universal encarna a mais elevada utopia pacifista
que se possa imaginar. Esse aspecto foi muito bem captado por Francisco
Escorsim1, que comparou a humanidade de Pluribus à visão utópica de John Lennon
sobre um mundo sem fronteiras políticas ou religiosas.
Suprimir
a Vontade, que é o princípio vital subjacente a toda dor e sofrimento, parece
corresponder à mais cara utopia que se possa imaginar, mas ao mesmo tempo, cabe
interrogar se um universo totalitário em que o livre-arbítrio foi eliminado
constitui um horizonte desejável para a vida humana. Quando a uniformidade se
torna suprema, a diversidade é completamente suprimida, e a autonomia
individual se torna impossível. A felicidade então resultante é algo
insuportável, e cabe se perguntar se vale a pena viver em um mundo assim. Em
Pluribus, todas as pessoas atingiram o nirvana e desfrutam de horizontes da
mais absoluta libertação existencial, em que não há mais desejo, sofrimento ou
tédio. Porém, é diante dessa humanidade plenamente redimida que a protagonista
da série escolhe a autonomia individual como princípio ético de resistência.
Essa
primeira implicação filosófica de Pluribus, que diz respeito a uma aparente
superação da tragédia schopenhauriana, abre caminhos para uma interrogação
metafísica ainda mais radical. Perante a inesperada constatação de que em um
mundo completamente redimido dos aspectos trágicos impostos pela Vontade, a
existência humana se torna impossível, cabe indagar por que a vida, tal qual a
conhecemos, vale dizer, com todas as contradições e sofrimentos que ela contém,
parece ser um cenário preferível. Essa interrogação remete a um problema
filosófico de longa data que foi formulado sob os seguintes termos: “por que o
mundo é assim e não de outro modo?”. Leibniz, filósofo alemão anterior à era
iluminista, formulou uma resposta para essa questão afirmando que o princípio
explicativo para que o mundo seja tal como o conhecemos não pode ser encontrado
no interior do próprio mundo, pois toda coisa contingente (uma pessoa, uma
árvore, uma rocha) tem por causa uma outra coisa contingente que está neste
mesmo mundo. É preciso recorrer a um princípio metafísico (situado fora do
mundo físico das coisas contingentes) que seja a origem de todas as coisas, e
esse princípio absoluto somente pode ser Deus.
É
relevante observar que o recurso filosófico a Deus como origem absoluta de tudo
o que existe se justifica por necessidades racionais originadas do próprio modo
de funcionamento do intelecto humano, e não por motivos relacionados à fé
religiosa. Também é preciso reconhecer que Deus necessariamente existe, pois é
o princípio substancial explicativo de toda a realidade. O mais completo
conceito metafísico de Deus foi formulado pelo filósofo medieval Anselmo de
Aosta: “Deus é aquilo de que não se pode pensar nada de maior”. Sendo assim,
Deus também é perfeição e bondade suprema, pois, caso contrário, não
corresponderá ao requisito de não se poder pensar nada de maior (de um ser
divino que fosse mau se poderia pensar algo de maior, isto é, que fosse bom).
Analogamente, Deus não pode ser apenas uma ideia na mente de um ser humano
singular, pois isso autorizaria pensar em um Deus que existisse na mente deste
homem e também na realidade, isto é, que fosse maior.
Da
existência necessária de Deus como princípio substancial e absoluto de onde se
originam todas as coisas, Leibniz conclui que, se este mundo se origina de
Deus, ele somente pode ser o melhor dos mundos possíveis. Nas palavras do
filósofo: “da perfeição suprema de Deus segue-se que, produzindo o universo,
ele escolheu o melhor plano possível, no qual há a maior variedade unida à
máxima ordem, no qual o terreno, o lugar e o tempo são os mais bem preparados,
no qual o efeito é obtido com os meios mais simples e as criaturas têm a maior
potência, conhecimento, felicidade e bondade que o universo poderia permitir”.
Em
outras palavras, a interrogação metafísica sobre por que o mundo é assim e não
de outro modo, conduz ao famoso otimismo leibniziano que atribui à realidade em
que vivemos a qualidade de ser o melhor dos mundos possíveis. A própria Vontade
formulada pelo pessimista Schopenhauer como o princípio vital que explica a dor
e o sofrimento como molas propulsoras da vida, acaba sendo integrada à
metafísica do otimismo de Leibniz. Na verdade, somos conduzidos ao otimismo de
Leibniz não apenas pela necessidade racional aqui brevemente descrita, mas
muito mais pelo comportamento trágico de Carol Sturka, em sua recusa obstinada
de sucumbir aos esforços de evangelização da humanidade de Pluribus para que
ela se torne mais um ser humano feliz. Carol é nossa heroína metafísica tardia,
para quem uma realidade de humanos pacíficos e felizes, mas desprovidos de
vontade própria, constitui o pior dos mundos possíveis.
Para
além de Schopenhauer e Leibniz, Pluribus também pode ser pensada à luz do
sistema conceitual de Hegel, filósofo alemão do século XVIII. Hegel descreveu
sua fenomenologia do espírito como o processo pelo qual a consciência humana
supera formas limitadas de relação com o mundo até alcançar uma compreensão
plenamente mediada de si mesma e da realidade. Essa superação se realiza na
história, por meio de um processo evolutivo em que todas as formas de vida
contêm potenciais de elevação, desde organismos unicelulares, até formas
espirituais mais elevadas, culminando na existência humana, que adquire a
capacidade de compreender a si mesma como veículo de realização do Espírito
Absoluto. O Espírito Absoluto nada mais é que o próprio Deus, pensado em
sentido imanente, isto é, como totalidade de todo o universo. Sendo assim, o
Espírito Absoluto somente pode existir corporificado, ou encarnado nos seres
vivos. Compreender isso é a meta maior da própria existência humana, e se
constitui ao mesmo tempo como um processo de reforma íntima e ética. Isso
implica que mediante o emprego do livre-arbítrio, os seres humanos busquem se
tornar cada vez melhores e mais próximos da perfeição divina.
O
desenvolvimento da consciência humana, segundo Hegel, é um processo que se
realiza segundo etapas históricas em que o conjunto da humanidade dissipa
ilusões que ela mesma construiu, rumo à sua autoconsciência como veículo de
realização do Espírito Absoluto. Mas esse processo, sendo uma conquista da
humanidade, não se realiza sob formas imediatas, pois depende da livre escolha
de cada indivíduo, se constituindo nas errâncias do mundo, mediante o
enfrentamento das tragédias da história. O livre-arbítrio é a mola propulsora
do espírito, pois, se um ser humano específico está necessariamente destinado a
espelhar a perfeição divina, essa evolução não poderá se realizar de maneira
automática, jamais será um “milagre divino”, na medida em que somente se
efetiva como escolha autônoma e livre da consciência.
Pluribus
é uma espécie de caricatura do Espírito Absoluto, traduzindo um horizonte
existencial em que a humanidade se tornaria plenamente evoluída de maneira
automática e milagrosa, sem passar pelo processo necessário de sua evolução
histórica. É apenas por serem dotados de livre-arbítrio que os seres humanos se
tornam capazes de mergulhar na barbárie fascista, mas ao mesmo tempo, sem o
livre-arbítrio, eles não serão capazes de compreender sua regressão e escolher
livremente os caminhos de uma evolução ética. O pior dos mundos possíveis, como
nos lembra Carol Sturka, é aquele em que a evolução ética do espírito se tornou
supérflua, pois nessa realidade os humanos foram forçados a abandonar as etapas
necessárias de seu crescimento, e não podem mais espelhar a perfeição divina.
Se
Leibniz e Hegel estiverem certos, tudo indica que em um futuro cuja cronologia
nenhum de nós é capaz de imaginar, a humanidade como um todo estará pacificada
e redimida de seu passado de barbárie. Esse finalismo metafísico, sob
diferentes configurações conceituais, é a base do pensamento de ambos os
filósofos, mas sua realização histórica jamais será imediata nem heterônoma,
pois é mediada pela livre escolha da consciência dos seres humanos singulares
de espelharem a perfeição divina. Essa autêntica redenção metafísica não se
traduzirá como um estado totalitário, pois nele se concretizará a
universalização de uma humanidade formada por sujeitos eticamente evoluídos e
também dotados de subjetividades livres e absolutamente singulares e
diferentes.
Quando
alguém assume uma perspectiva cética, advertindo sobre as diversas
manifestações de barbárie no mundo atual, do genocídio palestino à existência
de Trump e Bolsonaro, que parecem condenar a emancipação humana à mera
imaginação ingênua, é pertinente observar que a própria capacidade cognitiva e
ética que lhe permite esse julgamento crítico sobre o fascismo já evidencia em
si mesma a realização gradativa do bem supremo entre nós. Em outras palavras, é
preciso reconhecer que sempre que alguém mobiliza sua própria sensibilidade e
inteligência para denunciar a existência histórica da barbárie, um olhar atento
saberá compreender que essa própria capacidade de indignação e crítica social
em si mesma é resultado do progresso da humanidade. Ninguém é capaz de
paralisar a potência metafísica da teleologia do tempo histórico.
Assim
como a maravilhosa mulher do médico, personagem central de Ensaio sobre a
cegueira, de José Saramago, Carol Sturka não é somente um exemplo de abnegação
metafísica, mas é também uma heroína nietzschiana, pois seu maior desafio é a
realização do amor fati, que esse grande filósofo apresentou como afirmação
radical da vida tal como ela é, em toda a sua contingência, sofrimento, acaso e
necessidade.
Fonte:
Por Sinésio Ferraz Bueno, em Outras Palavras

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