sexta-feira, 20 de março de 2026

Pluribus e o pior dos mundos possíveis

Uma das contradições mais fundamentais da existência humana foi formulada de maneira muito precisa pelo filósofo alemão do século XIX Arthur Schopenhauer. Para ele, a vida de todos os seres é irredutivelmente atravessada pela Vontade, um princípio vital cego e incessante que se impõe como desejo contínuo, porém insaciável. A Vontade exige que a totalidade dos seres vivos se entreguem a um ímpeto cego e irresistível que permeia todo o universo, desde suas forças físicas mais básicas, como o eletromagnetismo, até o desejo sexual, que leva as espécies a se multiplicarem.

A Vontade impõe o desejo como impulso cego e incessante que dilacera os organismos vivos, pois desejar implica carência, e esta pressupõe a dor como princípio que identifica a vida ao sofrimento. Por esse motivo, para o filósofo, a vida humana é um pêndulo que oscila entre dois polos. Um deles é o sofrimento decorrente da tensão imposta pelo desejo, anseio vital que mobiliza todas as forças do organismo. O outro é o tédio, decorrente do vazio existencial que se manifesta a cada vez que o desejo é satisfeito. O dualismo entre sofrimento e tédio explicita o fato de que a dor e a tragédia são a essência dos seres vivos e de toda a história da humanidade.

Segundo Schopenhauer, uma possibilidade exemplar de redenção da tragédia existencial imposta pela Vontade consiste em atingir o estado de nirvana, princípio metafísico da filosofia oriental que corresponde à supressão do desejo e cessação do sofrimento. O nirvana tem um papel central nas técnicas de meditação e ascese do hinduísmo e do budismo, e representa para Schopenhauer um horizonte de libertação da existência, pois torna possível a superação do ciclo de sofrimento e tédio interminavelmente imposto pela Vontade.

Pluribus é uma série televisiva que tematiza um cenário pós-apocalíptico no qual o fim do mundo não é caracterizado pelo caos, pela tirania ou pela destruição, mas sim por um estado universal de felicidade. A humanidade de Pluribus experimenta uma existência pacífica que se sucede a uma epidemia causada por um vírus alienígena que elimina nos seres humanos todos os impulsos agressivos e egoístas, substituindo-os por um consenso absoluto avesso a todo tipo de conflito. A tensão trágica dessa série televisiva é proporcionada por Carol Sturka, uma personagem impulsiva e temperamental que encarna a resistência humana a essa espécie de felicidade totalitária.

Embora seja um produto da indústria cultural classificado como série de ficção científica, Pluribus expõe alguns conflitos temáticos de imenso alcance filosófico. O mais imediato deles diz respeito justamente à supressão da Vontade schopenhauriana, pois os habitantes dessa espécie de colmeia humana constituem uma mente coletiva que desconhece inteiramente todo tipo de dor ou sofrimento. Essa comunidade universal encarna a mais elevada utopia pacifista que se possa imaginar. Esse aspecto foi muito bem captado por Francisco Escorsim1, que comparou a humanidade de Pluribus à visão utópica de John Lennon sobre um mundo sem fronteiras políticas ou religiosas.

Suprimir a Vontade, que é o princípio vital subjacente a toda dor e sofrimento, parece corresponder à mais cara utopia que se possa imaginar, mas ao mesmo tempo, cabe interrogar se um universo totalitário em que o livre-arbítrio foi eliminado constitui um horizonte desejável para a vida humana. Quando a uniformidade se torna suprema, a diversidade é completamente suprimida, e a autonomia individual se torna impossível. A felicidade então resultante é algo insuportável, e cabe se perguntar se vale a pena viver em um mundo assim. Em Pluribus, todas as pessoas atingiram o nirvana e desfrutam de horizontes da mais absoluta libertação existencial, em que não há mais desejo, sofrimento ou tédio. Porém, é diante dessa humanidade plenamente redimida que a protagonista da série escolhe a autonomia individual como princípio ético de resistência.

Essa primeira implicação filosófica de Pluribus, que diz respeito a uma aparente superação da tragédia schopenhauriana, abre caminhos para uma interrogação metafísica ainda mais radical. Perante a inesperada constatação de que em um mundo completamente redimido dos aspectos trágicos impostos pela Vontade, a existência humana se torna impossível, cabe indagar por que a vida, tal qual a conhecemos, vale dizer, com todas as contradições e sofrimentos que ela contém, parece ser um cenário preferível. Essa interrogação remete a um problema filosófico de longa data que foi formulado sob os seguintes termos: “por que o mundo é assim e não de outro modo?”. Leibniz, filósofo alemão anterior à era iluminista, formulou uma resposta para essa questão afirmando que o princípio explicativo para que o mundo seja tal como o conhecemos não pode ser encontrado no interior do próprio mundo, pois toda coisa contingente (uma pessoa, uma árvore, uma rocha) tem por causa uma outra coisa contingente que está neste mesmo mundo. É preciso recorrer a um princípio metafísico (situado fora do mundo físico das coisas contingentes) que seja a origem de todas as coisas, e esse princípio absoluto somente pode ser Deus.

É relevante observar que o recurso filosófico a Deus como origem absoluta de tudo o que existe se justifica por necessidades racionais originadas do próprio modo de funcionamento do intelecto humano, e não por motivos relacionados à fé religiosa. Também é preciso reconhecer que Deus necessariamente existe, pois é o princípio substancial explicativo de toda a realidade. O mais completo conceito metafísico de Deus foi formulado pelo filósofo medieval Anselmo de Aosta: “Deus é aquilo de que não se pode pensar nada de maior”. Sendo assim, Deus também é perfeição e bondade suprema, pois, caso contrário, não corresponderá ao requisito de não se poder pensar nada de maior (de um ser divino que fosse mau se poderia pensar algo de maior, isto é, que fosse bom). Analogamente, Deus não pode ser apenas uma ideia na mente de um ser humano singular, pois isso autorizaria pensar em um Deus que existisse na mente deste homem e também na realidade, isto é, que fosse maior.

Da existência necessária de Deus como princípio substancial e absoluto de onde se originam todas as coisas, Leibniz conclui que, se este mundo se origina de Deus, ele somente pode ser o melhor dos mundos possíveis. Nas palavras do filósofo: “da perfeição suprema de Deus segue-se que, produzindo o universo, ele escolheu o melhor plano possível, no qual há a maior variedade unida à máxima ordem, no qual o terreno, o lugar e o tempo são os mais bem preparados, no qual o efeito é obtido com os meios mais simples e as criaturas têm a maior potência, conhecimento, felicidade e bondade que o universo poderia permitir”.

Em outras palavras, a interrogação metafísica sobre por que o mundo é assim e não de outro modo, conduz ao famoso otimismo leibniziano que atribui à realidade em que vivemos a qualidade de ser o melhor dos mundos possíveis. A própria Vontade formulada pelo pessimista Schopenhauer como o princípio vital que explica a dor e o sofrimento como molas propulsoras da vida, acaba sendo integrada à metafísica do otimismo de Leibniz. Na verdade, somos conduzidos ao otimismo de Leibniz não apenas pela necessidade racional aqui brevemente descrita, mas muito mais pelo comportamento trágico de Carol Sturka, em sua recusa obstinada de sucumbir aos esforços de evangelização da humanidade de Pluribus para que ela se torne mais um ser humano feliz. Carol é nossa heroína metafísica tardia, para quem uma realidade de humanos pacíficos e felizes, mas desprovidos de vontade própria, constitui o pior dos mundos possíveis.

Para além de Schopenhauer e Leibniz, Pluribus também pode ser pensada à luz do sistema conceitual de Hegel, filósofo alemão do século XVIII. Hegel descreveu sua fenomenologia do espírito como o processo pelo qual a consciência humana supera formas limitadas de relação com o mundo até alcançar uma compreensão plenamente mediada de si mesma e da realidade. Essa superação se realiza na história, por meio de um processo evolutivo em que todas as formas de vida contêm potenciais de elevação, desde organismos unicelulares, até formas espirituais mais elevadas, culminando na existência humana, que adquire a capacidade de compreender a si mesma como veículo de realização do Espírito Absoluto. O Espírito Absoluto nada mais é que o próprio Deus, pensado em sentido imanente, isto é, como totalidade de todo o universo. Sendo assim, o Espírito Absoluto somente pode existir corporificado, ou encarnado nos seres vivos. Compreender isso é a meta maior da própria existência humana, e se constitui ao mesmo tempo como um processo de reforma íntima e ética. Isso implica que mediante o emprego do livre-arbítrio, os seres humanos busquem se tornar cada vez melhores e mais próximos da perfeição divina.

O desenvolvimento da consciência humana, segundo Hegel, é um processo que se realiza segundo etapas históricas em que o conjunto da humanidade dissipa ilusões que ela mesma construiu, rumo à sua autoconsciência como veículo de realização do Espírito Absoluto. Mas esse processo, sendo uma conquista da humanidade, não se realiza sob formas imediatas, pois depende da livre escolha de cada indivíduo, se constituindo nas errâncias do mundo, mediante o enfrentamento das tragédias da história. O livre-arbítrio é a mola propulsora do espírito, pois, se um ser humano específico está necessariamente destinado a espelhar a perfeição divina, essa evolução não poderá se realizar de maneira automática, jamais será um “milagre divino”, na medida em que somente se efetiva como escolha autônoma e livre da consciência.

Pluribus é uma espécie de caricatura do Espírito Absoluto, traduzindo um horizonte existencial em que a humanidade se tornaria plenamente evoluída de maneira automática e milagrosa, sem passar pelo processo necessário de sua evolução histórica. É apenas por serem dotados de livre-arbítrio que os seres humanos se tornam capazes de mergulhar na barbárie fascista, mas ao mesmo tempo, sem o livre-arbítrio, eles não serão capazes de compreender sua regressão e escolher livremente os caminhos de uma evolução ética. O pior dos mundos possíveis, como nos lembra Carol Sturka, é aquele em que a evolução ética do espírito se tornou supérflua, pois nessa realidade os humanos foram forçados a abandonar as etapas necessárias de seu crescimento, e não podem mais espelhar a perfeição divina.

Se Leibniz e Hegel estiverem certos, tudo indica que em um futuro cuja cronologia nenhum de nós é capaz de imaginar, a humanidade como um todo estará pacificada e redimida de seu passado de barbárie. Esse finalismo metafísico, sob diferentes configurações conceituais, é a base do pensamento de ambos os filósofos, mas sua realização histórica jamais será imediata nem heterônoma, pois é mediada pela livre escolha da consciência dos seres humanos singulares de espelharem a perfeição divina. Essa autêntica redenção metafísica não se traduzirá como um estado totalitário, pois nele se concretizará a universalização de uma humanidade formada por sujeitos eticamente evoluídos e também dotados de subjetividades livres e absolutamente singulares e diferentes.

Quando alguém assume uma perspectiva cética, advertindo sobre as diversas manifestações de barbárie no mundo atual, do genocídio palestino à existência de Trump e Bolsonaro, que parecem condenar a emancipação humana à mera imaginação ingênua, é pertinente observar que a própria capacidade cognitiva e ética que lhe permite esse julgamento crítico sobre o fascismo já evidencia em si mesma a realização gradativa do bem supremo entre nós. Em outras palavras, é preciso reconhecer que sempre que alguém mobiliza sua própria sensibilidade e inteligência para denunciar a existência histórica da barbárie, um olhar atento saberá compreender que essa própria capacidade de indignação e crítica social em si mesma é resultado do progresso da humanidade. Ninguém é capaz de paralisar a potência metafísica da teleologia do tempo histórico.

Assim como a maravilhosa mulher do médico, personagem central de Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, Carol Sturka não é somente um exemplo de abnegação metafísica, mas é também uma heroína nietzschiana, pois seu maior desafio é a realização do amor fati, que esse grande filósofo apresentou como afirmação radical da vida tal como ela é, em toda a sua contingência, sofrimento, acaso e necessidade.

 

Fonte: Por Sinésio Ferraz Bueno, em Outras Palavras

 

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