Caso
Epstein: a exploração sexual como capital
Quando,
em 2008 e 2019, as acusações contra Jeffrey Epstein vieram a público, a
narrativa seguiu um roteiro previsível: a figura do predador excepcional, o
bilionário depravado, o monstro solitário cuja queda deveria nos tranquilizar.
Ainda hoje, seu comportamento é retratado como aberração e nisso reside um
problema. Ao enquadrarmos a violência sexual sistemática como desvio
individual, deixamos de entender que o abuso não opera isoladamente, mas como
parte de uma economia de poder que conecta homens de todas as classes sociais.
Os
exemplos são fartos. Na França, o caso de Gisèle Pelicot revelou mais de 50
homens que estupraram uma mulher inconsciente ao longo de uma década, a convite
do próprio marido. Em Goiás, João de Deus abusou de centenas de mulheres sob a
fachada de cura espiritual, sob vista grossa do poder público local. Em São
Paulo, Saul Klein manteve um esquema de abusos que vitimou mais de 100
mulheres. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2024 foram
registrados 87.545 casos de estupro no Brasil, sendo 78,6% das vítimas crianças
e adolescentes. Esses fatos e números não descrevem anomalias, mas um sistema.
Os
arquivos de Epstein não deveriam nos chocar por revelar monstros. Deveriam
incomodar porque revelam como a sociedade funciona
O que
conecta o bilionário a um aposentado francês que submetia a mulher a estupros
sistemáticos não é apenas misoginia difusa, mas a construção da masculinidade
como um capital negociado por meio da violação. Dominique Pelicot não era
magnata nem celebridade, mas um homem comum que convidou dezenas de homens,
igualmente comuns, para estuprar sua esposa. Não é preciso ser poderoso para
acreditar que o corpo de uma mulher pode ser usado: basta ter certeza de que
nada vai acontecer.
E
realmente nada acontece. Em 2008, na primeira condenação, Epstein cumpriu
apenas 13 meses de pena. Harvey Weinstein operou por décadas com segredo
aberto. João de Deus tinha denúncias desde os anos 1980. No caso Klein, o
empresário permaneceu em liberdade até ser condenado em 2023 pela Justiça do
Trabalho, não pela esfera criminal.
Nos
círculos de poder, no entanto, há outro ativo: o flerte calculado com o risco.
São redes que operam na reciprocidade: segredos compartilhados criam vínculos,
vulnerabilidades mútuas funcionam como garantia de lealdade e o acesso a
vítimas torna-se um ativo transferível. Um jogo de influência em que violar
corpos e regras fundamentais da sociedade sem consequências demonstra e
consolida poder.
Algumas
mulheres participam dessas dinâmicas. Ghislaine Maxwell recrutava e organizava
as vítimas de Epstein. No caso Saul Klein, uma ex-governanta aliciava jovens.
Essa participação não contradiz a lógica patriarcal, mas a reforça. Em sistemas
de dominação, alguns membros de grupos oprimidos obtêm poder relativo por meio
da cumplicidade ativa, operando em busca de proteção e uma ilusão de
pertencimento a círculos de poder dos quais são também objetos. Não à toa,
Ghislaine Maxwell é a única pessoa presa até agora no caso Epstein, depois que
seu ex-companheiro se matou na cadeia. Uma mulher.
As
vítimas não sofrem apenas pela agressão, mas pela certeza socialmente aceita de
que o corpo feminino é um recurso consumível, cuja integridade física,
emocional e simbólica é irrelevante. Depressão, transtornos de ansiedade,
rupturas familiares, estigmatização social, perdas profissionais, adoecimento
físico e mental são a regra entre as vítimas. No caso Epstein, ao menos uma
sobrevivente morreu por suicídio.
Os
prejuízos desses esquemas perversos não param por aí. Do lado dos
perpetradores, a violação segue como um capital que continua circulando.
Reportagens da Agência Pública revelaram que Samuel Klein, pai de Saul, teria
violado meninas e adolescentes por décadas. Assim como os negócios, a violência
sexual passou de pai para filho como legado e patrimônio.
Insistir
que violadores são aberrações individuais é confortável porque sugere que a
solução é simples: identificar e isolar os monstros. Mas não se pode ignorar as
estatísticas nem os reiterados casos públicos – e os milhões de outros casos
que nunca conheceremos. Eles dizem que estamos diante de uma ética que
atravessa classes sociais e se sustenta em cumplicidades ativas e silêncios
convenientes que normalizam a brutalidade como linguagem do poder masculino.
Os
arquivos de Epstein não deveriam nos chocar porque revelam monstros. Deveriam
nos incomodar profundamente porque revelam como a sociedade realmente funciona,
sem a ilusão de que todos acreditam e praticam um pacto civilizatório.
Reconhecer isso não é ceder ao desespero, mas recusar o consolo fácil e buscar
caminhos para impedir que esse capital continue circulando. Do contrário,
continuaremos produzindo novas vítimas e, anestesiados pela repetição,
fingiremos nos surpreender.
• Como Epstein construiu sua fortuna e
ganhou acesso aos círculos de poder
Jeffrey
Epstein, que começou sua carreira como professor de matemática, construiu uma
fortuna de centenas de milhões de dólares através de uma combinação de conexões
com pessoas poderosas, golpes financeiros e possíveis esquemas de chantagem.
Sua trajetória financeira está intimamente ligada aos crimes sexuais pelos
quais ficou conhecido, conforme explicou a correspondente Priscila Yazbek,
durante o Fora da Ordem, o videocast de geopolítica da CNN Brasil.
Aos 23
anos, Epstein ingressou na empresa de investimentos Bear Stearns, onde
rapidamente se tornou protegido de um executivo com quem mantinha proximidade
por namorar sua filha. Nesse período, foi acusado de práticas questionáveis,
como oferecer acesso privilegiado a IPOs para namoradas e usar contas de
despesas da empresa em benefício próprio.
Ao
longo das décadas de 1980 e 1990, Epstein participou de diversos esquemas
financeiros duvidosos. Foi associado a golpes no setor de petróleo e a
pirâmides financeiras com Steven Hoffenberg, que foi condenado por fraude de
US$ 500 milhões envolvendo títulos de dívida falsos.
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Conexões com bilionários
Parte
significativa da fortuna de Epstein veio de seus relacionamentos com dois
bilionários em particular: Leslie Wexner, fundador de grandes varejistas
incluindo a Victoria's Secret, que teria gerado cerca de US$ 200 milhões para
Epstein; e Leon Black, fundador da Apollo Global Management, que pagou
aproximadamente US$ 170 milhões pelos serviços do financista.
Epstein
cultivou sistematicamente relacionamentos com pessoas influentes,
frequentemente sendo apresentado a novos círculos por meio de namoradas ou
mulheres próximas. Essa estratégia lhe garantiu acesso à elite britânica e a
outros grupos privilegiados. Além disso, fazia doações para instituições como
Harvard e a Universidade Rockefeller, o que lhe proporcionava trânsito entre
bilionários.
Os
arquivos recentemente revelados sugerem que parte da fortuna de Epstein pode
ter vindo de esquemas de chantagem contra homens poderosos com quem mantinha
contato.
Ao
falecer, Epstein deixou um patrimônio avaliado em US$ 578 milhões, incluindo
duas ilhas nas Ilhas Virgens Americanas - Little St. James, conhecida como
"ilha da pedofilia", e Great St. James - além de US$ 380 milhões em
dinheiro e investimentos. Sua capacidade de acumular riqueza estava diretamente
conectada à influência que exercia nos círculos de poder, o que também
facilitava seus crimes.
• Bridgette Carr: Homens ricos como Bill
Gates podem fazer mais para reparar seus laços com Epstein
Anos
antes de haver um apelo por transparência em relação aos arquivos de Epstein,
passei meses lendo os documentos. Não as manchetes – os documentos: os e-mails,
os registros financeiros, o sofrimento humano e as comunicações internas que
mapeavam como a riqueza e o poder de um homem construíram um ecossistema de
exploração que operou por décadas. Como especialista em tráfico sexual há mais
de 15 anos, testemunhei muitos homens que abusaram de seu poder e do sistema,
mas raramente vi a riqueza ser usada como arma de forma tão eficaz e por tanto
tempo.
Li os
arquivos porque atuei como testemunha especializada das Ilhas Virgens
Americanas em seu processo contra o JPMorgan Chase, que alegava que o banco
mantinha uma relação financeira com Epstein apesar das evidências de tráfico
sexual. O caso terminou em um acordo em 2023 ; o banco não admitiu culpa.
Analisei as mensagens de homens poderosos e ricos próximos a Epstein. Vi o que
disseram, o que não disseram, o que viram e o que não viram.
Então,
quando Bill Gates falou perante a equipe de sua fundação no mês passado e disse
que havia sido “um grande erro passar tempo com Epstein” – quando disse que
“não fez nada de ilícito” e “não viu nada de ilícito”, e quando se desculpou
publicamente por se associar a ele – senti algo familiar. Não surpresa.
Exaustão.
No meu
trabalho representando sobreviventes do tráfico humano, aprendi que momentos
como esses seguem um roteiro deprimente e previsível. Há pedidos de desculpas.
Há declarações cuidadosamente elaboradas por advogados sobre o que alguém viu
ou não viu. E então, se a mídia colaborar, a maioria das pessoas segue em
frente. Os sobreviventes não têm essa chance.
Toda
pessoa com posses que passou algum tempo no mundo de Epstein tem uma dívida
moral. Não uma dívida legal, mas uma dívida humana.
O
pedido de desculpas de Gates — e outros semelhantes — é necessário. Quero
deixar isso bem claro. Reconhecer que foi um erro passar tempo com Epstein é
importante. Mas não é suficiente. Nem de longe.
Foi o
poder e a riqueza que permitiram que a exploração de Epstein continuasse por
tanto tempo. O poder possibilitou que Epstein recrutasse vítimas com promessas
de oportunidades e conexões. A riqueza permitiu que ele silenciasse as mulheres
que se manifestavam enquanto os abusos ainda aconteciam, por meio de advogados,
acordos de confidencialidade e pela pura força intimidatória de seus recursos.
A rede de pessoas ao redor de Epstein lhe conferia uma legitimidade que
dificultava que qualquer pessoa dentro do ecossistema se manifestasse, mesmo
que tivesse essa inclinação.
Sei que
muitas pessoas estão exigindo a responsabilização criminal daqueles que
participaram dos crimes no círculo de Epstein. Compartilho desse clamor. Para
alguns indivíduos, a responsabilização deve significar, sem dúvida, prisão e
processo judicial. Mas nem todos no ecossistema de Epstein cometeram crimes.
Isso
nos leva a uma pergunta que ninguém parece estar fazendo: um pedido de
desculpas é suficiente?
Considere
o que as vítimas estão enfrentando neste exato momento. A Lei de Transparência
dos Arquivos Epstein, aprovada no final de 2025, levou à divulgação de mais de
3 milhões de páginas de documentos. O objetivo declarado era a transparência e
a responsabilização, direitos que as vítimas merecem. Mas as tentativas de
ocultação malfeitas pelo Departamento de Justiça expuseram vítima após vítima,
deixando seus nomes, suas histórias e os piores momentos de suas vidas
disponíveis para busca em um site do governo. Advogados representando mais de
200 vítimas classificaram o ocorrido como “a violação mais flagrante da
privacidade das vítimas em um único dia na história dos Estados Unidos”.
Essas
mulheres agora enfrentam uma realidade digital na qual a exploração a que foram
submetidas pode defini-las para o resto da vida. Cada candidatura a emprego,
cada novo relacionamento, cada busca no Google pelo seu nome carrega a
possibilidade de exposição. Apagar rastros digitais é tecnicamente complexo e
financeiramente inviável para a maioria das pessoas.
Pessoas
como Bill Gates têm os recursos para ajudar.
Gates
possui US$ 100 bilhões e uma das redes tecnológicas mais sofisticadas do
planeta. Ele poderia financiar a restauração da privacidade digital de
sobreviventes cujas identidades foram expostas. Ele poderia ajudar a custear o
trabalho jurídico especializado necessário para apagar registros da internet.
Ele
poderia fazer tudo isso amanhã.
E não
deveria ser apenas Gates. Toda pessoa com recursos que conviveu com Epstein tem
uma dívida moral. Não uma dívida legal, mas uma dívida humana. Daquelas que um
pedido de desculpas não resolve.
Já
representei centenas de sobreviventes do tráfico humano. Uma coisa que aprendi
é que o dano não termina quando a exploração acaba. Ele reverbera pelo sistema
jurídico, pelo ambiente digital e por todas as instituições que falharam em
intervir. As mulheres nos arquivos de Epstein não são abstrações. São pessoas
cujas vidas vão muito além da pior coisa que lhes aconteceu. São mães,
profissionais, amigas, vizinhas. Merecem ser vistas como mais do que números em
um banco de dados governamental.
Começamos
a ouvir pedidos de desculpas. Estamos ouvindo negativas cautelosas. O que não
tivemos foi alguém com os recursos para ajudar que realmente se oferecesse para
ajudar.
Pedir
desculpas não custa nada. Esse é exatamente o problema.
• Brasileiros famosos citados nos arquivos
Epstein
O caso
Epstein envolve o empresário Jeffrey Epstein, criminoso sexual condenado, que
morreu em 2019, e foi acusado de comandar, ao lado de Ghislaine Maxwell, uma
rede internacional de exploração e tráfico sexual de menores.
Epstein
mantinha relações com políticos, empresários e celebridades, o que fez com que
milhões de documentos judiciais, como e-mails, mensagens e registros de agenda,
passassem a ser analisados após sua morte na prisão, em 2019. Esses arquivos
citam pessoas do mundo todo, e ser mencionado não significa envolvimento
criminal, mas indica algum tipo de contato, referência ou conversa registrada.
Entre esses registros, aparecem nomes de brasileiros e instituições do Brasil,
o que gerou grande repercussão.
Um dos
nomes mais detalhados é o do arquiteto Arthur Casas. Documentos mostram trocas
de mensagens entre funcionários do estúdio dele e pessoas ligadas a Epstein
sobre uma possível reforma na ilha particular do milionário, no Caribe.
Em nota
enviada à Folha de S. Paulo, o escritório de Arthur Casas confirmou que o
brasileiro foi procurado em 2016 com a proposta de desenvolver um projeto de
reforma na ilha e que ele chegou a fazer uma visita técnica no local, mas que a
contratação não avançou e não houve qualquer trabalho realizado para Epstein.
O
empresário Eike Batista e sua ex-esposa, a modelo Luma de Oliveira, também
aparecem em e-mails trocados com Epstein. Em um deles, datado de agosto de
2012, Epstein questiona o agente de modelos francês Jean-Luc Brunel sobre Luma.
A
assessoria do empresário afirmou que Eike nunca conheceu Epstein e que as
citações do nome dele e de Luma são "meramente incidentais e sem qualquer
relevância". "Não é correto que se misture os nomes do empresário e
da ex-esposa com a lista de pessoas que teriam participado de festas promovidas
por Epstein", diz a nota.
O nome
de Luciana Gimenez surgiu em novos registros divulgados pelo Departamento de
Justiça dos Estados Unidos no início deste ano. Os documentos mostram
transferências financeiras em que o nome da apresentadora aparece como
destinatária. No entanto, o material de 2014, 2018 e 2019, não esclarece a
origem dos recursos nem estabelece uma ligação direta com Jeffrey Epstein ou
com atividades criminosas.
Luciana
Gimenez usou as redes sociais nesta segunda-feira (9) para divulgar um
comunicado sobre o suposto envolvimento no caso e negou ter tido qualquer
relação com o empresário.
A
ex-modelo da Victoria's Secret Izabel Goulart também foi citada em uma troca de
e-mails de Epstein, em que o bilionário afirma que ela se hospedou em seu
apartamento em Nova York.
Uma
nota divulgada pelo advogado de Izabel afirma que a modelo jamais esteve ou
ficou hospedada em um apartamento de Jeffrey Epstein. "Izabel apenas
dividiu, com outras modelos, um apartamento em Nova York, quando foi morar na
cidade americana para trabalhar", esclarece o advogado, acrescentando que
o imóvel foi cedido pela agência que a representava na época.
Além
disso, um vídeo de uma pegadinha exibida em um programa de Silvio Santos também
foi divulgado juntamente com milhões de novos documentos relacionados ao caso.
O
arquivo, hospedado no site do Departamento de Justiça dos Estados Unidos,
mostra imagens de atores que se escondem em um local marcado como um canteiro
de obras e que jogam jatos de ar nos pedestres que passam pelo local. Algumas
imagens aparecem com uma tarja preta cobrindo rostos. Ao fundo, é possível
ouvir a risada marcante de Silvio Santos e as risadas da plateia. A cena se
repete por diversas vezes por quase dois minutos. Não há qualquer contexto ou
informação sobre a presença do vídeo nos arquivos no site do Departamento de
Jusitça dos EUA.
No
geral, os arquivos mostram que Epstein buscava contatos políticos, empresariais
e culturais no Brasil, inclusive avaliando a compra de agências de modelos e o
patrocínio de concursos de beleza como forma de aliciar jovens, segundo e-mails
revelados.
Fonte:
Nexo Jornal/CNN Brasil/The Guardian

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