quarta-feira, 18 de março de 2026

Caso Epstein: a exploração sexual como capital

Quando, em 2008 e 2019, as acusações contra Jeffrey Epstein vieram a público, a narrativa seguiu um roteiro previsível: a figura do predador excepcional, o bilionário depravado, o monstro solitário cuja queda deveria nos tranquilizar. Ainda hoje, seu comportamento é retratado como aberração e nisso reside um problema. Ao enquadrarmos a violência sexual sistemática como desvio individual, deixamos de entender que o abuso não opera isoladamente, mas como parte de uma economia de poder que conecta homens de todas as classes sociais.

Os exemplos são fartos. Na França, o caso de Gisèle Pelicot revelou mais de 50 homens que estupraram uma mulher inconsciente ao longo de uma década, a convite do próprio marido. Em Goiás, João de Deus abusou de centenas de mulheres sob a fachada de cura espiritual, sob vista grossa do poder público local. Em São Paulo, Saul Klein manteve um esquema de abusos que vitimou mais de 100 mulheres. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2024 foram registrados 87.545 casos de estupro no Brasil, sendo 78,6% das vítimas crianças e adolescentes. Esses fatos e números não descrevem anomalias, mas um sistema.

Os arquivos de Epstein não deveriam nos chocar por revelar monstros. Deveriam incomodar porque revelam como a sociedade funciona

O que conecta o bilionário a um aposentado francês que submetia a mulher a estupros sistemáticos não é apenas misoginia difusa, mas a construção da masculinidade como um capital negociado por meio da violação. Dominique Pelicot não era magnata nem celebridade, mas um homem comum que convidou dezenas de homens, igualmente comuns, para estuprar sua esposa. Não é preciso ser poderoso para acreditar que o corpo de uma mulher pode ser usado: basta ter certeza de que nada vai acontecer.

E realmente nada acontece. Em 2008, na primeira condenação, Epstein cumpriu apenas 13 meses de pena. Harvey Weinstein operou por décadas com segredo aberto. João de Deus tinha denúncias desde os anos 1980. No caso Klein, o empresário permaneceu em liberdade até ser condenado em 2023 pela Justiça do Trabalho, não pela esfera criminal.

Nos círculos de poder, no entanto, há outro ativo: o flerte calculado com o risco. São redes que operam na reciprocidade: segredos compartilhados criam vínculos, vulnerabilidades mútuas funcionam como garantia de lealdade e o acesso a vítimas torna-se um ativo transferível. Um jogo de influência em que violar corpos e regras fundamentais da sociedade sem consequências demonstra e consolida poder.

Algumas mulheres participam dessas dinâmicas. Ghislaine Maxwell recrutava e organizava as vítimas de Epstein. No caso Saul Klein, uma ex-governanta aliciava jovens. Essa participação não contradiz a lógica patriarcal, mas a reforça. Em sistemas de dominação, alguns membros de grupos oprimidos obtêm poder relativo por meio da cumplicidade ativa, operando em busca de proteção e uma ilusão de pertencimento a círculos de poder dos quais são também objetos. Não à toa, Ghislaine Maxwell é a única pessoa presa até agora no caso Epstein, depois que seu ex-companheiro se matou na cadeia. Uma mulher.

As vítimas não sofrem apenas pela agressão, mas pela certeza socialmente aceita de que o corpo feminino é um recurso consumível, cuja integridade física, emocional e simbólica é irrelevante. Depressão, transtornos de ansiedade, rupturas familiares, estigmatização social, perdas profissionais, adoecimento físico e mental são a regra entre as vítimas. No caso Epstein, ao menos uma sobrevivente morreu por suicídio.

Os prejuízos desses esquemas perversos não param por aí. Do lado dos perpetradores, a violação segue como um capital que continua circulando. Reportagens da Agência Pública revelaram que Samuel Klein, pai de Saul, teria violado meninas e adolescentes por décadas. Assim como os negócios, a violência sexual passou de pai para filho como legado e patrimônio.

Insistir que violadores são aberrações individuais é confortável porque sugere que a solução é simples: identificar e isolar os monstros. Mas não se pode ignorar as estatísticas nem os reiterados casos públicos – e os milhões de outros casos que nunca conheceremos. Eles dizem que estamos diante de uma ética que atravessa classes sociais e se sustenta em cumplicidades ativas e silêncios convenientes que normalizam a brutalidade como linguagem do poder masculino.

Os arquivos de Epstein não deveriam nos chocar porque revelam monstros. Deveriam nos incomodar profundamente porque revelam como a sociedade realmente funciona, sem a ilusão de que todos acreditam e praticam um pacto civilizatório. Reconhecer isso não é ceder ao desespero, mas recusar o consolo fácil e buscar caminhos para impedir que esse capital continue circulando. Do contrário, continuaremos produzindo novas vítimas e, anestesiados pela repetição, fingiremos nos surpreender.

•        Como Epstein construiu sua fortuna e ganhou acesso aos círculos de poder

Jeffrey Epstein, que começou sua carreira como professor de matemática, construiu uma fortuna de centenas de milhões de dólares através de uma combinação de conexões com pessoas poderosas, golpes financeiros e possíveis esquemas de chantagem. Sua trajetória financeira está intimamente ligada aos crimes sexuais pelos quais ficou conhecido, conforme explicou a correspondente Priscila Yazbek, durante o Fora da Ordem, o videocast de geopolítica da CNN Brasil.

Aos 23 anos, Epstein ingressou na empresa de investimentos Bear Stearns, onde rapidamente se tornou protegido de um executivo com quem mantinha proximidade por namorar sua filha. Nesse período, foi acusado de práticas questionáveis, como oferecer acesso privilegiado a IPOs para namoradas e usar contas de despesas da empresa em benefício próprio.

Ao longo das décadas de 1980 e 1990, Epstein participou de diversos esquemas financeiros duvidosos. Foi associado a golpes no setor de petróleo e a pirâmides financeiras com Steven Hoffenberg, que foi condenado por fraude de US$ 500 milhões envolvendo títulos de dívida falsos.

<><> Conexões com bilionários

Parte significativa da fortuna de Epstein veio de seus relacionamentos com dois bilionários em particular: Leslie Wexner, fundador de grandes varejistas incluindo a Victoria's Secret, que teria gerado cerca de US$ 200 milhões para Epstein; e Leon Black, fundador da Apollo Global Management, que pagou aproximadamente US$ 170 milhões pelos serviços do financista.

Epstein cultivou sistematicamente relacionamentos com pessoas influentes, frequentemente sendo apresentado a novos círculos por meio de namoradas ou mulheres próximas. Essa estratégia lhe garantiu acesso à elite britânica e a outros grupos privilegiados. Além disso, fazia doações para instituições como Harvard e a Universidade Rockefeller, o que lhe proporcionava trânsito entre bilionários.

Os arquivos recentemente revelados sugerem que parte da fortuna de Epstein pode ter vindo de esquemas de chantagem contra homens poderosos com quem mantinha contato.

Ao falecer, Epstein deixou um patrimônio avaliado em US$ 578 milhões, incluindo duas ilhas nas Ilhas Virgens Americanas - Little St. James, conhecida como "ilha da pedofilia", e Great St. James - além de US$ 380 milhões em dinheiro e investimentos. Sua capacidade de acumular riqueza estava diretamente conectada à influência que exercia nos círculos de poder, o que também facilitava seus crimes.

•        Bridgette Carr: Homens ricos como Bill Gates podem fazer mais para reparar seus laços com Epstein

Anos antes de haver um apelo por transparência em relação aos arquivos de Epstein, passei meses lendo os documentos. Não as manchetes – os documentos: os e-mails, os registros financeiros, o sofrimento humano e as comunicações internas que mapeavam como a riqueza e o poder de um homem construíram um ecossistema de exploração que operou por décadas. Como especialista em tráfico sexual há mais de 15 anos, testemunhei muitos homens que abusaram de seu poder e do sistema, mas raramente vi a riqueza ser usada como arma de forma tão eficaz e por tanto tempo.

Li os arquivos porque atuei como testemunha especializada das Ilhas Virgens Americanas em seu processo contra o JPMorgan Chase, que alegava que o banco mantinha uma relação financeira com Epstein apesar das evidências de tráfico sexual. O caso terminou em um acordo em 2023 ; o banco não admitiu culpa. Analisei as mensagens de homens poderosos e ricos próximos a Epstein. Vi o que disseram, o que não disseram, o que viram e o que não viram.

Então, quando Bill Gates falou perante a equipe de sua fundação no mês passado e disse que havia sido “um grande erro passar tempo com Epstein” – quando disse que “não fez nada de ilícito” e “não viu nada de ilícito”, e quando se desculpou publicamente por se associar a ele – senti algo familiar. Não surpresa. Exaustão.

No meu trabalho representando sobreviventes do tráfico humano, aprendi que momentos como esses seguem um roteiro deprimente e previsível. Há pedidos de desculpas. Há declarações cuidadosamente elaboradas por advogados sobre o que alguém viu ou não viu. E então, se a mídia colaborar, a maioria das pessoas segue em frente. Os sobreviventes não têm essa chance.

Toda pessoa com posses que passou algum tempo no mundo de Epstein tem uma dívida moral. Não uma dívida legal, mas uma dívida humana.

O pedido de desculpas de Gates — e outros semelhantes — é necessário. Quero deixar isso bem claro. Reconhecer que foi um erro passar tempo com Epstein é importante. Mas não é suficiente. Nem de longe.

Foi o poder e a riqueza que permitiram que a exploração de Epstein continuasse por tanto tempo. O poder possibilitou que Epstein recrutasse vítimas com promessas de oportunidades e conexões. A riqueza permitiu que ele silenciasse as mulheres que se manifestavam enquanto os abusos ainda aconteciam, por meio de advogados, acordos de confidencialidade e pela pura força intimidatória de seus recursos. A rede de pessoas ao redor de Epstein lhe conferia uma legitimidade que dificultava que qualquer pessoa dentro do ecossistema se manifestasse, mesmo que tivesse essa inclinação.

Sei que muitas pessoas estão exigindo a responsabilização criminal daqueles que participaram dos crimes no círculo de Epstein. Compartilho desse clamor. Para alguns indivíduos, a responsabilização deve significar, sem dúvida, prisão e processo judicial. Mas nem todos no ecossistema de Epstein cometeram crimes.

Isso nos leva a uma pergunta que ninguém parece estar fazendo: um pedido de desculpas é suficiente?

Considere o que as vítimas estão enfrentando neste exato momento. A Lei de Transparência dos Arquivos Epstein, aprovada no final de 2025, levou à divulgação de mais de 3 milhões de páginas de documentos. O objetivo declarado era a transparência e a responsabilização, direitos que as vítimas merecem. Mas as tentativas de ocultação malfeitas pelo Departamento de Justiça expuseram vítima após vítima, deixando seus nomes, suas histórias e os piores momentos de suas vidas disponíveis para busca em um site do governo. Advogados representando mais de 200 vítimas classificaram o ocorrido como “a violação mais flagrante da privacidade das vítimas em um único dia na história dos Estados Unidos”.

Essas mulheres agora enfrentam uma realidade digital na qual a exploração a que foram submetidas pode defini-las para o resto da vida. Cada candidatura a emprego, cada novo relacionamento, cada busca no Google pelo seu nome carrega a possibilidade de exposição. Apagar rastros digitais é tecnicamente complexo e financeiramente inviável para a maioria das pessoas.

Pessoas como Bill Gates têm os recursos para ajudar.

Gates possui US$ 100 bilhões e uma das redes tecnológicas mais sofisticadas do planeta. Ele poderia financiar a restauração da privacidade digital de sobreviventes cujas identidades foram expostas. Ele poderia ajudar a custear o trabalho jurídico especializado necessário para apagar registros da internet.

Ele poderia fazer tudo isso amanhã.

E não deveria ser apenas Gates. Toda pessoa com recursos que conviveu com Epstein tem uma dívida moral. Não uma dívida legal, mas uma dívida humana. Daquelas que um pedido de desculpas não resolve.

Já representei centenas de sobreviventes do tráfico humano. Uma coisa que aprendi é que o dano não termina quando a exploração acaba. Ele reverbera pelo sistema jurídico, pelo ambiente digital e por todas as instituições que falharam em intervir. As mulheres nos arquivos de Epstein não são abstrações. São pessoas cujas vidas vão muito além da pior coisa que lhes aconteceu. São mães, profissionais, amigas, vizinhas. Merecem ser vistas como mais do que números em um banco de dados governamental.

Começamos a ouvir pedidos de desculpas. Estamos ouvindo negativas cautelosas. O que não tivemos foi alguém com os recursos para ajudar que realmente se oferecesse para ajudar.

Pedir desculpas não custa nada. Esse é exatamente o problema.

•        Brasileiros famosos citados nos arquivos Epstein

O caso Epstein envolve o empresário Jeffrey Epstein, criminoso sexual condenado, que morreu em 2019, e foi acusado de comandar, ao lado de Ghislaine Maxwell, uma rede internacional de exploração e tráfico sexual de menores.

Epstein mantinha relações com políticos, empresários e celebridades, o que fez com que milhões de documentos judiciais, como e-mails, mensagens e registros de agenda, passassem a ser analisados após sua morte na prisão, em 2019. Esses arquivos citam pessoas do mundo todo, e ser mencionado não significa envolvimento criminal, mas indica algum tipo de contato, referência ou conversa registrada. Entre esses registros, aparecem nomes de brasileiros e instituições do Brasil, o que gerou grande repercussão.

Um dos nomes mais detalhados é o do arquiteto Arthur Casas. Documentos mostram trocas de mensagens entre funcionários do estúdio dele e pessoas ligadas a Epstein sobre uma possível reforma na ilha particular do milionário, no Caribe.

Em nota enviada à Folha de S. Paulo, o escritório de Arthur Casas confirmou que o brasileiro foi procurado em 2016 com a proposta de desenvolver um projeto de reforma na ilha e que ele chegou a fazer uma visita técnica no local, mas que a contratação não avançou e não houve qualquer trabalho realizado para Epstein.

O empresário Eike Batista e sua ex-esposa, a modelo Luma de Oliveira, também aparecem em e-mails trocados com Epstein. Em um deles, datado de agosto de 2012, Epstein questiona o agente de modelos francês Jean-Luc Brunel sobre Luma.

A assessoria do empresário afirmou que Eike nunca conheceu Epstein e que as citações do nome dele e de Luma são "meramente incidentais e sem qualquer relevância". "Não é correto que se misture os nomes do empresário e da ex-esposa com a lista de pessoas que teriam participado de festas promovidas por Epstein", diz a nota.

O nome de Luciana Gimenez surgiu em novos registros divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos no início deste ano. Os documentos mostram transferências financeiras em que o nome da apresentadora aparece como destinatária. No entanto, o material de 2014, 2018 e 2019, não esclarece a origem dos recursos nem estabelece uma ligação direta com Jeffrey Epstein ou com atividades criminosas.

Luciana Gimenez usou as redes sociais nesta segunda-feira (9) para divulgar um comunicado sobre o suposto envolvimento no caso e negou ter tido qualquer relação com o empresário.

A ex-modelo da Victoria's Secret Izabel Goulart também foi citada em uma troca de e-mails de Epstein, em que o bilionário afirma que ela se hospedou em seu apartamento em Nova York.

Uma nota divulgada pelo advogado de Izabel afirma que a modelo jamais esteve ou ficou hospedada em um apartamento de Jeffrey Epstein. "Izabel apenas dividiu, com outras modelos, um apartamento em Nova York, quando foi morar na cidade americana para trabalhar", esclarece o advogado, acrescentando que o imóvel foi cedido pela agência que a representava na época.

Além disso, um vídeo de uma pegadinha exibida em um programa de Silvio Santos também foi divulgado juntamente com milhões de novos documentos relacionados ao caso.

O arquivo, hospedado no site do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, mostra imagens de atores que se escondem em um local marcado como um canteiro de obras e que jogam jatos de ar nos pedestres que passam pelo local. Algumas imagens aparecem com uma tarja preta cobrindo rostos. Ao fundo, é possível ouvir a risada marcante de Silvio Santos e as risadas da plateia. A cena se repete por diversas vezes por quase dois minutos. Não há qualquer contexto ou informação sobre a presença do vídeo nos arquivos no site do Departamento de Jusitça dos EUA.

No geral, os arquivos mostram que Epstein buscava contatos políticos, empresariais e culturais no Brasil, inclusive avaliando a compra de agências de modelos e o patrocínio de concursos de beleza como forma de aliciar jovens, segundo e-mails revelados.

 

Fonte: Nexo Jornal/CNN Brasil/The Guardian

 

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