Entenda
como a alteração intestinal a longo prazo afeta o corpo
A
composição da comunidade de bactérias que habitam o intestino pode ser afetada
por até oito anos depois do tratamento com antibióticos, segundo um estudo
publicado na revista Nature Medicine. A consequência de um desequilíbrio de
longo prazo na microbiota vai desde uma diarreia a risco aumentado de condições
como diabetes 2, alertam os autores, da Universidade de Uppsala, na Suécia.
Embora
salvem vidas em graves infecções, antibióticos usados em excesso já foram
associados, em estudos epidemiológicos, ao desenvolvimento de doenças crônicas.
As razões não são totalmente conhecidas, mas acredita-se que alterações no
microbioma intestinal desempenhem um importante papel.
"A
microbiota regula, em grande parte, a função imunológica. Por isso, a disbiose
— alteração do equilíbrio da flora — pode levar ao aumento de inflamações
sistêmicas, maior susceptibilidade a infecções e alteração da tolerância
imunológica", explica Ana Clara Alves Costa, médica especialista em
nutrição enteral e parenteral do Hospital Brasília. "Podem ainda acontecer
consequências metabólicas como maior risco de resistência à insulina,
alterações no metabolismo dos lipídios e doenças como obesidade, inflamações
intestinais e alergias."
Segundo
Gabriel Baldanzi, primeiro autor do estudo e ex-aluno de doutorado da
Universidade de Uppsala, essas associações levantam questões importantes sobre
o impacto dos antibióticos a longo prazo no microbioma intestinal. "Nós
conhecemos o grande impacto a curto prazo, mas a duração dessas alterações
ainda era incerta", conta. O resultado da pesquisa, porém, mostra que
mesmo um único ciclo de tratamento com essa classe de medicamentos pode deixar
marcas no organismo.
"Podemos
ver que o uso de antibióticos quatro ou oito anos atrás está ligado à
composição do microbioma intestinal de uma pessoa hoje. Mesmo um único
tratamento com certos tipos de antibióticos deixa vestígios", afirma
Baldanzi. O pesquisador diz que, na Suécia, apesar das regras rigorosas de
prescrição e venda, o uso desses medicamentos é alto. No Brasil, o consumo
sistêmico de antibióticos vem aumentando desde 2014, segundo um estudo da
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UERJ). A pesquisa constatou que, em seis anos, mais de 4,5 trilhões de doses
foram consumidas no país.
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Registros
No
estudo sueco, os pesquisadores analisaram dados de registros de medicamentos
juntamente com um mapeamento detalhado do microbioma intestinal de 14.979
adultos residentes no país nórdico. A composição da flora foi comparada entre
participantes que receberam diferentes tipos de antibióticos e aqueles que não
receberam nenhum durante o período analisado.
Baldanzi
esclarece que o estudo foi possível graças ao abrangente registro de
medicamentos prescritos da Suécia, que contém informações sobre todos os
antibióticos vendidos em farmácias. Os pesquisadores conseguiram, então,
vincular esses dados a biobancos suecos nas universidades de Uppsala e Lund,
que contêm dados sobre o microbioma intestinal.
Os
pesquisadores descobriram que os resultados variavam bastante, dependendo do
tipo de antibiótico utilizado. As associações mais fortes foram observadas para
clindamicina, fluoroquinolonas e flucloxacilina. Em contrapartida, a penicilina
V foi relacionada a alterações pequenas e de curta duração no microbioma.
"A forte ligação entre a flucloxacilina de espectro restrito e o
microbioma intestinal foi inesperada, e gostaríamos de ver essa descoberta
confirmada em outros estudos", afirmou, em nota, Tove Fall, professora de
epidemiologia molecular da Universidade de Uppsala. "No entanto,
acreditamos que os resultados do nosso estudo podem ajudar a fundamentar
futuras recomendações sobre o uso de antibióticos, especialmente na escolha
entre dois antibióticos igualmente eficazes, sendo que um deles tem um impacto
menor no microbioma intestinal."
Os
pesquisadores reconhecem que o estudo se refere a prescrições apenas dos
últimos oito anos e que um período de acompanhamento mais longo forneceria
informações mais conclusivas. Outra limitação é que a microbiota intestinal foi
amostrada apenas uma vez por participante. "Atualmente, estamos coletando
uma segunda amostra de quase metade dos participantes", afirma Fall.
"Isso nos permitirá compreender ainda melhor o tempo de recuperação e
identificar quais microbiotas intestinais são mais suscetíveis a alterações
após o tratamento com antibióticos."
A
médica reumatologista Sylvana Braga, pós-graduada em fisiatria ortomolecular
pela Pontifícia Universidade Católica, observa que algumas estratégias podem
ajudar a restaurar a microbiota após o tratamento com antibióticos. "A
principal é a iniciação da dieta para restaurar a microbiota intestinal
evitando frituras, carnes gordurosas, álcool e ultraprocessados, como
enlatados, embutidos e refrigerantes." Ela recomenda iniciar o regime
alimentar com fibras, carnes brancas magras, cereais integrais, legumes e
folhas cozidas, evitando frutas cítricas.
"Antibióticos
devem ser sempre utilizados com cautela, na menor duração eficaz e com espectro
mais estreito possível", destaca Ana Clara Alves Costa, do Hospital
Brasília. "Uma vida saudável, baseada em alimentação rica em alimentos
naturais e bem diversificada, além do contato com microbiota ambiental, como
contato com solo e animais, podem favorecer o aumento da diversidade dessa
microbiota."
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Três perguntas para Danilo Munhóz, coloproctologista da clínica Primazo
• Como os antibióticos alteram o
equilíbrio da microbiota intestinal?
Os
antibióticos são fundamentais quando bem indicados, porque salvam vidas e
tratam infecções bacterianas importantes. O problema é que eles não atingem
apenas a bactéria causadora da infecção. Muitas vezes, acabam reduzindo também
bactérias benéficas que vivem no intestino e ajudam a manter o equilíbrio da
microbiota. Com isso, o intestino perde diversidade bacteriana, que é
justamente um dos sinais de um ecossistema intestinal mais saudável e estável.
Na prática, isso pode trazer consequências digestivas bem concretas, como
diarreia, distensão abdominal, alteração do ritmo intestinal e maior
vulnerabilidade a infecções oportunistas, especialmente por C. difficile, que
pode causar colite importante.
• As alterações na microbiota são sempre
temporárias?
Nem
sempre. Em muitos pacientes, a microbiota consegue se reorganizar ao longo de
semanas ou meses, pelo menos em parte. Mas hoje já sabemos que essa recuperação
não é igual para todo mundo. Há casos em que a composição intestinal volta
perto do que era antes, e há casos em que a recuperação é incompleta, com perda
persistente de algumas espécies e mudança mais duradoura no ecossistema
intestinal. Estudos anteriores já mostravam que, mesmo quando a microbiota
começa a se recompor após o fim do antibiótico, esse retorno pode ser
incompleto e bastante variável entre as pessoas.
• Quais fatores determinam a recuperação
da diversidade bacteriana?
A
recuperação depende de vários fatores. O primeiro é o próprio antibiótico, qual
foi usado, se era de amplo espectro, por quanto tempo, em que dose, e quantos
ciclos a pessoa recebeu ao longo da vida recente. O segundo ponto é o terreno
onde esse antibiótico age. Cada pessoa parte de uma microbiota diferente.
Estudos mostram que a resposta aos antibióticos é bastante personalizada e
depende do perfil da microbiota antes do tratamento. Também entram nessa conta
fatores como alimentação, especialmente ingestão de fibras, idade, imunidade,
doenças associadas e até o ambiente ao redor, porque a recuperação da
microbiota também depende da capacidade de recolonização por bactérias
benéficas. Quanto melhor o estado geral do paciente, mais equilibrada a
microbiota de base e mais adequado o estilo de vida, maior a chance de
recuperação. Mas essa recuperação nem sempre é completa, e é por isso que, como
coloproctologista, eu sempre reforço: antibiótico é remédio sério, importante e
muitas vezes indispensável, mas precisa ser usado com critério.
Fonte:
Correio Braziliense

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