quarta-feira, 18 de março de 2026

Sara Góes: O último refluxo de Jair

Na manhã de 13 de março de 2026, o Corpo de Bombeiros foi acionado para atender o ex-presidente na Papudinha. Às 8h50, Jair Bolsonaro deu entrada no hospital DF Star em uma ambulância do Samu, com febre alta e queda súbita na saturação de oxigênio. O boletim oficial, assinado pelos médicos Brasil Caiado, Antônio Aurélio de Paiva Fagundes Júnior e Allisson B. Barcelos Borges, confirmou um quadro de broncopneumonia bacteriana bilateral, de provável origem aspirativa.

Em agosto de 2025, analisei como o estado de saúde de Bolsonaro era convertido em instrumento de captura emocional. Naquele momento, as obstruções recorrentes alimentavam a mística do mártir convalescente, o sobrevivente de uma suposta conspiração do “sistema”. Agora, porém, o quadro é outro. O diagnóstico atual parece condensar a falência progressiva iniciada em 2018 e agravada pela sucessão de intervenções abdominais e pelo encarceramento. Como já observei, as múltiplas cirurgias transformaram o trânsito intestinal em um labirinto de aderências.

É aqui que o corpo deixa de sustentar a propaganda. Quando o fluxo intestinal é interrompido por uma obstrução, o conteúdo entérico estagna, retrocede e se decompõe. O gatilho final parece ter sido mecânico. A distensão abdominal pressiona o diafragma, provoca soluços incoercíveis e favorece o refluxo de material contaminado pelo esôfago. A pneumonia aspirativa surge justamente quando esse conteúdo alcança a árvore traqueobrônquica. Em termos brutais, mas precisos, o corpo já não separa o que deveria descer do que passa a subir. O organismo colapsa sobre si mesmo.

Politicamente, essa deterioração física converteu-se no último ativo do clã. O adoecimento do patriarca volta a ser operado como peça de guerra informacional, em sintonia com uma articulação internacional que tenta manter o bolsonarismo relevante no momento em que as portas de Washington se estreitam para Eduardo Bolsonaro. Enquanto os pulmões lutam contra a infecção na UTI, Flávio Bolsonaro trabalha no espaço entre o laudo técnico e a mística popular. O refluxo final de Bolsonaro passa a servir, assim, como rito de reabilitação do sobrenome na figura do filho mais funcional, mais adaptável e politicamente mais viável.

Flávio sobe com velocidade quase obscena nas pesquisas precoces de intenção de voto. É como se a viabilidade eleitoral do herdeiro estivesse sendo parida diretamente das entranhas em decomposição do pai. O drama clínico já não pertence apenas à medicina. Ele foi incorporado à estratégia de reposicionamento dinástico de uma família que sempre tratou o sofrimento como ativo simbólico.

Nesse ambiente, a verdade factual perde terreno para a versão politicamente rentável. O STF, desgastado por ataques sistemáticos e por uma maioria parlamentar movida pela autopreservação, aparece mais vulnerável a campanhas que o retratam como desumano ou intransigente. A defesa tenta transformar um agravamento clínico posterior em prova retroativa de erro judicial. Alexandre de Moraes negou a prisão domiciliar com base em laudos que atestavam assistência médica permanente na Papuda. Mas, para a máquina de vitimização bolsonarista, pouco importa o prontuário. O que interessa é fabricar perseguição.

Se o desfecho for a morte antes do pleito, Flávio terá pouco trabalho para higienizar a memória do pai. O aspecto material, degradante e escatológico do colapso será apagado em favor de uma estética sacrificial, cristianizada e melodramática, diante de uma esquerda muitas vezes refém do próprio decoro. Se houver sobrevida, o cenário muda de forma, não de essência. A guerra informacional continua. A decisão de Moraes de determinar segurança 24 horas no hospital retira da família o controle absoluto da narrativa clínica, mas empurra o Judiciário para a administração direta da agonia de um símbolo político.

Capitalizar sobre esse corpo debilitado exigirá uma disciplina que o clã talvez já não consiga manter sob vigilância. Ainda assim, o perigo permanece. Ele está menos no corpo que apodrece do que nas instituições que vacilam diante da exploração emocional da ruína. Bolsonaro terminou como viveu politicamente: num circuito de obstruções, transbordamentos e contaminação do espaço público. Se em 2025 o alerta era para a manipulação da doença, 2026 expõe o estágio terminal de um projeto que, incapaz de administrar a própria escória, acaba sufocado por ela. O corpo e o projeto político passam a funcionar do mesmo jeito: fechados, contaminados pelo próprio excesso, até que o próprio sistema perde a capacidade de respirar.

•        Enquanto Bolsonaro é atendimento em hospital de ponta, Adélio fratura a mão e presídio nem deixa engessar. Por Joaquim de Carvalho

Enquanto Jair Bolsonaro, condenado, recebe tratamento VIP de saúde, Adélio Bispo de Oliveira, a 1.100 quilômetros de Brasília, permanece solitário em uma cela de poucos metros quadrados, e reclama de dores devido à fratura recente na mão.

“O Tuca (apelido de Adélio em família) disse que estava sentindo muita dor, mas o único remédio que o presídio deu foi dipirona, para cinco dias”, afirmou Maria das Graças Ramos de Oliveira, referindo-se à última visita que fez ao irmão, há cerca de um mês.

Segundo ela, por razões de segurança, a mão de Adélio nem chegou a ser engessada. A fratura teria ocorrido durante o banho de sol, quando os presos circulam algemados. Com gesso, a algema não poderia ser colocada durante essa saída da cela.

A visita de Mari das Granças foi virtual: ela, na Defensoria Pública da União, em Montes Claros; ele, no presídio federal de Campo Grande. Adélio completará, em setembro, oito anos na cadeia, embora não tenha sido condenado.

Ele foi preso em 6 de setembro de 2018, sob acusação de dar uma facada em Bolsonaro durante um ato de campanha em Juiz de Fora, Minas Gerais.

Adélio confessou o crime e foi defendido por um advogado que se apresentou logo depois e que tinha no currículo a defesa de acusados de crimes de grande repercussão, entre eles o dos assassinos da missionária Dorothy Stang.

Por iniciativa do advogado, que pagou do próprio bolso um laudo médico, Adélio foi submetido a um exame de sanidade mental e diagnosticado com Transtorno Delirante Persistente. Mais tarde, esse diagnóstico foi confirmado por uma junta médica designada pelo juiz.

Também por iniciativa de Zanone, ele foi transferido para um presídio de segurança máxima, longe de sua cidade natal, Montes Claros.

O advogado também pediu o enquadramento do cliente na então vigente Lei de Segurança Nacional, o que impediu que o processo fosse remetido à Justiça Estadual de Minas Gerais.

“Com um advogado como este, a justiça não precisa de promotor para acusar. A ‘defesa’ faz o serviço completo”, disse um colega de Zanone, sob condição de anonimato.

Na última visita, Maria das Graças voltou a ouvir do irmão que Zanone o trancou na cadeia e jogou a chave fora. O próprio Adélio pediu o afastamento do advogado, em carta enviada à Justiça em Juiz de Fora e à Defensoria Pública da União em Campo Grande.

O defensor público Welmo Rodrigo assumiu a causa e trava, na Justiça, uma batalha para que Adélio seja transferido para uma unidade de saúde em Montes Claros, a fim de ficar perto da família.

Adélio cumpre medida de segurança, mas, pelo entendimento do próprio Supremo Tribunal Federal, pessoas nessa situação não poderiam permanecer em presídio; ele deveria receber atendimento médico especializado.

Desde que foi preso, Adélio não concedeu entrevistas e só falou sobre o que ocorreu em Juiz de Fora com advogados e policiais. Nem sequer prestou depoimento em juízo. Sua única manifestação foi na audiência de custódia, um dia após o evento em Juiz de Fora.

O deputado estadual Paulo Reis, do PT de São Paulo, tentou uma audiência com a ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, mas o encontro foi desmarcado no próprio dia, quando ela soube que o parlamentar havia me convidado para cobrir a reunião.

Adélio está em um limbo institucional, em uma situação jurídica e de saúde que não comove as autoridades. Exceto o defensor público Welmo Rodrigo, a família e os advogados desta — Edna Teixeira e Alfredo Marques —, hoje ninguém mais lhe dá atenção.

Por isso, já dura três anos o processo aberto por Maria das Graças em Campo Grande para ser curadora do irmão, sem que haja sentença.

Enquanto isso, Adélio tem um curador provisório, vinculado ao sistema de Justiça estadual em Campo Grande, mas que, ao que se sabe, nunca conversou com o curatelado.

Não sabe, por exemplo, das dores que Adélio sentiu por conta da fratura recente. Quem ouviu foi a irmã, mas ela não tem poderes de tutela. Quer tê-los, mas a Justiça em Campo Grande tem protelado a decisão.

Adélio? Para as autoridades, esse é um nome proibido. Adélio não vem ao caso.

 

Fonte: Outras Palavras/Brasil 247

 

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