Sara
Góes: O último refluxo de Jair
Na
manhã de 13 de março de 2026, o Corpo de Bombeiros foi acionado para atender o
ex-presidente na Papudinha. Às 8h50, Jair Bolsonaro deu entrada no hospital DF
Star em uma ambulância do Samu, com febre alta e queda súbita na saturação de
oxigênio. O boletim oficial, assinado pelos médicos Brasil Caiado, Antônio
Aurélio de Paiva Fagundes Júnior e Allisson B. Barcelos Borges, confirmou um
quadro de broncopneumonia bacteriana bilateral, de provável origem aspirativa.
Em
agosto de 2025, analisei como o estado de saúde de Bolsonaro era convertido em
instrumento de captura emocional. Naquele momento, as obstruções recorrentes
alimentavam a mística do mártir convalescente, o sobrevivente de uma suposta
conspiração do “sistema”. Agora, porém, o quadro é outro. O diagnóstico atual
parece condensar a falência progressiva iniciada em 2018 e agravada pela
sucessão de intervenções abdominais e pelo encarceramento. Como já observei, as
múltiplas cirurgias transformaram o trânsito intestinal em um labirinto de
aderências.
É aqui
que o corpo deixa de sustentar a propaganda. Quando o fluxo intestinal é
interrompido por uma obstrução, o conteúdo entérico estagna, retrocede e se
decompõe. O gatilho final parece ter sido mecânico. A distensão abdominal
pressiona o diafragma, provoca soluços incoercíveis e favorece o refluxo de
material contaminado pelo esôfago. A pneumonia aspirativa surge justamente
quando esse conteúdo alcança a árvore traqueobrônquica. Em termos brutais, mas
precisos, o corpo já não separa o que deveria descer do que passa a subir. O
organismo colapsa sobre si mesmo.
Politicamente,
essa deterioração física converteu-se no último ativo do clã. O adoecimento do
patriarca volta a ser operado como peça de guerra informacional, em sintonia
com uma articulação internacional que tenta manter o bolsonarismo relevante no
momento em que as portas de Washington se estreitam para Eduardo Bolsonaro.
Enquanto os pulmões lutam contra a infecção na UTI, Flávio Bolsonaro trabalha
no espaço entre o laudo técnico e a mística popular. O refluxo final de
Bolsonaro passa a servir, assim, como rito de reabilitação do sobrenome na
figura do filho mais funcional, mais adaptável e politicamente mais viável.
Flávio
sobe com velocidade quase obscena nas pesquisas precoces de intenção de voto. É
como se a viabilidade eleitoral do herdeiro estivesse sendo parida diretamente
das entranhas em decomposição do pai. O drama clínico já não pertence apenas à
medicina. Ele foi incorporado à estratégia de reposicionamento dinástico de uma
família que sempre tratou o sofrimento como ativo simbólico.
Nesse
ambiente, a verdade factual perde terreno para a versão politicamente rentável.
O STF, desgastado por ataques sistemáticos e por uma maioria parlamentar movida
pela autopreservação, aparece mais vulnerável a campanhas que o retratam como
desumano ou intransigente. A defesa tenta transformar um agravamento clínico
posterior em prova retroativa de erro judicial. Alexandre de Moraes negou a
prisão domiciliar com base em laudos que atestavam assistência médica
permanente na Papuda. Mas, para a máquina de vitimização bolsonarista, pouco
importa o prontuário. O que interessa é fabricar perseguição.
Se o
desfecho for a morte antes do pleito, Flávio terá pouco trabalho para
higienizar a memória do pai. O aspecto material, degradante e escatológico do
colapso será apagado em favor de uma estética sacrificial, cristianizada e
melodramática, diante de uma esquerda muitas vezes refém do próprio decoro. Se
houver sobrevida, o cenário muda de forma, não de essência. A guerra
informacional continua. A decisão de Moraes de determinar segurança 24 horas no
hospital retira da família o controle absoluto da narrativa clínica, mas
empurra o Judiciário para a administração direta da agonia de um símbolo
político.
Capitalizar
sobre esse corpo debilitado exigirá uma disciplina que o clã talvez já não
consiga manter sob vigilância. Ainda assim, o perigo permanece. Ele está menos
no corpo que apodrece do que nas instituições que vacilam diante da exploração
emocional da ruína. Bolsonaro terminou como viveu politicamente: num circuito
de obstruções, transbordamentos e contaminação do espaço público. Se em 2025 o
alerta era para a manipulação da doença, 2026 expõe o estágio terminal de um
projeto que, incapaz de administrar a própria escória, acaba sufocado por ela.
O corpo e o projeto político passam a funcionar do mesmo jeito: fechados,
contaminados pelo próprio excesso, até que o próprio sistema perde a capacidade
de respirar.
• Enquanto Bolsonaro é atendimento em
hospital de ponta, Adélio fratura a mão e presídio nem deixa engessar. Por
Joaquim de Carvalho
Enquanto
Jair Bolsonaro, condenado, recebe tratamento VIP de saúde, Adélio Bispo de
Oliveira, a 1.100 quilômetros de Brasília, permanece solitário em uma cela de
poucos metros quadrados, e reclama de dores devido à fratura recente na mão.
“O Tuca
(apelido de Adélio em família) disse que estava sentindo muita dor, mas o único
remédio que o presídio deu foi dipirona, para cinco dias”, afirmou Maria das
Graças Ramos de Oliveira, referindo-se à última visita que fez ao irmão, há
cerca de um mês.
Segundo
ela, por razões de segurança, a mão de Adélio nem chegou a ser engessada. A
fratura teria ocorrido durante o banho de sol, quando os presos circulam
algemados. Com gesso, a algema não poderia ser colocada durante essa saída da
cela.
A
visita de Mari das Granças foi virtual: ela, na Defensoria Pública da União, em
Montes Claros; ele, no presídio federal de Campo Grande. Adélio completará, em
setembro, oito anos na cadeia, embora não tenha sido condenado.
Ele foi
preso em 6 de setembro de 2018, sob acusação de dar uma facada em Bolsonaro
durante um ato de campanha em Juiz de Fora, Minas Gerais.
Adélio
confessou o crime e foi defendido por um advogado que se apresentou logo depois
e que tinha no currículo a defesa de acusados de crimes de grande repercussão,
entre eles o dos assassinos da missionária Dorothy Stang.
Por
iniciativa do advogado, que pagou do próprio bolso um laudo médico, Adélio foi
submetido a um exame de sanidade mental e diagnosticado com Transtorno
Delirante Persistente. Mais tarde, esse diagnóstico foi confirmado por uma
junta médica designada pelo juiz.
Também
por iniciativa de Zanone, ele foi transferido para um presídio de segurança
máxima, longe de sua cidade natal, Montes Claros.
O
advogado também pediu o enquadramento do cliente na então vigente Lei de
Segurança Nacional, o que impediu que o processo fosse remetido à Justiça
Estadual de Minas Gerais.
“Com um
advogado como este, a justiça não precisa de promotor para acusar. A ‘defesa’
faz o serviço completo”, disse um colega de Zanone, sob condição de anonimato.
Na
última visita, Maria das Graças voltou a ouvir do irmão que Zanone o trancou na
cadeia e jogou a chave fora. O próprio Adélio pediu o afastamento do advogado,
em carta enviada à Justiça em Juiz de Fora e à Defensoria Pública da União em
Campo Grande.
O
defensor público Welmo Rodrigo assumiu a causa e trava, na Justiça, uma batalha
para que Adélio seja transferido para uma unidade de saúde em Montes Claros, a
fim de ficar perto da família.
Adélio
cumpre medida de segurança, mas, pelo entendimento do próprio Supremo Tribunal
Federal, pessoas nessa situação não poderiam permanecer em presídio; ele
deveria receber atendimento médico especializado.
Desde
que foi preso, Adélio não concedeu entrevistas e só falou sobre o que ocorreu
em Juiz de Fora com advogados e policiais. Nem sequer prestou depoimento em
juízo. Sua única manifestação foi na audiência de custódia, um dia após o
evento em Juiz de Fora.
O
deputado estadual Paulo Reis, do PT de São Paulo, tentou uma audiência com a
ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, mas o encontro foi desmarcado no
próprio dia, quando ela soube que o parlamentar havia me convidado para cobrir
a reunião.
Adélio
está em um limbo institucional, em uma situação jurídica e de saúde que não
comove as autoridades. Exceto o defensor público Welmo Rodrigo, a família e os
advogados desta — Edna Teixeira e Alfredo Marques —, hoje ninguém mais lhe dá
atenção.
Por
isso, já dura três anos o processo aberto por Maria das Graças em Campo Grande
para ser curadora do irmão, sem que haja sentença.
Enquanto
isso, Adélio tem um curador provisório, vinculado ao sistema de Justiça
estadual em Campo Grande, mas que, ao que se sabe, nunca conversou com o
curatelado.
Não
sabe, por exemplo, das dores que Adélio sentiu por conta da fratura recente.
Quem ouviu foi a irmã, mas ela não tem poderes de tutela. Quer tê-los, mas a
Justiça em Campo Grande tem protelado a decisão.
Adélio?
Para as autoridades, esse é um nome proibido. Adélio não vem ao caso.
Fonte:
Outras Palavras/Brasil 247

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