Como
frear a fúria destrutiva em 2026?
Professor
titular de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo (USP),
o ex-ministro Renato Janine Ribeiro é uma das vozes mais lúcidas e
sofisticadas do pensamento crítico brasileiro contemporâneo. Filósofo formado
pela USP, com mestrado pela Université de Paris-I, Panthéon-Sorbonne,
doutorado pela USP e pós-doutorado pela British Library, Janine
Ribeiro construiu uma trajetória ímpar que articula o rigor acadêmico com a
intervenção pública qualificada.
LEIA A
ENTREVISTA:
·
Em sua obra “A Boa Política”, o senhor distingue o desejo
democrático da exigência republicana. Como essa tensão se manifesta hoje,
quando o desejo parece capturado por algoritmos de ódio?
A minha
oposição entre democracia e república é que a Democracia é um clamor dos de
baixo, dos pobres, enquanto a República é uma organização que visa a fazer
funcionar o todo e, nesse sentido, ela acaba, querendo ou não, estando mais
próxima da preservação do status quo. Então se torna muito importante na
democracia um desejo às vezes revolucionário, rebelde, capaz até de derrubar o
regime, enquanto a república está mais preocupada com a governabilidade.
Defendi esta tese sobre ambas em dois livros que publiquei em 20001.
Neste contexto, entendi que, no Brasil, o PT, o Partido dos Trabalhadores, era
um partido de vertente democrática, enquanto o PSDB, preocupado sempre com a
governabilidade, valorizava mais o tema da República. O desejo é obviamente
mais irracional do que a vontade. A vontade se compreende na expressão “força
de vontade”, que nos cobra domesticar, domar o próprio desejo, não deixar que
ele nos domine. A ideia republicana é que o desejo é perigoso para o corpo político,
porque, para dar um paralelo que ilustra bem as coisas, ele vai nos fazer comer
doce, comer gordura, comer açúcar; para vencer a obesidade, precisa-se de muita
vontade, muita força de vontade. Agora, nesta minha tese, eu valorizo o desejo
no seu lado positivo, como aquilo que vai além da mera necessidade, que realiza
a pessoa na sua diversidade. Mas os afetos também podem ser negativos. As
paixões positivas são as de afirmação, amor, amizade, a disposição a cooperar.
Já as paixões negativas estão ligadas ao ódio, à raiva, à fúria, à destruição,
à vontade de destruir. Ora, estamos num momento em que as paixões negativas
estão sendo instigadas com muita força, e esse problema exige que o combate
político seja travado não apenas de forma racional, mas também no plano do
desejo. O que isso quer dizer? Que
precisamos constantemente verificar de que maneira a extrema direita, na sua
fúria negacionista, está conseguindo conquistar as paixões e mentes, mais até
as paixões do que as mentes das pessoas em geral, independentemente até do nível
de educação, porque há pessoas com formação superior que são conquistadas por
esse discurso do ódio. Precisamos ser capazes de travar a luta nesse ponto, que
não é fácil para quem, como o mundo acadêmico, valoriza especialmente a razão.
·
O senhor criticou recentemente a “opção brasileira pela
burocracia” como um entrave ético. De que forma esse fetiche administrativo
sabota a soberania científica e o progresso social do Sul Global?
A opção
brasileira pela democracia e pela burocracia não é apenas uma questão de meios
que são difíceis, irritantes etc. É uma tendência que temos a resolver as
questões no papel. Com muita frequência, quando temos um problema importante,
pensamos de que maneira vamos legislar sobre ele e não como vamos tratá-lo.
Aqui, talvez não haja apenas uma tradição portuguesa do cartório, da
burocracia, da administração, mas algo francês: quando escreve o Antigo
Regime e a Revolução, Tocqueville levanta a ideia de que os ingleses
desenvolveram na prática as questões públicas e políticas, que toda a formação
do Estado inglês é uma formação de longo prazo, ao longo dos séculos, na qual
as pessoas vão aprendendo com muito ensaio e erro, e até mesmo com duas
revoluções no século XVII, mas revoluções que não mudam tanto o mundo quanto a
Revolução Francesa mudará um século depois da segunda revolução inglesa de
1688, a chamada Revolução Gloriosa. Então, Tocqueville entende que os revolucionários
franceses deviam muito aos homens de letras, aos filósofos, que se dedicaram a
conhecer os problemas, mas sem terem experiência prática com eles. Daí, no
entender dele, uma insuficiência da Revolução Francesa, insuficiência por seus
excessos, coisa de philosophes. Talvez nós, no Brasil, outorguemos
muita importância aos textos. Penso sobretudo na importância dos advogados em
nossa sociedade. Muitas vezes se espera que a solução venha de novas leis. Vou
dar um exemplo: a CLT, Consolidação das Leis do Trabalho, já em 1943, proíbe
pagar salários diferentes pela mesma função. No entanto, apesar de fazer quase
um século que temos essa determinação tão importante ética e juridicamente,
volta e meia surgem projetos de lei, que acabam sendo aprovados, para proibir
pagar salários diferentes para homens e mulheres. Mas por que isso? Porque a
lei não é aplicada. Parece que aqui muitas vezes basta a lei, mas ela não se
aplica. Ou o recente caso do cão Orelha, chacinado por jovens em Santa
Catarina: a reação nas ruas foi pedir novas leis, quando as que existem já
puniriam os responsáveis. Nesse ponto, vou lembrar uma ação boa de uma pessoa
condenada por corrupção: Paulo Maluf. Quando ele se tornou prefeito de São
Paulo, em 1993, foi quem impôs o respeito à exigência do cinto de segurança, já
prevista em lei, mas até então não aplicada. Na época, dizia-se que cada dia
isso salvava seis vidas: diariamente, havia seis pessoas que morriam no
trânsito apenas em São Paulo, por não usarem o cinto de segurança. Depois de São
Paulo adotar isso, todos os estados começaram a fiscalizar quem usa e quem não
usa o cinto de segurança.
·
Como o senhor analisa o papel do intelectual público
hoje, frente ao “descrédito da política” e à ascensão de lideranças que fazem
da mediocridade um signo de autenticidade?
No meu
entender, o intelectual já é intelectual público, porque entendo o intelectual
como aquele que se diferencia do cientista em geral, da pessoa culta em geral,
do acadêmico em geral, porque ele discute o valor das coisas. Enquanto estou
estudando, digamos, Thomas Hobbes, ou alguém está estudando o meio ambiente, ou
está estudando um filósofo qualquer, um ponto qualquer de biologia ou física,
estamos fazendo ciência, mas de certa forma estamos confinados em nossa
academia, sem dúvida discutindo com os nossos pares e fazendo avançar o
conhecimento, a ciência, a filosofia. Mas no momento em que passamos a discutir
o valor das coisas, tanto das coisas que estudamos quanto das coisas que vemos
fora e para as quais usamos nosso instrumental teórico, analítico e de
pesquisa, neste momento somos intelectuais. Então, o intelectual já é público
por definição. Agora, qual é o problema que temos aí? Primeiro, posso dizer que
ao longo da minha vida assisti praticamente a um avanço muito grande da figura
dos intelectuais. Isso se deve muito à Folha de S. Paulo nos
anos 1980, quando fez seu projeto Folha e se cercou de intelectuais, inclusive
alguns que formavam sua famosa equipe de articulistas, da qual nunca fiz parte,
mas nessa época, por uma ou duas décadas, eu escrevi bastante no jornal sobre
assuntos muito diferentes, e muitas outras pessoas mais conhecidas, mais
avançadas do que eu, mais seniores do que eu, também escreviam no jornal. Fora
isso, também penso que teve muita importância a atividade de Adauto Novaes, da
Funarte, quando realizou uma série de seminários, começando com “Os Sentidos da
Paixão”, que teriam muito impacto de público. A destacar que tiveram, neste
contexto, especial importância os filósofos. Dos seminários que Adauto Novaes
organizou nos anos 80 e 90, pelo menos um terço dos participantes era da
filosofia. Curiosamente, nesse período final da ditadura, começo da democracia,
a direita participava pouco tanto da cultura quanto da discussão pública com
base intelectual. Ela era formada por políticos ou mesmo advogados, mas de
formação mais limitada. O advento de intelectuais de direita no espectro da
discussão pública é recente, deve ter 10 ou 15 anos, uns deles com qualidade,
outros sem. Agora, o que está se vendo é um descrédito de modo geral da esfera
pública. Na sociedade brasileira, há um capitalismo primário, selvagem, que
ocupa o espaço quase todo. Se o princípio do capitalismo é a busca do lucro,
não há nada errado ou ilegítimo nisso, mas tem que ser feito dentro de limites
muito claros. Se virmos o grande filósofo do capitalismo iniciante, que é John
Locke, notaremos que ele coloca a questão da propriedade privada dentro de um
contexto de uma organização definida por Deus. É dentro desse quadro que temos
a busca do lucro. Ou veja “Amor e Morte” de David E. Kelley, na HBO. Essa série
mostra um assassinato cometido por uma mulher, mas paradoxalmente, tanto a
assassina quanto sua vítima, quanto todos na pequena cidade americana em que
vivem, organizam sua sociabilidade dentro da igreja. Há um quadro dentro do
qual as pessoas, mesmo a criminosa, estão colocadas: a vida social é
organizada. Mas o que acontece no Brasil? Esse enquadramento aqui é fraco. Os
indivíduos ficam muito soltos. Em meu livro A sociedade contra o
social, tomei a célebre expressão de Bernard Mandeville: “vícios
privados, benefícios públicos”. Os vícios privados têm como um dos seus
principais exemplos a ganância. Acontece que a ganância é o próprio motor do
capitalismo, só que precisa ser enquadrada. Ela tem que respeitar as leis; ao
ser enquadrada, gerará benefícios públicos. Aqui a equação se inverte, vemos no
público os vícios e no mundo privado as virtudes. Então, aqui a moral é
socialmente improdutiva. Aqui, a busca do lucro, sem estar baseada num respeito
ao quadro social, ao público, ao corpo político, acaba gerando corrupção. Com
isso, quando cada um busca simplesmente sua vantagem pessoal, ao se dissolver o
quadro em que todos lidamos com os outros, a confiança se torna impossível.
Vamos ver o que é confiança: confiança é praticamente o mesmo que fé, ou é o
fundamento dos laços sociais. Eu, quando ando pelo centro da cidade ou em
qualquer bairro, confio em que ninguém vai me atacar. A chance de alguém me
atacar é mínima. Se estou num lugar ermo à noite, ou considerado perigoso,
minha desconfiança aumenta. Quero dizer que a gente, para poder viver em
sociedade, tem uma confiança implícita nos outros, e essa confiança é a base do
laço social. Quando cada um procura sua vantagem, quando é cada um por si, some
essa confiança e passamos a descrer de tudo. Então, teremos medo da
criminalidade, real ou imaginária; medo dos governantes, que podem se
corromper; medo dos candidatos, que alguns acham que são todos da mesma cepa
ruim, e por aí vai. Ao descrédito, se soma o negacionismo.
Temos
dois negacionismos, o científico, que se opõe à ciência; e o negacionismo dos
fatos, que solapa o trabalho dos jornalistas decentes; com eles, perdemos as
condições mínimas de convívio em sociedade, que se baseia na confiança um no
outro e no acordo sobre certos princípios. Por exemplo, acreditamos todos que o
sol vai nascer amanhã, ou pelo menos vai clarear o dia; acreditamos nos
resultados da loteria; acreditamos no resultado das eleições; acreditamos nas
vacinas. Ora, os dois últimos pontos foram extremamente contestados pela
extrema direita nos últimos anos. Quando não acreditamos mais no resultado das
eleições, a coisa fica muito perigosa. Passamos a achar que há uma fraude na
base do próprio poder que nos governa, e ele se torna ilegítimo. E ao se tornar
ilegítimo, depô-lo se torna legítimo, o que explica o 8 de janeiro de 2023,
quando a extrema direita tentou derrubar o governo eleito do Brasil e cogitou
inclusive assassinar o presidente, o vice-presidente e o ministro do Supremo
Tribunal Federal. É muito grave o efeito da perda da confiança, e vai ser
difícil restabelecer essa confiança inclusive nesses parâmetros básicos.
·
Vivemos um tempo em que o diálogo parece ter saído de
cena. Como reconstruir um referencial comum de sociedade diante do avanço de
particularismos que fragmentam o tecido democrático?
Da
questão do fim do diálogo já tratei um pouco ao dizer que, para o diálogo, nós
precisamos de alguns referenciais comuns. Eu diria que são de duas ordens:
primeiro, os fatos. Precisamos ter um acordo sobre certos fatos, que podem ser
elementares: o sol se levanta, estamos no hemisfério sul, o país em que vivemos
é o Brasil, o presidente se chama tal, ganhamos várias Copas do Mundo. E o
segundo são os valores. Precisamos ter certos valores, como a verdade é
superior à mentira, ou o bem é melhor que o mal. No caso da política, eleições
livres definem quem vai governar, eleições livres supondo que não haja jogo
baixo, que não haja exclusão de candidato favorito por manobras golpistas, como
aconteceu em 2018, quando o complô da Lava Jato tirou Lula, que era o favorito
das pesquisas, e colocou Bolsonaro na presidência. Claro que podemos discutir
os valores. Por exemplo, eu entendo que o valor bíblico, e mais do que bíblico,
universal, “não matarás”, não abrange apenas a situação em que uma pessoa é
exterminada com faca, com uma arma branca, arma de fogo ou veneno, mas também
situações em que, por descaso, desatenção, egoísmo ou negligência, se deixa uma
pessoa morrer. Portanto, “não matarás”, no meu entender, tem também uma
extensão para políticas sociais: deixar uma pessoa morrer de fome é violar esse
mandamento bíblico, e mais que bíblico, de praticamente todas as sociedades que
existem. Agora, nesse ponto pode haver divergência, pode haver pessoas que
entendem “não matarás” num sentido mais estrito. Esse é um ponto que pode estar
em disputa, mas o princípio de não matar eu penso que é universal. Não mentir é
outro princípio importante. Mas Benjamin Constant, o filósofo franco-suíço,
critica Kant porque este obrigaria uma pessoa a dizer a um assassino onde estava
a vítima que este busca, e Kant acabou concordando que sim, devia dizer a
verdade mesmo a um assassino em busca de seu assassinando, por assim dizer.
Isso de Kant me parece bastante errado. Mas é um caso em discussão. Sem uma
comunidade de respeito a certos fatos e certos valores, é difícil a convivência
e o diálogo. O diálogo é crucial para desenvolver, a partir de fatos e valores
comuns, proposições importantes. No conflito direita-esquerda, em que a
esquerda defende políticas sociais mais generosas, eu diria mais justas e mais
igualitárias, é preciso que os dois tenham base nos fatos e em valores, quer
dizer, que haja um acordo geral sobre a igualdade de todo ser humano, sobre a
liberdade de todo ser humano, talvez até sobre, para completar o tríptico da
Revolução Francesa, talvez até sobre a fraternidade que devemos aos nossos
semelhantes. Mas, a partir disso, podemos discutir uma política adequada. Por
exemplo, o PSDB no governo adotou políticas sociais, o PT adotou políticas
sociais mais amplas, mais profundas, mas é inteiramente normal que, dentro de
uma democracia, haja um partido de mais à direita que adota políticas sociais
mais limitadas, porque acredita que a economia de mercado poderá proporcionar
inclusão grande e, por isso, se abstém de incentivos diretamente do governo; e,
por outro lado, o partido de esquerda quer que as políticas sociais sejam
essencialmente políticas públicas. Isso tudo é normal.
O
problema que temos hoje, e não apenas no Brasil, é haver um negacionismo muito
grande. O negacionismo afeta basicamente duas profissões: um que ataca a
ciência e teve como grande exemplo a sabotagem não apenas das vacinas contra a
Covid, mas, antes mesmo disso, a ação contra a medida de distanciamento físico.
Outro é o ataque aos jornalistas, que não hesita em usar fake news — lembrando
que este é apenas um eufemismo para a produção de mentira em escala industrial.
Ora, como vou dialogar com uma pessoa que, se você disser a ela “pesquisas
científicas mostram tais ou quais coisas”, dirá que não acredita nas pesquisas
científicas? E se você começar um diálogo com base em fatos, ela disser que tem
direito a ter uma opinião? Opinião é uma forma de conhecimento inferior à da
ciência, porque não tem prova, é apenas a doxa, como se diz em grego. Essa
perda do diálogo afeta não só a democracia como regime político, mas também o
próprio convívio das pessoas: famílias racharam em função do negacionismo.
·
Em sua análise das “sociedades dissidentes”, o afeto
ocupa lugar central na vida pública. Como evitar que essa potência afetiva seja
convertida em combustível para o ressentimento neofascista?
Sim, é
uma tese com a qual trabalho há muito tempo, ou seja, a de que o Brasil é uma
sociedade ocidental dissidente. Eu já pensei que a América Latina como um todo
fosse, mas hoje tenho certeza de que o Brasil é. E isso quer dizer o quê? Quer
dizer que temos valores comuns com o Ocidente, mas também somos diferentes
dele. Localizo essa diferença não na nossa miscigenação étnica, mas na
importância grande dada ao afeto em nossa cultura. E esse ponto para mim ficou
muito saliente, por exemplo, com o uso do coração em campanhas políticas,
inclusive de direita. Paulo Maluf em São Paulo: “Eu amo São Paulo” com o
coração; Antônio Carlos Magalhães na Bahia fazendo escrever “Salvador” com o
coração no lugar do “ó”. Há aqui o que chamei de “afeto autoritário”. Em
contraposição a ele, minha tese é que o PT apostou no afeto democrático, do
qual é exemplo a famosa metáfora de Lula comparando o ato de governar com o de
cuidar de uma jabuticabeira — sendo que a gente quer que a jabuticabeira dê
frutos rapidamente, mas ela demora de 7 a 10 anos. Temos que cuidar dela e ter
esperança, como ele disse várias vezes, mas assumindo ele o compromisso de que,
mesmo que demorasse, iria realizar o que prometeu. Esse discurso dele
contrastava com o de seu antecessor na presidência, Fernando Henrique Cardoso,
muito mais focado na razão, mas uma razão de senso comum. Aliás, quem me disse
isso foi o próprio Fernando Henrique, sem se gabar de forma alguma, não dizendo
que sua racionalidade fosse superior à emocionalidade de Lula, porque me disse:
“minha razão pública, razão quando eu falo à sociedade, é do nível do senso
comum”. Assim, em vez da metáfora da jabuticabeira, Fernando Henrique usava a
aula de Max Weber, sobre as duas éticas etc. Em suma, temos um afeto
autoritário que foi fartamente utilizado pela direita, uma racionalidade de
senso comum que foi uma marca dos oito anos do PSDB na presidência da
República, e um afeto democrático que é o eixo do PT. O problema que você
coloca é: estará o afeto sequestrado pelo ódio? Terá esse afeto democrático
completado o seu ciclo de vigência e teria sido substituído pelo ódio? Bom,
volto à eleição de 1989, retrocedamos. Nela vi uma contraposição entre um
discurso épico de esquerda, de Lula, e um discurso épico de direita, de
Fernando Collor de Mello, que acabou sendo eleito. Uma epopeia era prometida ao
Brasil pelos dois principais candidatos, os dois finalistas do segundo turno,
passando por pontos diferentes, mas eram discursos épicos, que queriam a
constituição de um país forte, uma utopia nos dois casos: uma utopia de
esquerda, uma utopia baseada na solidariedade, em políticas públicas, o
inverso, uma utopia de direita, uma utopia baseada no liberalismo e no
enriquecimento dos indivíduos. E nessa eleição de 1989 num segundo plano ficou
justamente o PSDB, que depois chegaria ao governo, mas que propôs, nele, um
discurso prosaico. Fernando Henrique é um mestre da prosa e fez não só uso da
prosa como fez um governo algo prosaico. Um jornalista, Elio Gaspari, criticava
com frequência o que parecia a ele uma espécie de farol baixo da presidência da
República. O problema é que, se houve num momento uma epopeia de direita,
Bolsonaro, contra o PT, não reciclou uma epopeia de direita, adotou um discurso
do ódio, da destruição. O discurso de Collor, embora tenha utilizado na reta
final da campanha eleitoral o golpe baixo de chamar a ex-namorada de Lula para
a TV para desqualificar a imagem de seu rival, era um discurso que prometia
vinho e mel, prometia muita felicidade. Já Bolsonaro diria, poucos meses depois
da sua posse, no almoço na embaixada brasileira em Washington, que sua intenção
era primeiro destruir para depois construir. Mas jamais disse o que queria
construir. Tanto é que os próprios ministérios foram desfalcados: ao deixar o
governo, a máquina pública estava bastante avariada. E esse é um problema
sério: precisamos ter uma máquina pública que funcione, da mesma forma que
precisamos que as metas fixadas pela Constituição, entre elas acabar com a
pobreza no Brasil, sejam realizadas. Não importa tanto se por uma via liberal,
como o PSDB tentou, ou por uma via progressista, como o PT se empenhou em
fazer. Mas o que não se pode é ir contra. O problema desses quatro anos de
Bolsonaro e do legado que ele deixou, e que ainda ameaça nossa eleição deste
final de ano de 2026, o problema é que continua forte, continua popular junto a
muitas pessoas, a ideia de que o que deve nos unir é o ódio, o que deve formar
a política brasileira é a situação de ódio de uns aos outros. Isso é
assustador. E nesse sentido, o propósito afetivo, talvez afetuoso, que o PT
encarnou, está em sérias dificuldades.
·
Diante da atual instabilidade geopolítica global, qual
deve ser a estratégia brasileira para preservar os investimentos em educação e
saúde pública contra as pressões de austeridade?
Esse
contexto está grave. Vê-se isso sobretudo na Europa. Na Europa, as injunções da
guerra da Ucrânia têm levado a maior parte dos países a reduzir os
investimentos sociais e a transferir esse dinheiro para despesas bélicas. Isso
pode ser até se entender, mas é assustador, porque com isso apenas se agravam
crises que já existem. Por quê? Porque a educação e a saúde são historicamente
subfinanciadas, embora no Brasil esse déficit seja bem maior. O custo da saúde
aumenta mais que a inflação, e da mesma forma, o custo de uma boa educação.
Mas, quando não só não se coloca mais dinheiro, porque não se quer taxar os
ricos, mas se tira dinheiro disso para desviar para despesas bélicas, a coisa
fica assustadora. No caso do Brasil, não são despesas bélicas, mas é a ameaça
da dívida. Temos um déficit fiscal que se amplia o tempo todo devido à política
de juros do Banco Central. Essa política de juros visa justamente aumentar o
déficit do Estado brasileiro e, com isso, permitir à direita reclamar do
déficit, clamando pelo corte em investimentos sociais. Há essa coisa
assustadora pela qual a direita procura inviabilizar os investimentos públicos,
as políticas sociais no Brasil e no resto do mundo. Isso é muito evidente nos
Estados Unidos com Trump 2, foi visível no Brasil com Bolsonaro e está
acontecendo na Europa a pretexto da guerra. Então, neste contexto, o que temos
que fazer? Temos que lutar para reverter isso. Uma pauta importante na Europa é
combater esse desvio de dinheiro para a guerra, procurar a paz. Essa paz não
vai ser boa, não vai ser justa, a Ucrânia provavelmente vai perder território,
mas é melhor uma paz ruim do que uma guerra péssima e sem fim. No Brasil, o que
devemos fazer é exigir uma taxação dos mais ricos, que pode passar por quatro
impostos: no âmbito federal, o imposto de renda da pessoa física, que deve ter
uma progressividade maior. É muito correto isentar até 5.000 BRL de renda
mensal, mas é preciso fazer com que as pessoas que recebem 10, 15 mil não
estejam sujeitas à mesma alíquota de quem recebe 100, 200 mil, 1 milhão por
mês. No âmbito estadual, temos dois impostos que é importante fazer crescer: um
imposto sobre transmissão de bens, conhecido como imposto de herança, hoje
muito baixo, enquanto nos Estados Unidos pode chegar a mais de 40%. Outro
imposto estadual que pode também ter progressividade é o IPVA, imposto sobre
propriedade de veículos automotores, que deveria ser progressivo, porque não
faz sentido que um carro de 50.000 BRL pague o mesmo percentual de um carro de
5 milhões, uma Lamborghini. Finalmente, no âmbito municipal, o imposto predial
e territorial urbano também deveria ser progressivo, de modo que as pessoas
mais ricas o paguem mais. Então, em síntese, trata-se de taxar a renda e o
patrimônio. Esta luta é fundamental. Temos a necessidade de mostrar à sociedade
que os mais ricos podem e devem contribuir mais do que os mais pobres para o
bem comum.
·
O jornalismo de profundidade busca a “longa duração” do
pensamento. Qual a importância dessa temporalidade lenta para a emancipação da
consciência crítica brasileira?
Temporalidade
lenta da imprensa? Estamos num tempo da rapidez. Alternamos as imagens num
celular de um instante para outro. As redes sociais multiplicam seus estímulos,
o que cria uma impaciência bastante grande. Perdemos a dimensão da paciência,
do foco, da concentração. Isso é complicado para quem lida com o conhecimento,
porque ele exige paciência, não se faz a jato. Isso tudo cria uma situação
muito difícil para nós todos, e temos que prestigiar a imprensa que faz
análises. Como os fatos chegam muito rapidamente, seja pela imprensa, seja
pelas redes sociais, o que falta é análise e discussão. Infelizmente, a
imprensa parece preferir colunistas de opinião a analistas com base sólida.
Fonte: Por
Renato Janine Ribeiro em entrevista a Thiago Gama, em Outras Palavras

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