quarta-feira, 18 de março de 2026

João Filho: Grande imprensa minimiza Centrão no escândalo do Banco Master e ajuda Flávio Bolsonaro

O empenho em sustentar a tese de que o escândalo do Banco Master é suprapartidário tem sido algo extraordinário. Volto ao tema porque o cinismo de parte do jornalismo brasileiro nesta semana foi alto demais até mesmo para os seus padrões. Mesmo que todos os dados da realidade apontem o consórcio bolsonarismo/Centrão como o centro operador do braço político de Vorcaro, a grande imprensa segue se fazendo de louquinha e tratando o caso como uma questão apartidária.

A turma que defende os interesses do banqueiro no Congresso é a mesma que há pouco tempo apoiou um golpe de estado. Ciro Nogueira, Antônio Rueda, Ibaneis Rocha, Tarcísio de Freitas e outros figurões do bolsonarismo mantiveram relações suspeitíssimas com Vorcaro. É a mesma turma que, agora, apoiará a candidatura do filho do líder golpista que está preso. Nesta semana, descobrimos que não foram só Tarcísio e Bolsonaro que ganharam uma bufunfa do banqueiro. Uma empresa do vice-presidente do União Brasil, ACM Neto, também recebeu sua bolada milionária.

<><> O foco no STF

Mesmo com todo o seu grupo político envolvido até o pescoço na lama de Vorcaro, Flávio Bolsonaro tem desfilado como candidato sem nenhuma gota de sujeira no paletó. Ele tem conquistado dividendos eleitorais com a blindagem do seu grupo político no caso Master. A recente subida da sua candidatura nas pesquisas de intenção de voto mostra que o escândalo não respingou nele.

Claro, a população está sendo mal informada. A volúpia da grande imprensa em denunciar o envolvimento dos ministros do Supremo Tribunal Federal, o STF, tem sido inversamente proporcional à sua disposição em apontar o envolvimento da extrema direita brasileira.

A aproximação de ministros do STF com Vorcaro é uma imoralidade indiscutível. Mesmo que não se comprove crime algum, a promiscuidade de membros da mais alta corte do país com um gângster do naipe de Vorcaro é uma mancha irrecuperável. Mas por que os bolsonaristas não estão sendo acossados nas manchetes como os ministros do STF?

<><> Protagonistas esquecidos

Os nomes de Ciro Nogueira e Antônio Rueda, presidentes de dois dos principais partidos que abrigam o bolsonarismo – o Progressistas e o União Brasil, respectivamente –, são pouco lembrados nas rodas de análise da mídia. Ocorre que ambos são os protagonistas políticos do escândalo.

Nogueira e Rueda eram os líderes da bancada do Vorcaro no Congresso. Em fevereiro, quando o ministro Dias Toffoli se viu obrigado a se retirar da relatoria do caso, os dois assinaram uma nota conjunta em sua defesa. “Nesse momento, é essencial nos atentarmos às narrativas que querem colocar a população contra Dias Toffoli e tudo que ele fez e faz pelo país enquanto ministro no STF”, afirmou a nota para defender o juiz amigo de Vorcaro. A dupla era tão próxima de Vorcaro que, em novembro de 2024, pegou uma caroninha no seu helicóptero de luxo para assistir à corrida de Fórmula 1, em São Paulo. Dez dias antes de apresentar a famigerada emenda Master, Nogueira, Rueda e Vorcaro se encontraram no casamento da filha de Ciro Nogueira.

Segundo as investigações da Polícia Federal, a dupla usou sua influência política para viabilizar a compra do Banco Master pelo Banco de Brasília,  o BRB. Rueda e Nogueira são apontados como interlocutores de Vorcaro no BRB. Foram eles que aproximaram o banqueiro do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha. Toda essa turma conspirou para usar recursos de um banco estatal para evitar o colapso do banco de Vorcaro.

Mesmo com essa pororoca de suspeitas, a dupla ainda não caiu no olho do furacão do noticiário. É mais fácil ver comentarista político analisando como o caso afeta a reeleição de Lula do que explicando como os articuladores políticos do Centrão operavam o esquema.

<><> Recadinhos para Flávio Bolsonaro

O nome de Ciro Nogueira, por exemplo, tem aparecido nas manchetes desta semana mandando recadinhos para Flávio Bolsonaro. “Ciro Nogueira diz que Flávio não pode repetir Lula e ‘governar para a bolha’”, manchetou O Globo, como se nada estivesse acontecendo. Obviamente, ele será um dos principais articuladores políticos da candidatura bolsonarista e já começou a barganhar.

A relação íntima da dupla do Centrão com o gângster tem sido subestimada no noticiário. Tudo tem sido publicado, é verdade, mas não está se dando o peso devido. A união entre Progressistas e União Brasil formou uma superfederação partidária, chamada de União Progressista, que hoje é a maior força política do Congresso.

‘A relação íntima da dupla do Centrão com o gângster tem sido subestimada no noticiário’.

Rueda e Nogueira comandam a maior bancada na Câmara, com 109 deputados, e no Senado, com 15 senadores. Eles têm o controle das principais pautas e do orçamento. A maior parte do Fundo Eleitoral, quase 20% do total, está nas mãos da federação comandada pela dupla. Não há nada de relevante que aconteça no parlamento que não passe pelo aval dessas duas figuras. Isso para não falar da expressiva representação desses partidos em nível municipal e estadual. É esse o peso da aliança política que trabalha a favor de Vorcaro. Desfrutar da intimidade dessa dupla em Brasília é tudo para um banqueiro corrupto. É ela quem faz a roda da politicagem girar.

<><> Protegido contra o escândalo

O fato é que, até agora, a candidatura de Flávio Bolsonaro está sendo blindada contra o escândalo do Banco Master. Ele tem desfilado por aí livre, leve e solto, sem ser questionado sobre as íntimas ligações da sua turma com a gangue de Vorcaro.

A população está mal informada sobre o caso. Segundo pesquisa Meio/Idea, 35% dos brasileiros associam o escândalo ao STF; 21%, ao governo federal; e 18%, ao Congresso Nacional. Quando se colocam todos no mesmo balaio, sem colocar na mira do noticiário quem realmente trabalha para o banqueiro, alimenta-se o sentimento antipolítica entre a população. Nós já conhecemos o fim desse filme. Enquanto isso, a bancada do Vorcaro segue operando livremente nos bastidores de Brasília para livrar o mafioso da cadeia.

•        Decisão de Flávio Dino sobre aposentadoria de juízes coloca milícias e Flávio Bolsonaro no foco. Por Joaquim de Carvalho

O juiz alcançado pela decisão de Flávio Dino sobre o fim da aposentadoria compulsória foi acusado de favorecer policiais militares que serviam a milícias — grupos que, por sua vez, mantinham ligações com o esquema de Flávio Bolsonaro, pré-candidato a presidente pelo PL. À frente da Vara Única de Mangaratiba, no Rio de Janeiro, o magistrado Marcelo Borges Barbosa reintegrou pelo menos 32 PMs afastados por cometer crimes a serviço da milícia.

Um dos bandidos de farda beneficiados foi o cabo Anderson de Souza Oliveira, o Mugão, expulso da PM em agosto de 2014. Ele foi acusado de participar do assassinato do também policial militar Anderson Luiz de Assis Santos, em outubro de 2011, numa disputa com Márcio Gabriel Simão — também cabo da polícia — pelo controle da milícia da favela do Quitongo, em Brás de Pina, na Zona Norte do Rio.

Mugão chegou a ficar três anos preso e, em 2016, entrou com uma ação em Mangaratiba para ser reintegrado à corporação. Conseguiu decisão favorável de Marcelo Borges Barbosa, embora não residisse na cidade nem tivesse sido acusado de cometer crimes na região. Os outros 31 PMs reintegrados pelo juiz também não moravam em Mangaratiba.

Investigado pela Corregedoria do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Borges Barbosa foi afastado do cargo. Mais tarde, o Conselho Nacional de Justiça decidiu aposentá-lo compulsoriamente — com salário, como era a prática até a decisão anunciada agora por Flávio Dino.

Mugão acabou assassinado em 2021, um ano depois de seu chefe, Adriano da Nóbrega, morrer na Bahia durante uma operação policial. Nóbrega era líder do Escritório do Crime, grupo que operava a partir da favela de Rio das Pedras e mantinha ligações com a família Bolsonaro.

Em 2004, Nóbrega foi elogiado na tribuna da Câmara pelo então deputado federal Jair Bolsonaro. Depois, recebeu benefícios do filho deste na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro: primeiro uma medalha, depois a nomeação da mulher e da mãe para cargos no gabinete, com salários elevados.

O próprio juiz acusado de favorecer PMs milicianos foi homenageado na Assembleia Legislativa do Rio por um aliado de Flávio Bolsonaro, Thiago Pampolha, do MDB. Pampolha foi eleito vice-governador em 2022 na chapa do bolsonarista Cláudio Castro e, no ano passado, acabou indicado para o Tribunal de Contas do Estado, numa articulação que buscava abrir caminho para a candidatura de Rodrigo Bacellar à sucessão de Castro.

Bacellar, porém, se inviabilizou politicamente depois de ser preso e passar a usar tornozeleira eletrônica, sob suspeita de envolvimento com o crime organizado. Pampolha voltou então a trabalhar nos bastidores por sua própria candidatura ao governo do Rio — e um dos apoios que busca é justamente o de Flávio Bolsonaro.

Com sua decisão, Dino acaba, involuntariamente, recolocando os holofotes sobre o juiz que favorecia milicianos e que, como indica a homenagem da Assembleia, tinha a admiração de Pampolha. Foi assim que o então deputado justificou a concessão da Medalha Tiradentes:

O homenageado atualmente é o juiz titular da Vara Única e do Juizado Criminal Adjunto e de Violência contra a Mulher da comarca de Mangaratiba. Além disso, exerce também a função de juiz eleitoral da 54ª Zona Eleitoral do Rio de Janeiro (Mangaratiba). O Dr. Marcelo Borges Barbosa tem demonstrado empenho, dedicação e probidade no exercício das funções públicas exercidas ao longo dos anos, notadamente no desempenho da magistratura, contribuindo assim para um estado mais justo e igualitário. Assim sendo, toda a sua trajetória de vida o torna merecedor desta justa homenagem.

Curiosamente, na mesma época da homenagem, em 2016, o miliciano Mugão iniciava o processo para voltar à PM. Três anos depois, a Corregedoria do Tribunal de Justiça do Rio abriria o procedimento que terminaria com a aposentadoria compulsória do magistrado — compulsória no nome, mas, na prática, uma aposentadoria premiada.

Agora, se o rito legal avançar com atenção aos fatos e às provas, Borges Barbosa deve continuar sem toga, mas com uma diferença importante: também sem salário. Ele pretendia voltar ao Judiciário, mas pode terminar na prisão, caso o processo a ser reaberto aponte crimes.

A decisão de Dino pode marcar o fim da era da semi-punição para juízes e o início de um período em que todos — inclusive magistrados — sejam tratados como iguais perante a lei. Um cenário institucional que pode mudar caso políticos ligados ou simpáticos às milícias, como Flávio Bolsonaro, cheguem ao poder.

 

Fonte: The Intercept/Brasil 247

 

Nenhum comentário: