João
Filho: Grande imprensa minimiza Centrão no escândalo do Banco Master e ajuda
Flávio Bolsonaro
O
empenho em sustentar a tese de que o escândalo do Banco Master é
suprapartidário tem sido algo extraordinário. Volto ao tema porque o cinismo de
parte do jornalismo brasileiro nesta semana foi alto demais até mesmo para os
seus padrões. Mesmo que todos os dados da realidade apontem o consórcio
bolsonarismo/Centrão como o centro operador do braço político de Vorcaro, a
grande imprensa segue se fazendo de louquinha e tratando o caso como uma
questão apartidária.
A turma
que defende os interesses do banqueiro no Congresso é a mesma que há pouco
tempo apoiou um golpe de estado. Ciro Nogueira, Antônio Rueda, Ibaneis Rocha,
Tarcísio de Freitas e outros figurões do bolsonarismo mantiveram relações
suspeitíssimas com Vorcaro. É a mesma turma que, agora, apoiará a candidatura
do filho do líder golpista que está preso. Nesta semana, descobrimos que não
foram só Tarcísio e Bolsonaro que ganharam uma bufunfa do banqueiro. Uma
empresa do vice-presidente do União Brasil, ACM Neto, também recebeu sua bolada
milionária.
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O foco no STF
Mesmo
com todo o seu grupo político envolvido até o pescoço na lama de Vorcaro,
Flávio Bolsonaro tem desfilado como candidato sem nenhuma gota de sujeira no
paletó. Ele tem conquistado dividendos eleitorais com a blindagem do seu grupo
político no caso Master. A recente subida da sua candidatura nas pesquisas de
intenção de voto mostra que o escândalo não respingou nele.
Claro,
a população está sendo mal informada. A volúpia da grande imprensa em denunciar
o envolvimento dos ministros do Supremo Tribunal Federal, o STF, tem sido
inversamente proporcional à sua disposição em apontar o envolvimento da extrema
direita brasileira.
A
aproximação de ministros do STF com Vorcaro é uma imoralidade indiscutível.
Mesmo que não se comprove crime algum, a promiscuidade de membros da mais alta
corte do país com um gângster do naipe de Vorcaro é uma mancha irrecuperável.
Mas por que os bolsonaristas não estão sendo acossados nas manchetes como os
ministros do STF?
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Protagonistas esquecidos
Os
nomes de Ciro Nogueira e Antônio Rueda, presidentes de dois dos principais
partidos que abrigam o bolsonarismo – o Progressistas e o União Brasil,
respectivamente –, são pouco lembrados nas rodas de análise da mídia. Ocorre
que ambos são os protagonistas políticos do escândalo.
Nogueira
e Rueda eram os líderes da bancada do Vorcaro no Congresso. Em fevereiro,
quando o ministro Dias Toffoli se viu obrigado a se retirar da relatoria do
caso, os dois assinaram uma nota conjunta em sua defesa. “Nesse momento, é
essencial nos atentarmos às narrativas que querem colocar a população contra
Dias Toffoli e tudo que ele fez e faz pelo país enquanto ministro no STF”,
afirmou a nota para defender o juiz amigo de Vorcaro. A dupla era tão próxima
de Vorcaro que, em novembro de 2024, pegou uma caroninha no seu helicóptero de
luxo para assistir à corrida de Fórmula 1, em São Paulo. Dez dias antes de
apresentar a famigerada emenda Master, Nogueira, Rueda e Vorcaro se encontraram
no casamento da filha de Ciro Nogueira.
Segundo
as investigações da Polícia Federal, a dupla usou sua influência política para
viabilizar a compra do Banco Master pelo Banco de Brasília, o BRB. Rueda e Nogueira são apontados como
interlocutores de Vorcaro no BRB. Foram eles que aproximaram o banqueiro do
governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha. Toda essa turma conspirou para
usar recursos de um banco estatal para evitar o colapso do banco de Vorcaro.
Mesmo
com essa pororoca de suspeitas, a dupla ainda não caiu no olho do furacão do
noticiário. É mais fácil ver comentarista político analisando como o caso afeta
a reeleição de Lula do que explicando como os articuladores políticos do
Centrão operavam o esquema.
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Recadinhos para Flávio Bolsonaro
O nome
de Ciro Nogueira, por exemplo, tem aparecido nas manchetes desta semana
mandando recadinhos para Flávio Bolsonaro. “Ciro Nogueira diz que Flávio não
pode repetir Lula e ‘governar para a bolha’”, manchetou O Globo, como se nada
estivesse acontecendo. Obviamente, ele será um dos principais articuladores
políticos da candidatura bolsonarista e já começou a barganhar.
A
relação íntima da dupla do Centrão com o gângster tem sido subestimada no
noticiário. Tudo tem sido publicado, é verdade, mas não está se dando o peso
devido. A união entre Progressistas e União Brasil formou uma superfederação
partidária, chamada de União Progressista, que hoje é a maior força política do
Congresso.
‘A
relação íntima da dupla do Centrão com o gângster tem sido subestimada no
noticiário’.
Rueda e
Nogueira comandam a maior bancada na Câmara, com 109 deputados, e no Senado,
com 15 senadores. Eles têm o controle das principais pautas e do orçamento. A
maior parte do Fundo Eleitoral, quase 20% do total, está nas mãos da federação
comandada pela dupla. Não há nada de relevante que aconteça no parlamento que
não passe pelo aval dessas duas figuras. Isso para não falar da expressiva
representação desses partidos em nível municipal e estadual. É esse o peso da
aliança política que trabalha a favor de Vorcaro. Desfrutar da intimidade dessa
dupla em Brasília é tudo para um banqueiro corrupto. É ela quem faz a roda da
politicagem girar.
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Protegido contra o escândalo
O fato
é que, até agora, a candidatura de Flávio Bolsonaro está sendo blindada contra
o escândalo do Banco Master. Ele tem desfilado por aí livre, leve e solto, sem
ser questionado sobre as íntimas ligações da sua turma com a gangue de Vorcaro.
A
população está mal informada sobre o caso. Segundo pesquisa Meio/Idea, 35% dos
brasileiros associam o escândalo ao STF; 21%, ao governo federal; e 18%, ao
Congresso Nacional. Quando se colocam todos no mesmo balaio, sem colocar na
mira do noticiário quem realmente trabalha para o banqueiro, alimenta-se o
sentimento antipolítica entre a população. Nós já conhecemos o fim desse filme.
Enquanto isso, a bancada do Vorcaro segue operando livremente nos bastidores de
Brasília para livrar o mafioso da cadeia.
• Decisão de Flávio Dino sobre
aposentadoria de juízes coloca milícias e Flávio Bolsonaro no foco. Por Joaquim
de Carvalho
O juiz
alcançado pela decisão de Flávio Dino sobre o fim da aposentadoria compulsória
foi acusado de favorecer policiais militares que serviam a milícias — grupos
que, por sua vez, mantinham ligações com o esquema de Flávio Bolsonaro,
pré-candidato a presidente pelo PL. À frente da Vara Única de Mangaratiba, no
Rio de Janeiro, o magistrado Marcelo Borges Barbosa reintegrou pelo menos 32
PMs afastados por cometer crimes a serviço da milícia.
Um dos
bandidos de farda beneficiados foi o cabo Anderson de Souza Oliveira, o Mugão,
expulso da PM em agosto de 2014. Ele foi acusado de participar do assassinato
do também policial militar Anderson Luiz de Assis Santos, em outubro de 2011,
numa disputa com Márcio Gabriel Simão — também cabo da polícia — pelo controle
da milícia da favela do Quitongo, em Brás de Pina, na Zona Norte do Rio.
Mugão
chegou a ficar três anos preso e, em 2016, entrou com uma ação em Mangaratiba
para ser reintegrado à corporação. Conseguiu decisão favorável de Marcelo
Borges Barbosa, embora não residisse na cidade nem tivesse sido acusado de
cometer crimes na região. Os outros 31 PMs reintegrados pelo juiz também não
moravam em Mangaratiba.
Investigado
pela Corregedoria do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Borges Barbosa foi
afastado do cargo. Mais tarde, o Conselho Nacional de Justiça decidiu
aposentá-lo compulsoriamente — com salário, como era a prática até a decisão
anunciada agora por Flávio Dino.
Mugão
acabou assassinado em 2021, um ano depois de seu chefe, Adriano da Nóbrega,
morrer na Bahia durante uma operação policial. Nóbrega era líder do Escritório
do Crime, grupo que operava a partir da favela de Rio das Pedras e mantinha
ligações com a família Bolsonaro.
Em
2004, Nóbrega foi elogiado na tribuna da Câmara pelo então deputado federal
Jair Bolsonaro. Depois, recebeu benefícios do filho deste na Assembleia
Legislativa do Rio de Janeiro: primeiro uma medalha, depois a nomeação da
mulher e da mãe para cargos no gabinete, com salários elevados.
O
próprio juiz acusado de favorecer PMs milicianos foi homenageado na Assembleia
Legislativa do Rio por um aliado de Flávio Bolsonaro, Thiago Pampolha, do MDB.
Pampolha foi eleito vice-governador em 2022 na chapa do bolsonarista Cláudio
Castro e, no ano passado, acabou indicado para o Tribunal de Contas do Estado,
numa articulação que buscava abrir caminho para a candidatura de Rodrigo
Bacellar à sucessão de Castro.
Bacellar,
porém, se inviabilizou politicamente depois de ser preso e passar a usar
tornozeleira eletrônica, sob suspeita de envolvimento com o crime organizado.
Pampolha voltou então a trabalhar nos bastidores por sua própria candidatura ao
governo do Rio — e um dos apoios que busca é justamente o de Flávio Bolsonaro.
Com sua
decisão, Dino acaba, involuntariamente, recolocando os holofotes sobre o juiz
que favorecia milicianos e que, como indica a homenagem da Assembleia, tinha a
admiração de Pampolha. Foi assim que o então deputado justificou a concessão da
Medalha Tiradentes:
O
homenageado atualmente é o juiz titular da Vara Única e do Juizado Criminal
Adjunto e de Violência contra a Mulher da comarca de Mangaratiba. Além disso,
exerce também a função de juiz eleitoral da 54ª Zona Eleitoral do Rio de
Janeiro (Mangaratiba). O Dr. Marcelo Borges Barbosa tem demonstrado empenho,
dedicação e probidade no exercício das funções públicas exercidas ao longo dos
anos, notadamente no desempenho da magistratura, contribuindo assim para um
estado mais justo e igualitário. Assim sendo, toda a sua trajetória de vida o
torna merecedor desta justa homenagem.
Curiosamente,
na mesma época da homenagem, em 2016, o miliciano Mugão iniciava o processo
para voltar à PM. Três anos depois, a Corregedoria do Tribunal de Justiça do
Rio abriria o procedimento que terminaria com a aposentadoria compulsória do
magistrado — compulsória no nome, mas, na prática, uma aposentadoria premiada.
Agora,
se o rito legal avançar com atenção aos fatos e às provas, Borges Barbosa deve
continuar sem toga, mas com uma diferença importante: também sem salário. Ele
pretendia voltar ao Judiciário, mas pode terminar na prisão, caso o processo a
ser reaberto aponte crimes.
A
decisão de Dino pode marcar o fim da era da semi-punição para juízes e o início
de um período em que todos — inclusive magistrados — sejam tratados como iguais
perante a lei. Um cenário institucional que pode mudar caso políticos ligados
ou simpáticos às milícias, como Flávio Bolsonaro, cheguem ao poder.
Fonte:
The Intercept/Brasil 247

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