Entre
universidades vigiadas e laboratórios desmantelados, a ciência brasileira
enfrentou sua própria noite política
A
história da ditadura militar brasileira costuma ser narrada por suas imagens
mais visíveis: censura, prisões arbitrárias, cassações políticas, tortura de
opositores. Esses episódios são essenciais para compreender o período
inaugurado pelo golpe de Estado no Brasil em 1964. No entanto, existe uma
dimensão menos explorada — embora profundamente relevante — que atravessa
aqueles anos: o impacto do autoritarismo sobre a universidade, a pesquisa
científica e a capacidade tecnológica do país. A disputa não ocorria apenas no
plano do poder político imediato. Ela também envolvia o controle das
instituições responsáveis pela produção de conhecimento.
Esse
tema aparece de forma particularmente sugestiva no filme O Agente Secreto. A
narrativa desloca o foco da repressão ideológica tradicional para o universo da
ciência. O conflito central envolve um pesquisador cuja investigação passa a
ser considerada inconveniente para determinados interesses políticos e
econômicos. Essa escolha dramática aponta para uma pergunta histórica pouco
explorada: qual foi o impacto da ditadura militar sobre a produção científica
brasileira?
Diversos
estudos acadêmicos indicam que universidades e centros de pesquisa sofreram
intervenções significativas durante o regime. O endurecimento político após o
Ato Institucional nº 5, decretado em 1968, ampliou a vigilância sobre o
ambiente universitário. Levantamentos historiográficos e pesquisas posteriores
indicam que cerca de 300 docentes do ensino superior foram afastados, demitidos
ou aposentados compulsoriamente ao longo da ditadura, de acordo com estudos
compilados por pesquisadores da história da ciência e da educação superior no
Brasil.
Um
episódio particularmente emblemático ocorreu em 1970 e ficou conhecido como
Massacre de Manguinhos. Naquele ano, dez cientistas do Instituto Oswaldo Cruz
foram aposentados compulsoriamente pelo regime militar, com base nos
instrumentos de exceção então vigentes. O instituto — hoje parte da Fundação
Oswaldo Cruz — perdeu cerca de 14% de seu quadro de pesquisadores, que, à
época, era composto por aproximadamente setenta cientistas.
Entre
os pesquisadores atingidos estavam figuras de projeção internacional, como o
entomologista Hermann Lent e o bioquímico Haity Moussatché. Lent era referência
mundial no estudo dos insetos transmissores da doença de Chagas. Moussatché
desenvolvia pesquisas relevantes em fisiologia e farmacologia. A aposentadoria
compulsória desses cientistas levou ao fechamento de laboratórios, à
interrupção de projetos científicos e ao desmonte de linhas de investigação que
haviam sido construídas ao longo de décadas.
O
impacto desse tipo de intervenção não se mede apenas em termos administrativos.
A ciência depende de continuidade institucional e de liberdade intelectual para
florescer. Quando projetos de pesquisa são interrompidos por razões políticas,
o prejuízo científico costuma se manifestar ao longo de muitos anos.
Esse
episódio ocorreu paralelamente a transformações estruturais no sistema
universitário brasileiro. Entre os elementos mais discutidos desse processo
estão os convênios firmados entre o Ministério da Educação e a United States
Agency for International Development, conhecidos como Acordos MEC-USAID.
Esses
acordos, firmados na década de 1960, tinham como objetivo declarado modernizar
a estrutura educacional brasileira. Eles introduziram reformas administrativas
e curriculares inspiradas no modelo universitário norte-americano. Muitos
historiadores reconhecem que tais reformas contribuíram para a organização do
sistema de pós-graduação no país. Ao mesmo tempo, diversos estudos críticos
apontam que essas mudanças também orientaram a universidade para a formação de
profissionais especializados, voltados às demandas do mercado industrial em
expansão.
Esse
processo coincidiu com o período conhecido como milagre econômico brasileiro.
Entre 1968 e 1973, o Produto Interno Bruto do país apresentou taxas de
crescimento muito elevadas. De acordo com séries históricas do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística, o crescimento anual do PIB ultrapassou
10% em alguns anos desse período.
Esse
crescimento acelerado foi acompanhado pela expansão da indústria brasileira.
Empresas multinacionais dos setores automotivo, químico e eletrônico instalaram
unidades produtivas no país, estimuladas por políticas de incentivo estatal e
pela ampliação do mercado interno.
Contudo,
a industrialização brasileira daquele período apresentava uma característica
importante: grande parte do conhecimento tecnológico continuava concentrada nas
matrizes estrangeiras. As fábricas instaladas no Brasil produziam bens
industriais, mas o desenvolvimento das tecnologias fundamentais permanecia fora
do país.
Essa
dinâmica foi descrita por diversos economistas latino-americanos ao longo do
século XX. Um dos mais influentes foi o economista argentino Raúl Prebisch,
cuja análise sobre a estrutura centro-periferia destacou a tendência da
economia global de concentrar inovação tecnológica nos países industrializados.
Indicadores
contemporâneos mostram que essa assimetria tecnológica permanece relevante.
Segundo dados da Organização Mundial da Propriedade Intelectual, o Brasil
responde por menos de 1% dos pedidos internacionais de patentes registrados no
sistema PCT, que reúne depósitos internacionais de propriedade intelectual.
Em
contraste, países que adotaram políticas intensivas de investimento em ciência
e tecnologia apresentam participação muito mais significativa nesse campo. A
Coreia do Sul, por exemplo, investe cerca de 4,9% de seu Produto Interno Bruto
em pesquisa e desenvolvimento, segundo dados da Organização para Cooperação e
Desenvolvimento Econômico. Israel investe mais de 5% do PIB nessa área.
Nos
Estados Unidos, os investimentos em pesquisa científica superam 3% do PIB, de
acordo com dados do Banco Mundial. A China também ampliou significativamente
seus investimentos nas últimas décadas, alcançando aproximadamente 2,5% do PIB
em pesquisa e desenvolvimento.
O
Brasil investe cerca de 1,2% do PIB em P&D, segundo estimativas da UNESCO.
Esse nível de investimento ajuda a explicar algumas das limitações estruturais
da capacidade tecnológica nacional.
Um
exemplo claro aparece na indústria farmacêutica. Estudos conduzidos pela
Fiocruz e por instituições ligadas ao setor indicam que mais de 90% dos insumos
farmacêuticos ativos utilizados na fabricação de medicamentos no Brasil são
importados. Em outras palavras, o país possui capacidade industrial para
formular e distribuir medicamentos, mas depende amplamente do exterior para a
produção das moléculas que constituem sua base científica.
Fenômeno
semelhante ocorre no setor agrícola. O Brasil tornou-se uma potência mundial na
produção de alimentos. No entanto, segmentos estratégicos, como sementes
geneticamente modificadas e defensivos agrícolas, apresentam forte presença de
grandes corporações multinacionais que dominam tecnologias e patentes nesse
campo.
Esse
padrão revela uma característica importante da economia brasileira
contemporânea: uma combinação de capacidade produtiva relevante com dependência
tecnológica significativa.
É nesse
contexto histórico que a narrativa de O Agente Secreto ganha densidade
simbólica. O personagem Armando, interpretado por Wagner Moura, representa o
pesquisador cuja atividade científica se torna incômoda porque ameaça
estruturas de poder estabelecidas.
Ao
colocar a ciência no centro do conflito dramático, o filme sugere uma reflexão
que ultrapassa o passado autoritário. Universidades e centros de pesquisa não
são apenas espaços de formação profissional. Eles são ambientes onde se
constroem conhecimentos capazes de alterar a posição de um país na economia
global.
A
história mostra que sociedades que alcançaram autonomia tecnológica investiram
sistematicamente em ciência, educação e inovação ao longo de décadas. Esse
investimento não produz resultados imediatos, mas cria condições para que novos
setores industriais e tecnológicos floresçam.
Quando
instituições científicas são enfraquecidas ou quando a liberdade intelectual é
restringida, o impacto pode ultrapassar gerações. Projetos de pesquisa
interrompidos deixam lacunas que raramente aparecem nos indicadores econômicos.
Talvez
seja essa a pergunta mais provocadora sugerida pela história evocada pelo
filme: não apenas o que aconteceu com a ciência brasileira durante a ditadura,
mas também quais caminhos tecnológicos deixaram de existir quando determinadas
portas institucionais foram fechadas.
Responder
a essa pergunta exige reconhecer que o desenvolvimento científico de um país
não depende apenas de talento individual. Ele depende de instituições robustas,
investimento contínuo e liberdade acadêmica.
Sem
esses elementos, mesmo sociedades com grande potencial humano podem permanecer
dependentes de tecnologias produzidas em outros lugares. E essa dependência,
mais do que qualquer episódio isolado, ajuda a moldar a posição de uma nação no
sistema econômico global
Fonte:
Por Washington Araújo, em Brasil 247

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