Quais
países poderão lucrar com a guerra no Irã — e quais serão os mais atingidos?
Guerras
raramente têm vencedores claros. E as populações civis costumam pagar o preço
mais alto.
Com os
mercados globais de energia e as cadeias de abastecimento desordenadas, alguns
países estão se preparando para enfrentar severas consequências econômicas. Mas
outros conseguiram encontrar novas oportunidades estratégicas em meio ao caos.
A
guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã trazem consequências dramáticas
para a região e para o mundo. Ela desestabilizou os países do Golfo e levou
centenas de milhares de pessoas a deixarem suas casas em todo o Oriente Médio.
Além da
zona de guerra, o pico dos preços do petróleo e a interrupção do tráfego
marítimo no Golfo, especialmente nas proximidades do Estreito de Ormuz, elevam
os custos para empresas e consumidores.
Mas
quais países podem sair ganhando ou perdendo em meio à crise?
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Rússia
O Irã é
um importante aliado e parceiro militar da Rússia.
A morte
do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei (1939-2026), marca mais um
revés para Moscou no campo externo, após a deposição de Bashar al-Assad, na
Síria, e a captura de Nicolás Maduro, na Venezuela, pelos Estados Unidos.
Ainda
assim, o conflito no Oriente Médio poderá oferecer à Rússia uma vantagem na sua
própria guerra, afastando os recursos militares americanos da Ucrânia.
“O
esgotamento dos interceptadores e mísseis Patriot é benéfico para a Rússia,
pois ele limita o que a Ucrânia pode conseguir no mercado”, explica à BBC News
Rússia a professora Nicole Grajewski, do Centro de Estudos Internacionais do
Instituto de Estudos Políticos de Paris, na França.
Mas a
maior demanda de drones iranianos Shahed por Teerã, provavelmente, não trará
impactos significativos às capacidades de Moscou na Ucrânia, segundo
especialistas.
“A
Rússia dependeu do Irã para cooperação no setor de defesa durante um período
muito específico, no início da guerra na Ucrânia, quando o Irã forneceu drones
Shahed e, o mais importante, a tecnologia de produção e licenças desses drones,
em 2022-2023”, explica à BBC News Hanna Notte, diretora para a Eurásia do
Centro de Estudos sobre Não Proliferação, nos Estados Unidos.
“Estamos,
agora, em um estágio em que a Rússia não precisa do Irã para prosseguir com a
guerra na Ucrânia”, prossegue ela. “A Rússia pode produzir drones Shahed
sozinha.”
Paralelamente,
o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã tem asfixiado o transporte de
petróleo e gás, fazendo os preços dos combustíveis dispararem.
Isso
pode dar um certo alívio financeiro para a Rússia, que sofre pressões
significativas devido à guerra na Ucrânia.
O
orçamento federal da Rússia considera a exportação do petróleo do país a US$ 59
por barril. Mas, agora, o preço do petróleo bruto aumentou significativamente e
chegou a atingir quase US$ 120 por barril.
E, com
a maior parte dos países do Golfo reduzindo sua produção, a Rússia pode
conseguir exportar mais petróleo para mercados importantes, como a China e a
Índia.
Na
última semana, o governo americano anunciou uma flexibilização de algumas
sanções relacionadas ao petróleo da Rússia.
A
medida prevê uma isenção temporária de cerca de 30 dias para permitir que
países comprem petróleo e produtos petrolíferos russos sancionados que já
estavam em navios no mar, numa tentativa de conter a alta global dos preços da
energia.
Embora
limitada, a medida pode facilitar temporariamente as exportações russas e gerar
receitas adicionais para Moscou.
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China
A China
ainda não sofreu efeitos graves da guerra no Irã. Mas ainda irá sentir as
pressões.
Apenas
cerca de 12% do petróleo bruto importado pela China vem do Irã, segundo o
Centro de Política Energética Global.
Além
disso, Pequim detém estoques de petróleo suficientes para vários meses e poderá
facilmente pedir ajuda à Rússia em seguida.
Mas o
“setor industrial orientado à exportação” da China também será atingido,
segundo Fyfe.
As
exportações representam cerca de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) chinês — o
valor total das mercadorias produzidas e dos serviços fornecidos pelo país.
Por
isso, elas se tornaram um importante motor da sua economia, prejudicada pela
queda dos preços dos imóveis e pelo fraco consumo doméstico.
A
interrupção do tráfego marítimo na região do Estreito de Ormuz não é um grande
problema para a China, mas chegar ao Oceano Atlântico é fundamental para os
produtos chineses que se dirigem ao Ocidente.
E, no
outro lado da Península Arábica, o Estreito de Bab el-Mandeb, que conecta a
Ásia, a Europa e a África, sofreu ataques dos houthis do Iêmen, uma milícia
armada apoiada pelo Irã.
“É
muito provável que o tráfego no mar Vermelho seja novamente muito prejudicado,
com navios cargueiros de longo curso da Ásia que desejam chegar à bacia do
Atlântico sendo desviados para contornar o sul da África e o Cabo da Boa
Esperança”, explica Fyfe.
“Existe
um alto custo a pagar por isso”, afirma o especialista em Oriente Médio Neil
Quilliam, do centro de estudos Chatham House, com sede em Londres.
O
trajeto “aumenta a viagem em 10 a 14 dias. E, dependendo da mercadoria, para um
navio médio, o custo adicional é de cerca de US$ 2 milhões.
Mas a
guerra no Irã pode oferecer oportunidades diplomáticas para a China, que tenta
se posicionar como um parceiro responsável em comparação com os Estados Unidos,
segundo Philip Shetler-Jones, do Instituto Real de Serviços Unidos de Estudos
de Defesa e Segurança (Rusi, na sigla em inglês).
O
presidente chinês, Xi Jinping, continuará projetando sua imagem como líder
global estável e previsível, em oposição ao líder americano, Donald Trump.
E o
conflito poderá também ser uma chance para Pequim “procurar indicações” sobre
como Trump pode reagir sobre outros temas polêmicos, como Taiwan, a ilha
autogovernada reivindicada pela China.
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Economias emergentes
Imensamente
dependentes do petróleo e gás do Oriente Médio, os países do sudeste asiático
devem ser fortemente atingidos pela guerra.
Alguns
deles já tomaram medidas drásticas de austeridade, na esperança de reduzir seus
impactos econômicos o mais cedo possível.
No
Vietnã, o preço do óleo diesel já aumentou em 60% desde o início da guerra. E o
governo pediu a todos que trabalhem de casa, quando possível.
As
Filipinas importam cerca de 95% do seu petróleo bruto do Oriente Médio. Os
funcionários do setor público do país, agora, trabalham quatro dias por semana,
exceto pelos serviços de emergência.
Restrições
similares foram impostas no Paquistão, com exceção dos bancos.
Sempre
que possível, foram emitidas ordens para que os funcionários trabalhassem de
casa e as aulas das universidades ocorrem via internet.
Em
pronunciamento pela televisão, o primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif
declarou que é fundamental conservar e racionar cuidadosamente as reservas de
combustível do país.
Em
Bangladesh, o governo enfrenta o pânico dos consumidores. Longas filas nos
postos de gasolina levaram ao racionamento. É permitida a compra de 10 litros
por dia para os carros e apenas dois litros para as motocicletas.
Mas as
consequências da guerra podem ir muito além da falta de energia.
Agricultores
de todo o mundo dependem de fertilizantes para abastecer o solo com nutrientes
necessários para o cultivo de alimentos e aumentar a resistência das safras.
Qualquer interrupção pode gerar insegurança alimentar global.
“30% da
ureia do mundo, matéria-prima para a fabricação de fertilizantes, passa pelo
Estreito de Ormuz”, explica Quilliam. “A ureia vem de produtos petroquímicos,
derivados do processo de refração de petróleo bruto.”
“Por
isso, se você retirar 30% da ureia dos mercados globais, haverá impactos
concretos sobre a segurança alimentar mundial.”
Após os
ataques às suas instalações, a QatarEnergy — um dos maiores exportadores de gás
do mundo e produtor de ureia para a fabricação de fertilizantes — precisou
declarar força maior, uma medida de emergência que permite às empresas
suspender temporariamente a produção e fornecimento.
“Você
poderá muito bem observar impactos em termos de segurança alimentar e inflação
daqui a seis a nove meses”, segundo Quilliam.
“Pode
ainda não se materializar, mas, à medida que a produção for prejudicada ou os
agricultores enfrentarem dificuldades para conseguir fertilizantes, veremos um
impacto de longo prazo.”
Fonte:
BBC News

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