POLÍTICA
URBANA: Verticalização, ideologia e privilégios
Nas
últimas semanas, a DW Brasil lançou uma reportagem chamada É assim que um
bairro morre?, com destaque à Vila Mariana (zona sul), um dos 96 distritos que
formam o município de São Paulo. Se está claro que o setor imobiliário é
operado, em grande medida, por elites brancas, também é verdade que as
deliberações técnicas e políticas na prefeitura envolvem, em grande medida, os
mesmos grupos sociais. Em toda mudança de gestão governamental, temos mudanças
nas cadeiras de chefia de secretarias consideradas estratégicas, sobretudo por
meio dos “cargos de confiança”, justamente para que a gestão tenha domínio
sobre a técnica produzida pelos funcionários públicos. É um dos traços
marcantes da política brasileira, a falta de continuidade da governança e das
políticas públicas.
Os
dados divulgados pela reportagem sobre os maiores números de alvarás aprovados
nas subprefeituras de Pinheiros e Vila Mariana não necessariamente significam
maiores problemas ou transformações no território. É uma visão de cidade muito
restrita no âmbito das transformações, como se essas acontecessem somente pela
produção imobiliária vertical. Bairros das zonas norte e leste da cidade são
frequentemente alvos de obras maiores, como a implantação de pátios do metrô
para estacionamento e manutenção do sistema, assim como outras obras de
infraestrutura que raramente levam em consideração a opinião da população. Foi
assim que o Jardim Têxtil, bairro entre a Vila Formosa e a Vila Carrão, perdeu
parte do Parque Linear Rapadura para a construção de um novo pátio da linha 02
– verde do metrô. É isso mesmo: a vegetação e uma parte de um parque público
foi suprimida em função de uma obra de transporte público. Situação semelhante
ocorreu há anos no Parque São Lucas, com a construção do pátio do monotrilho da
linha 15 – prata, e está em vistas de acontecer na zona industrial da Mooca. Na
zona norte, o Metrô em conjunto com a nova direção do Departamento do
Patrimônio Histórico (DPH) desqualificou o pedido de tombamento de elementos
culturais, históricos e ambientais da Pedreira Morro Grande, onde está em
construção o pátio da linha 06 – laranja, sem qualquer contemplação por parte
do Conpresp, o conselho municipal de preservação do patrimônio. Inclusive, não
vamos nos esquecer da implantação de um imenso empreendimento imobiliário nas
proximidades, em Pirituba, em uma área do tamanho do Parque Ibirapuera, além da
proposta de expansão do Aterro São João, entre o Parque São Rafael (zona leste)
e Mauá, no ABC Paulista.
A
reportagem seria mais completa (e justa) se entrevistasse a população das
favelas da Vila Mariana, que existem e sofrem muito mais pressão do que a
população dos sobrados, sobretudo por serem ocupações precárias e de população
principalmente negra. Podemos destacar a proposta de remoção da Favela Souza
Ramos para a construção do Túnel Sena Madureira, que teve mais repercussão pela
tentativa de desmatamento de arborização significativa do bairro. Ao
recuperarmos a história da cidade, foi na Vila Mariana que existiu a maior
favela de São Paulo no meio do século XX, a Favela do Vergueiro, removida por
interesses na construção do que hoje é o bairro da Chácara Klabin, um dos
setores de maior valor imobiliário do distrito. A favela de aproximadamente 200
mil metros quadrados de área deu lugar a prédios de médio e alto padrão,
perfilados lado a lado. São camadas da história urbana que vamos manter
apagadas?
Do
outro lado da Avenida Dr. Ricardo Jafet, já no distrito do Ipiranga, temos um
antigo incinerador que moradores da região tentam sua preservação e conversão
em uma Usina Eco Cultural. A própria avenida é um exemplo do que fizemos com
nossos rios ao sacrificá-los para passar carros. São muitas camadas disponíveis
para fomentar uma discussão mais proveitosa do que estratos sociais
privilegiados incomodados com prédios e se valendo de argumentos frágeis, como
de “zonas sensíveis” ou “zonas de exceção”. Mais sensível do que a desigualdade
que nos acomete enquanto sociedade?
É
totalmente legítimo que a população se manifeste e não faremos aqui, de maneira
alguma, uma espécie de censura às manifestações políticas de toda ordem, da
qual somos favoráveis ao tomarmos partido da democracia. Para nós, a reflexão
fundamental está na ideologia que constrói a arena das disputas socioespaciais
e suas consequências sobre uma sociedade profundamente desigual. A paralisação
de alvarás de demolição e construção de novos prédios na cidade serve ao
interesse dos grupos de uma parte da zona oeste e uma parte da zona sul,
incomodados com possíveis novas construções em seus territórios, que se
movimentaram politicamente para frear transformações indesejadas. Haja tempo e
dinheiro para tanto, não?
Porém,
para o restante da cidade, sempre na sombra dos debates da política urbana,
sobrou o ressentimento de manipulação, uma vez que aquilo que acontece em
nossos territórios não é digno de uma movimentação política (e jurídica) para
frear algo que para eles é considerado “cidade”. É esta hierarquização entre
territórios, típica do capitalismo e aprofundada pelo neoliberalismo, que a
torna uma mercadoria em todos os âmbitos: se por um lado a cidade é mercadoria
para o setor imobiliário e financeiro, onde empreendimentos verticais e
horizontais são produtos que se valem das qualidades do urbano existente para
vender suas unidades, por outro, a cidade também é mercadoria no aspecto
ideológico de grupos ricos que dominam o Estado – leia-se órgãos técnicos da
prefeitura e do governo estadual que deliberam os processos de cunho
urbanístico e ambiental.
A
combinação destas duas forças resulta em consequências para a coletividade,
afundada nas mais profundas desigualdades. E engana-se quem acredita que São
Paulo é pior nessa temática, sendo um problema que acomete todo o território
brasileiro, cada qual com seus desafios e problemáticas particulares à luz das
desigualdades regionais. No Rio de Janeiro, foram feitas manifestações de
moradores de Ipanema e Leblon (zona sul) contra a concessão do Jardim de Alah,
um parque ao redor do canal de conexão da Lagoa Rodrigo de Freitas com o mar.
Porto
Alegre também tem visto situações semelhantes, onde grupos de setores
privilegiados da sociedade se manifestam contra transformações em seus
territórios, os colocando no alto da pirâmide de importâncias da “cidade”.
Enquanto a construção de um novo edifício é questionada no estacionamento do
Shopping Total, na Rua Gonçalo de Carvalho, chamada de “a rua mais bonita do
mundo”, um vereador está propondo um projeto para instituir “direito à luz
natural” em imóveis. No entanto, cabe destacar que esse direito já existe
dentro do que se considera como projeto adequado de arquitetura, urbanismo e
engenharia, sendo um dos requisitos básicos de aprovação de qualquer projeto –
que sabemos que nem sempre é levado em consideração pelas forças de mercado.
Não seria mais válido reforçar a fiscalização dos conselhos de arquitetura e
urbanismo (CAU) e engenharia (CREA), bem como reforçar as condições do sistema
de aprovação da prefeitura? – a cada dia mais rápido para dar vazão ao mercado
imobiliário.
Destaque
para a cobertura vegetal da Rua Gonçalo de Carvalho. Fonte: Google Maps.
Aliás,
um dado é fundamental para entender do que estamos falando: quando algo se
refere aos territórios dos mais ricos, afirmam que é referente à “cidade”, ao
passo que quando é fora destes setores é entendido como “bairro”, “periferia”
ou outras palavras que reforçam as hierarquias. Por exemplo: enquanto Pinheiros
(zona oeste) e Vila Mariana (zona sul) são entendidos como São Paulo, como a
“cidade”, Tatuapé, Penha, Itaquera (zona leste), Tucuruvi, Casa Verde e
Freguesia do Ó (zona norte) são entendidos enquanto “zona leste”, “zona norte”,
“bairros” ou “periferias” distantes, descoladas da “cidade de fato”. E não é
somente o mercado imobiliário que produz essa estrutura, havendo uma série de
trabalhos técnicos da prefeitura e pesquisas acadêmico-científicas que a
reproduzem. Portanto, não nos cabe ingenuidade ao trabalhar com a política
urbana – que é necessário sublinhar que ignora o meio rural, tratado pela régua
do urbano hegemônico. Assim, Marsilac e Parelheiros (zona sul) são vistos
enquanto ambientes precários e distantes, de ordem inferior no conjunto da
metrópole.
Os
mesmos incomodados com o que chamam de “verticalização predatória” deveriam
bater na sobrevida da Zona Exclusivamente Residencial de São Paulo, que protege
os bairros-jardins das velhas elites há mais de 50 anos das transformações que
acometem toda a metrópole. São bairros de advogados poderosos, famílias de
arquitetos da elite, juízes, desembargadores, artistas influentes e
empresários, inclusive do próprio setor imobiliário. Seus antepassados
garantiram sua blindagem por via de mão dupla, tanto pela lei de zoneamento,
quanto pelo instrumento de tombamento de alguns desses bairros, como os Jardins
e o Pacaembú. Em toda a cidade são cerca de 40 km2 de zonas exclusivamente e/ou
predominantemente residenciais, sendo que mais da metade estão no sudoeste da
cidade, justamente entre as centralidades financeiras. Não é por acaso: as
mesmas elites que criaram seus bolsões de moradia para brancos e ricos,
construíram seus espaços de trabalho próximos das suas casas (mansões).
Se
aqueles que clamam por “justiça” contra prédios na Vila Mariana, em Pinheiros e
Perdizes se dizem tão contrários ao sistema, deveriam se opor a essa estrutura
parasitária de bairros feudais, que emanam segregação por meio da própria
legislação e manipulação da máquina pública para garantia de privilégios.
Enfrentar essa estrutura é o primeiro passo para o mínimo de justiça
socioespacial. Estamos dispostos a enfrentar o capitalismo, o neoliberalismo e
a ordem social posta, hierarquizada, ou queremos apenas reclamar do que está aí
quando o barulho de obras é no terreno ao lado? Cabe a reflexão.
Fonte:
Por Lucas Chiconi Balteiro, no Le Monde

Nenhum comentário:
Postar um comentário