Provas da existência de Deus (ou Hume e o
Caju)
Já
tinha lido, mas agora fiz uma leitura mais atenta do famoso livro de David
Hume, “Diálogos sobre a Religião Natural” (EDUFBA, 2016, tradução, notas e
posfácio de Bruna Frascolla).
Não é
uma leitura fácil, mas é muito reveladora do pensamento de Hume e também das
polêmicas próprias de sua época.
Já se
disse que o século 18 foi obcecado pela questão da existência de Deus, enquanto
o século 19 de alguma forma deixou de lado o problema, concentrando-se mais na
História e nas ciências.
Mas na
época do cético escocês, houve uma tendência entre os filósofos, como o bispo
Butler, de adotarem a “religião natural” ou experimental, que visava a
conciliar a fé religiosa com as descobertas e avanços da ciência natural a
partir do século 16. O próprio Newton, descobrindo e constatando a precisão e a
maravilha do movimento dos corpos celestes, atribui a um Ser Superior a causa
última de todo esse mecanismo.
William
Paley veio depois de Hume, mas resumiu a tendência com seu “argumento do
relojoeiro” a favor da existência de Deus. Uma tal precisão nos mecanismos do
mundo não poderia ser atribuída ao acaso, como não cogitaríamos de que um
relógio encontrado numa praia deserta tivesse aparecido ali do nada, sem a
intervenção de um Relojoeiro competente.
Nos
Diálogos, Hume contrapõe três personagens, dos quais Cleantes representa esse
teísta que retira a sua fé da analogia entre as máquinas criadas pelo homem e o
universo que a elas se assemelha, apontando para a existência de um Criador
racional. Na filosofia isso também é conhecido como o argumento teleológico, ou
mais recentemente como “argumento do design inteligente”.
O
personagem Filão, aquele que mais incorpora o pensamento de Hume, passará o
livro tentando mostrar que esse “teísmo experimental” não é suficientemente
embasado e racional. Não poderíamos comparar grandezas tão diferentes como a
construção de uma casa com a criação do mundo, e por isso a analogia perderia
força. Filão lança mão de outros argumentos contrários à existência de Deus,
como o chamado “argumento do mal”. Por que esse Ser, benevolente e
todo-poderoso, permitiria o mal no mundo?
O outro
personagem dos Diálogos é também um teísta, Dêmas, mas sua fé não quer se
basear na razão e nem nos argumentos empíricos adotados por Cleantes. O homem
chega logicamente à existência de Deus, como ser necessariamente existente (o
que remete ao chamado argumento ontológico ou de Santo Anselmo, que Hume chama
de “a priori”), mas nada, absolutamente nada sabe sobre sua natureza. A fé não
pode ser racional, mas um ato afetivo de entrega, motivado pela consciência de
nossa miséria. Um salto no escuro quando a razão é impotente, no dizer de
Kierkegaard.
Curiosamente,
surge uma aliança entre o cético Filão e o teísta Dêmeas, ambos rebatendo a “fé
racional” de Cleantes. E de fato, segundo Hume, na defesa da fé, os religiosos
muitas vezes repudiaram e desfizeram da razão humana, da mesma forma que os
filósofos céticos.
Eu
transito com leveza entre argumentos a favor e contra a existência de Deus.
Penso que Filão/Hume em geral têm razão em muitas das críticas que fazem ao
argumento teleológico, aquele do Relojoeiro. A ordem não precisaria
obrigatoriamente advir de um Ser superior e racional a que denominamos Deus.
Até porque, como Filão repete alguma vezes, ficaríamos ainda sem explicação
quanto à origem e a natureza de Deus.
Mas há
um elemento que eu modestamente acresceria aos Diálogos. Certa feita morei numa
casa modesta, com um cajueiro na frente. Eu adorava as frutas. Numa daquelas
manhãs, uma delas estava dependurada, em todo o seu esplendor, exatamente à
altura da minha mão — com seu propalado “polegar opositor” capaz de colhê-la de
imediato. Algo como um oferecimento.
Apesar
de todo o mal existente, o mecanismo do mundo pode às vezes revestir-se de
muita beleza, quiçá de benevolência.
Se o
episódio do caju não fez de mim um “teísta experimental”, pelo menos o guardei
como exemplo rematado do chamado argumento teleológico.
Fonte:
Por Paulo Gustavo Guedes Fontes, na Conjur

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