Na
Colômbia, a esquerda cresce e a direita se reorganiza
Em 8 de
março a Colômbia voltou às urnas. Não só o Congresso foi renovado — com 183
representantes na Câmara e 103 senadores —, como também houve mudanças nos
diversos blocos políticos do país. Três primárias interpartidárias disputaram a
indicação presidencial. De um lado, estava a chamada Grande Consulta, onde
convergiam a direita e a extrema-direita. Mais ao centro, estava a Consulta de
Soluções. E, paralelamente, o campo próximo ao Pacto Histórico se agrupou sob o
nome de Frente pela Vida. O Pacto decidiu participar com listas fechadas, uma
estratégia concebida para evitar a divisão dos votos e para conter, tanto
quanto possível, a antiga máquina de clientelismo e pressão sobre o eleitorado.
A direita, por outro lado, optou por listas abertas, um formato que
historicamente coexistiu muito bem com essas mesmas práticas. O Pacto Histórico
consolidou-se como a principal força política do país, conquistando quase 4,4
milhões de votos.
A
direita e a extrema-direita participaram das primárias com uma ampla gama de
candidatos e conseguiram mobilizar um número significativo de eleitores. Quase
cinco milhões de pessoas participaram das primárias. Paloma Valencia, a
candidata apoiada pelo ex-presidente Álvaro Uribe, acabou vencendo.
Ela garantiu a vitória com aproximadamente 3,2 milhões de votos, alcançando
assim seu objetivo de se consolidar como a principal figura desse setor
político. Em segundo lugar ficou Juan Daniel Oviedo, ex-diretor do Departamento
Administrativo Nacional de Estatística (DANE), que obteve quase 1,2 milhão de
votos. Embora consideravelmente atrás de Valencia, esse resultado o posicionou
bem dentro da direita, buscando se apresentar como uma alternativa mais
tecnocrática, menos atrelada às máquinas políticas tradicionais. Por sua vez,
Abelardo de la Espriella, que cultivou uma relação próxima com o republicanismo
estadunidense dentro do campo de Uribe, decidiu ficar de fora das primárias,
buscando manter uma imagem de independência em relação às estruturas mais
consolidadas da ala direita de Uribe. Essa manobra não é nova. Faz parte de uma
estratégia de duas frentes que os apoiadores de Uribe já utilizaram antes. Algo
semelhante aconteceu em 2022, quando essa facção acabou jogando com duas cartas
simultaneamente: por um lado, a candidatura oficial do ex-prefeito Federico
“Fico” Gutiérrez e, por outro, a do empresário Rodolfo Hernández, apresentado
como uma opção supostamente independente.
Mas a
expectativa de que De la Espriella se consolidasse como uma espécie de terceira
via nesse espaço político não se materializou completamente. Seu partido,
Salvação Nacional — fundado em 1990 pelo líder conservador Álvaro Gómez
Hurtado, que mais tarde foi assassinado — mal conseguiu conquistar 3,6% do
eleitorado. Isso se traduziu em três cadeiras no Senado, um resultado modesto
que, além disso, deixa a organização à beira de perder sua legalidade devido ao
fraco desempenho nas urnas. Assim, Álvaro Uribe se vê novamente com dois
candidatos alinhados à sua esfera política, ambos com um teto eleitoral
relativamente limitado dentro da extrema-direita. Nesse contexto, Juan Daniel
Oviedo surge como um potencial aliado para ampliar a base e incluir setores menos
radicalizados. Com esses resultados, o ex-diretor do DANE — talvez a figura
mais moderada do bloco — está bem posicionado para negociar uma possível
vice-presidência ou até mesmo para se lançar como candidato à prefeitura de
Bogotá nas eleições de 2027. O centro político também saiu enfraquecido do
pleito. O desempenho do Partido Verde e seus aliados nas eleições legislativas
corroeu ainda mais a já frágil identidade desse ponto do espectro político. Na
Consulta de Soluções, a ex-prefeita Claudia López obteve 574.670 votos, um
contraste gritante com os 1.108.541 votos que a levaram ao Palácio de Liévano
em 2019.
No
âmbito legislativo, o Partido Verde também sofreu um duro golpe, perdendo
figuras importantes em ambos os lados do espectro político. Inti Asprilla,
próximo ao Pacto Histórico, perdeu sua cadeira. Katherine Miranda e Angélica
Lozano, representantes da ala direita, também não conseguiram se reeleger. O
resultado demonstrou claramente a crise do “centro verde” como projeto
político. Essa fragilidade tornou-se ainda mais evidente com os votos obtidos
pelo influenciador Jota Pe Hernández, conhecido por sua admiração
por Nayib Bukele. Hernández obteve 158.457 votos, tornando-se o terceiro
congressista mais votado nas listas abertas. Ele foi superado apenas por Nadia
Blel — membro do clã Blel, uma família poderosa do departamento de Bolívar,
ligada a grupos paramilitares — e Lidio García Turbay, também ligado a um dos
clãs tradicionais daquele departamento (é importante ressaltar que García
Turbay é membro do grupo político liderado pelo ex-senador Álvaro García
Romero, seu primo, que em 2010 foi condenado pelo Supremo Tribunal de Justiça
por sua participação no massacre de Macayepo em 2000, perpetrado por
paramilitares das Autodefesas Unidas da Colômbia). Em resumo, as três maiores
votações nas listas abertas de direita foram para dois representantes de clãs
políticos historicamente ligados às redes de poder que acompanharam a
institucionalização do paramilitarismo na costa caribenha, juntamente com um projeto
político de cunho libertário que se inspira na estética e no discurso de
Bukele.
Do
outro lado do espectro político, a Frente pela Vida obteve um resultado
bastante modesto. Após a decisão do Conselho Nacional Eleitoral de impedir Iván
Cepeda de participar das primárias interpartidárias, o Pacto Histórico decidiu
não apoiar formalmente a campanha da Frente. Roy Barreras, que durante anos foi
um militante do Uribismo antes de se alinhar ao campo progressista, obteve
cerca de 360.000 votos. Ainda assim, Barreras e Daniel Quintero seguiram em
frente com as primárias, que acabaram por angariar 595.837 votos. O resultado
revelou claramente o declínio político de Barreras. As máquinas políticas
regionais que o apoiaram durante anos como operador político retiraram o seu
apoio, ao passo em que ele nunca conseguiu consolidar uma base verdadeiramente
sólida nos setores da esquerda. O homem que aspirava mobilizar mais de 3
milhões de votos ficou muito aquém desse objetivo. Hoje, Barreras surge como
uma figura enfraquecida no campo progressista, com uma capacidade muito menor
de mobilizar apoio do que a que projetava no início da campanha.
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A violenta democracia colombiana
Após
quatro anos no governo, o avanço do Pacto Histórico no Senado começa a mostrar
uma tendência que não passou despercebida. Embora seja um processo gradual, um
certo nível de confiança institucional em seu projeto político parece estar
crescendo. O bloco progressista aumentou sua representação na câmara alta de 20
para 25 cadeiras, e a recontagem ainda pode recuperar pelo menos mais duas
vagas. Isso não seria inédito. Já aconteceu em 2022. Naquela época, a
recontagem recuperou aproximadamente 570 mil votos que não haviam sido
contabilizados inicialmente para o Pacto. Esse processo permitiu que o bloco
aumentasse de 16 para 20 senadores. As quatro cadeiras recuperadas haviam sido
originalmente destinadas ao Partido do U, grupo que por anos serviu como um dos
principais veículos políticos de Álvaro Uribe, antes de romper com seu
sucessor, Juan Manuel Santos, e decidir fundar o Centro Democrático em 2013. No
cenário atual, o Centro Democrático aparece como a segunda maior força no
Senado, com 17 cadeiras, enquanto o Partido Liberal ocupa o terceiro lugar com
13. Assim, o mapa político da casa é liderado pelo Pacto Histórico com 25
cadeiras, seguido pelo Uribismo com 17 e pelo Partido Liberal com 13. A
situação na Câmara dos Representantes, por sua vez, ainda está em
desenvolvimento. A contagem de votos está progredindo de forma um tanto lenta,
portanto o quadro final ainda não está totalmente claro. No entanto, projeções
preliminares sugerem que o bloco progressista também poderá crescer
significativamente. De acordo com estimativas do Sistema Público de Mídia RTVC,
o Pacto aumentaria sua representação de 26 para cerca de 38 cadeiras na Câmara
Baixa. Contudo, o fato de a recontagem ter tanto peso em comparação com a
contagem inicial levanta questões profundas sobre o funcionamento do sistema
eleitoral colombiano. O que se torna evidente de maneira reiterada é a
existência de uma estrutura parainstitucional que permeia todos os aspectos da
vida política do país. A perda, alteração ou desaparecimento de votos dificilmente
pode ser entendida como um simples “erro técnico”. Faz parte de um conjunto de
práticas que, ao longo da história, têm sido utilizadas para bloquear ou
eliminar adversários políticos. Nesse repertório aparecem mecanismos
familiares: compra de votos, pressão clientelista, guerra jurídica, perseguição
política, proscrição de partidos, coerção armada e até episódios de chacinas
políticas ou magnicídios.
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Reação conservadora?
O antigo
sistema bipartidário liberal-conservador havia conseguido reunir uma parcela
significativa da oposição no Congresso nas eleições de 2022. No entanto, as
eleições de 8 de março transformaram mais uma vez a composição partidária da
câmara baixa. O resultado obtido pelo Centro Democrático, partido de Álvaro
Uribe, não só o consolida como a segunda maior força política do país —
ultrapassando até mesmo o Partido Liberal —, como também remodela o panorama da
direita. Seu avanço eleitoral enfraqueceu partidos que durante anos detiveram
considerável influência (como o Mudança Radical) e empurrou o Partido
Conservador para a quinta posição no equilíbrio de poder no Congresso. A
presença de Álvaro Uribe já havia alterado o equilíbrio do sistema político
tradicional na década de 2000. Naquela época, a recomposição da direita era
impulsionada por setores emergentes da elite econômica, os chamados “novos
ricos”, que consolidaram seu poder em meio à expansão do capital ligado ao
narcotráfico e sua subsequente projeção internacional durante o governo Ronald
Reagan. Com o tempo, esse segmento da burguesia se integrou firmemente à
estrutura de poder colombiana. Sua consolidação foi acompanhada por recorrentes
casos de ligações entre os setores político e empresarial e redes de
narcotráfico, grupos paramilitares, exportação de mercenários e diversos
escândalos relacionados ao tráfico de armas em áreas de fronteira,
especialmente quando essas regiões estavam sob governos considerados
“incômodos” para os Estados Unidos.Esse bloco de poder político, financeiro e
militar opera de maneira relativamente coesa e se move de acordo com interesses
geopolíticos alinhados a Washington. Estruturalmente, trata-se de uma burguesia
transnacional. Nesse sentido, a suposta derrota eleitoral de Álvaro Uribe como
candidato ao Senado assemelha-se menos a uma retirada do que a uma simples
manobra tática dentro desse mesmo bloco de poder. Em vez de um “colapso da
direita”, está em curso um processo de reorganização interna. O crescimento do
Centro Democrático e o declínio do Partido Conservador sugerem uma
redistribuição de papéis dentro desse mesmo campo político. O uribismo está
novamente na ofensiva, enquanto o conservadorismo abre caminho e funciona —
como historicamente tem funcionado — como um terreno fértil para a
administração pública e uma frente institucional para os setores mais
concentrados do poder real.
A base
política de Álvaro Uribe está envolta em controvérsias desde sua época como
deputado federal na década de 1990. Diversas investigações apontaram ligações
entre setores de seu círculo político e familiar e o Cartel de Medellín.
Posteriormente, durante seus dois mandatos como presidente (2002-2010),
investigações conduzidas por Gustavo Petro e Iván Cepeda ajudaram a evidenciar
a extensão do fenômeno da “parapolítica”, no qual mais de 35% do Congresso foi
investigado por supostos vínculos com as Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) e
redes de narcotráfico. Essa rede nunca foi totalmente processada. As
investigações avançaram de forma fragmentada, deixando vastas áreas de
impunidade na relação entre poder político, paramilitarismo e economias
ilegais. Nesse contexto, o chamado “dinheiro fácil” — o fluxo de capital
originado dessas redes — torna-se uma variável fundamental para entender como a
direita colombiana está se reorganizando hoje. Os eventos recentes parecem
reforçar essa interpretação. Operações do Plano Democracia da Polícia Nacional
revelaram quase 4 bilhões de pesos supostamente destinados à compra de votos.
Os escândalos envolveram setores tanto do Centro Democrático quanto do Partido
Liberal. No entanto, esses casos apenas arranham a superfície de um fenômeno
muito mais profundo, enraizado na persistência de estruturas de poder que
combinam fundos ilícitos, influência política e capacidade coercitiva. Diversas
acusações feitas pelo presidente Gustavo Petro também apontam para a possível
existência de uma rede de narcotráfico conhecida como “Nova Junta”. As
acusações alegam que essa rede opera por meio de conexões políticas e
financeiras que se estendem muito além do território colombiano. Elas traçam o
alcance de seus nós logísticos e financeiros até Dubai, capital dos Emirados
Árabes Unidos, o que dá uma ideia do nível de transnacionalização alcançado por
essas estruturas. Nesse contexto, o processo eleitoral colombiano de 2026 não é
apenas uma disputa eleitoral entre partidos. É uma oportunidade para vislumbrar
com mais clareza os fios da recomposição de um bloco de poder que combina
política, capital e redes ilegais, e que continua a ter uma enorme capacidade
de influenciar o rumo institucional do país.
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O peso do antibolivarianismo
As
origens divisivas e profundamente militarizadas dessa burguesia colombiana
transnacionalizada remontam à reação histórica contra um dos projetos políticos
mais ambiciosos surgidos após a independência: a visão de Bolívar de uma
América Latina integrada. Essa visão tomou forma concreta no Congresso
Anfictiônico do Panamá, em 1826, convocado por Simón Bolívar com o objetivo de
unir as novas repúblicas e construir uma confederação que combinasse
diplomacia, defesa e uma política comum diante das potências estrangeiras. Dois
séculos depois, essa primeira tentativa de integração continental é uma
lembrança distante. Mas mesmo em sua época, o projeto enfrentou enormes
obstáculos. Rivalidades entre as elites locais, interesses comerciais
divergentes e pressões externas acabaram por enfraquecer o sonho de Bolívar de
uma América politicamente unificada. A história pessoal de Bolívar, de certa
forma, reflete o fracasso desse projeto político. O Libertador morreu doente e
famélico enquanto tentava deixar o país rumo ao exílio em Santa Marta. Algo
semelhante aconteceu com vários daqueles que tentaram dar continuidade ao seu
legado político na Colômbia. Um deles foi o General José María Melo, um oficial
militar bolivariano que liderou um breve governo reformista em 1854. Seu
projeto foi finalmente derrotado por uma aliança entre facções conservadoras e
liberais tradicionais. Após anos de exílio e lutas na América Central, Melo foi
assassinado em 1860 no sul do México. Décadas mais tarde, Rafael Uribe Uribe,
general liberal e uma das últimas figuras a propor a possibilidade de
reintegração territorial entre a Colômbia e a Venezuela, teve um destino
igualmente trágico. Em 1914, foi assassinado a golpes de facão no centro de
Bogotá, a poucos metros do centro histórico da cidade e da praça que hoje leva
o nome de Simón Bolívar.
No
início do século XX, a perda do Canal do Panamá e a ascensão da hegemonia
conservadora consolidaram uma profunda mudança na orientação internacional do
país. A doutrina Respice Pollum (“olhar para o norte”),
promovida pelo presidente conservador Marco Fidel Suárez entre 1918 e 1921,
postulava que a política externa colombiana deveria ser orientada
principalmente para os Estados Unidos, tornando Washington o principal ponto de
referência estratégico do país. Essa orientação acabou gerando uma inércia
política duradoura. Com o tempo, a relação privilegiada com os Estados Unidos
tornou-se um dos pilares estruturais da política externa colombiana,
suplantando os projetos de integração regional autônoma que haviam definido a
visão de Bolívar no século XIX.
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A família Valencia e a questão Cauca
O
departamento de Cauca parece concentrar uma parcela significativa das tensões
históricas do país atualmente. Não é coincidência que tanto Iván Cepeda quanto
sua adversária política, Paloma Valencia, sejam originários dessa região do
sudoeste da Colômbia, onde os sobrenomes funcionam quase como arquivos
históricos. Em lugares como Popayán, a linhagem familiar ainda importa — e
muito — para entender como o poder, a terra e a política foram distribuídos ao
longo dos séculos. O sobrenome Valencia traça uma genealogia que abrange
diversos momentos cruciais da história colombiana: a economia escravista da era
colonial, o conservadorismo aristocrático do século XX e as estratégias de
contrainsurgência que definiram a Guerra Fria na América Latina. Paloma Valencia,
atual senadora e figura proeminente do movimento político de Uribe, provém
precisamente dessa linhagem. Sua família pertence aos clãs que dominaram a
elite de Popayán durante séculos e estiveram ligados à mineração e à exploração
de terras no litoral do Pacífico colombiano, sustentadas pelo trabalho escravo
de africanos e indígenas. As origens do poder dessa família remontam ao século
XVIII, com Pedro Agustín de Valencia y Fernández del Castillo, o primeiro Conde
da Casa Valencia em Popayán. Como membro da aristocracia colonial de Cauca, sua
riqueza se baseava na posse simultânea de fazendas, minas de ouro e escravos.
Seus domínios se estendiam por territórios próximos aos rios Yurumanguí,
Cajambre e Naya, na costa do Pacífico, onde grupos de africanos escravizados
eram forçados a trabalhar nas minas que impulsionavam o comércio colonial de
ouro. Foi em torno dessas minas e fazendas que a família Valencia consolidou
sua posição econômica e social, tornando-se uma das linhagens mais influentes
da aristocracia de Popayán.
No
início do século XX, emergiu outra figura-chave dessa mesma linhagem: Guillermo
Valencia. Poeta modernista, líder do Partido Conservador e candidato à
presidência em 1930, seu nome é geralmente lembrado mais por sua obra literária
do que por sua influência política. Mas Guillermo Valencia representava um
setor do conservadorismo colombiano que, nas décadas de 1930 e 1940, via com
simpatia as correntes hispanistas e corporativistas expressas no regime de
Francisco Franco e na doutrina da Falange Espanhola. A continuidade do poder
familiar foi então projetada em seu filho, Guillermo León Valencia, presidente
da Colômbia entre 1962 e 1966. Seu governo coincidiu com um dos períodos mais
intensos da Guerra Fria na América Latina, quando os Estados Unidos promoveram
estratégias de contrainsurgência para conter a expansão dos movimentos
guerrilheiros no continente. Foi nesse contexto que, em 1964, o governo lançou
a ofensiva militar contra Marquetalia, um importante bastião da resistência
armada camponesa. A mobilização conhecida como Operação Marquetalia —
oficialmente chamada de Operação Soberania — teve início em 18 de maio de 1964,
por ordem do presidente Valencia. O exército colombiano mobilizou
aproximadamente 16.000 soldados para atacar uma área habitada por cerca de
1.000 pessoas. Destas, apenas algumas dezenas de camponeses estavam armados,
liderados pelo liberal Manuel Marulanda Vélez e pelo líder
comunista Jacobo Arenas. Após a operação militar, esse pequeno grupo conseguiu
se refugiar nas montanhas. Com o tempo, essa experiência formaria o núcleo das
Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).
A
importância da candidata uribista Paloma Valencia, portanto, só pode ser
compreendida ao situá-la no longo continuum histórico que se estende das minas
de escravizados do Pacífico colonial às estratégias de contrainsurgência da
Guerra Fria. Sua trajetória política ilustra como certas linhagens familiares
conseguiram navegar por diferentes estágios do Estado colombiano, adaptando-se
a cada contexto. Hoje não é diferente. A história política de Cauca também
ajuda a compreender a persistência dos conflitos na região. Deu origem a
inúmeros movimentos organizacionais que desafiaram as estruturas tradicionais
dos clãs escravistas, como o grupo guerrilheiro indígena que adotou o nome do
líder do povo Nasa, Quintín Lame, ativo entre 1984 e 1991; a Primeira Frente
das FARC; o Conselho Regional Indígena de Cauca (CRIC); e o Processo de Unidade
Popular do Sudoeste da Colômbia (PUPSOC). Todas essas iniciativas, de
diferentes maneiras, questionaram o legado colonial e as hierarquias raciais
que ainda moldam a arquitetura urbana e a estrutura social de cidades como
Popayán. Em 16 de maio de 2015, Paloma Valencia propôs a divisão do
departamento de Cauca em dois: um para os povos indígenas e outro para as
populações mestiças. Para muitos setores sociais e indígenas da região, essa
ideia evocou uma lógica de segregação territorial que lembrava o apartheid. Ao
longo de sua carreira, a senadora defendeu posições extremistas em questões de
segurança, apoiando políticas fortemente criticadas por organizações de
direitos humanos, como o escândalo dos chamados “falsos positivos”, a perseguição a
líderes de esquerda e os atentados a bomba que mataram menores em zonas de
conflito.
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Quilcué frente à Paloma bélica
Em
contraste com a longa tradição oligárquica de Cauca, com clãs que concentraram
o poder político e econômico por séculos, surge hoje uma figura que vem da
mesma região, mas com uma história completamente diferente. Trata-se de Aida
Marina Quilcué Vivas. Na última segunda-feira, 9 de março, um dia após as
eleições legislativas, o candidato presidencial do Pacto Histórico, Iván Cepeda
— filho do senador de Cauca e comunista Manuel Cepeda, assassinado em 1994
durante o extermínio da União Patriótica — anunciou que a atual senadora
indígena seria sua companheira de chapa para a vice-presidência nas eleições de
31 de maio. Com essa decisão, a campanha do Pacto Histórico busca projetar para
o cenário presidencial líderes que emergiram de lutas sociais e territoriais,
especialmente de comunidades que foram excluídas do poder estatal por séculos.
Quilcué, de 53 anos, é hoje uma das vozes indígenas mais reconhecidas do país.
Nascida na comunidade Nasa, na reserva Piçkwe Tha Fiw, em Cauca, sua trajetória
está profundamente ligada ao movimento indígena colombiano. Ela participou de
organizações importantes como o Conselho Regional Indígena de Cauca (CRIC) e a
Organização Nacional Indígena da Colômbia (ONIC), onde liderou mobilizações,
processos de defesa territorial e propostas de paz elaboradas dentro das
comunidades. Ela também foi uma das líderes que participaram dos diálogos com
as antigas FARC e contribuiu para a redação do capítulo étnico do Acordo de Paz
Final, assinado em 2016. Em 2022, Aida Quilcué foi eleita para o Senado pela
circunscrição especial indígena, com o apoio do Movimento Alternativa Indígena
e Social (MAIS). Desde então, integra a Primeira Comissão, um dos órgãos
legislativos mais influentes do Congresso, onde trabalha em questões
relacionadas aos direitos humanos, à construção da paz e ao reconhecimento da
jurisdição própria dos povos indígenas. Dois anos depois, em 2024, foi eleita
presidente da Comissão Jurídica para a Paz e o Pós-Conflito, o que consolidou
sua presença no bloco progressista alinhado ao governo de Gustavo Petro.
Sua
trajetória política também é marcada por conflitos armados. Em 2008, seu
marido, Edwin Legarda, foi assassinado por membros do exército na estrada entre
Inzá e Popayán. O Estado colombiano acabou reconhecendo sua responsabilidade
pelo crime e seis soldados foram condenados. Desde então, Quilcué vive sob
constantes ameaças. Em 2022, sua equipe de segurança foi atacada a tiros e, em
fevereiro, há poucas semanas, ela foi sequestrada em Cauca, de onde acabou
sendo libertada graças à pressão e mobilização da Guarda Indígena. Iván Cepeda
apresentou sua candidatura como uma aliança em defesa dos direitos humanos, da
paz e das lutas históricas dos povos indígenas. A liderança de Quilcué surge
como expressão de uma longa tradição de resistência comunitária que enfrentou
décadas de violência, racismo, desapropriação e exclusão de seus territórios.
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As pedras de Sísifo
Os
resultados das eleições de 8 de março apresentam um paradoxo difícil de
ignorar. Por um lado, a esquerda obteve uma de suas conquistas mais
significativas em toda a história republicana colombiana. Ao mesmo tempo, os
resultados evidenciam a continuidade de uma dinâmica de poder fechada que,
originada no Congresso, se estende a grande parte dos órgãos de controle do
Estado, chegando a abranger a própria Comissão Nacional Eleitoral. O CNE,
criado em 1888 durante o período conhecido como Hegemonia Conservadora, é
composto por magistrados eleitos pelo próprio Congresso. Em outras palavras,
aqueles que controlam as maiorias parlamentares acabam influenciando
diretamente a instituição responsável por fiscalizar as regras do processo
eleitoral. Na prática, isso significa que o panorama político do Congresso se
reflete quase automaticamente no CNE. Nos últimos anos, o órgão tem sido
composto por figuras intimamente ligadas ao movimento político de Uribe, como
Álvaro Hernán Prada, condenado por obstrução de justiça e suborno de
testemunhas no caso contra o ex-presidente Álvaro Uribe, e o deputado César
Lorduy, acusado de feminicídio e também ligado à mesma facção política. Mas
essa forma de reprodução do poder não se limita apenas à esfera eleitoral.
Dinâmicas semelhantes podem ser observadas em outras instituições-chave do
sistema político e judiciário colombiano, como o Conselho de Estado, os
tribunais superiores, a Procuradoria-Geral da República, a Inspetoria-Geral da
República e a Controladoria-Geral da República. Em conjunto, essas estruturas
tendem a consolidar um clima institucional no qual as forças de direita
conseguem estender sua influência para além do âmbito estritamente legislativo.
Outro elemento preocupante está relacionado às Cadeiras da Paz, criadas após os
acordos de 2016 entre o Estado colombiano e as FARC com o objetivo de ampliar a
representação política em áreas rurais afetadas pelo conflito. Em alguns casos,
essas cadeiras acabaram nas mãos de figuras ligadas a famílias paramilitares
(um dos exemplos mais controversos é o de Jorge Tovar, filho de Rodrigo Tovar
Pupo, vulgo “Jorge 40”, um dos mais notórios perpetradores das AUC).Diante
dessa situação, corrigir o que muitos consideram um “sequestro institucional”
exigiria uma profunda reforma política. No entanto, uma transformação dessa
magnitude dificilmente seria aprovada pelo atual Congresso. Portanto, setores
progressistas começam a considerar outra solução: lançar uma grande mobilização
nacional para abrir caminho para uma assembleia constituinte. Para um possível
governo liderado por Iván Cepeda, essa discussão poderia se tornar uma das
tarefas políticas mais urgentes diante do persistente impasse dentro do sistema
político.
Fonte: Por Diana
Carolina Alfonso - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

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