EUA
avançam sobre minerais do Brasil e excluem o próprio país
18 de
março de 2026, não foi um dia comum. Foi o dia em que os Estados Unidos deram
um passo explícito para reorganizar o controle sobre os minerais críticos
brasileiros sem o Brasil. Em um evento articulado pela Embaixada americana com
governos estaduais, bancos e interesses privados, desenha-se uma operação
clara: acessar terras raras, lítio e outros recursos estratégicos diretamente
no território, contornando o governo federal e fragmentando a capacidade de
decisão nacional. Não se trata de cooperação. Trata-se de poder. Trata-se de
geopolítica. E trata-se, sobretudo, de um erro grave do próprio Estado
brasileiro, que, ao não antecipar o debate público e não mobilizar a sociedade
para compreender o que está em jogo, permite que essa disputa aconteça longe
dos olhos do povo. Quando a sociedade não sabe, ela não reage. E quando não
reage, perde. O que está em curso hoje não é um acordo econômico. É uma disputa
direta pelo futuro do país.
Em São
Paulo, sob liderança da Embaixada dos Estados Unidos, reuniu-se um conjunto de
atores que não se encontra por acaso: governos estaduais, bancos
internacionais, fundos estratégicos, empresas de mineração e representantes do
aparato estatal norte-americano. O tema é técnico apenas na aparência. Minerais
críticos. Terras raras. Cadeias produtivas. O conteúdo real é outro. Poder.
Soberania. Controle.
O que
está em curso não é cooperação econômica. É a reorganização deliberada do
acesso a recursos estratégicos em um país que ocupa posição central no
tabuleiro global. O Brasil detém algumas das maiores reservas de minerais
críticos do mundo, incluindo terras raras, lítio, níquel e nióbio, insumos
fundamentais para a produção de semicondutores, baterias, sistemas de
inteligência artificial, equipamentos militares e infraestrutura energética. Em
outras palavras, trata-se da base material do século XXI. Quem controla essas
cadeias não controla apenas mercados. Controla tecnologia, defesa, informação
e, em última instância, a própria hierarquia do sistema internacional.
Nesse
contexto, os Estados Unidos se movem com clareza estratégica. Buscam reduzir
sua dependência da China, que hoje domina a produção e, sobretudo, o refino
global de terras raras. Para isso, reorganizam cadeias produtivas em países
considerados politicamente acessíveis e economicamente integráveis. O Brasil
surge como peça-chave dessa equação. Não por acaso, o evento de hoje não foi
genérico. Foi direcionado, estruturado, financiado. Houve presença de
instituições como EXIM Bank e DFC, instrumentos clássicos da projeção de poder
econômico norte-americano. Não se trata de mercado livre. Trata-se de política
industrial externa operando em escala global.
O ponto
mais grave, no entanto, não é a presença dos Estados Unidos. É a forma como
essa presença se organiza no território brasileiro. O que se viu hoje foi uma
negociação direta com estados, especialmente com Goiás, contornando o governo
federal. Esse movimento não é técnico. É político. Ele fragmenta a capacidade
de decisão nacional, desloca o centro da negociação para entes mais vulneráveis
à pressão por investimento imediato e cria uma dinâmica de competição interna
por capital externo. Na prática, estabelece-se um bypass da soberania nacional.
Esse
tipo de operação não é novo na história. Ele se insere em um padrão clássico de
reorganização de periferias estratégicas, no qual o controle não se dá
necessariamente por imposição direta, mas por articulação institucional,
financeira e territorial. A diferença é que, no século XXI, esse processo se dá
em torno de cadeias tecnológicas altamente complexas, o que aumenta
exponencialmente seus efeitos. Não estamos falando apenas de extração mineral.
Estamos falando da estrutura material que sustenta a inteligência artificial, a
economia digital, a indústria de defesa e a transição energética.
E é
aqui que se revela o núcleo do problema brasileiro. O país não está apenas
sendo pressionado externamente. Está falhando internamente. O governo federal,
que deveria liderar essa disputa, antecipar o debate público e mobilizar a
sociedade em torno de uma agenda estratégica de soberania mineral e
tecnológica, não está fazendo isso na escala e na intensidade necessárias. Sua
ausência no evento de hoje não é apenas um gesto diplomático. É um sintoma.
Enquanto os Estados Unidos operam com método, capital e clareza de objetivos, o
Brasil permanece incapaz de transformar esse tema em questão pública central.
Isso é
um erro estratégico grave. Porque disputas dessa natureza não se vencem apenas
em mesas de negociação. Elas se vencem também no campo da opinião pública. Sem
compreensão social do que está em jogo, não há pressão política, não há
legitimidade para decisões duras e não há capacidade de enfrentamento. Quando a
sociedade não sabe, ela não reage. E quando não reage, outros decidem por ela.
O risco
que se desenha é conhecido, ainda que em nova forma. O Brasil pode entrar no
século mineral da mesma maneira que entrou em ciclos anteriores de sua história
econômica: como fornecedor de matéria-prima e consumidor de tecnologia. Pode
extrair terras raras, mas não dominar seu refino. Pode exportar lítio, mas
importar baterias. Pode produzir nióbio, mas não controlar as cadeias
industriais que dele dependem. Em suma, pode continuar sendo potência em
recursos e periferia em poder.
A
diferença é que, desta vez, as consequências são mais profundas. Porque os
minerais críticos não são apenas commodities. São infraestrutura. São condição
de possibilidade para qualquer projeto de soberania informacional, tecnológica
e industrial. Sem controle sobre essas cadeias, não há autonomia em
inteligência artificial, não há independência em sistemas digitais, não há
capacidade de defesa compatível com a complexidade do mundo contemporâneo.
O que
se viu hoje foi um passo concreto na direção de consolidar esse modelo de
dependência. Um movimento articulado, financiado e legitimado por atores
internos e externos, que avança sobre o território brasileiro enquanto a
maioria da população sequer tem conhecimento do que está acontecendo. Isso não
é apenas um problema de política econômica. É um problema de projeto nacional.
O
Brasil ainda tem margem de manobra. Ainda pode definir regras, construir
cadeias internas, articular política industrial, mobilizar universidades,
centros de pesquisa e empresas nacionais. Ainda pode transformar sua base
mineral em base de poder. Mas essa janela não é infinita. E ela se fecha na
medida em que decisões estratégicas são tomadas sem debate público, sem
transparência e sem participação social.
O que
aconteceu hoje precisa ser entendido pelo que é. Não como um evento técnico,
não como uma agenda de investimentos, mas como um momento de inflexão. Um
momento em que a disputa pelo futuro do Brasil deixou de ser abstrata e se
materializou em acordos, reuniões e estratégias concretas. Ignorar isso é abrir
mão de decidir. E, em geopolítica, quem não decide é decidido.
Este
texto é, portanto, um alerta. Porque o que está em jogo não é apenas o subsolo
brasileiro. É o lugar do Brasil no século XXI.
¨
Caiado firma acordo com EUA para exploração de minerais
críticos em Goiás
O
governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), assinou nesta quarta-feira (18) um
memorando de entendimento com o governo dos Estados Unidos para estabelecer uma
parceria voltada à exploração de minerais críticos e terras raras no estado. O
documento foi formalizado no Consulado Geral dos EUA em São Paulo e prevê
cooperação em áreas como pesquisa, capacitação e desenvolvimento de um ambiente
regulatório competitivo.
O
acordo ainda não possui força de lei e não detalha mecanismos operacionais ou
incentivos fiscais para empresas do setor. A assinatura contou com a presença
do encarregado de negócios da embaixada norte-americana, Gabriel Escobar, que
representou o país.
<><>
Goiás busca agregar valor à produção mineral
Goiás
concentra atualmente a única operação de extração de terras raras em atividade
no Brasil, localizada em Minaçu, no norte do estado. A exploração é conduzida
pela mineradora Aclara, e o novo acordo busca ampliar o papel do estado na
cadeia produtiva desses recursos estratégicos.
Segundo
Caiado, a iniciativa pretende transformar Goiás em um polo que vá além da
exportação de matéria-prima. “Esta parceria hoje assinada, ela propõe o
desenvolvimento do estado, o auxílio do mapeamento dos nossos potenciais
minerais, e também absorver a tecnologia, avançar na pesquisa, para que Goiás
não seja apenas um exportador de matéria bruta”, afirmou o governador.
<><>
Estados Unidos sinalizam interesse em ampliar cooperação
Embora
o memorando não apresente detalhes concretos sobre a cooperação científica e
tecnológica, o representante norte-americano indicou disposição para avançar
nas negociações. “Como dizemos nos Estados Unidos, este é um acordo win-win”,
declarou Gabriel Escobar. “Isto vai abrir as portas para mais investimento,
mais cooperação e parceria científica, econômica e vários tipos de outros
assuntos".
Empresas
americanas interessadas na iniciativa não foram mencionadas oficialmente no
documento. No entanto, um evento promovido pela Câmara Americana de Comércio
(Amcham), realizado logo após a assinatura, reuniu representantes do setor e
discutiu oportunidades no segmento de minerais críticos.
<><>
Disputa estratégica por minerais ganha força
Os
Estados Unidos vêm ampliando sua atuação internacional para garantir acesso a
minerais estratégicos, essenciais para setores como energia limpa, mobilidade
elétrica e indústria tecnológica. Um fórum organizado em São Paulo listou sete
projetos potenciais no Brasil, sendo cinco em Minas Gerais, um no Piauí e outro
na Bahia.
Apesar
do avanço em nível estadual, as negociações entre o governo norte-americano e o
governo federal brasileiro ainda não apresentaram novos resultados nas últimas
semanas. Escobar afirmou esperar progresso nessas tratativas, mas não indicou
prazos.
A
embaixada dos EUA confirmou que David Copleu, integrante do Conselho de
Segurança Nacional, deve desembarcar no Brasil ainda nesta semana para discutir
especificamente a exploração de minerais críticos.
<><>
Importância estratégica dos minerais
Os
minerais críticos e as terras raras têm papel central na economia global
contemporânea. Elementos como lítio e cobalto são fundamentais para baterias de
veículos elétricos e sistemas de energia limpa. Já metais como disprósio e
térbio são utilizados em equipamentos militares de alta tecnologia.
Além
disso, a indústria de semicondutores depende de minerais como gálio e germânio,
o que reforça o interesse internacional por reservas localizadas no Brasil,
especialmente em regiões como Goiás, que despontam como estratégicas nesse
cenário global competitivo.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon Gonçalves, em Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário