quinta-feira, 19 de março de 2026

EUA avançam sobre minerais do Brasil e excluem o próprio país

18 de março de 2026, não foi um dia comum. Foi o dia em que os Estados Unidos deram um passo explícito para reorganizar o controle sobre os minerais críticos brasileiros sem o Brasil. Em um evento articulado pela Embaixada americana com governos estaduais, bancos e interesses privados, desenha-se uma operação clara: acessar terras raras, lítio e outros recursos estratégicos diretamente no território, contornando o governo federal e fragmentando a capacidade de decisão nacional. Não se trata de cooperação. Trata-se de poder. Trata-se de geopolítica. E trata-se, sobretudo, de um erro grave do próprio Estado brasileiro, que, ao não antecipar o debate público e não mobilizar a sociedade para compreender o que está em jogo, permite que essa disputa aconteça longe dos olhos do povo. Quando a sociedade não sabe, ela não reage. E quando não reage, perde. O que está em curso hoje não é um acordo econômico. É uma disputa direta pelo futuro do país.

Em São Paulo, sob liderança da Embaixada dos Estados Unidos, reuniu-se um conjunto de atores que não se encontra por acaso: governos estaduais, bancos internacionais, fundos estratégicos, empresas de mineração e representantes do aparato estatal norte-americano. O tema é técnico apenas na aparência. Minerais críticos. Terras raras. Cadeias produtivas. O conteúdo real é outro. Poder. Soberania. Controle.

O que está em curso não é cooperação econômica. É a reorganização deliberada do acesso a recursos estratégicos em um país que ocupa posição central no tabuleiro global. O Brasil detém algumas das maiores reservas de minerais críticos do mundo, incluindo terras raras, lítio, níquel e nióbio, insumos fundamentais para a produção de semicondutores, baterias, sistemas de inteligência artificial, equipamentos militares e infraestrutura energética. Em outras palavras, trata-se da base material do século XXI. Quem controla essas cadeias não controla apenas mercados. Controla tecnologia, defesa, informação e, em última instância, a própria hierarquia do sistema internacional.

Nesse contexto, os Estados Unidos se movem com clareza estratégica. Buscam reduzir sua dependência da China, que hoje domina a produção e, sobretudo, o refino global de terras raras. Para isso, reorganizam cadeias produtivas em países considerados politicamente acessíveis e economicamente integráveis. O Brasil surge como peça-chave dessa equação. Não por acaso, o evento de hoje não foi genérico. Foi direcionado, estruturado, financiado. Houve presença de instituições como EXIM Bank e DFC, instrumentos clássicos da projeção de poder econômico norte-americano. Não se trata de mercado livre. Trata-se de política industrial externa operando em escala global.

O ponto mais grave, no entanto, não é a presença dos Estados Unidos. É a forma como essa presença se organiza no território brasileiro. O que se viu hoje foi uma negociação direta com estados, especialmente com Goiás, contornando o governo federal. Esse movimento não é técnico. É político. Ele fragmenta a capacidade de decisão nacional, desloca o centro da negociação para entes mais vulneráveis à pressão por investimento imediato e cria uma dinâmica de competição interna por capital externo. Na prática, estabelece-se um bypass da soberania nacional.

Esse tipo de operação não é novo na história. Ele se insere em um padrão clássico de reorganização de periferias estratégicas, no qual o controle não se dá necessariamente por imposição direta, mas por articulação institucional, financeira e territorial. A diferença é que, no século XXI, esse processo se dá em torno de cadeias tecnológicas altamente complexas, o que aumenta exponencialmente seus efeitos. Não estamos falando apenas de extração mineral. Estamos falando da estrutura material que sustenta a inteligência artificial, a economia digital, a indústria de defesa e a transição energética.

E é aqui que se revela o núcleo do problema brasileiro. O país não está apenas sendo pressionado externamente. Está falhando internamente. O governo federal, que deveria liderar essa disputa, antecipar o debate público e mobilizar a sociedade em torno de uma agenda estratégica de soberania mineral e tecnológica, não está fazendo isso na escala e na intensidade necessárias. Sua ausência no evento de hoje não é apenas um gesto diplomático. É um sintoma. Enquanto os Estados Unidos operam com método, capital e clareza de objetivos, o Brasil permanece incapaz de transformar esse tema em questão pública central.

Isso é um erro estratégico grave. Porque disputas dessa natureza não se vencem apenas em mesas de negociação. Elas se vencem também no campo da opinião pública. Sem compreensão social do que está em jogo, não há pressão política, não há legitimidade para decisões duras e não há capacidade de enfrentamento. Quando a sociedade não sabe, ela não reage. E quando não reage, outros decidem por ela.

O risco que se desenha é conhecido, ainda que em nova forma. O Brasil pode entrar no século mineral da mesma maneira que entrou em ciclos anteriores de sua história econômica: como fornecedor de matéria-prima e consumidor de tecnologia. Pode extrair terras raras, mas não dominar seu refino. Pode exportar lítio, mas importar baterias. Pode produzir nióbio, mas não controlar as cadeias industriais que dele dependem. Em suma, pode continuar sendo potência em recursos e periferia em poder.

A diferença é que, desta vez, as consequências são mais profundas. Porque os minerais críticos não são apenas commodities. São infraestrutura. São condição de possibilidade para qualquer projeto de soberania informacional, tecnológica e industrial. Sem controle sobre essas cadeias, não há autonomia em inteligência artificial, não há independência em sistemas digitais, não há capacidade de defesa compatível com a complexidade do mundo contemporâneo.

O que se viu hoje foi um passo concreto na direção de consolidar esse modelo de dependência. Um movimento articulado, financiado e legitimado por atores internos e externos, que avança sobre o território brasileiro enquanto a maioria da população sequer tem conhecimento do que está acontecendo. Isso não é apenas um problema de política econômica. É um problema de projeto nacional.

O Brasil ainda tem margem de manobra. Ainda pode definir regras, construir cadeias internas, articular política industrial, mobilizar universidades, centros de pesquisa e empresas nacionais. Ainda pode transformar sua base mineral em base de poder. Mas essa janela não é infinita. E ela se fecha na medida em que decisões estratégicas são tomadas sem debate público, sem transparência e sem participação social.

O que aconteceu hoje precisa ser entendido pelo que é. Não como um evento técnico, não como uma agenda de investimentos, mas como um momento de inflexão. Um momento em que a disputa pelo futuro do Brasil deixou de ser abstrata e se materializou em acordos, reuniões e estratégias concretas. Ignorar isso é abrir mão de decidir. E, em geopolítica, quem não decide é decidido.

Este texto é, portanto, um alerta. Porque o que está em jogo não é apenas o subsolo brasileiro. É o lugar do Brasil no século XXI.

¨      Caiado firma acordo com EUA para exploração de minerais críticos em Goiás

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), assinou nesta quarta-feira (18) um memorando de entendimento com o governo dos Estados Unidos para estabelecer uma parceria voltada à exploração de minerais críticos e terras raras no estado. O documento foi formalizado no Consulado Geral dos EUA em São Paulo e prevê cooperação em áreas como pesquisa, capacitação e desenvolvimento de um ambiente regulatório competitivo. 

O acordo ainda não possui força de lei e não detalha mecanismos operacionais ou incentivos fiscais para empresas do setor. A assinatura contou com a presença do encarregado de negócios da embaixada norte-americana, Gabriel Escobar, que representou o país.

<><> Goiás busca agregar valor à produção mineral

Goiás concentra atualmente a única operação de extração de terras raras em atividade no Brasil, localizada em Minaçu, no norte do estado. A exploração é conduzida pela mineradora Aclara, e o novo acordo busca ampliar o papel do estado na cadeia produtiva desses recursos estratégicos.

Segundo Caiado, a iniciativa pretende transformar Goiás em um polo que vá além da exportação de matéria-prima. “Esta parceria hoje assinada, ela propõe o desenvolvimento do estado, o auxílio do mapeamento dos nossos potenciais minerais, e também absorver a tecnologia, avançar na pesquisa, para que Goiás não seja apenas um exportador de matéria bruta”, afirmou o governador.

<><> Estados Unidos sinalizam interesse em ampliar cooperação

Embora o memorando não apresente detalhes concretos sobre a cooperação científica e tecnológica, o representante norte-americano indicou disposição para avançar nas negociações. “Como dizemos nos Estados Unidos, este é um acordo win-win”, declarou Gabriel Escobar. “Isto vai abrir as portas para mais investimento, mais cooperação e parceria científica, econômica e vários tipos de outros assuntos".

Empresas americanas interessadas na iniciativa não foram mencionadas oficialmente no documento. No entanto, um evento promovido pela Câmara Americana de Comércio (Amcham), realizado logo após a assinatura, reuniu representantes do setor e discutiu oportunidades no segmento de minerais críticos.

<><> Disputa estratégica por minerais ganha força

Os Estados Unidos vêm ampliando sua atuação internacional para garantir acesso a minerais estratégicos, essenciais para setores como energia limpa, mobilidade elétrica e indústria tecnológica. Um fórum organizado em São Paulo listou sete projetos potenciais no Brasil, sendo cinco em Minas Gerais, um no Piauí e outro na Bahia.

Apesar do avanço em nível estadual, as negociações entre o governo norte-americano e o governo federal brasileiro ainda não apresentaram novos resultados nas últimas semanas. Escobar afirmou esperar progresso nessas tratativas, mas não indicou prazos.

A embaixada dos EUA confirmou que David Copleu, integrante do Conselho de Segurança Nacional, deve desembarcar no Brasil ainda nesta semana para discutir especificamente a exploração de minerais críticos.

<><> Importância estratégica dos minerais

Os minerais críticos e as terras raras têm papel central na economia global contemporânea. Elementos como lítio e cobalto são fundamentais para baterias de veículos elétricos e sistemas de energia limpa. Já metais como disprósio e térbio são utilizados em equipamentos militares de alta tecnologia.

Além disso, a indústria de semicondutores depende de minerais como gálio e germânio, o que reforça o interesse internacional por reservas localizadas no Brasil, especialmente em regiões como Goiás, que despontam como estratégicas nesse cenário global competitivo.

 

Fonte: Por Reynaldo José Aragon Gonçalves, em Brasil 247

 

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