Nove dicas sobre como lidar com a ansiedade
Em certas ocasiões, os eventos que se
desenrolam à nossa volta podem nos sufocar.
Seja o ciclo sem fim de más notícias e as
intensas mudanças que estão ocorrendo no mundo, uma tragédia familiar ou a
pressão diária para sobreviver, a incerteza decorrente desses momentos pode nos deixar
estressados e ansiosos.
Para ajudar a atravessar essas fases, a
equipe de jornalistas de ciências da BBC buscou algumas das dicas que aprendemos nos últimos anos para enfrentar as adversidades.
Aqui estão nove formas de encontrar calma e
resiliência em meio às turbulências, desde passar a se preocupar de forma
construtiva até assistir a filmes de terror.
<><> Explore emoções
intraduzíveis
As palavras que você fala podem ter
influência poderosa sobre sua vida interior.
Diversos estudos concluíram que usar termos
mais precisos para descrever sentimentos pode nos ajudar a enfrentar a vida.
Em vez de dizer simplesmente que você está
"estressado", por exemplo, tente identificar frustração, ansiedade,
preocupação ou desespero existencial.
Esta capacidade de diferenciar sentimentos
distintos é conhecida como "granularidade das emoções" e pode trazer
benefícios para a saúde física e
mental.
Cientistas acreditam que podemos nos
beneficiar até aprendendo como outras culturas
identificam seus sentimentos, muitos sem
tradução específica. Um exemplo é o conceito finlandês de sisu, que
é uma espécie de "determinação extraordinária frente às
adversidades".
"Você pode pensar nas palavras e
conceitos associados como ferramentas para a vida", segundo a
neurocientista Lisa Feldman Barrett, da Universidade Northeastern em Boston,
nos Estados Unidos.
<><> Transforme sua ansiedade em
uma vantagem
A palavra "ansiedade" tem origem
nas antigas palavras em latim e grego para "sufocado" e "inquieto". E
qualquer pessoa que já tenha sofrido um ataque de ansiedade pode facilmente
concluir por quê.
Por isso, pode parecer inoportuno pensar que
esta pode ser uma experiência benéfica. Mas é exatamente o que as pesquisas
parecem indicar.
Quando não atingimos o estado extremo e
debilitador que acompanha os transtornos de ansiedade (reconhecidos como
condições de saúde mental), esta emoção pode servir de fonte de
motivação, ativando nossos impulsos em busca de recompensas e conexão social.
Quando estamos ansiosos, somos mais criativos e inovadores. O nosso cérebro reage com mais concentração e
eficiência e pode nos deixar mais produtivos.
Que tal explorar este lado positivo da
ansiedade? Para isso, é necessária uma mudança de mentalidade.
As emoções "negativas", muitas
vezes, são reações naturais a eventos difíceis e as pessoas que conseguem
encontrar significado no complexo espectro das sensações humanas costumam ter
melhor saúde mental.
Em vez de considerar a ansiedade como um
sinal de alerta que precisa ser eliminado, tente observá-la comunicando
informações importantes e como um meio de preparação.
As pessoas que aprendem a pensar na ansiedade
como um sinal de que estão prontas para enfrentar um
desafio, em vez de um chamado de emergência,
apresentam melhor desempenho sob pressão.
Algumas técnicas para ajudar a transformar a
ansiedade em uma força positiva incluem abordar a sua fonte com curiosidade e
empregá-la para atingir objetivos úteis.
Os atores, por exemplo, usam esta técnica
para ajudá-los a lidar com os nervos. E pesquisas também indicam que ela pode
ajudar em exames difíceis ou ao falar em público.
A longo prazo, ela também pode reduzir o risco
de burnout.
<><> Aprenda a se preocupar
construtivamente
Como as nossas preocupações tendem a se fixar
no futuro, não no passado, elas também podem ser usadas para concentrar nossa
atenção na preparação e na solução de problemas. E também podem nos motivar a
entrar em ação.
Pesquisas demonstram que as preocupações
podem nos ajudar com tudo, desde nos preparar para enfrentar
incêndios florestais até tentar parar de fumar.
E, quando o objeto da preocupação é algo
sobre o que não se possa fazer muito, compreender esta falta de opções pode nos
ajudar a aliviá-la.
Segundo a psicóloga de saúde Kate Sweeny, da
Universidade da Califórnia em Riverside, nos Estados Unidos, um bom processo de
canalização e redirecionamento das preocupações, se necessário, é este:
- Identifique
a preocupação.
- Faça
um checklist mental das ações possíveis para lidar com o problema.
- Se
todas as ações possíveis foram realizadas, tente entrar em um dos estados
que reduzem a preocupação, como flow, mindfulness (atenção plena) e o deslumbramento.
<><> Melhore seu humor com um
livro, música ou o ambiente à sua volta
O livro certo pode mudar sua vida para
melhor.
Quando abrimos suas páginas, ele pode levar
você para um lugar totalmente diferente — para outros países ou até mesmo para
outros mundos.
As pessoas que leem por prazer regularmente
tendem a ser menos estressadas, deprimidas e solitárias. Elas também são mais
confiantes e socialmente conectadas, segundo pesquisas.
A prática cada vez maior da
"biblioterapia" envolve a recomendação personalizada de livros, de
acordo com o humor ou as preocupações de saúde mental de cada pessoa.
Seu objetivo é "ajudar a amenizar,
restaurar e revigorar as mentes preocupadas — e pode auxiliar na liberação do
estresse e da ansiedade", segundo um estudo sobre o
tema.
Mas o livro não é uma panaceia. Ele costuma
funcionar melhor em conjunto com outras terapias, segundo os profissionais.
E também é importante escolher a obra
cuidadosamente, pois ler o livro errado, no momento errado, pode acabar fazendo
você se sentir pior.
Se você não tiver tempo de abrir um livro,
tente tocar uma das suas canções favoritas. A música tem a capacidade de
afastar as emoções e pode trazer impacto instantâneo sobre o humor.
Também aqui, tenha cuidado, pois o tipo certo
de música pode fazer você se sentir melhor, mas a canção errada pode até levar
você a cometer más ações. Procure o que funciona para você.
Já se demonstrou que selecionar
cuidadosamente o seu ambiente, se rodear
de plantas ou mesmo imagens de espaços verdes e observar fotos de entes
queridos faz diferença para o nosso estado mental.
<><> Assista a um filme de terror
Sustos repentinos, zumbis pálidos e figuras
fantasmagóricas se espreitando nas sombras podem não parecer o antídoto certo
quando você já se sente à beira do precipício.
Mas um filme de terror pode ser "um
bálsamo para suas preocupações".
Assistir a um filme assustador na segurança
do sofá serve como um tipo de brincadeira. É uma forma de explorar situações
perigosas, nos preparando mentalmente para ameaças que poderemos encontrar no
mundo real.
Pesquisas indicam que os fãs de histórias de
terror se dão melhor em tempos difíceis e vivenciam menos ansiedade no seu dia
a dia.
Por isso, quer você goste da agitação de um
terror de arrepiar a espinha ou prefira se esconder atrás de uma almofada,
lembre-se de que este tipo de filme é um exercício para a
parte do seu cérebro que controla a tensão em tempos
estressantes.
<><> Conte suas bênçãos
Alguns dos melhores conselhos se tornam tão
comuns que se acabam se transformando em frases até desgastadas. "Conte
suas bênçãos" é uma delas.
Você também pode pensar em "três coisas
boas" ou "lista de gratidão", mas o conceito é o mesmo: reservar
um momento à noite para escrever três coisas boas que aconteceram com você ao
longo do dia.
É uma medida pequena, mas positiva, que pode
trazer efeitos poderosos. E a ciência apoia esta recomendação.
Um estudo de 2005 demonstrou que pessoas que
escrevem as listas de três coisas boas demonstraram sinais de maior
felicidade e menos episódios depressivos depois de
apenas um mês. Estes efeitos positivos duraram por todo o período do estudo,
que durou seis meses.
Já o grupo placebo, que teve medida apenas a
sua felicidade, observou um pequeno pico dos níveis de felicidade, que não
durou muito.
Estas listas não precisam nem mesmo ser
eventos revolucionários, como uma promoção ou a aprovação em um exame. Poderá
ser algo do dia a dia, como encontrar um bom amigo.
<><> Reconheça o que você pode e
o que não pode controlar
Quando vivemos em tempos incertos, podemos
recorrer a filósofos antigos em busca de conselhos, que ainda parecem úteis e
relevantes hoje em dia.
Epicteto (c.55-135) viveu uma vida de
adversidade e vivenciou perturbações políticas. Estas experiências moldaram
seus ensinamentos posteriores, na escola filosófica do estoicismo.
Ele afirmava que nossa principal tarefa na
vida é diferenciar o que podemos controlar (nossos pensamentos, escolhas e
ações) e que não podemos.
Os estoicos defendiam que grande parte das
nossas angústias vem de resistir ao inevitável ou depositar nossa esperança em
resultados que nunca estão totalmente ao nosso controle.
Epicteto aconselhava a praticar esta
distinção, mesmo com as coisas pequenas. Assim, estaríamos mais preparados
quando vivenciássemos turbulência nas nossas vidas.
Também vale apenas relembrar que ele teria
dito que "não são os eventos que perturbam as pessoas, mas os seus
julgamentos em torno deles".
Se reconhecermos que as mudanças e
adversidades são esperadas e pudermos aprender de cada evento difícil que
vivenciarmos (como uma guerra, pandemia e dificuldades financeiras ou de
saúde), ficaremos mais fortes.
<><> Explore a esperança da forma
correta
Especialistas acreditam que manter a
esperança de que tudo irá melhorar oferece às pessoas desculpas para se
refugiar das incertezas e temores à sua volta sem fazer nada a respeito.
Mas, depois de pesquisar sobre a esperança
frente ao aquecimento global, o jornalista da BBC Diego Arguedas Ortiz concluiu
que é importante descobrir o tipo certo de esperança.
Em vez de depositar nossas esperanças nos
outros ou esperar por notícias positivas, a esperança é mais eficaz quando
estiver relacionada às nossas ações, isoladamente e ao lado dos demais.
"A esperança é uma forma de
enfrentamento com base no significado", segundo a psicóloga Maria Ojala,
da Universidade de Örebro, na Suécia. Ela pode ajudar as pessoas a encontrar
sentido nas dificuldades do mundo e oferecer um caminho adiante.
De fato, os psicólogos acreditam que a
esperança surja de objetivos
pessoais determinados e da jornada para atingi-los.
<><> Como falar com as crianças
sobre adversidades
Os tempos sombrios não afetam apenas a nós.
Eles podem também trazer impactos para os nossos entes queridos, principalmente
as crianças.
Pesquisas demonstram que pode ser difícil
conversar com as crianças sobre experiências traumáticas e a forma como falamos
pode fazer enorme diferença
para o seu bem-estar.
A forma como os responsáveis falam com suas
crianças pode até mesmo definir suas lembranças e seu comportamento, o que
poderá ajudá-los a planejar mais suas ações, sem descontar suas frustrações nos
demais.
Um estudo concluiu que os pais que fizeram
mais perguntas sobre a experiência dos seus filhos durante suas conversas
ajudaram a melhorar a atenção e o
autocontrole das crianças.
Explorar sentimentos difíceis parece
particularmente poderoso, ajudando as crianças a aprender a compreender e
regular suas emoções.
Este processo é conhecido como "coaching
emocional". Ele envolve a identificação e avalidação de sentimentos,
discussões abertas e orientação das crianças rumo a estratégias saudáveis de
enfrentamento.
Este mesmo processo ajudou a amortecer
os efeitos do
estresse durante a pandemia.
Reconhecer o que a criança atravessou também
é importante e poderá ajudá-la a lidar melhor com tempos estressantes e
oferecer habilidades emocionais mais amplas.
Fonte:
BBC Future

Nenhum comentário:
Postar um comentário