quinta-feira, 19 de março de 2026

Antonio de Azevedo: A dura lógica do poder na política internacional

No debate contemporâneo sobre geopolítica, poucas vozes são tão provocativas quanto a do cientista político John J. Mearsheimer, professor da University of Chicago, nos EUA.

Um dos principais formuladores do chamado Realismo Ofensivo, cuja formulação mais sistemática encontra-se em The Tragedy of Great Power Politics (2001), Mearsheimer sustenta uma tese que frequentemente causa desconforto em ambientes diplomáticos e acadêmicos.

Refiro-me à tese de que, no sistema internacional, boas intenções raramente substituem poder.

De forma simples e bem informal, a ideia principal por trás dessa visão é a seguinte: na política internacional, os países agem principalmente para garantir segurança e poder, porque não existe uma autoridade mundial capaz de impor regras a todos.

Diferentemente do que ocorre dentro dos Estados, onde há governos e instituições que aplicam leis, no cenário global cada país precisa cuidar da própria sobrevivência.

Por isso, muitas vezes, os interesses estratégicos acabam pesando mais do que boas intenções, discursos ou normas internacionais.

A lógica dessa perspectiva é direta, ainda que suas implicações sejam profundas.

Diferentemente das sociedades domésticas, o sistema internacional opera sob uma condição de anarquia estrutural, não há uma autoridade central capaz de impor regras de maneira definitiva entre os Estados.

Nesse ambiente, cada país precisa garantir sua própria segurança. A consequência é previsível, a busca por poder transforma-se não apenas em uma opção estratégica, mas em uma condição de sobrevivência.

Essa interpretação encontra respaldo no realismo estrutural, também conhecido como neorrealismo, desenvolvido por Kenneth Waltz.

Para Waltz, o comportamento das potências não decorre exclusivamente das preferências de seus líderes ou de valores ideológicos específicos. O elemento determinante encontra-se na própria estrutura do sistema internacional, definida, em primeiro lugar, pelo princípio ordenador da anarquia e, em segundo, pela distribuição desigual de capacidades materiais entre os Estados, militares, econômicas e tecnológicas.

É dessa estrutura, e não apenas das intenções dos atores, que emergem os padrões recorrentes do comportamento estatal.

Sob essa lente analítica, muitos episódios históricos adquirem novos significados. O uso da bomba atômica pelos Estados Unidos contra o Japão em 1945, nos momentos finais da 2ª Guerra Mundial, permanece como um dos acontecimentos mais dramáticos do século XX.

Do ponto de vista moral e jurídico, trata-se de um episódio que continua a suscitar intensos debates.

No plano historiográfico, a própria questão de sua necessidade militar permanece controversa. Uma corrente revisionista, associada a autores como Gar Alperovitz, sustenta que o Japão já sinalizava disposição para encerrar o conflito e que as bombas serviram, sobretudo, como demonstração de força dirigida à União Soviética, às vésperas da nova ordem bipolar.

Independentemente dessa disputa interpretativa, sob a perspectiva do neorrealismo, a decisão norte-americana também pode ser compreendida como parte de uma lógica estrutural de demonstração de poder em um sistema internacional prestes a entrar em uma nova configuração estratégica.

As explosões nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki inauguraram uma nova era na política internacional. O surgimento da arma nuclear redefiniu os parâmetros do poder global e introduziu uma dimensão inédita na relação entre as grandes potências.

Paradoxalmente, o potencial de destruição absoluta dessas armas passou a desempenhar também um papel estabilizador. Durante a Guerra Fria, a rivalidade entre Estados Unidos e União Soviética foi marcada pela lógica da dissuasão nuclear, frequentemente sintetizada na ideia de destruição mútua assegurada. O medo da aniquilação total funcionou, assim, como um limite tácito à escalada direta entre as superpotências.

Essa dinâmica revela uma das ironias centrais da política internacional, instrumentos concebidos para a guerra podem, em determinadas circunstâncias, transformar-se em mecanismos de contenção do conflito. Não se trata de um equilíbrio moralmente satisfatório, mas de um equilíbrio estrutural.

Para os realistas, a história das relações internacionais confirma repetidamente essa lógica. Instituições multilaterais, normas jurídicas e discursos universalistas possuem relevância, mas frequentemente operam dentro de limites definidos pela distribuição concreta de poder entre os Estados e, na visão mais radical de Mearsheimer, são incapazes, por si sós, de garantir a paz ou constranger de forma duradoura as grandes potências.

Isso não significa que o direito internacional ou a diplomacia sejam irrelevantes.

Ao contrário, constituem instrumentos fundamentais de regulação, coordenação e cooperação entre os Estados. No entanto, sua eficácia costuma depender da convergência, ainda que parcial, entre os interesses das grandes potências.

Em última análise, a política internacional continua marcada por uma tensão permanente entre princípios normativos e imperativos estratégicos.

O realismo não celebra essa condição; limita-se a descrevê-la. E talvez essa seja sua contribuição mais incômoda para o pensamento político: recordar que, no cenário global, a estabilidade raramente nasce da harmonia entre os Estados, mas do equilíbrio, frequentemente precário, entre poderes que buscam, antes de tudo, sobreviver.

¨      Democracia brasileira em destaque em um mundo rumo à autocratização. Por Marcelo Zero

O 10º Relatório do V-Dem (Varieties of Democracy) Institute, do Departamento de Ciências Políticas da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, apresenta um retrato bastante pessimista do estado das democracias, como definidas no mundo ocidental, na maior parte do planeta.

As principais conclusões do relatório são:

A democracia retornou aos níveis de 1978 para o cidadão médio global. Os ganhos da “terceira onda de democratização”, iniciada em 1974 em Portugal, foram quase erradicados.

O nível de democracia para o cidadão médio na Europa Ocidental e na América do Norte está em seu nível mais baixo em mais de 50 anos, principalmente devido à autocratização em curso nos EUA.

Os EUA perdem seu status de democracia liberal de longa data pela primeira vez em mais de 50 anos.

O mundo tem 92 autocracias e 87 democracias no final de 2025.

Quase três quartos da população mundial (74%, ou 6 bilhões) vivem em autocracias.

Há agora mais pessoas vivendo em autocracias fechadas (28%, ou 2,3 bilhões) do que em democracias eleitorais e liberais combinadas (26%, ou 2,2 bilhões).

Apenas 7% da população mundial (0,6 bilhão) vive em democracias liberais.

A liberdade de expressão continua sendo o aspecto mais atacado da democracia, piorando em 44 países até 2025.

O mundo nunca viu tantos países se autocratizando ao mesmo tempo como nos últimos anos da “terceira onda de autocratização”.

Um recorde de 41% (3,4 bilhões) da população mundial reside atualmente em países em processo de autocratização.

A União Europeia é fortemente afetada.

A autocratização na Europa afeta sete Estados-membros da UE e dois de seus principais aliados – o Reino Unido e os Estados Unidos.

<><> O caso do Brasil

O documento menciona o Brasil em diversos contextos relacionados à democracia e à autocratização. Aqui estão os principais pontos:

<<< Democratização no Brasil

O Brasil é destacado como um dos países em processo de democratização em 2025, sendo um caso de "U-turn", ou seja, um país que reverteu um processo de autocratização e está restaurando sua democracia.

A autocratização no Brasil começou com o impeachment da presidente Dilma Rousseff e se intensificou após a eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Durante seu governo, houve ataques à mídia, tentativas de minar as eleições, o Legislativo e o Judiciário.

A reversão ocorreu com a eleição de Luiz Inácio "Lula" da Silva em 2022, apoiado por uma coalizão de nove partidos. Apesar disso, o Brasil ainda enfrenta uma sociedade profundamente polarizada, e as eleições de 2026 serão decisivas para o futuro democrático do país.

Bolsonaro foi impedido de concorrer a cargos públicos após ser condenado por abuso de poder e tentativa de golpe.

<<< Indicadores de melhoria na democratização

O Brasil registrou avanços em liberdade de expressão, incluindo liberdade acadêmica e cultural, e diminuição da censura governamental.

Indicadores de deliberação, como justificativa fundamentada e engajamento da sociedade, também melhoraram.

<<< Impacto global

O Brasil é mencionado como responsável por mais da metade da população mundial que reside em países onde a democracia está melhorando, representando um caso significativo de recuperação democrática.

<<<< Classificação no Índice de Democracia Liberal (LDI)

Em 2025, o Brasil ocupa a 28ª posição no LDI, com uma pontuação de 0,70. Apesar de estar em processo de democratização, ainda não recuperou totalmente os níveis anteriores à autocratização.

<<< Publicações relacionadas ao Brasil

A publicação "State of the World 2024: 25 years of autocratization – democracy trumped?" menciona o Brasil como um exemplo de U-turn na autocratização.

O Brasil também é citado em estudos sobre resiliência democrática e mobilização da oposição.

Esses pontos destacam o papel do Brasil como um caso emblemático de reversão da autocratização e os desafios que ainda enfrenta em seu processo de democratização.

¨      Brasil supera EUA em ranking global de democracias

O Brasil aparece à frente dos Estados Unidos em um dos principais rankings globais de democracia, segundo o Democracy Report 2026, elaborado pelo instituto V-Dem, da Universidade de Gotemburgo. O estudo indica que o país sul-americano figura entre as democracias eleitorais, enquanto os EUA perderam seu status histórico de democracia liberal após mais de meio século.

De acordo com o relatório do V-Dem, que analisa dados de 2025, o rebaixamento norte-americano ocorre em meio a um processo de deterioração institucional. O documento destaca que o país passou a ser classificado como democracia eleitoral, o que o coloca em uma posição inferior no ranking global em comparação a democracias consideradas mais consolidadas ou em recuperação, como o Brasil .

<><> Brasil avança entre democracias eleitorais

O levantamento classifica o Brasil como uma democracia eleitoral, categoria que reúne países com eleições regulares e competitivas, ainda que com desafios institucionais. O relatório também aponta que o país está entre os casos de recuperação democrática, após reverter um período recente de deterioração institucional.

Entre os países analisados, o Brasil aparece ao lado de outras nações que mantêm sistemas democráticos funcionais, como Canadá e Reino Unido — este último também impactado por tendências de enfraquecimento institucional. Já os Estados Unidos, embora ainda realizem eleições competitivas, perderam características fundamentais de uma democracia liberal, como equilíbrio entre os poderes e garantias amplas de direitos civis.

<><> Declínio democrático nos Estados Unidos

O estudo atribui a queda dos EUA a um processo acelerado de concentração de poder e erosão de instituições democráticas. Segundo o relatório, sob a presidência de Donald Trump, o país registrou “o declínio mais dramático da sua história recente”, com impactos diretos sobre o Estado de Direito, a liberdade de expressão e os mecanismos de controle institucional .

Ainda conforme o documento, a democracia norte-americana recuou a níveis comparáveis aos da década de 1960, com deterioração significativa em áreas como direitos civis e independência dos poderes. Apesar disso, os processos eleitorais seguem funcionando, o que mantém o país na categoria de democracia eleitoral.

<><> Cenário global de retrocesso democrático

O relatório do V-Dem aponta que a crise democrática não se restringe aos Estados Unidos. Globalmente, o nível médio de democracia voltou a patamares de 1978, indicando a perda de avanços conquistados nas últimas décadas .

Atualmente, há mais autocracias (92) do que democracias (87) no mundo, e cerca de 74% da população global vive sob regimes autoritários. Apenas 7% dos habitantes do planeta estão em democracias liberais, o menor índice em mais de 50 anos.

Nesse contexto, a América Latina mantém posição relevante. A região é apontada como a segunda mais democrática do mundo, atrás apenas da Europa Ocidental e América do Norte, embora também enfrente sinais de deterioração em alguns países.

<><> Brasil em destaque na América Latina

No cenário regional, o Brasil figura entre as principais democracias eleitorais, ao lado de países como Argentina, Colômbia e Chile. O relatório indica que a reversão de tendências autoritárias recentes contribuiu para melhorar sua posição relativa no ranking global.

Ao mesmo tempo, o documento alerta que a democracia enfrenta desafios persistentes no mundo inteiro, com avanço da autocra­tização inclusive em países historicamente estáveis. A trajetória brasileira, nesse contexto, é apresentada como um dos exemplos de recuperação em meio a um cenário internacional marcado por retrocessos.

 

Fonte: Viomundo/Brasil 247

 

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