Antonio
de Azevedo: A dura lógica do poder na política internacional
No
debate contemporâneo sobre geopolítica, poucas vozes são tão provocativas
quanto a do cientista político John J. Mearsheimer, professor da University of
Chicago, nos EUA.
Um dos
principais formuladores do chamado Realismo Ofensivo, cuja formulação mais
sistemática encontra-se em The Tragedy of Great Power Politics (2001),
Mearsheimer sustenta uma tese que frequentemente causa desconforto em ambientes
diplomáticos e acadêmicos.
Refiro-me
à tese de que, no sistema internacional, boas intenções raramente substituem
poder.
De
forma simples e bem informal, a ideia principal por trás dessa visão é a
seguinte: na política internacional, os países agem principalmente para
garantir segurança e poder, porque não existe uma autoridade mundial capaz de
impor regras a todos.
Diferentemente
do que ocorre dentro dos Estados, onde há governos e instituições que aplicam
leis, no cenário global cada país precisa cuidar da própria sobrevivência.
Por
isso, muitas vezes, os interesses estratégicos acabam pesando mais do que boas
intenções, discursos ou normas internacionais.
A
lógica dessa perspectiva é direta, ainda que suas implicações sejam profundas.
Diferentemente
das sociedades domésticas, o sistema internacional opera sob uma condição de
anarquia estrutural, não há uma autoridade central capaz de impor regras de
maneira definitiva entre os Estados.
Nesse
ambiente, cada país precisa garantir sua própria segurança. A consequência é
previsível, a busca por poder transforma-se não apenas em uma opção
estratégica, mas em uma condição de sobrevivência.
Essa
interpretação encontra respaldo no realismo estrutural, também conhecido como
neorrealismo, desenvolvido por Kenneth Waltz.
Para
Waltz, o comportamento das potências não decorre exclusivamente das
preferências de seus líderes ou de valores ideológicos específicos. O elemento
determinante encontra-se na própria estrutura do sistema internacional,
definida, em primeiro lugar, pelo princípio ordenador da anarquia e, em
segundo, pela distribuição desigual de capacidades materiais entre os Estados,
militares, econômicas e tecnológicas.
É dessa
estrutura, e não apenas das intenções dos atores, que emergem os padrões
recorrentes do comportamento estatal.
Sob
essa lente analítica, muitos episódios históricos adquirem novos significados.
O uso da bomba atômica pelos Estados Unidos contra o Japão em 1945, nos
momentos finais da 2ª Guerra Mundial, permanece como um dos acontecimentos mais
dramáticos do século XX.
Do
ponto de vista moral e jurídico, trata-se de um episódio que continua a
suscitar intensos debates.
No
plano historiográfico, a própria questão de sua necessidade militar permanece
controversa. Uma corrente revisionista, associada a autores como Gar
Alperovitz, sustenta que o Japão já sinalizava disposição para encerrar o
conflito e que as bombas serviram, sobretudo, como demonstração de força
dirigida à União Soviética, às vésperas da nova ordem bipolar.
Independentemente
dessa disputa interpretativa, sob a perspectiva do neorrealismo, a decisão
norte-americana também pode ser compreendida como parte de uma lógica
estrutural de demonstração de poder em um sistema internacional prestes a
entrar em uma nova configuração estratégica.
As
explosões nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki inauguraram uma nova era na
política internacional. O surgimento da arma nuclear redefiniu os parâmetros do
poder global e introduziu uma dimensão inédita na relação entre as grandes
potências.
Paradoxalmente,
o potencial de destruição absoluta dessas armas passou a desempenhar também um
papel estabilizador. Durante a Guerra Fria, a rivalidade entre Estados Unidos e
União Soviética foi marcada pela lógica da dissuasão nuclear, frequentemente sintetizada
na ideia de destruição mútua assegurada. O medo da aniquilação total funcionou,
assim, como um limite tácito à escalada direta entre as superpotências.
Essa
dinâmica revela uma das ironias centrais da política internacional,
instrumentos concebidos para a guerra podem, em determinadas circunstâncias,
transformar-se em mecanismos de contenção do conflito. Não se trata de um
equilíbrio moralmente satisfatório, mas de um equilíbrio estrutural.
Para os
realistas, a história das relações internacionais confirma repetidamente essa
lógica. Instituições multilaterais, normas jurídicas e discursos universalistas
possuem relevância, mas frequentemente operam dentro de limites definidos pela
distribuição concreta de poder entre os Estados e, na visão mais radical de
Mearsheimer, são incapazes, por si sós, de garantir a paz ou constranger de
forma duradoura as grandes potências.
Isso
não significa que o direito internacional ou a diplomacia sejam irrelevantes.
Ao
contrário, constituem instrumentos fundamentais de regulação, coordenação e
cooperação entre os Estados. No entanto, sua eficácia costuma depender da
convergência, ainda que parcial, entre os interesses das grandes potências.
Em
última análise, a política internacional continua marcada por uma tensão
permanente entre princípios normativos e imperativos estratégicos.
O
realismo não celebra essa condição; limita-se a descrevê-la. E talvez essa seja
sua contribuição mais incômoda para o pensamento político: recordar que, no
cenário global, a estabilidade raramente nasce da harmonia entre os Estados,
mas do equilíbrio, frequentemente precário, entre poderes que buscam, antes de
tudo, sobreviver.
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Democracia brasileira em destaque em um mundo rumo à
autocratização. Por Marcelo Zero
O 10º
Relatório do V-Dem (Varieties of Democracy) Institute, do Departamento de
Ciências Políticas da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, apresenta um
retrato bastante pessimista do estado das democracias, como definidas no mundo
ocidental, na maior parte do planeta.
As
principais conclusões do relatório são:
A
democracia retornou aos níveis de 1978 para o cidadão médio global. Os ganhos
da “terceira onda de democratização”, iniciada em 1974 em Portugal, foram quase
erradicados.
O
nível de democracia para o cidadão médio na Europa Ocidental e na América do
Norte está em seu nível mais baixo em mais de 50 anos, principalmente devido à
autocratização em curso nos EUA.
Os
EUA perdem seu status de democracia liberal de longa data pela primeira vez em
mais de 50 anos.
O
mundo tem 92 autocracias e 87 democracias no final de 2025.
Quase
três quartos da população mundial (74%, ou 6 bilhões) vivem em autocracias.
Há
agora mais pessoas vivendo em autocracias fechadas (28%, ou 2,3 bilhões) do que
em democracias eleitorais e liberais combinadas (26%, ou 2,2 bilhões).
Apenas
7% da população mundial (0,6 bilhão) vive em democracias liberais.
A
liberdade de expressão continua sendo o aspecto mais atacado da democracia,
piorando em 44 países até 2025.
O
mundo nunca viu tantos países se autocratizando ao mesmo tempo como nos últimos
anos da “terceira onda de autocratização”.
Um
recorde de 41% (3,4 bilhões) da população mundial reside atualmente em países
em processo de autocratização.
A
União Europeia é fortemente afetada.
A
autocratização na Europa afeta sete Estados-membros da UE e dois de seus
principais aliados – o Reino Unido e os Estados Unidos.
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O caso do Brasil
O
documento menciona o Brasil em diversos contextos relacionados à democracia e à
autocratização. Aqui estão os principais pontos:
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Democratização no Brasil
O
Brasil é destacado como um dos países em processo de democratização em 2025,
sendo um caso de "U-turn", ou seja, um país que reverteu um processo
de autocratização e está restaurando sua democracia.
A
autocratização no Brasil começou com o impeachment da presidente Dilma Rousseff
e se intensificou após a eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Durante seu
governo, houve ataques à mídia, tentativas de minar as eleições, o Legislativo
e o Judiciário.
A
reversão ocorreu com a eleição de Luiz Inácio "Lula" da Silva em
2022, apoiado por uma coalizão de nove partidos. Apesar disso, o Brasil ainda
enfrenta uma sociedade profundamente polarizada, e as eleições de 2026 serão
decisivas para o futuro democrático do país.
Bolsonaro
foi impedido de concorrer a cargos públicos após ser condenado por abuso de
poder e tentativa de golpe.
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Indicadores de melhoria na democratização
O
Brasil registrou avanços em liberdade de expressão, incluindo liberdade
acadêmica e cultural, e diminuição da censura governamental.
Indicadores
de deliberação, como justificativa fundamentada e engajamento da sociedade,
também melhoraram.
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Impacto global
O
Brasil é mencionado como responsável por mais da metade da população mundial
que reside em países onde a democracia está melhorando, representando um caso
significativo de recuperação democrática.
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Classificação no Índice de Democracia Liberal (LDI)
Em
2025, o Brasil ocupa a 28ª posição no LDI, com uma pontuação de 0,70. Apesar de
estar em processo de democratização, ainda não recuperou totalmente os níveis
anteriores à autocratização.
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Publicações relacionadas ao Brasil
A
publicação "State of the World 2024: 25 years of autocratization –
democracy trumped?" menciona o Brasil como um exemplo de U-turn na
autocratização.
O
Brasil também é citado em estudos sobre resiliência democrática e mobilização
da oposição.
Esses
pontos destacam o papel do Brasil como um caso emblemático de reversão da
autocratização e os desafios que ainda enfrenta em seu processo de
democratização.
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Brasil supera EUA em ranking global de democracias
O
Brasil aparece à frente dos Estados Unidos em um dos principais rankings
globais de democracia, segundo o Democracy Report 2026, elaborado pelo
instituto V-Dem, da Universidade de Gotemburgo. O estudo indica que o país
sul-americano figura entre as democracias eleitorais, enquanto os EUA perderam
seu status histórico de democracia liberal após mais de meio século.
De
acordo com o relatório do V-Dem, que analisa dados de 2025, o rebaixamento
norte-americano ocorre em meio a um processo de deterioração institucional. O
documento destaca que o país passou a ser classificado como democracia
eleitoral, o que o coloca em uma posição inferior no ranking global em
comparação a democracias consideradas mais consolidadas ou em recuperação, como
o Brasil .
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Brasil avança entre democracias eleitorais
O
levantamento classifica o Brasil como uma democracia eleitoral, categoria que
reúne países com eleições regulares e competitivas, ainda que com desafios
institucionais. O relatório também aponta que o país está entre os casos de
recuperação democrática, após reverter um período recente de deterioração
institucional.
Entre
os países analisados, o Brasil aparece ao lado de outras nações que mantêm
sistemas democráticos funcionais, como Canadá e Reino Unido — este último
também impactado por tendências de enfraquecimento institucional. Já os Estados
Unidos, embora ainda realizem eleições competitivas, perderam características
fundamentais de uma democracia liberal, como equilíbrio entre os poderes e
garantias amplas de direitos civis.
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Declínio democrático nos Estados Unidos
O
estudo atribui a queda dos EUA a um processo acelerado de concentração de poder
e erosão de instituições democráticas. Segundo o relatório, sob a presidência
de Donald Trump, o país registrou “o declínio mais dramático da sua história
recente”, com impactos diretos sobre o Estado de Direito, a liberdade de
expressão e os mecanismos de controle institucional .
Ainda
conforme o documento, a democracia norte-americana recuou a níveis comparáveis
aos da década de 1960, com deterioração significativa em áreas como direitos
civis e independência dos poderes. Apesar disso, os processos eleitorais seguem
funcionando, o que mantém o país na categoria de democracia eleitoral.
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Cenário global de retrocesso democrático
O
relatório do V-Dem aponta que a crise democrática não se restringe aos Estados
Unidos. Globalmente, o nível médio de democracia voltou a patamares de 1978,
indicando a perda de avanços conquistados nas últimas décadas .
Atualmente,
há mais autocracias (92) do que democracias (87) no mundo, e cerca de 74% da
população global vive sob regimes autoritários. Apenas 7% dos habitantes do
planeta estão em democracias liberais, o menor índice em mais de 50 anos.
Nesse
contexto, a América Latina mantém posição relevante. A região é apontada como a
segunda mais democrática do mundo, atrás apenas da Europa Ocidental e América
do Norte, embora também enfrente sinais de deterioração em alguns países.
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Brasil em destaque na América Latina
No
cenário regional, o Brasil figura entre as principais democracias eleitorais,
ao lado de países como Argentina, Colômbia e Chile. O relatório indica que a
reversão de tendências autoritárias recentes contribuiu para melhorar sua
posição relativa no ranking global.
Ao
mesmo tempo, o documento alerta que a democracia enfrenta desafios persistentes
no mundo inteiro, com avanço da autocratização inclusive em países
historicamente estáveis. A trajetória brasileira, nesse contexto, é apresentada
como um dos exemplos de recuperação em meio a um cenário internacional marcado
por retrocessos.
Fonte:
Viomundo/Brasil 247

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