Nova
ordem mundial permite que países ataquem outros 'por diversão', como disse
Trump?
O confronto entre os Estados Unidos,
Israel e o Irã pode
vir a ser considerado um dos primeiros conflitos importantes travados com base
em uma ordem mundial emergente, na qual as regras que determinaram por décadas
o comportamento dos países parecem estar perdendo parte da sua influência.
Por
grande parte do período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a
guerra e a diplomacia operaram formalmente dentro de uma estrutura definida
pelo direito internacional e por instituições como as Nações Unidas e outras
convenções.
Mesmo
quando essas regras eram distorcidas ou interpretadas seletivamente, os
governos geralmente tentavam justificar suas ações dentro daquele sistema. As
operações militares eram tipicamente acompanhadas por argumentos legais,
consultas diplomáticas ou pela formação de coalizões internacionais.
Mas, na
guerra atual, estas considerações parecem ocupar espaço mais limitado.
As
decisões estratégicas cada vez mais parecem ser tomadas com base em cálculos
militares, políticos ou de segurança imediatos, não pela necessidade de alinhar
as ações a arcabouços legais internacionais ou à aprovação multilateral.
Para o
Irã, operar sob essas condições não é exatamente uma novidade.
O país
vive sob extensas sanções internacionais e isolamento político há décadas. E,
ao longo do tempo, Teerã desenvolveu redes e mecanismos econômicos projetados
para contornar essas resoluções, sejam elas múlti ou unilaterais.
Mesmo
estando sujeito a um dos regimes de sanções mais abrangentes do mundo, o Irã
continua a exportar petróleo e manter sua influência regional.
Nesta
cultura estratégica, a escalada, muitas vezes, foi ponderada. A reação do Irã
às crises do passado tipicamente buscou elevar os custos do confronto para seus
oponentes, sem despertar uma guerra regional maior.
O
principal objetivo, muitas vezes, foi aumentar as pressões políticas ou
econômicas sobre os adversários, até que outras partes convocassem a redução
das tensões.
Israel
também está acostumado a operar em um ambiente onde as convenções
internacionais nem sempre se traduzem em limites operacionais imediatos.
O
histórico militar israelense enfatiza há muito tempo ações rápidas e decisivas,
quando seus líderes acreditam que vem surgindo uma ameaça séria. Ataques
preventivos e o uso de força massiva são elementos recorrentes desta técnica.
Nos
últimos anos, as ações israelenses em conflitos como a guerra na Faixa de Gaza
enfrentaram críticas mais fortes nos fóruns legais internacionais, incluindo o
Tribunal Internacional de Justiça e o Tribunal Penal Internacional.
Paralelamente,
Israel ainda considera que suas prioridades de segurança justificam ações
militares decisivas, particularmente com a manutenção de forte apoio
estratégico por parte dos Estados Unidos.
Washington
encontra-se em posição diferente neste sistema.
Os
Estados Unidos não foram apenas mais um participante da ordem internacional
pós-1945. O país desempenhou papel fundamental na sua elaboração e manutenção.
A rede
de alianças, instituições e normas legais criada após a Segunda Guerra, muitas
vezes, serviu para amplificar a influência americana em todo o mundo.
O mais
perto que os Estados Unidos chegaram de ignorar abertamente o sistema nas
últimas décadas ocorreu durante a invasão do Iraque, em 2003. Mas, mesmo assim,
Washington procurou qualificar a intervenção como parte de um esforço de
coalizão mais amplo.
A
chamada "coalizão dos dispostos" incluiu aliados como o Reino Unido,
a Austrália e a Polônia, além de dezenas de outros governos que ofereceram
variados graus de apoio.
A
justificativa legal para a guerra permanece fortemente contestada até hoje, mas
os Estados Unidos ainda tentaram posicionar a operação dentro de um contexto
multilateral.
Mas, no
confronto atual, a ênfase na legitimidade internacional parece menos importante
para todas as partes envolvidas. E as declarações das autoridades refletem um
tom diferente do que costumava ser adotado.
No
sábado (14/3), por exemplo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump,
afirmou que uma série de ataques "demoliu completamente" grande parte
da ilha iraniana de Kharg.
E Trump
declarou à rede de TV NBC News que "podemos atingi-la mais algumas vezes,
só por diversão".
Estes
comentários ilustram uma abordagem mais direta e menos diplomática que as que
tradicionalmente acompanhavam as principais operações militares americanas.
Nesta
nova visão, instrumentos econômicos também são usados mais assertivamente como
ferramentas políticas. Tarifas de importação, restrições comerciais e medidas
financeiras vêm sendo cada vez mais aplicadas não apenas a rivais, mas também a
parceiros de longa data.
Governos
europeus, incluindo o do Reino Unido e de outros aliados da Otan, receberam
críticas de Washington sobre questões que variam dos gastos com a defesa e a
política de imigração até práticas comerciais e as relações com a Rússia.
Esta
política pode parecer eficaz a curto prazo, especialmente se outros Estados
continuarem a operar dentro das normas internacionais estabelecidas. Mas as
implicações de longo prazo não mostram tanta clareza.
Se o
principal arquiteto do sistema começar a depositar menos ênfase nas normas,
outros governos também podem se sentir menos obrigados a respeitá-las.
O
comportamento do Irã nos confrontos anteriores ilustra como seus líderes
gerenciaram esses limites.
Nas
crises do passado, incluindo a Guerra dos 12 Dias em 2025, Teerã
respeitava, em grande parte, seus próprios limites estratégicos, mesmo
respondendo militarmente.
O
próprio conflito do ano passado já marcava um afastamento do arcabouço legal
internacional. Ainda assim, a retaliação iraniana permaneceu ponderada.
Quando
o Irã lançou mísseis contra a Base Aérea americana de Al Udeid, no Catar, em 2025, o ataque
aparentemente foi precedido por alertas informais às autoridades do Catar e dos
Estados Unidos. E sinalizações similares foram observadas anteriormente,
durante os ataques iranianos ao Iraque.
Mesmo
depois de infligir danos significativos, a retaliação de Teerã pareceu
cuidadosamente calibrada para evitar a escalada do conflito.
Mas, no
confronto atual, estas restrições aparentemente se enfraqueceram.
Após a
morte do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei (1939-2026), na
primeira onda de ataques, o Irã atacou instalações americanas em toda a
Península Arábica, atingindo bases militares, infraestruturas e alvos civis.
Paralelamente,
as ações iranianas prejudicaram efetivamente o tráfego no Estreito de Ormuz, um dos corredores
energéticos mais importantes do mundo. E as consequências foram imediatas.
Os
mercados de energia reagiram fortemente e o efeito cascata da interrupção do
tráfego marítimo no estreito atingiu as cadeias de fornecimento
globais.
Para as
empresas e os governos de todo o mundo, este episódio destacou a rapidez com
que um conflito regional pode produzir choques econômicos globais quando as
antigas restrições à escalada dos confrontos começam a se desvanecer.
Outras
grandes potências provavelmente tirarão suas próprias conclusões desses
desenvolvimentos.
A
Rússia pode se beneficiar do aumento dos preços de energia, enquanto a pressão
das sanções a Moscou é reduzida, apesar da oposição da União Europeia. Já a
China, provavelmente, irá observar cuidadosamente até onde as normas
internacionais podem se alterar e em quais direções.
Atualmente,
a influência da Europa sobre a direção dos eventos parece limitada. Apesar dos
esforços diplomáticos, a União Europeia e o Reino Unido, em grande parte,
apenas observa, sem definir os desenvolvimentos.
A
questão mais ampla levantada pela guerra no Oriente Médio vai além do resultado
de um conflito isolado. Ela se refere à permanência do sistema internacional
que define as relações e a política global desde 1945.
Embora
nunca tenha sido aceito universalmente e, muitas vezes, fosse contestado, o
sistema fornecia uma estrutura de exercício de poder.
Se esta
estrutura continuar a se enfraquecer, o resultado pode ser um ambiente
internacional menos previsível, com os Estados dependendo menos de regras
comuns e mais da sua própria capacidade.
E,
neste cenário, mesmo os países que projetaram originalmente o sistema poderão
ver sua erosão causar consequências que dificilmente seriam previstas.
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Trump pressiona setor de defesa em meio à guerra no Irã
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebeu recentemente executivos de sete
grandes empresas do setor de defesa na Casa Branca,
como parte dos esforços de seu governo para fortalecer a indústria armamentista do país à
medida que a guerra contra o Irã se intensifica.
O
conflito no Oriente Médio expôs as
tensões dentro do setor. Há preocupações com os estoques de mísseis de longo
alcance e interceptores de defesa aérea dos EUA, e com a capacidade do setor de
aumentar a produção em caso de um conflito prolongado.
Na
reunião na Casa Branca, Trump disse ter discutido "produção e cronogramas
de produção" com as empresas Lockheed Martin, RTX (antiga Raytheon), BAE
Systems, Boeing, Honeywell Aerospace e Northrop Grumman.
No
entanto, há relatos de que as negociações entre o Pentágono e as maiores
empresas de defesa do país sobre aumentar a produção não foram concluídas tão
rapidamente quanto a Casa Branca gostaria, em meio às tensões existentes.
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Tensões entre Trump e fornecedores de armas
Byron
Callan, analista de mercado do setor de defesa da Capital Alpha Partners em
Washington, afirma que uma crítica persistente às principais empresas de defesa
dos EUA é que elas têm sido "avessas a riscos", por estarem focadas
no pagamento de dividendos aos acionistas ao invés de reinvestir.
"Havia
críticas de que as maiores empresas de defesa dos Estados Unidos estavam
letárgicas, que não estavam antecipando necessidades, investindo e assumindo
riscos", disse ele à DW.
Antes
de os EUA iniciarem os ataques aéreos ao Irã, as tensões já
estavam latentes entre o governo Trump e os maiores fornecedores de defesa dos
EUA. Trump tem com frequência criticado as empresas por, em sua opinião,
priorizarem dividendos aos acionistas e salários de executivos em detrimento do
investimento em infraestrutura e produção.
Ele
também tem criticado empresas que não cumprem prazos de produção e ultrapassam
o orçamento. O republicano já havia apontado a RTX – uma grande produtora de
mísseis e interceptores de defesa aérea usados pelos militares dos EUA no
conflito com o Irã – como "a mais lenta em aumentar seu volume de produção
e a que gasta mais agressivamente com seus acionistas em vez de atender às
necessidades e demandas" das Forças Armadas dos EUA.
Ele
ameaçou excluí-la de contratos governamentais se não aumentasse os
investimentos em fábricas.
Em
janeiro, Trump emitiu uma ordem executiva dizendo que as empresas de defesa
"não estavam autorizadas, de forma alguma, a pagar dividendos ou recomprar
ações, até que fossem capazes de produzir um produto superior, dentro do prazo
e do orçamento".
O
governo Trump também está atualmente envolvido em uma acirrada disputa com a startup de
inteligência artificial (IA) Anthropic, fornecedora dos militares dos EUA, por sua
recusa em permitir que os militares tivessem acesso irrestrito ao seu chatbot
Claude.
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Mais produção e mais rápido
Trump
acusou as empresas de gastarem muito pouco na expansão da capacidade de
produção, preferindo apaziguar os investidores com mecanismos como recompra de
ações. A recompra de ações ocorre quando as empresas usam os lucros para
readquirir suas próprias ações, reduzindo a quantidade disponível ao público e
potencialmente aumentando o valor das ações individuais restantes.
As
guerras na Ucrânia e na Faixa de Gaza aumentaram a
demanda dos aliados dos EUA por armas fabricadas nos EUA, sendo que Trump já
havia criticado as empresas por não atenderem à demanda com rapidez suficiente.
"Temos
muitas pessoas que querem o caça F-35, e leva muito tempo para entregá-los aos
aliados ou a nós mesmos", disse o presidente. "A única maneira de
conseguirem isso é construindo novas fábricas. Eles não querem construir novas
fábricas porque é caro."
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Questionamentos sobre o orçamento de defesa
Philip
Sheers, pesquisador associado do Programa de Defesa do Centro para uma Nova
Segurança Americana, afirma que o investimento na base industrial de defesa dos
EUA está aumentando, especificamente no que diz respeito a munições e defesa
aérea. Ele, porém, alertou que levará tempo para que esses investimentos
resultem em um aumento das taxas de produção.
"Construir
novas instalações ou aumentar o fornecimento de matérias-primas pode levar
anos; vimos isso com muitas das instalações que ainda estão sendo construídas
após a guerra na Ucrânia", afirmou à DW.
Sheers,
no entanto, observou que uma parcela significativa da culpa por qualquer
lentidão na produção recai sobre o governo dos EUA por sua falha recorrente em
chegar a um acordo sobre os orçamentos a tempo, em meio a disputas políticas
internas.
"Se
o governo dos EUA quer que a base industrial de defesa avance rapidamente,
precisa aprovar e destinar orçamentos a tempo para que os contratos possam ser
assinados, os recursos possam ser alocados e a indústria possa ser incentivada
a se movimentar", disse Sheers, acrescentando que "a incapacidade
recorrente de aprovar orçamentos a tempo se tornou um gol contra geopolítico de
proporções potencialmente históricas".
Para
Byron Callan, o desejo do governo Trump de que as empresas de defesa invistam
em maior produção pode ser prejudicado pela questão dos orçamentos.
As
pesquisas atuais sugerem que Partido Democrata, de oposição, tem boas chances
de retomar o controle do Congresso dos EUA nas eleições de meio de mandato, em
novembro de 2026.
"Isso
poderia realmente limitar os gastos com defesa", disse Callan. "Esta
é uma guerra impopular e, se isso acontecer [os democratas vencerem], haverá
uma expectativa de maiores gastos não relacionados à defesa, em áreas como
saúde e infraestrutura."
Os EUA
destinaram 850 bilhões de dólares (R$ 4,4 trilhões) para a defesa em seu
orçamento de 2025, com o valor previsto para chegar a 900 bilhões de dólares em
2026. Trump pediu que esse valor chegue a 1,5 trilhão em 2027, o que alarmou
muitos especialistas que questionam a sustentabilidade da dívida americana em
seu nível atual.
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Irã: uma guerra sem fim?
O setor
de defesa também está se preparando para a possibilidade de que a guerra no Irã
se arraste por muito mais tempo do que o previsto.
Quando
a guerra do Iraque começou em 2003, Kenneth Adelman, embaixador dos EUA na ONU
de 1981 a 1983, acreditava firmemente que seria uma vitória rápida e fácil para
os EUA.
No
entanto, a forma como a guerra se arrastou e se tornou um atoleiro para as
Forças Armadas americanas transformou sua perspectiva política. Apesar de
republicano, Adelman se tornou um crítico ferrenho de Trump. Ele disse à DW que
acredita que o conflito iraniano pode assumir uma dinâmica semelhante à guerra
do Iraque.
"O
Irã vem se preparando para isso há muito tempo", afirmou. "Já dura
mais tempo do que o Pentágono planejou. Não sou otimista sobre como o Pentágono
planeja essas coisas depois do que vi no Iraque."
Um
conflito prolongado provavelmente significaria um aumento da demanda para as
principais empresas de defesa americanas, bem como uma alta nos preços das
ações.
A
família Trump, por sua vez, intensificou seus próprios investimentos em defesa.
Os filhos do presidente, Eric e Donald Jr., investiram em uma nova empresa de
drones que busca lucrar com a proibição de novos drones chineses nos EUA.
Desde o
início da guerra com o Irã, em 28 de fevereiro, as ações do setor de defesa dos
EUA recuaram. Embora o índice Dow Jones US Aerospace & Defense tenha
apresentado uma breve alta no início do conflito, acumula queda de cerca de 3%
desde então.
Fonte
BBC News Mundo/DW Brasil

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