Luis
Felipe Miguel: Os impactos da guerra no Irã
Ao
atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a
submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis,
que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade
internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
O
ataque de Donald Trump ao Irã continua, sem prazo para terminar. Ao que parece,
o presidente estadunidense iniciou uma guerra sem objetivos definidos, motivado
pela vontade de demonstrar poderio e pela vaga esperança de repetir sua façanha
na Venezuela.
Em vez
de sequestrar Ali Khamenei, como fez com Nicolás Maduro, optou por matá-lo,
algo que ofende o direito internacional em tantos níveis que é difícil até
comentar: sonhava que o regime estaria disposto a negociar sua continuidade em
troca do alinhamento com Washington (e Telavive). O desconhecimento que isto
revela da situação do Irã, da natureza da República Islâmica e da conjuntura do
Oriente Médio não surpreende. Afinal, neste segundo mandato, ele simplesmente
afastou os diplomatas e os especialistas das negociações com Teerã, colocando
em seu lugar um corretor de imóveis e seu próprio genro.
Agora,
ao que parece, ele está atordoado com o desenrolar dos acontecimentos. O jornal
Folha de S. Paulo, que ainda consegue surpreender, publicou reportagem sob o
título “Casa Branca não esperava resposta agressiva do regime iraniano à
guerra”. Caramba, eles recebem uma chuva de mísseis e é a resposta que é
“agressiva”?
Como
são agressivos, esses iranianos!
Segundo
os indícios recolhidos por quem acompanha a política no Império, Donald Trump
está esperando uma oportunidade para se proclamar vencedor e encerrar os
ataques – sem reconhecer que foi um instrumento da política de Israel e sem
assumir novamente a carapuça do TACO (sigla em inglês para “Trump sempre
amarela”). A maior potência mundial está à mercê da masculinidade frágil de seu
chefe. O problema é que ninguém sabe quando esta oportunidade vai surgir.
No
Brasil, a direita tosca de sempre comemorou a guerra. “Ninguém chora pelo Irã”,
escreveu o Estadão em editorial, enquanto o mundo via meninas iranianas sendo
mortas pelos mísseis estadunidenses numa escola – quase 170 crianças em um
único ataque. Mas o universo mental da direita, aqui indo dos editorialistas do
jornal da família Mesquita, sempre louvados por sua sofisticação e estilo, aos
apalermados que rezam para pneus, não consegue diferenciar entre a oposição a
um regime ditatorial e uma agressão externa, não se pergunta que mundo é esse
em que uma potência se dá o direito de matar líderes e invadir outros países ao
arrepio do direito internacional e da ONU, não se preocupa com o que emergirá
depois da guerra.
O
regime teocrático dos aiatolás é abominável. A repressão sangrenta aos
protestos populares é execrável. A esquerda brasileira devia ser capaz de
assumir estas afirmações com todas as letras – e expressar a esperança de que o
povo iraniano consiga sua liberdade. Nada disso justifica a agressão
estadunidense ou diminui a solidariedade ao Irã. É mesmo possível condenar a
natureza autoritária do regime e louvar a resistência aos Estados Unidos, que
pode até contribuir para refrear novas iniciativas imperialistas de Donald
Trump (na suposição de que o belzebu alaranjado seja capaz de aprender com a
experiência).
A
primeira constatação que salta não só desta guerra contra o Irã, mas de toda a
movimentação deste segundo governo de Donald Trump em política externa, é que a
China não cumpre o papel que foi da União Soviética no cenário internacional,
seja por incapacidade ou por cálculo. Não opõe uma resistência aos avanços dos
Estados Unidos, não protege os seus aliados, não contribui para gerar um
equilíbrio político-militar global.
Seria
possível discutir as razões deste comportamento – a ausência de um sentimento
internacionalista, que se manifesta desde a época de Mao; a prioridade
concedida ao front interno de própria transformação em potência econômica; a
mítica fixação chinesa na “longa duração”. Mas o fato é que Donald Trump se
sente bem livre para agir como lhe dá na telha.
Para o
Brasil (e para as eleições de outubro), a guerra carrega consequências
importantes.
Um
aspecto é que a agressão ao Irã sinaliza o fortalecimento do secretário de
Estado e conselheiro de Segurança Nacional, Marco Rubio, no governo de Donald
Trump. O mais belicoso dos integrantes da administração estadunidense é também
o que mais atenção concede à América Latina e o mais próximo da família
Bolsonaro. Há o risco, portanto, de um envolvimento maior de Washington nas
eleições brasileiras. O imbroglio envolvendo Darren Beattie, conselheiro do
governo americano que queria visitar Bolsonaro na cadeia e acabou tendo visto
de entrada negado, é significativo.
É claro
que, dado comportamento errático do presidente dos Estados Unidos, a situação
pode mudar a qualquer momento. Além disso, seus problemas internos devem se
tornar cada vez mais absorventes. A guerra ajuda, é bem verdade, a retirar os
holofotes do caso Epstein, que se mostra cada vez mais tóxico para ele.
Por
outro lado, a agressão ao Irã foi mal vista por uma parcela amplamente
majoritária da população do país. Nunca um início de guerra contou com apoio
tão diminuto. A oposição a ela inclui não apenas democratas e independentes,
mas muitos militantes trumpistas. Afinal, uma das promessas centrais no
movimento MAGA, reafirmada vezes sem fim por Donald Trump quando candidato, era
não envolver mais os Estados Unidos em conflitos externos. As críticas à guerra
no Congresso partem não apenas dos democratas, mas também de muitas lideranças
republicanas.
Donald
Trump sofre o risco do impeachment, está tendo reveses em muitas de suas
políticas (o tarifaço foi barrado pela Suprema Corte, sua polícia
anti-imigrantes foi exposta como assassina e teve que se retirar do Minnesota),
corre o seríssimo risco de sofrer uma derrota maiúscula nas eleições de meio
termo agora em novembro, que vão renovar um terço do Senado e toda a Câmara de
Representantes. Diante disto, é improvável que Flávio Bolsonaro seja uma
prioridade para ele. Ainda assim, o crescimento da influência de Marco Rubio é
mau sinal.
O
impacto mais óbvio da guerra, porém, se dá nos preços. O custo do barril do
petróleo já saltou nas últimas semanas e há o temor também de que faltem
insumos cujo comércio é prejudicado pelo fechamento do estreito de Ormuz, em
particular fertilizantes agrícolas.
A
dependência da agricultura brasileira de fornecedores internacionais, sobretudo
russos, é gritante (somos o maior importador mundial, trazendo de fora cerca de
85% do que é usado aqui) e tem causado sobressaltos constantes – durante a
pandemia, com a invasão da Ucrânia etc. Dólar alto e juros altos (determinados
pelo Banco Central “independente” de Gabriel Galípolo, em nada diverso daquele
de Roberto Campos Neto) completam o cenário sombrio.
Para o
consumidor brasileiro, que é também o eleitor, é o preço do combustível que
afeta de forma mais imediata a sua vida. Uma alta inflacionária puxada pelo
diesel e pela gasolina, para uma população que ainda sofre com os efeitos da
carestia da última década, coloca o governo em situação muito difícil.
O
governo tomou uma medida correta, zerando o imposto sobre o diesel e taxando as
importações. Mas ainda é pouco. Cabe a Lula cumprir a sua promessa e fazer a
Petrobrás realmente desatrelar o preço cobrado internamente das flutuações do
mercado externo, encerrando a política de paridade com o preço internacional
não apenas na retórica, mas na prática. Os custos internos de extração e refino
são muito menores, logo não faz sentido fazer o consumidor brasileiro pagar
mais. Quem quiser se aprofundar no assunto, pode buscar os artigos do meu xará
Felipe Coutinho, presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás.
É
verdade que a privatização da BR Distribuidora, durante o governo de Paulo
Guedes, reduziu a capacidade estatal de definir o preço para o consumidor
final, na bomba de combustíveis – e a margem de lucro dos intermediários
cresceu muito. Mas se justificam medidas de controle de preços, para evitar
abusos.
Não vão
faltar comentaristas econômicos e editoriais dos jornalões falando que é
“populismo”, “oportunismo eleitoral”, assim por diante. A Folha deu manchete
nesse sentido, quando saiu a decisão sobre o diesel. Um de seus colunistas
escreveu artigo hilário, dizendo que é necessário deixar os preços subirem para
que haja um efeito pedagógico e as pessoas percebam que é preciso reduzir a
dependência dos combustíveis fósseis. O terraplanismo de mercado nunca morre…
Controlar
o preço da gasolina e do diesel não é casuísmo, nem populismo. Sim, uma alta
inflacionária teria grave impacto nas possibilidades da reeleição de Lula (e
impedir o retorno do bolsonarismo não é uma preocupação conjuntural ou
secundária). Mas, para muito além da questão eleitoral, impedir a alta dos
combustíveis é uma ação necessária e responsável, em defesa da economia
nacional e do poder de compra da classe trabalhadora.
¨
Funcionário de inteligência dos EUA critica agressões de
Trump ao Irã
Joe
Kent anunciou sua renúncia ao cargo de diretor do Centro Nacional de
Contraterrorismo dos Estados Unidos, alegando discordância com a guerra em
curso no Irã. Em carta enviada ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump,
o ex-diretor afirmou não poder apoiar o conflito, sustentando que o Irã não
representa uma ameaça iminente ao país, informa o Investing.com.
Segundo
o ex-dirigente, a decisão de entrar em guerra teria sido influenciada por
pressões externas, especialmente de Israel e de grupos que ele descreveu como
ligados ao lobby pró-Israel nos Estados Unidos.
Na
carta, Kent argumenta que a escalada militar contraria princípios defendidos
por Trump durante suas campanhas presidenciais de 2016, 2020 e 2024. Ele
afirmou que, até junho de 2025, o presidente dos Estados Unidos compreendia os
custos humanos e econômicos das guerras no Oriente Médio.
O
ex-diretor também acusou autoridades israelenses e setores da mídia
norte-americana de promoverem uma campanha de desinformação. Segundo ele, essa
atuação teria levado Trump a acreditar que o Irã representava uma ameaça
imediata e que o conflito poderia ser resolvido rapidamente.
Kent
fez ainda uma comparação com a guerra do Iraque, afirmando que estratégias
semelhantes teriam sido utilizadas no passado para envolver os Estados Unidos
em um conflito que resultou em milhares de mortes de militares americanos.
Com
experiência militar marcada por 11 missões de combate, Kent também mencionou
sua vivência pessoal ao justificar sua posição. Ele relembrou a morte de sua
esposa, Shannon, que descreveu como vítima de uma guerra que, segundo sua
avaliação, foi impulsionada por interesses externos.
Ao
final da carta, o ex-diretor apelou para que o presidente dos Estados Unidos
reavalie a política em relação ao Irã e promova uma mudança de rumo na
estratégia adotada. A renúncia passou a valer na terça-feira, conforme
informado.
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Leia, na íntegra, a carta de renúncia de Joe Kent:
Após
muita reflexão, decidi renunciar ao meu cargo de Diretor do Centro Nacional de
Contraterrorismo, com efeito a partir de hoje.
Não
posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irã. O Irã não
representava nenhuma ameaça iminente à nossa nação, e é evidente que iniciamos
esta guerra devido à pressão de Israel e do seu poderoso lobby norte-americano.
Apoio
os valores e as políticas externas que o senhor [Trump] defendeu nas suas
campanhas de 2016, 2020 e 2024, e que implementou no seu primeiro mandato. Até
junho de 2025, o senhor compreendeu que as guerras no Médio Oriente eram uma
armadilha que roubava aos Estados Unidos as preciosas vidas dos nossos
patriotas e esgotava a riqueza e a prosperidade da nossa nação.
Na
sua primeira administração, o senhor compreendeu melhor do que qualquer
presidente moderno como aplicar decisivamente o poder militar sem nos arrastar para
guerras intermináveis. O senhor demonstrou isso ao matar Qasam Suleimani e ao
derrotar o Estado Islâmico.
No
início deste governo, altos funcionários israelenses e membros influentes dos
media americanos lançaram uma campanha de desinformação que minou completamente
a sua plataforma "America First" ("América Primeiro") e
semeou sentimentos pró-guerra para incentivar a uma guerra com o Irã. Essa
câmara de eco foi usada para lhe enganar, fazendo-o acreditar que o Irã
representava uma ameaça iminente aos Estados Unidos e que, se atacássemos
agora, haveria um caminho claro para uma vitória rápida. Isso era mentira e é a
mesma tática que os israelenses usaram para nos arrastar para a desastrosa
guerra do Iraque, que custou à nossa nação a vida de milhares de nossos
melhores homens e mulheres. Não podemos cometer esse erro novamente.
Como
veterano de guerra que foi enviado para combate 11 vezes e como marido de uma
militar condecorada com a Estrela de Ouro, a minha amada esposa, que perdi numa
guerra fabricada por Israel, não posso apoiar o envio da próxima geração para
lutar e morrer numa guerra que não traz nenhum benefício ao povo americano nem
justifica o custo de vidas americanas.
Rezo
para que [a administração] reflita sobre o que estamos a fazer no Irã e para
quem estamos a fazê-lo. A hora de agir com ousadia é agora. O senhor pode
reverter o curso e traçar um novo caminho para a nossa nação, ou pode permitir
que deslizemos ainda mais rumo ao declínio e ao caos. As cartas estão nas suas
mãos.
Foi
uma honra servir na sua administração e servir a nossa grande nação.
Joseph
Kent, Diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo
¨
Política externa do governo Trump no Oriente Médio não é
compreendida pelos estadunidenses, aponta Ipsos
A
população dos Estados Unidos tem dificuldade em compreender as decisões de
política externa do governo de Donald Trump no Oriente Médio, especialmente em
relação às agressões no Irã, segundo pesquisas da Ipsos. O presidente da
empresa nos EUA, Clifford Young, afirmou à CNN Brasil que os
estadunidenses não conseguem identificar com clareza as razões que justificam a
ofensiva militar no país do Oriente Médio. Ele afirmou que há uma percepção
negativa consolidada em relação a conflitos prolongados.
Young
também apontou que o governo Trump não conseguiu explicar de forma convincente
os objetivos da ação no Irã nem estabelecer apoio interno. O presidente da
Ipsos avaliou que houve falha na construção de consenso junto à população.
"Ele não justificou, ele não criou consenso internamente", disse. As
pesquisas indicam que apenas entre um terço e 40% dos estadunidenses apoiam as
operações militares na região. O levantamento também mostra que, mesmo entre
eleitores republicanos, há dúvidas sobre a necessidade dessas intervenções.
O
executivo também apontou dificuldades na articulação com aliados
internacionais. Segundo ele, diferentemente de governos anteriores, não houve
formação de coalizões para sustentar as ações no Irã. Young afirmou que a
posição dos Estados Unidos enfrenta resistência tanto no cenário interno quanto
externo. "Fica muito óbvio, tanto nas pesquisas na Europa, onde os Estados
Unidos neste momento têm uma credibilidade baixíssima, quanto com os
americanos", disse.
Fonte:
A Terra é Redonda/Brasil 247

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