sexta-feira, 20 de março de 2026

Luis Felipe Miguel: Os impactos da guerra no Irã

Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário

O ataque de Donald Trump ao Irã continua, sem prazo para terminar. Ao que parece, o presidente estadunidense iniciou uma guerra sem objetivos definidos, motivado pela vontade de demonstrar poderio e pela vaga esperança de repetir sua façanha na Venezuela.

Em vez de sequestrar Ali Khamenei, como fez com Nicolás Maduro, optou por matá-lo, algo que ofende o direito internacional em tantos níveis que é difícil até comentar: sonhava que o regime estaria disposto a negociar sua continuidade em troca do alinhamento com Washington (e Telavive). O desconhecimento que isto revela da situação do Irã, da natureza da República Islâmica e da conjuntura do Oriente Médio não surpreende. Afinal, neste segundo mandato, ele simplesmente afastou os diplomatas e os especialistas das negociações com Teerã, colocando em seu lugar um corretor de imóveis e seu próprio genro.

Agora, ao que parece, ele está atordoado com o desenrolar dos acontecimentos. O jornal Folha de S. Paulo, que ainda consegue surpreender, publicou reportagem sob o título “Casa Branca não esperava resposta agressiva do regime iraniano à guerra”. Caramba, eles recebem uma chuva de mísseis e é a resposta que é “agressiva”?

Como são agressivos, esses iranianos!

Segundo os indícios recolhidos por quem acompanha a política no Império, Donald Trump está esperando uma oportunidade para se proclamar vencedor e encerrar os ataques – sem reconhecer que foi um instrumento da política de Israel e sem assumir novamente a carapuça do TACO (sigla em inglês para “Trump sempre amarela”). A maior potência mundial está à mercê da masculinidade frágil de seu chefe. O problema é que ninguém sabe quando esta oportunidade vai surgir.

No Brasil, a direita tosca de sempre comemorou a guerra. “Ninguém chora pelo Irã”, escreveu o Estadão em editorial, enquanto o mundo via meninas iranianas sendo mortas pelos mísseis estadunidenses numa escola – quase 170 crianças em um único ataque. Mas o universo mental da direita, aqui indo dos editorialistas do jornal da família Mesquita, sempre louvados por sua sofisticação e estilo, aos apalermados que rezam para pneus, não consegue diferenciar entre a oposição a um regime ditatorial e uma agressão externa, não se pergunta que mundo é esse em que uma potência se dá o direito de matar líderes e invadir outros países ao arrepio do direito internacional e da ONU, não se preocupa com o que emergirá depois da guerra.

O regime teocrático dos aiatolás é abominável. A repressão sangrenta aos protestos populares é execrável. A esquerda brasileira devia ser capaz de assumir estas afirmações com todas as letras – e expressar a esperança de que o povo iraniano consiga sua liberdade. Nada disso justifica a agressão estadunidense ou diminui a solidariedade ao Irã. É mesmo possível condenar a natureza autoritária do regime e louvar a resistência aos Estados Unidos, que pode até contribuir para refrear novas iniciativas imperialistas de Donald Trump (na suposição de que o belzebu alaranjado seja capaz de aprender com a experiência).

A primeira constatação que salta não só desta guerra contra o Irã, mas de toda a movimentação deste segundo governo de Donald Trump em política externa, é que a China não cumpre o papel que foi da União Soviética no cenário internacional, seja por incapacidade ou por cálculo. Não opõe uma resistência aos avanços dos Estados Unidos, não protege os seus aliados, não contribui para gerar um equilíbrio político-militar global.

Seria possível discutir as razões deste comportamento – a ausência de um sentimento internacionalista, que se manifesta desde a época de Mao; a prioridade concedida ao front interno de própria transformação em potência econômica; a mítica fixação chinesa na “longa duração”. Mas o fato é que Donald Trump se sente bem livre para agir como lhe dá na telha.

Para o Brasil (e para as eleições de outubro), a guerra carrega consequências importantes.

Um aspecto é que a agressão ao Irã sinaliza o fortalecimento do secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, Marco Rubio, no governo de Donald Trump. O mais belicoso dos integrantes da administração estadunidense é também o que mais atenção concede à América Latina e o mais próximo da família Bolsonaro. Há o risco, portanto, de um envolvimento maior de Washington nas eleições brasileiras. O imbroglio envolvendo Darren Beattie, conselheiro do governo americano que queria visitar Bolsonaro na cadeia e acabou tendo visto de entrada negado, é significativo.

É claro que, dado comportamento errático do presidente dos Estados Unidos, a situação pode mudar a qualquer momento. Além disso, seus problemas internos devem se tornar cada vez mais absorventes. A guerra ajuda, é bem verdade, a retirar os holofotes do caso Epstein, que se mostra cada vez mais tóxico para ele.

Por outro lado, a agressão ao Irã foi mal vista por uma parcela amplamente majoritária da população do país. Nunca um início de guerra contou com apoio tão diminuto. A oposição a ela inclui não apenas democratas e independentes, mas muitos militantes trumpistas. Afinal, uma das promessas centrais no movimento MAGA, reafirmada vezes sem fim por Donald Trump quando candidato, era não envolver mais os Estados Unidos em conflitos externos. As críticas à guerra no Congresso partem não apenas dos democratas, mas também de muitas lideranças republicanas.

Donald Trump sofre o risco do impeachment, está tendo reveses em muitas de suas políticas (o tarifaço foi barrado pela Suprema Corte, sua polícia anti-imigrantes foi exposta como assassina e teve que se retirar do Minnesota), corre o seríssimo risco de sofrer uma derrota maiúscula nas eleições de meio termo agora em novembro, que vão renovar um terço do Senado e toda a Câmara de Representantes. Diante disto, é improvável que Flávio Bolsonaro seja uma prioridade para ele. Ainda assim, o crescimento da influência de Marco Rubio é mau sinal.

O impacto mais óbvio da guerra, porém, se dá nos preços. O custo do barril do petróleo já saltou nas últimas semanas e há o temor também de que faltem insumos cujo comércio é prejudicado pelo fechamento do estreito de Ormuz, em particular fertilizantes agrícolas.

A dependência da agricultura brasileira de fornecedores internacionais, sobretudo russos, é gritante (somos o maior importador mundial, trazendo de fora cerca de 85% do que é usado aqui) e tem causado sobressaltos constantes – durante a pandemia, com a invasão da Ucrânia etc. Dólar alto e juros altos (determinados pelo Banco Central “independente” de Gabriel Galípolo, em nada diverso daquele de Roberto Campos Neto) completam o cenário sombrio.

Para o consumidor brasileiro, que é também o eleitor, é o preço do combustível que afeta de forma mais imediata a sua vida. Uma alta inflacionária puxada pelo diesel e pela gasolina, para uma população que ainda sofre com os efeitos da carestia da última década, coloca o governo em situação muito difícil.

O governo tomou uma medida correta, zerando o imposto sobre o diesel e taxando as importações. Mas ainda é pouco. Cabe a Lula cumprir a sua promessa e fazer a Petrobrás realmente desatrelar o preço cobrado internamente das flutuações do mercado externo, encerrando a política de paridade com o preço internacional não apenas na retórica, mas na prática. Os custos internos de extração e refino são muito menores, logo não faz sentido fazer o consumidor brasileiro pagar mais. Quem quiser se aprofundar no assunto, pode buscar os artigos do meu xará Felipe Coutinho, presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás.

É verdade que a privatização da BR Distribuidora, durante o governo de Paulo Guedes, reduziu a capacidade estatal de definir o preço para o consumidor final, na bomba de combustíveis – e a margem de lucro dos intermediários cresceu muito. Mas se justificam medidas de controle de preços, para evitar abusos.

Não vão faltar comentaristas econômicos e editoriais dos jornalões falando que é “populismo”, “oportunismo eleitoral”, assim por diante. A Folha deu manchete nesse sentido, quando saiu a decisão sobre o diesel. Um de seus colunistas escreveu artigo hilário, dizendo que é necessário deixar os preços subirem para que haja um efeito pedagógico e as pessoas percebam que é preciso reduzir a dependência dos combustíveis fósseis. O terraplanismo de mercado nunca morre…

Controlar o preço da gasolina e do diesel não é casuísmo, nem populismo. Sim, uma alta inflacionária teria grave impacto nas possibilidades da reeleição de Lula (e impedir o retorno do bolsonarismo não é uma preocupação conjuntural ou secundária). Mas, para muito além da questão eleitoral, impedir a alta dos combustíveis é uma ação necessária e responsável, em defesa da economia nacional e do poder de compra da classe trabalhadora.

¨      Funcionário de inteligência dos EUA critica agressões de Trump ao Irã

Joe Kent anunciou sua renúncia ao cargo de diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos Estados Unidos, alegando discordância com a guerra em curso no Irã. Em carta enviada ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o ex-diretor afirmou não poder apoiar o conflito, sustentando que o Irã não representa uma ameaça iminente ao país, informa o Investing.com.

Segundo o ex-dirigente, a decisão de entrar em guerra teria sido influenciada por pressões externas, especialmente de Israel e de grupos que ele descreveu como ligados ao lobby pró-Israel nos Estados Unidos.

Na carta, Kent argumenta que a escalada militar contraria princípios defendidos por Trump durante suas campanhas presidenciais de 2016, 2020 e 2024. Ele afirmou que, até junho de 2025, o presidente dos Estados Unidos compreendia os custos humanos e econômicos das guerras no Oriente Médio.

O ex-diretor também acusou autoridades israelenses e setores da mídia norte-americana de promoverem uma campanha de desinformação. Segundo ele, essa atuação teria levado Trump a acreditar que o Irã representava uma ameaça imediata e que o conflito poderia ser resolvido rapidamente.

Kent fez ainda uma comparação com a guerra do Iraque, afirmando que estratégias semelhantes teriam sido utilizadas no passado para envolver os Estados Unidos em um conflito que resultou em milhares de mortes de militares americanos.

Com experiência militar marcada por 11 missões de combate, Kent também mencionou sua vivência pessoal ao justificar sua posição. Ele relembrou a morte de sua esposa, Shannon, que descreveu como vítima de uma guerra que, segundo sua avaliação, foi impulsionada por interesses externos.

Ao final da carta, o ex-diretor apelou para que o presidente dos Estados Unidos reavalie a política em relação ao Irã e promova uma mudança de rumo na estratégia adotada. A renúncia passou a valer na terça-feira, conforme informado.

>>>> Leia, na íntegra, a carta de renúncia de Joe Kent: 

Após muita reflexão, decidi renunciar ao meu cargo de Diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, com efeito a partir de hoje.

Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irã. O Irã não representava nenhuma ameaça iminente à nossa nação, e é evidente que iniciamos esta guerra devido à pressão de Israel e do seu poderoso lobby norte-americano.

Apoio os valores e as políticas externas que o senhor [Trump] defendeu nas suas campanhas de 2016, 2020 e 2024, e que implementou no seu primeiro mandato. Até junho de 2025, o senhor compreendeu que as guerras no Médio Oriente eram uma armadilha que roubava aos Estados Unidos as preciosas vidas dos nossos patriotas e esgotava a riqueza e a prosperidade da nossa nação.

Na sua primeira administração, o senhor compreendeu melhor do que qualquer presidente moderno como aplicar decisivamente o poder militar sem nos arrastar para guerras intermináveis. O senhor demonstrou isso ao matar Qasam Suleimani e ao derrotar o Estado Islâmico.

No início deste governo, altos funcionários israelenses e membros influentes dos media americanos lançaram uma campanha de desinformação que minou completamente a sua plataforma "America First" ("América Primeiro") e semeou sentimentos pró-guerra para incentivar a uma guerra com o Irã. Essa câmara de eco foi usada para lhe enganar, fazendo-o acreditar que o Irã representava uma ameaça iminente aos Estados Unidos e que, se atacássemos agora, haveria um caminho claro para uma vitória rápida. Isso era mentira e é a mesma tática que os israelenses usaram para nos arrastar para a desastrosa guerra do Iraque, que custou à nossa nação a vida de milhares de nossos melhores homens e mulheres. Não podemos cometer esse erro novamente.

Como veterano de guerra que foi enviado para combate 11 vezes e como marido de uma militar condecorada com a Estrela de Ouro, a minha amada esposa, que perdi numa guerra fabricada por Israel, não posso apoiar o envio da próxima geração para lutar e morrer numa guerra que não traz nenhum benefício ao povo americano nem justifica o custo de vidas americanas.

Rezo para que [a administração] reflita sobre o que estamos a fazer no Irã e para quem estamos a fazê-lo. A hora de agir com ousadia é agora. O senhor pode reverter o curso e traçar um novo caminho para a nossa nação, ou pode permitir que deslizemos ainda mais rumo ao declínio e ao caos. As cartas estão nas suas mãos.

Foi uma honra servir na sua administração e servir a nossa grande nação.

Joseph Kent, Diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo

¨      Política externa do governo Trump no Oriente Médio não é compreendida pelos estadunidenses, aponta Ipsos

A população dos Estados Unidos tem dificuldade em compreender as decisões de política externa do governo de Donald Trump no Oriente Médio, especialmente em relação às agressões no Irã, segundo pesquisas da Ipsos. O presidente da empresa nos EUA, Clifford Young, afirmou à CNN Brasil que os estadunidenses não conseguem identificar com clareza as razões que justificam a ofensiva militar no país do Oriente Médio. Ele afirmou que há uma percepção negativa consolidada em relação a conflitos prolongados.

Young também apontou que o governo Trump não conseguiu explicar de forma convincente os objetivos da ação no Irã nem estabelecer apoio interno. O presidente da Ipsos avaliou que houve falha na construção de consenso junto à população. "Ele não justificou, ele não criou consenso internamente", disse. As pesquisas indicam que apenas entre um terço e 40% dos estadunidenses apoiam as operações militares na região. O levantamento também mostra que, mesmo entre eleitores republicanos, há dúvidas sobre a necessidade dessas intervenções.

O executivo também apontou dificuldades na articulação com aliados internacionais. Segundo ele, diferentemente de governos anteriores, não houve formação de coalizões para sustentar as ações no Irã. Young afirmou que a posição dos Estados Unidos enfrenta resistência tanto no cenário interno quanto externo. "Fica muito óbvio, tanto nas pesquisas na Europa, onde os Estados Unidos neste momento têm uma credibilidade baixíssima, quanto com os americanos", disse.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Brasil 247

 

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