Reconhecer
a Educação como missão nacional
Ao
longo desta série, um argumento foi se tornando inevitável. A educação não pode
mais ser tratada como política setorial, sujeita a ciclos eleitorais curtos,
reformas episódicas e disputas fragmentadas. Ela precisa ser reconhecida e
organizada como missão nacional, nos termos substantivos com que as políticas
orientadas por missões vêm sendo formuladas no debate contemporâneo sobre
inovação, desenvolvimento e soberania.
Nesse
enquadramento, a escola pública deixa de ser apenas uma política social e passa
a operar como infraestrutura de coesão democrática. Reformas educacionais
profundas não resultam da imitação de “boas práticas”, mas da abertura de
janelas políticas específicas. O Brasil acumulou diagnósticos corretos, mas
adiou as escolhas estruturais. Considerados em conjunto, esses elementos
conduzem a uma conclusão clara: sem tratar a educação como missão de Estado,
nenhuma transformação duradoura será possível.
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Educação e a lógica das missões
No
campo das políticas de inovação, a noção de missão representa uma inflexão
decisiva. Em vez de conceber a inovação como resultado espontâneo do mercado ou
como subproduto da pesquisa isolada, a abordagem orientada por missões a
entende como uma escolha estratégica do Estado, organizada em torno de
problemas nacionais de longo curso.
Essa
perspectiva parte de um diagnóstico simples: o principal bloqueio não está na
ausência de competências, mas na incapacidade de integrá-las, escalá-las e
coordená-las ao longo do tempo. É esse raciocínio que sustenta a proposta de
missões nacionais no horizonte 2027–2050, formulada em debates recentes sobre
soberania tecnológica e desenvolvimento.
O ponto
decisivo é reconhecer que o mesmo vale para a educação – com ainda mais força.
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A missão estruturante
A
educação não é apenas uma missão entre outras: é a missão estruturante. Sem uma
base educacional sólida, equitativa e universal, nenhuma outra missão nacional
se sustenta no tempo.
Políticas
de inovação exigem formação científica ampla; sistemas de saúde resilientes
dependem de uma educação básica de qualidade; a transição ecológica requer
capacidades técnicas disseminadas; a soberania digital pressupõe competências
críticas; e a própria democracia se fragiliza quando a escola falha em cumprir
sua função integradora.
Essa
centralidade vem sendo reconhecida internacionalmente. A OCDE insiste que
sistemas educacionais altamente desiguais desperdiçam talentos, elevam os
custos sociais e fragilizam a coesão democrática. A UNESCO passou a tratar
explicitamente a educação como pilar de um novo contrato social, essencial para
a democracia e o desenvolvimento sustentável.
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Do diagnóstico à organização do problema
O
Brasil não sofre de escassez de diagnósticos educacionais. Universalizou o
acesso formal à escola, mas não o direito à aprendizagem. O que faltou não foi
evidência empírica, mas organização política do problema.
Aprisionada
entre ciclos eleitorais curtos, reformas descontínuas e disputas corporativas,
a educação brasileira foi tratada como uma política permanentemente provisória.
Como advertiram Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, sistemas educacionais
tendem a converter desigualdades sociais prévias em desigualdades escolares
“legítimas” sempre que não são deliberadamente organizados para combatê-las.
Nomear
a educação como missão é romper com essa inércia institucional.
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Horizonte histórico: 2027–2050
Reformas
educacionais profundas são, por definição, intergeracionais. Não se resolvem em
um mandato nem em um ciclo eleitoral. Por isso, o horizonte 2027–2050 impõe-se
como referência coerente para uma missão educacional de Estado.
Esse
horizonte não é uma promessa imediatista nem um plano fechado. Ele expressa a
necessidade de continuidade institucional, de aprendizado administrativo e da
capacidade de correção gradual de rumos. O novo mandato presidencial a ser
iniciado em 2027 pode – se houver decisão política – inaugurar esse ciclo,
blindando a educação contra o imediatismo que, historicamente, a desorganizou.
Esse
enquadramento ajuda a recolocar, com sobriedade, o lugar do Plano Nacional de
Educação (PNE 2014–2024). O PNE foi o marco de planejamento mais explícito da
educação brasileira recente. Seu desempenho desigual não prova que planejar não
funciona; mostra, ao contrário, que planejamento sem coordenação federativa
robusta, financiamento estável e mecanismos de responsabilização pública
torna-se vulnerável à fragmentação e ao curto prazo.
Tratar
a educação como missão não compete com o PNE. Busca criar exatamente o “andar
de cima” de governança, horizonte e coordenação que faltou para transformar
metas em política de Estado.
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O que uma missão educacional não é
Assumir
a educação como missão implica também deixar claro o que ela não é. Não se
trata de reforma curricular isolada, nem de digitalização acrítica do ensino,
nem de avaliações punitivas, nem de soluções mágicas baseadas em plataformas ou
algoritmos. Como discuti no texto sobre equidade e projeto de país, tecnologia
sem projeto tende a amplificar desigualdades pré-existentes, agora sob a
aparência de modernização.
Missões
não se fazem por atalhos. Elas exigem arquitetura institucional, coordenação
federativa, valorização do magistério, financiamento redistributivo e
compromisso sustentado com a redução das desigualdades estruturais.
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Da escolha à institucionalização
Ao
reconhecer a educação como missão nacional, o debate muda de patamar. A
pergunta deixa de ser “qual política adotar” e passa a ser como organizar o
Estado para sustentar essa escolha ao longo de décadas.
Essa
transição – do ensaio à institucionalização – é decisiva. Exige governança
clara, métricas públicas, coordenação interministerial e um horizonte temporal
explícito. A educação não pode permanecer fora da arquitetura estratégica do
desenvolvimento nacional.
A
partir desse ponto, a questão já não é se o Brasil precisa de uma revolução
educacional. A questão é se o país está disposto a assumi-la como missão
nacional, integrada a um projeto democrático, soberano e socialmente justo para
o ciclo 2027–2050.
Os
argumentos desenvolvidos ao longo desta série foram aprofundados na Nota
Técnica “Educação como Missão Nacional – Equidade, capacidades e futuro comum
no Brasil (2027–2050)”, na qual proponho organizar a educação como missão
nacional de Estado no horizonte 2027–2050, discutindo governança, coordenação
federativa e critérios de acompanhamento.
Fonte:
Por Celso Pinto de Melo, em Outras Palavras

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