sábado, 21 de março de 2026

Guerra leva países do Golfo a questionar aliança com os EUA

As declarações feitas após uma reunião de emergência dos ministros das relações exteriores dos países árabes e islâmicos, realizada nesta quinta-feira (19/03) em Riad, na Arábia Saudita, tiveram um único tema: o Irã.

No dia anterior, em uma grave escalada da guerra que teve início no final de fevereiro, quando os Estados Unidos e Israel atacaram o país persa, uma ofensiva iraniana atingiu um importante centro de produção de energia no Catar. O fato ocorreu após um ataque israelense contra o campo de gás de South Pars, no Irã.

A paciência da Arábia Saudita está se esgotando, afirmou o ministro do Exterior do país, o príncipe Faisal bin Farhan, em uma coletiva de imprensa após a reunião. O reino saudita prefere uma solução diplomática e deixou claro que não permitirá que o país seja usado para lançar ataques contra o Irã, acrescentou Farhan. Mas a Arábia Saudita também pode utilizar todos os meios para fazer com que o Irã pare de atacar países vizinhos que não estão diretamente envolvidos no conflito, declarou.

Os sinais são claros: os países do Golfo Pérsico estão cada vez mais perto de serem arrastados para uma guerra da qual nunca quiseram fazer parte.

<><> Não é nossa guerra, dizem países do Golfo

Embora o Irã seja o país que os está atacando, há também, no Golfo, uma crescente desilusão com os Estados Unidos. Observadores afirmam que a ideia de que o Washington defenderia os Estados do Golfo por terem importantes bases militares na região revelou-se ilusória, ou pelo menos não tão eficaz quanto se esperava. Muitos dos mísseis e drones iranianos que tinham como alvo o Golfo Pérsico não foram interceptados pelas forças armadas da região nem pelos EUA.

O Irã justificou os ataques aos países do Golfo alegando que eles abrigam essas bases americanas – embora mísseis iranianos também tenham atingido infraestrutura petrolífera e instalações civis, como aeroportos e hotéis.

"Essa guerra é de Netanyahu", afirmou o príncipe Turki al-Faisal, ex-chefe dos serviços de inteligência da Arábia Saudita, em entrevista à CNN no início de março, referindo-se ao primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. "De alguma forma, ele convenceu o presidente [Donald Trump] a bancar suas intenções."

Aparentemente, os EUA também ignoraram os alertas dos países do Golfo ao decidirem prosseguir com a guerra, informaram fontes anônimas da região à agência de notícias Associated Press, em março.

Foi assim que os países do Golfo aprenderam uma lição amarga: que essas bases americanas não garantem necessariamente dissuasão ou proteção. Pelo contrário: na verdade, elas transformam o país que as abriga também em um alvo.

<><> Fim da era da "neutralidade"

De fato, as bases americanas têm levado os países do Golfo a perderem a autonomia, diz um artigo em árabe publicado no jornal Al Araby Al Jadeed, financiado pelo Catar. As bases americanas não protegem os países do Golfo, argumentou o periódico, mas os impedem de tomar decisões de forma independente e de se defenderem.

A guerra com o Irã deu início a um debate sobre estratégia e segurança, afirmam os observadores. O Middle East Council on Global Affairs, um think tank com sede no Catar, define a atitude pré-guerra como de "neutralidade cautelosa". Tal postura tinha como objetivo impedir que os países do Golfo se tornassem campos de batalha e evitar que o conflito colocasse em risco os planos de desenvolvimento futuro na região.

"A percepção inicial era de que Israel – e, em certa medida, os EUA – eram responsáveis pela escalada", afirma Bruno Schmidt-Feuerheerd, cientista político e pesquisador da Universidade de Oxford. Depois que o Irã começou a atacar os países do Golfo, ficou claro que a segurança desses países dependia de terceiros, diz ele. "Nesse sentido, a frustração é direcionada principalmente a atores externos", acrescenta.

Pauline Raabe, analista sênior da consultoria Middle East Minds, com sede em Berlim, também aponta que as críticas dirigidas aos Estados Unidos estão se tornando mais vocais e públicas. "Os países do Golfo estão unidos, antes de tudo, pelo choque que sentiram." A Arábia Saudita, em particular, "criticou abertamente Trump e Netanyahu", enquanto o Catar reagiu com mais cautela, continua.

Nesta semana, o ministro do Exterior de Omã, Badr al-Busaidi, escreveu em um artigo de opinião no semanário britânico The Economist que "os Estados Unidos perderam o controle de sua própria política externa" e que os aliados de Washington devem ajudar a livrar o país "desse emaranhado indesejado".

Os Emirados Árabes Unidos têm sido alvo de ataques particularmente intensos por parte do Irã."Logo, talvez não se trate apenas das bases americanas, mas também de colocar sob pressão os modelos [econômicos] de sucesso na região – como o de Dubai", aponta Schmidt-Feuerheerd.

A reputação de Dubai como um local seguro para negócios e como atração turística é um pilar central dos planos dos Emirados Árabes para desenvolver setores não petrolíferos de sua economia. E é por isso que a cidade é particularmente sensível ao tipo de instabilidade que a guerra traz, como já havia apontado anteriormente o think tank americano Atlantic Council.

<><> Mudança nas relações com os EUA

A longo prazo, é provável que a guerra no Irã leve os países do Golfo Pérsico a reavaliarem suas relações com Washington. "Acredito que isso acontecerá após a guerra", afirma Schmidt-Feuerheerd. Segundo ele, os países do Golfo terão de decidir "se as bases militares dos EUA representam um benefício para a segurança ou um risco".

No entanto, acrescenta o especialista, a integração militar com os EUA é tão profunda que uma mudança levaria anos. "Enquanto isso, o acordo de décadas que prevê petróleo barato em troca de garantias de segurança dos Estados Unidos está começando parecer um modelo ultrapassado", argumenta Raabe.

A pesquisadora também acredita ser improvável uma ruptura repentina. Segundo ela, os laços entre os EUA e os países do Golfo evoluíram ao longo de décadas e vão muito além da cooperação militar.

No entanto, diz, já havia sinais, antes mesmo da guerra, de que uma nova orientação estava surgindo. A Arábia Saudita vem desenvolvendo parcerias com o Paquistão e a Turquia, enquanto o Catar se aproximou de países europeus como o Reino Unido e a França.

"Esses desenvolvimentos já estavam em andamento", explica Raabe. "Mas, dada a situação atual, eles se tornaram ainda mais significativos."

<><> Em busca da diversificação

Schmidt-Feuerheerd concorda. "Nos últimos anos, os observadores têm falado sobre uma estratégia de diversificação", conta ele. Essa nova abordagem levou ao desenvolvimento de laços mais estreitos com vários outros parceiros, incluindo a China, a Turquia e países europeus.

O termo "diversificação" ("hedging", em inglês) tem origem na economia. No entanto, não está muito claro como ele funciona quando se fala de segurança e defesa. É difícil, por exemplo, que a segurança no Golfo possa ser diversificada tão facilmente quanto um portfólio de investimentos.

"Nenhum desses [novos] parceiros representa uma alternativa militar genuína", aponta Schmidt-Feuerheerd. Além disso, os países do Golfo nem sempre estão unidos quando se fala de orientação política. "De forma alguma é certo que eles agirão como uma entidade unificada", explica.

Antes do início da guerra, que os obrigou a se unir novamente, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes, por exemplo, vinham caminhando para uma relação cada vez mais antagônica. Há, porém, algo que eles têm em comum. "A estabilidade regional é o fator decisivo para todos os países do Golfo", diz Raabe.

Todos os planos desses países para desenvolver suas economias longe do petróleo e rumo a um futuro próspero – desde o Visão 2030 da Arábia Saudita até as ambições globais de Dubai e Doha – dependem da paz e de um ambiente regional estável e, portanto, também da capacidade deles de se defender.

¨      Como a guerra no Irã afeta investimentos de países do Golfo

As somas investidas em diferentes países ao redor do mundo investidas pelos países do Golfo são astronômicas. Fundos soberanos de nações ricas em petróleo no Golfo Pérsico, incluindo Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar e Kuwait, gerenciam cerca de 5 trilhões de dólares (R$ 26 trilhões) em investimentos.

"O impacto global dos países do Golfo não se limita ao petróleo", disse Majed al-Ansari, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Catar, a jornalistas durante um painel online organizado nesta terça-feira (17/03) pelo think tank Middle East Council on Global Affairs. "Esta região é um centro da economia internacional e, se decidir concentrar-se em sua defesa, retirar investimentos e interromper seu engajamento econômico com a comunidade internacional, o efeito será sentido em todos os lares do mundo."

Nos últimos anos, o dinheiro dos países do Golfo foi investido nos mais variados setores. Um dos exemplos mais recentes ocorreu quando fundos soberanos do Golfo apoiaram uma oferta da empresa americana de entretenimento Paramount para adquirir a concorrente Warner Brothers.

No ano passado, após o então presidente dos EUA, Donald Trump, visitar o Oriente Médio, ele voltou com promessas de investimentos de vários trilhões de dólares da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos e do Catar.

Na última década, os países do Golfo também gastaram cerca de 100 bilhões de dólares (R$ 519 bilhões) na África em projetos para melhorar a segurança alimentar, obter minerais críticos e financiar iniciativas de transição energética.

Eles também investiram bilhões no que especialistas descrevem como "diplomacia de resgate" em sua própria região. Isso é definido como "a prática de distribuir grandes pacotes de auxílio financeiro ou material para socorrer Estados enfrentando crises financeiras ou econômicas", escreveram especialistas em um artigo de pesquisa de 2023. Isso incluiu ajuda para estabilizar a economia do Egito, além de financiar reconstrução e assistência na Síria, Líbano e Gaza.

<><> Exportações estagnadas e instabilidade

Mas devido à guerra com o Irã, essas políticas de investimento podem mudar em breve.

A guerra, que começou quando os EUA e Israel atacaram o Irã no final de fevereiro, fez com que a maioria dos países do Golfo reduzisse a produção e o transporte de petróleo e gás – cujas vendas representam a maior parte da renda nacional dessas nações. O Irã acusa os países do Golfo de desempenharem um papel nessa guerra e tem, por isso, atacado infraestrutura petrolífera, aeroportos e bases militares americanas em vários deles. O Irã também bloqueou o importante estreito de Ormuz, rota vital para o transporte de hidrocarbonetos.

Como resultado, a empresa de consultoria Oxford Economics concluiu, em um relatório publicado neste mês, que a renda nacional dos países do Golfo crescerá apenas 2,6% este ano – 1,8% a menos do que as previsões originais.

Alguns países serão mais afetados do que outros, observaram os pesquisadores, porque Omã e Arábia Saudita ainda têm rotas alternativas para exportar petróleo e podem até se beneficiar do aumento dos preços. Bahrain, Kuwait e Catar, por outro lado, não dispõem dessas alternativas.

Os países do Golfo vinham tentando diversificar suas economias para reduzir a dependência do petróleo, mas a guerra com o Irã afetou esses planos. Ela prejudicou o turismo, o setor imobiliário e o digital na região, e fez as bolsas locais despencarem.

Como escreveu em um artigo publicado neste mês Frederic Schneider, pesquisador do Middle East Council: "Vídeos de explosões em Dubai, Doha e Manama perfuraram a imagem cuidadosamente cultivada de segurança no Golfo".

Especialistas em turismo afirmam que o fechamento do espaço aéreo, especialmente durante o Ramadan, pode levar a uma perda de até 56 bilhões de dólares nas receitas de turismo.

<><> O que acontecerá com os investimentos do Golfo?

"Ainda é muito cedo para afirmar com certeza como as economias do Golfo serão afetadas pelo conflito", diz Tim Callen, pesquisador do Arab Gulf States Institute, em Washington. "Certamente haverá impacto negativo no curto prazo, mas os efeitos de longo prazo dependerão da duração do conflito e da situação regional quando ele terminar."

A maioria dos fundos soberanos do Golfo ainda é sólida, afirmou ele numa mensagem enviada à DW. "Então, neste momento, não acho que a guerra terá grande impacto nas estratégias de investimento no exterior. Mas isso pode mudar se o conflito se prolongar e o impacto sobre a economia doméstica aumentar."

Observadores acreditam também que os países do Golfo atacados pelo Irã podem ter novas prioridades de gastos quando os combates terminarem. Em um texto publicado nesta segunda-feira, a empresa de consultoria libanesa Nasser Saidi and Associates afirma que essas prioridades podem incluir um "maior investimento em infraestrutura de resiliência, como reservas estratégicas de alimentos ou gasodutos alternativos e aumento de gastos governamentais em reconstrução, defesa e segurança".

"Haverá um impacto", confirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Catar, Majed al-Ansari. "Por causa das dificuldades econômicas resultantes da guerra e da redução da confiança na estabilidade do Golfo, estaremos ocupados – reconstruindo, reforçando nossa postura defensiva e lidando com a crise regional imediata."

Também é possível que os fundos soberanos sejam acionados para apoiar suas economias internas, sugeriu Rachel Ziemba, pesquisadora do think tank Gulf International Forum, em um artigo publicado neste mês.

<><> Reavaliação das promessas feitas a Trump

Nesta semana, o jornal Financial Times citou uma fonte anônima dizendo que três grandes países do Golfo estavam revisando investimentos planejados nos EUA devido ao impacto financeiro da guerra.

No ano passado, após a visita de Trump, os EAU concordaram em investir 1,4 trilhão de dólares, o Catar prometeu 1,2 trilhão de dólares, e a Arábia Saudita assinou acordos de 600 bilhões de dólares, incluindo um pacote de armas de 142 bilhões de dólares – o maior da história.

Mas Tim Callen, do AGSI, diz não acreditar que tal revisão vá ocorrer. Ele afirma que o aumento dos gastos militares – algo que a Arábia Saudita provavelmente deseja – seria compatível com os compromissos já assumidos com os EUA.

Rachel Ziemba observa ainda que várias dessas promessas eram mais declarações de intenção.

Segundo  Callen, no curto prazo os impactos são claros: haverá menor crescimento do que o esperado. No médio prazo, a região será vista como mais arriscada. Mas os efeitos de longo prazo ainda são incertos. "O investimento em todos os setores será afetado. A questão é: quanto e por quanto tempo. Isso dependerá de como a guerra termina. Se o risco de futuros conflitos permanecer, o impacto poderá ser permanente", frisa.

 

Fonte: DW Brasil

 

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