Região
Nordeste é associada ao atraso e à irracionalidade política
A
famosa frase que Euclides da Cunha imortalizou em sua obra Os Sertões, segundo
a qual o sertanejo é, antes de tudo, um forte, num contexto em que o escritor
enaltecia a resistência, a resiliência e a capacidade de superação do povo
nordestino, bem poderia, nos dias de hoje, se transformar em algo como o
sertanejo é, antes de tudo, uma vítima do preconceito – e não é necessário ir
muito longe para chegar a essa constatação.
Basta
pegar um bonde de volta à eleição de Luiz Inácio Lula da Silva como presidente
do País no pleito de 2022, quando se exacerbou o preconceito de que os
habitantes dos Estados do Nordeste – que em sua maioria votaram no candidato
petista – sempre sofreram, e que é, inclusive, tema de uma tese de doutorado
(Conheço o Meu Lugar – Paulistanidade e Estigmatização Nordestina nas Eleições
Presidenciais [1989-2022]) defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas (FFLCH) da USP pela pesquisadora Marina Chaves de Macedo Rego,
que demonstrou que parte da imprensa tradicional paulista associa a região com
o atraso e a irracionalidade política.
Para
chegar a essa constatação, Marina rastreou as últimas nove eleições
presidenciais do País, de 1989 a 2022, valendo-se de dados colhidos em jornais
como Diário de Pernambuco, Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo. O resultado da
pesquisa apontou que, em 50% dos casos em que o Nordeste foi citado nos últimos
dois veículos, sua imagem está ligada a estereótipos que o associam com seca e
falta de instrução. São representações, segundo Marina, que, além de reforçarem
preconceitos históricos, deslegitimam o exercício político de grande parcela
das populações nordestinas. A cada cinco vezes que o Nordeste é citado, uma
traz um estereótipo negativo da região.
Como se
não bastasse, independentemente dos resultados eleitorais, o nordestino é
retratado como menos racional politicamente, quando não considerado apenas como
alguém guiado por votos amparados em políticas de distribuição de renda ou de
assistência social. Das 1.080 notícias analisadas pela pesquisadora, 69%
relacionam o Nordeste ao Partido dos Trabalhadores (PT), e geralmente de forma
depreciativa. Segundo Marina, “mesmo quando o Nordeste não votava
majoritariamente no PT, por exemplo, já se tentava associar o Nordeste ao PT”.
Mesmo tendo Lula vencido as eleições no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul,
em 1989 – e perdido no Nordeste, mas quase ganhando em São Paulo -, ainda assim
a região continuou a ser tratada por uma parcela tradicional da imprensa
paulista como a de concentrar o maior eleitorado do candidato petista.
<><>
Estigma
Tudo
contribui, portanto, para que a palavra nordestina, enquanto prática política,
seja estigmatizada, inferiorizada e deslegitimada, o que, para Marina, foi a
principal estratégia utilizada quando do impeachment da ex-presidente Dilma
Roussef, em 2016. Diz a pesquisadora: “Simbolizar um exercício político como
nordestino é capaz de diminuir esse exercício político, de tentar
deslegitimá-lo em movimentos conservadores. E isso foi possível em âmbito
nacional quando houve um golpe institucional em 2016”.
<><>
Preconceito vem do passado
O
preconceito contra o Nordeste não é um fenômeno atual, mas deve ser buscado no
passado, com a decadência da economia açucareira e a ascensão do mercado
cafeeiro no Sudeste do Brasil, no fim do século 19. Com a concentração de renda
mudando de mãos, saindo do Nordeste rumo ao Sudeste, São Paulo, sobretudo,
passou a ser sinônimo de industrialização, atraindo para si imigrantes europeus
brancos – isto, por sua vez, foi parte de uma política do Estado brasileiro de
tentar embranquecer a população por meio do estímulo à vinda de europeus
brancos para as regiões que estavam em franca expansão industrial.
Já o
Nordeste, por sua vez, permaneceu povoado por uma população em que predominavam
negros, ex-escravizados. A consequência é que São Paulo passou a ser visto como
o futuro do desenvolvimento, enquanto ao Nordeste coube a pecha de uma região
colada ao passado, que deveria ser superada, segundo Marina. Na prática
cotidiana, essa distorção pode ser vista, destaca a pesquisadora, no uso
pejorativo da palavra “baiano” para “qualificar” indiscriminadamente todos os
migrantes nordestinos, além de negros e indígenas, geralmente às margens da
pobreza.
Marina
destaca que não há populações superiores a outras, nem mesmo quando São Paulo é
tratada como locomotiva do País, uma forma de conferir ao Estado uma
superioridade que viria de uma parcela rica e branca da população paulista. No
mesmo sentido, não existe população paulista e nordestina que seja homogênea,
de vez que todas possuem suas especificidades. Tais ideias, segundo a
socióloga, são fruto de construções históricas baseadas na desigualdade racial
e de classe.
• Nordeste, um quebra-cabeça feito de
fome, elites e interesses
Abre-se
um site, folheia-se uma revista, escuta-se no rádio ou na televisão:
nordestinos. Mais de 55 milhões de pessoas, distribuídas em nove Estados e
carimbadas com o mesmo denominador: nordestinos. Dos manguezais do litoral
pernambucano à amazônia maranhense, passando pelos ventos do cerrado e pela
aspereza do semiárido: nordestinos.
Uma
identidade que não é encontrada em qualquer outro lugar do País. Desafie-se a
topar com o termo “sudestinos” escancarando manchetes de jornal. Ou arrisque-se
em adivinhar como são chamadas as pessoas nascidas no Centro-Oeste.
O
Nordeste, como uma unidade de geografia, cultura e problemas, é uma construção.
Se aparece com naturalidade em diversas frentes, não deixa de merecer
questionamentos sobre seus sentidos quando é observado mais de perto.
“As
divisões territoriais pensadas e implementadas ao longo das décadas de 1910 e
1960 incorporaram, gradativamente, critérios vários: homogeneidade de fatos
geográficos, modernização da administração com vistas à integração do
território brasileiro, disparidades regionais”, explica André Luiz de Miranda
Martins, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pesquisador
no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, que neste mês de maio
ministra, no IEB, o curso Interpretações do Nordeste.
Segundo
Martins, um dos objetivos dessa divisão territorial, sobretudo a partir de
1930, foi dar racionalidade à ação do Estado. Nesse sentido, o conjunto de
decisões tomadas e os traçados estipulados precisaram encontrar um ponto de
referência que foi, antes de tudo, arbitrário. Seria a geografia física,
questiona o pesquisador, um critério de unidade?
“Há um
Nordeste litorâneo, úmido, com manguezais, zona da mata, resquícios de mata
atlântica até”, comenta. “Há um cerrado nordestino; um Nordeste amazônico, ou
uma amazônia maranhense, pois cerca de 25% do Maranhão integram a Amazônia
Legal; há um Nordeste seco, o do semiárido.”
Para
identificar o que serviria de referência para essa suposta unidade, Martins
aposta suas fichas na semiaridez desse maciço – quase 1 milhão de km², cerca
65% do território nordestino. “Esse foi o Nordeste apresentado ao público
leitor nacional por Rodolfo Teófilo e Euclides da Cunha, entre o fim do século
19 e o início do 20”, reflete. “Ali está um Nordeste onde nada, absolutamente
nada, ‘se presta a soluções fáceis’, como certa feita registrou Celso Furtado.”
Esse é o Nordeste agregado pela cana-de-açúcar que “devorou tudo”, segundo o
professor: biomas, trabalhadores e decência.
<><>
Um Nordeste tutelado pelas elites
Para
Martins, as culturas políticas alimentam os critérios para as divisões
regionais. “Não sei se há um Nordeste inventado”, pondera. “Prefiro acreditar
em um Nordeste tutelado pelas elites, regionais e nacionais, de cujos frutos
grande parte da população é alienada, mesmo que os tenha criado.”
Se
esses frutos desaparecem – ou melhor, trocam de mãos – em seu lugar surgem
miséria e sofrimento. Uma dupla terrível que também acaba sendo arrancada do
sertanejo despossuído, tornando-se produto de exploração muito bem desenhado e
reafirmado pelas elites.
“Há um
Nordeste muito precisa e negativamente delimitado, que é informado pelas
imagens de nordestinos estiolados pelo desemprego, pela seca, pela fome”,
enfatiza o pesquisador. “Essas imagens se gravaram na pedra da memória coletiva
nacional e foram usadas incansavelmente pelas elites dos Estados da região para
pactuar ‘ajudas federais’. Assim evocadas, as lutas pelos nordestinos ‘com
sotaque’ foram, contudo, e sempre, lutas pelas condições de integração da
classe média e das elites ao Sudeste”, denuncia Martins.
<><>
Um Nordeste que se vê
Ao
longo do século 20, as artes foram sendas exaustivamente percorridas para se
criar um imaginário sobre o Nordeste e os nordestinos. A agudeza dos retirantes
de Euclides da Cunha, Candido Portinari e Graciliano Ramos lateja até hoje a
sensibilidade de quem se desliza por seus traçados.
No
cinema, o interesse pelo Nordeste pode ser rastreado até a década de 1920, com
o chamado Ciclo do Recife. Mais de uma dezena de filmes foram realizados na
cidade no período, incluindo longas-metragens de ficção, como Jurando Vingar, A
Filha do Advogado e Revezes, e também documentários como Veneza Americana.
“Houve
um surto de cinema durante o período silencioso”, explica o professor do
Departamento de Cinema, Rádio e TV da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da
USP Carlos Augusto Calil. “Alguns desses filmes fizeram sucesso, tendo sido
exibidos em capitais do Norte e do Nordeste. Mas não chegaram ao Sul do País,
nem sequer à capital da República, na época o Rio de Janeiro. Constituíram um
fenômeno localizado, e que não pôde, portanto, se autossustentar.”
Segundo
Calil, essa representação local do Nordeste tem mais semelhanças com a cena
atual do que o cinema que veio logo em seguida. Eram cineastas pernambucanos,
cearenses, paraibanos e baianos que realizaram suas obras sem simplificar a
polaridade litoral/sertão. Um retrato diferente daquele proposto nos anos 1960
pelo Cinema Novo, conforme comenta o professor.
“Durante
o Cinema Novo, em que muitos cineastas de fora filmaram no Nordeste – sobretudo
paulistas, como Nelson Pereira dos Santos e a Caravana Farkas, cariocas, como
Alex Viany e Walter Lima Jr. e também um moçambicano, Ruy Guerra -, houve uma
ênfase no sertão como representante do Brasil profundo, repositório de atraso e
da cultura autêntica do País.”
O
cinema contemporâneo quebra esses estereótipos, que se arrastam até Central do
Brasil, e retomam a orientação dos pioneiros silenciosos. “Nos filmes do
cearense Karim Ainouz e dos pernambucanos Kleber Mendonça e Gabriel Mascaro,
tanto o interior quanto o litoral são abordados fora de expectativas
confortáveis de papéis sociais e políticos predeterminados. Boi Neon, por
exemplo, revela um sertão pop, acentuadamente erotizado, muito distante da
imagem austera de um Vidas Secas”, pontua Calil.
<><>
Um Nordeste que se ouve
Generalizações,
reduções e idealizações também estão na música quando se fala de Nordeste.
Nesse sentido, Alberto Ikeda, professor-colaborador do Programa de
Pós-Graduação em Música da ECA e professor aposentado do Instituto de Artes da
Universidade Estadual Paulista (Unesp), destaca que, apesar de aproximações e
influências, a região apresenta uma diversidade maior do que se imagina e se
propaga para outras regiões do País.
“O
Nordeste não tem a unidade cultural e musical que se supõe, embora,
evidentemente, existam alguns ritmos musicais que estão, sim, disseminados por
ampla região, com certas semelhanças, transpassando os limites geopolíticos
estabelecidos, como o exemplo dos cocos”, pontua, citando uma dança tradicional
do Nordeste e do Norte. “Contudo, de fato, diversos gêneros musicais populares
da Bahia não se confundem com outros próprios de Pernambuco, da mesma forma que
os demais Estados ou mesmo algumas localidades e regiões podem ter
musicalidades específicas e distintas, mas que não estão inseridas no espectro
das músicas populares mais reconhecidas e disseminadas.”
Uma das
formas dessa exclusão, salienta, é a rotulação de determinados ritmos como
folclóricos. É o caso dos maracatus de Pernambuco e do Ceará, os caboclinhos e
outras expressões indígenas e o bambelô, do Rio Grande do Norte, que não são
incorporados como “música popular”, lembra Ikeda.
<><>
Um Nordeste que se pensa
Como
uma questão no pensamento intelectual brasileiro, o Nordeste surge com as
crises das economias açucareira e algodoeira e, consequentemente, das
oligarquias tradicionais a elas associadas, no início do século 20, com
agravamento a partir da década de 1930. É nesse contexto que se revela, nas
palavras do professor André Luiz Martins, “uma região empobrecida pela gana de
usineiros, industriais implacáveis, ou esturricada pela seca”. Imagens
produzidas, comenta, a fim de granjear encaminhamentos e verbas para a crise e
para conter um fluxo migratório crescente. É nesse período que nasce o
nordestino como “migrante”.
“Um dos
principais legados de Gilberto Freyre foi a incorporação do regionalismo, de
uma certa noção de região, no debate político e cultural”, reflete o professor.
“É certo que o sentido que o pensador de Santo Antônio de Apipucos deu ao
regionalismo proveio do regaço da casa-grande. Digamos que ele eventualmente
rompe com sua classe, sem efetivamente traí-la. Partem de Freyre, contudo,
impulsos fundamentais a um cuidado mais intelectualmente aprofundado do
patrimônio histórico e artístico regional (e também nacional) e aos estudos
regionais.”
Nas
décadas de 1950 e 1960 a reflexão se aprofundaria, com as intervenções de nomes
como Celso Furtado e Josué de Castro. É o momento dos diagnósticos da
“região-problema”, que pediam medidas transformacionais, explica Martins. É no
contexto dessa reflexão que nasce a Superintendência de Desenvolvimento do
Nordeste (Sudene), fundada por Furtado, exemplar dessa busca por
transformações.
“Deve-se
a Celso Furtado uma interpretação estruturalista latino-americana de sua região
de origem”, destaca o professor. “Como não pensar no Nordeste do Brasil senão
como expressão mais crua de muitos dos problemas econômicos latino-americanos?”
A
Sudene seria a solução desenvolvimentista coerente com essa interpretação. “Mas
havia ali um componente federativo que trazia a marca – brasileira, nordestina
– do pensamento do mestre”, reflete Martins. “O desenvolvimento regional era um
problema político; pedia soluções também políticas. Infelizmente, nos anos
1970, os governos militares detonaram os projetos furtadianos e ademais
ajudaram a dar nova mão de tinta nos pactos oligárquicos por verbas, firmados
no Congresso.”
Já a
trajetória de Josué de Castro se conecta ao tema da fome, responsável tanto por
seu reconhecimento internacional quanto por sua interdição ao debate público
brasileiro, a partir do golpe de 1964. “Sua obra é um crescendo”, explica
Martins. “Principia mais médica, mais técnica, mais voltada à epidemiologia e
ao nascente campo do saber nutricional, mas sem demora desemboca na sociologia,
na geografia e na história. As análises contidas em Geografia da Fome e em Sete
Palmos de Terra e Um Caixão: Ensaio sobre o Nordeste, Uma Área Explosiva foram
e são valentes bofetadas na cara de gerações de elites. A fome nordestina foi
cozida durante séculos de latifúndio escravista. E na transição para o trabalho
assalariado ela se recoloca, continuamente consumindo os trabalhadores.”
<><>
Um Nordeste que é o Brasil
Mais do
que fazer borbulhar os problemas do Nordeste, as reflexões de Furtado e Castro
se atualizam na discussão mais ampla sobre o Brasil. “A integração regional se
deu apenas para as classes média e alta”, afirma Martins.
“Os
problemas migratórios e de estrutura agrária seguem irresolutos. Nos rincões
semiáridos economicamente mais débeis, as estiagens mantêm as condições de
trabalho na terra em padrões análogos aos dos anos 1950. Sinceramente, não sei
quando se vai atentar para a dimensão política do desenvolvimento regional. Mas
ela está lá, em tantas obras de Furtado.”
Se
Martins considera importante retornar aos escritos de Furtado, acha ainda mais
urgente dar atenção ao pensamento de Castro. “Dos manguezais do Recife para o
mundo, Josué de Castro, pioneiramente entre nós, pintou o feio retrato da fome,
a opressão alimentar do trabalhador, como um dos mecanismos mais eficientes de
controle social”, afirma. “Urge revisitar esse autor, enfrentar o tema-tabu da
fome, acabar com o ‘silêncio premeditado pela própria alma da cultura’. Porque
a fome voltou a assolar com mais regularidade e intensidade os brasileiros de
todas as regiões e sotaques.”
Fonte:
Jornal da USP

Nenhum comentário:
Postar um comentário