Os
três figurinos e a política de Fernando Haddad
Fernando
Haddad acaba de encerrar sua gestão à frente do ministério da Fazenda para
concorrer ao governo do estado de São Paulo nas eleições de outubro, tarefa
indicada por Lula e pelo Partido dos Trabalhadores (PT) para garantir um
palanque mais fortalecido à reeleição do presidente no maior colégio eleitoral
do país. Nas últimas semanas, Haddad tem realizado um conjunto de movimentações
pouco usuais aos políticos brasileiros, mas que são próprias à forma como o
agora ex-ministro se posiciona no interior do campo político brasileiro: além
de despachar no gabinete, participar de seminários partidários e de conversas
sobre seu papel nas próximas eleições, ele tem-se dedicado ao lançamento de um
livro cujo objetivo não é outro senão a interpretação do modo de produção
soviético e do caráter do capitalismo contemporâneo.
Se, nas
palavras de Haddad, ele “não poderia deixar o ministério da Fazenda sem
publicar este livro” 1, supomos que isso se deva menos ao anseio de debater,
por exemplo, a caracterização do sistema inaugurado após a Revolução Russa e
mais à necessidade de apresentar-se, novamente, como um político intelectual às
vésperas de participar de mais uma disputa eleitoral decisiva contra a extrema
direita. Pode-se dizer que, com sua intervenção pública e acadêmica, o ministro
buscou aproximar-se da experiência de uma geração anterior de intelectuais
uspianos, com trajetória vinculada ao marxismo, que se inseriram na vida
política nacional – analisada no excelente livro de Fábio Mascaro Querido,
Lugar periférico, ideias modernas (2024).
Um
exemplo desse tipo de intervenção de Fernando Haddad (2025) pôde ser visto em
recente entrevista a Daniel Denvir no portal Phenomenal World, na qual se
combina o balanço de sua atuação no ministério de Lula com o esforço de
apresentar uma elaboração teórica a respeito de temas como a crise do
neoliberalismo e da globalização, a emergência da extrema direita, bem como
suas consequências para Estados, classes sociais e para a intervenção da
esquerda. Revela-se, então, um personagem singular, um dos poucos quadros
políticos brasileiros que se dispõe a intervir no debate público mobilizando
conceitos e participando de polêmicas intelectuais e acadêmicas.
Diferentemente
de outras lideranças do PT, Haddad nunca foi um líder social ou sindical, nem
se destacou como liderança política e partidária antes de ocupar posições de
responsabilidade em administrações petistas. Haddad tornou-se uma figura
central da política brasileira por ser um quadro de governo, cuja ascensão, por
certo, deve-se a sua trajetória intelectual, marcadamente interdisciplinar, o
que lhe permite curiosamente soar como um analista distanciado de
acontecimentos que protagoniza. Além disso, o ministro costuma enfatizar que as
linhas-mestras da política econômica do atual governo foram por ele propostas,
antes de sua nomeação, ao presidente Lula. Não seria exagero afirmar, portanto,
que Haddad é um dos principais formuladores do atual governo. Por tudo isso, é
incontornável levar a sério o que ele diz – afinal, como notou Pierre Bourdieu
(1989), em política, “dizer é fazer”.
Mais do
que interpretações realizadas por um intelectual que também vem a ser ministro
de Estado, a entrevista deve ser vista como uma tomada de posição no campo
político e como um esforço de ordenamento da realidade social e econômica de
modo a justificar suas ações. Haddad responde às questões propostas
apresentando-se em três figurinos: por vezes, surge o primeiro, o analista, a
indicar os constrangimentos estruturais que justificam as escolhas ortodoxas e
fiscalistas do segundo, o ministro; noutras, aparece o terceiro, o dirigente
político, que indica o pragmatismo necessário para “empurrar o vagão” na
direção certa. Fica a impressão, porém, de que os três não podem vestir o mesmo
personagem: um deles sempre termina excluído. Para avaliar as posições do
entrevistado, no entanto, é fundamental analisar concretamente o governo Lula e
a política econômica adotada pelo ministro: trata-se realmente de uma
alternativa ao neoliberalismo?
<><>
O caráter do governo Lula
Para o
Haddad analista, as enormes dificuldades trazidas pela extrema-direita tornaram
necessária a construção, em 2022, de uma “aliança com o que restou da
centro-direita” para formar um “governo de coalizão com aspectos de um programa
de centro”, mas que resgatasse direitos sociais. Parágrafos depois, o Haddad
ministro rejeita caracterização mais sintética, feita por José Dirceu, de que
Lula “montou um governo de centro-direita” – assumi-la, afinal, criaria
dificuldades para sustentar, na mesma entrevista, que o governo, do qual é o
principal formulador, foi o “mais progressista” e o “mais à esquerda” entre as
administrações petistas, criando embaraços, ao mesmo tempo, ao Haddad dirigente
da esquerda que espera trazer “mais imaginação socialista” para o debate.
Em seu
benefício, por outro lado, cabe reconhecer que pode ser inócuo um balanço do
governo Lula baseado em alguma espécie de régua com coordenadas políticas de
pouco significado concreto. Faz mais sentido avaliar escolhas à luz do
enfrentamento ao neoliberalismo e à ascensão da extrema-direita. Não é
possível, aqui, retomar o longo debate sobre a experiência dos governos
petistas, mas valeria relembrar, por exemplo, o alerta de Francisco de
Oliveira, em O ornitorrinco (2003), sobre os riscos políticos da conversão,
ainda antes do primeiro governo Lula, de antigos dirigentes petistas em
administradores de fundos de pensão, que paulatinamente assumiram a
administração de antigas empresas estatais privatizadas. Estas, transformadas
posteriormente em corporations, vincularam-se a redes globais de produção e ao
capital transnacional2, que atualmente controla ou tem enorme participação em
setores estratégicos da economia brasileira, como mineração, geração e
distribuição de energia elétrica, petróleo e gás, telecomunicações, etc.
É
evidente que a esquerda no governo não apenas “assistiu”, como sugere Haddad, à
integração à globalização neoliberal e a suas consequências, mas a promoveu e
chegou a celebrá-la, em certo momento, como a demonstração de que o Brasil se
equiparava às grandes potências com suas empresas “campeãs nacionais” e, logo,
“campeãs mundiais”. A crise de 2015-2016, seguida pelo golpe do impeachment de
Dilma Rousseff – que iniciara um ajuste recessivo contra sua própria base
social –, desmontou uma série de conquistas anteriores, como a redução de
índices de pobreza e miséria – dependentes da discricionariedade da gestão
orçamentária –, revelando seu caráter conjuntural e reversível em
circunstâncias políticas e econômicas adversas, levando à crise do lulismo,
como reconheceu André Singer (2018). Os governos Temer e Bolsonaro aprofundaram
a reversão, com a imposição do “teto de gastos”, das reformas da previdência e
trabalhista, que destruíram direitos sociais, além da autonomia do Banco
Central (BC). O retorno de Lula à presidência não reverteu nenhuma dessas
medidas, a despeito das promessas de campanha nesse sentido.
O
projeto mais importante de Haddad na Fazenda foi a instituição do “Regime
Fiscal Sustentável”. Como apontaram Pedro Zahluth Bastos (2024), e Clara Brenck
e Lucca Rodrigues (2025), a regra fiscal do atual governo está baseada numa
lógica de austeridade que visa, em última instância, à redução da participação
do Estado na economia. No plano teórico, a existência de regras fiscais é
justificada pelo fato de conferirem estabilidade e previsibilidade à trajetória
da dívida pública. Desenvolvidas no interior da chamada “nova síntese
neoclássica”3a partir dos anos 1990, tais regras teriam supostamente a
capacidade de incentivar o crescimento econômico por estimularem os
capitalistas, tendo suas expectativas positivamente influenciadas pela
disciplina fiscal, a realizar suas decisões de gastos privados no presente.
Trata-se, portanto, de receituário oposto à adoção de uma política fiscal ativa
de gastos do governo com vistas à manutenção do pleno emprego, impossível de
ser alcançado pela livre ação dos agentes privados.
Não por
acaso, os atuais baixos índices de desemprego – muito embora condicionados por
larga informalidade, crescente precarização do trabalho e pela flexibilização
de contratos após a reforma trabalhista – são atualmente ameaçados não apenas
pela política monetária conscientemente contracionista do BC sob Gabriel
Galípolo, o antigo secretário-executivo de Haddad, como também pela política
fiscal praticada pelo Ministério da Fazenda, cujos secretários afirmam atuar
“em harmonia” com o objetivo do BC de desacelerar o crescimento4, conforme
atestam dados elaborados pelo próprio ministério5. A reforma do Imposto de
Renda, por sua vez, recompôs parcialmente perdas antigas por falta de
atualização da tabela para o limite inferior de renda e introduziu nova alíquota
mínima para rendas anuais superiores a R$ 600 mil. Por mais que seja um passo
meritório em direção à justiça tributária no país, como apontam Guilherme
Martins, João Gomes e Guilherme Arten (2025), seus efeitos sobre a
progressividade tributária são limitados e ela, infelizmente, não é capaz de
eliminar a regressividade no topo da distribuição de renda no país.
A
política internacional do governo também é marcada pela ambiguidade: a posição
altiva de Lula diante do tarifaço e das ameaças à soberania nacional brasileira
por Donald Trump tem sido acompanhada por uma estratégia de aprofundamento da
abertura comercial e financeira, da qual a conclusão do acordo com a União
Europeia é o maior exemplo. Analistas como Marcio Pochmann e Luciana Caetano da
Silva (2023) têm vinculado tal agenda à desindustrialização e à perda de
dinamismo da economia nacional, crescentemente dependente de atividades
extrativistas e agropecuárias. André Singer, Cícero Araújo e Fernando Rugitsky
(2022), por sua vez, apontaram para a necessidade de ampliar a capacidade de
intervenção estatal, retomando políticas industriais e de proteção social, como
forma de escapar do “inferno global” trazido pela crise do neoliberalismo. De
nossa parte, fica a impressão de que é necessária muita “imaginação socialista”
para considerar acordos comerciais, regimes de combate à inflação e regras
fiscais inspirados em políticas dos anos 1990 como alternativas ao
neoliberalismo.
<><>
Classes sociais telepáticas?
Parte
importante da mencionada entrevista a Daniel Denvir é dedicada às reflexões de
Haddad sobre a necessidade de se construir de uma nova teoria das classes
sociais. Para o analista, é preciso “compreender a heterogeneidade das classes
não-proprietárias. O que há de homogêneo no capitalismo são as classes
proprietárias – tão coesas que agem quase que por telepatia: sabem exatamente o
que defender. É como se pudessem prescindir da política.”
A
formulação é intrigante – afinal, Haddad parece sugerir que os capitalistas
agem e pensam de forma coesa, de modo que seriam virtualmente capazes de
renunciar à política –, mas incorreta. Como uma série de investigações
demonstra, a classe capitalista é marcada por divisões e disputas, agindo de
forma coesa apenas praticamente nos momentos em que encontram o conjunto da
classe trabalhadora como seu adversário comum.6 Ainda que não fosse assim,
seria possível afirmar que os capitalistas são capazes de renunciar à política?
Na
realidade, suas cisões revelam que a classe dominante não apenas não pode
renunciar à política, como dela necessita. Embora distinções entre economia e
política sejam, na maioria dos casos, arbitrárias, vale notar que a conformação
das classes sociais não se realiza por completo unicamente na esfera econômica.
A consciência política burguesa não se forma espontaneamente a partir da
propriedade ou direção cotidiana de empresas, bancos e grandes indústrias. São
igualmente necessários espaços de socialização e organização, que servem como
aglutinadores de interesses e produtores de visões comuns de mundo.
Curiosamente, boa parte deles são frequentados, quando não promovidos, pelo
poder político constituído e por seus agentes. É, sobretudo, por meio da política
que os capitalistas se articulam e atuam como classe, forjando discursos e
engendrando suas ações para influenciar a política econômica, por exemplo.
O
Brasil contemporâneo, afinal, oferece muitos exemplos disso. Em meados de 2022,
poucos meses antes do primeiro turno das eleições presidenciais, grandes
industriais, empresários e banqueiros passaram a manifestar-se em oposição a
Jair Bolsonaro. À época, organizaram manifestos e se fizeram presentes em atos
públicos em defesa da democracia. Pouco tempo depois, boa parte desses
capitalistas impulsionaram a campanha à presidência da então senadora Simone
Tebet (MDB). Enfim configurado o segundo turno, os mesmos empresários
declararam apoio a Lula, não sem antes apresentarem uma importante condição: a
chapa encabeçada pelo PT deveria comprometer-se a manter a política de ajuste
fiscal praticada no país – depois cristalizada no referido “Regime Fiscal
Sustentável”.7 Ao contrário do que sugere Haddad, portanto, o ajuste fiscal foi
uma demanda vocalizada por líderes capitalistas, e não o resultado de uma
iniciativa do governo por um “ajuste de contas sustentado pela classe rica”.
<><>
Os figurinos, a crítica e o horizonte da esquerda
Fernando
Haddad ocupou nos últimos anos uma posição curiosa na política brasileira. Em
discursos no Congresso Nacional, fez questão de relembrar sua formação
acadêmica. Em encontros anuais de bancos, mostrou compromisso com manuais de
economia mainstream, buscando “ancorar as expectativas do mercado” ao garantir
que as metas fiscais anuais seriam cumpridas. Na grande imprensa, reafirmou seu
compromisso com o ajuste fiscal, ensaiando, não raro, críticas ao
patrimonialismo brasileiro. Já em veículos da esquerda, com os quais não se
furta a dialogar, reivindica o socialismo e critica o neoliberalismo.
Há dois
diagnósticos fundamentais apresentados por Haddad na entrevista a Daniel
Denvir: o dirigente político questiona a retração da imaginação e do horizonte
político da esquerda nas últimas décadas e o analista afirma a necessidade de
recuperar a contradição como elemento central para a análise da vida social e
política. Pelo que buscamos argumentar, no entanto, a política do ministro não
amplia horizontes de enfrentamento ao neoliberalismo em crise nem tampouco
busca superar contradições históricas da sociedade brasileira.
Estamos
às portas de uma nova disputa eleitoral contra o bolsonarismo e, nela, Fernando
Haddad terá participação importante, enfrentando Tarcísio de Freitas em São
Paulo. Uma vitória de Lula, em 2026, será mais uma vez necessária para impedir
o avanço da extrema direita, com repercussões globais. Por outro lado, sem a
realização de transformações estruturais que enfrentem as causas da crise
contemporânea, pode-se estar apenas ganhando tempo. Por isso, deve-se
certamente reafirmar a importância da contradição e da crítica, mas sem a
restringir às circunstâncias dos homens de governo, de modo a não limitar o
próprio universo daquilo que é possível pensar, dizer e fazer politicamente.
Apesar de seu desejo de colocar a dialética “no lugar certo”, os figurinos de
Haddad mais limitam horizontes do que expandem reais possibilidades de futuro.
Fonte:
Por Pedro Micussi e Thiago Aguiar, no Blog da Boitempo

Nenhum comentário:
Postar um comentário