Como
foi a 'primeira guerra da história', na região do atual Irã
Arcos e
flechas, lanças, espadas de bronze e organização tática, com movimentos
calculados e ações planejadas. Desentendimentos que muitas vezes levavam à
morte acompanham a humanidade desde sempre, apontam especialistas. Mas foi o
início do que se convencionou chamar de civilização que trouxe a
ideia de brigas organizadas, com esforços coletivos buscando vencer o grupo
inimigo. As guerras, portanto, nasceram
com a civilização. Localizar no mapa o cenário dessas primeiras guerras é olhar
para a região conhecida como Crescente Fértil, extensa área do Oriente Médio na Mesopotâmia e
arredores. Foi nessa área que os seres humanos começaram a dominar técnicas
de agricultura e criação de animais,
inaugurando um modo sedentário que propiciou o surgimento das cidades. Se por
um lado a organização sob um poder também implicava pensar em estruturas de
defesa, por outro, esforços também passaram a ser empenhados em conquistar mais
riquezas e terras melhores — de preferência, com mais acessos hídricos.
Segundo
pesquisas do historiador britânico aposentado John Baines — que até 2013
lecionou na Universidade de Oxford —, há indícios de que conflitos entre
cidades ocorriam com certa frequência por volta do ano 3000 a.C., na região
onde hoje estão o Iraque e o Irã. Em seu livro Guerra: O Horror da
Guerra e Seu Legado para a Humanidade, o historiador e arqueólogo britânico
Ian Morris situa a criação dos primeiros exércitos minimamente organizados
nessa mesma época, na mesma região.
O
problema, contudo, é que faltava um elemento: o registro destas guerras. Com
a invenção da escrita, dominada pelos
sumérios mais ou menos nesse período, começaram a surgir os primeiros textos
abordando batalhas.
A
Suméria foi uma civilização que se espalhou pela região sul da Mesopotâmia
entre as idades do Cobre e do Bronze, ou entre o ano 3300 e o ano 1200 a.C.. Ao
longo de cerca de 250 anos, entre os anos 2600 e 2350 a.C. duas cidades-Estado
deste povo, Lagas e Uma, travaram uma guerra — a primeira de que se tem
registro escrito. No total, há 18 inscrições, todas elas deixadas em tabletes
de argila por governantes de Lagas. Para a história, essa seria a primeira
guerra da humanidade: um conflito organizado e sistemático entre dois Estados e
com documentação a respeito. "Datamos a 'história' do momento em que o
homem começou a escrever ou, mais precisamente, de quando ele deixou traços do
que reconhecemos como escrita", situa o historiador britânico John Keegan
(1934-2012) em seu livro Uma História da Guerra. "A história
da guerra começa com a escrita", define ele.
Para a
historiadora Katia Pozzer, professora na Universidade Federal do Rio Grande do
Sul, onde coordena o Laboratório de Estudos da Antiguidade Oriental, não é
possível datar a primeira guerra. Mas é possível dizer que, em determinado
momento há documentação escrita sobre guerras. "Há muita documentação que
nos revela que a guerra foi uma realidade onipresente no mundo
mesopotâmico", diz Pozzer. "No imaginário mesopotâmico, o saber fazer
a guerra fazia parte dos atributos do mundo civilizado".
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Estrutura militar
Morris
arrisca que os primeiros exércitos de soldados disciplinados, "que se
dispõem a engalfinhar-se e matar o inimigo quando recebem a ordem", ou
mesmo "a tomar de assalto altos muros, apesar do óleo fervente, das chuvas
de pedra e de flechas", coincidem com a mesma época em que despontaram os
governos centralizados. Isto seria por volta do ano 3.300 a.C., no Oriente
Médio. A partir de então, as guerras começavam a ser resolvidas em batalhas
campais, em incursões planejadas e cercos.
Em seu
livro, ele compara pinturas rupestres de 10 mil anos atrás com uma relevo
sumério esculpido por volta do ano 2500 a.C. No primeiro caso, há a
representação de um bando de homens disparando flechas e arremessando lanças
uns aos outros. No outro, uma fileira organizada e densa, aparentemente
disciplinada de soldados munidos de elmos, lanças e grandes escudos, sob a
liderança de um comandante — o então rei de Lagas.
Lagas e
Uma ficavam separadas por cerca de 30 quilômetros. E a briga tinha uma razão
objetiva: o controle de uma área fértil na fronteira entre ambas chamada de Gu
Eden Na — algo como "a borda da planície". Quando Uma se apossou
desse espaço, passou a dominar o fluxo de água que abastecia Lagas, já que as
águas fluíam de lá para a cidade vizinha. Houve uma tentativa de resolver a
questão por meios diplomáticos, escalando a questão para a arbitragem de um rei
que exercia poder em toda a região sul da Mesopotâmia. Este deu ganho de causa
a Lagas. Mas, sem a anuência do governante de Uma, o aval real só serviu para
fundamentar uma guerra. "Foi uma disputa entre fronteiras que acabou
desembocando em guerra", sintetiza o jornalista Reinaldo José Lopes, autor
do livro Homo Ferox: As Origens da Violência Humana e o que Fazer para
Derrotá-la. "As motivações parecem ter sido essencialmente
territoriais e econômicas, sobretudo a disputa por áreas agrícolas férteis e
canais de irrigação que eram vitais para a produção agrícola em uma região
dependente do controle das águas", contextualiza o geógrafo e cientista
político Gunther Rudzit, professor na Escola Superior de Propaganda e
Marketing. "O desfecho imediato foi a vitória de Lagas e a imposição de
condições sobre Uma, incluindo o pagamento de tributos e a definição de
fronteiras, embora o conflito entre as duas cidades tenha continuado em
diferentes momentos ao longo das gerações seguintes."
Lagas
conseguiu dominar Gu Eden Na. A paz, contudo, não veio. Gradualmente, o
conflito acabou envolvendo outros povos da região, com tropas do reino de
Hamazi, de parte do atual território do Irã, e o do reino de Uruque, então a
maior potência da região. O penúltimo capítulo dessa sucessão de batalhas veio
com as vitórias de Lugalzaguesi, governante de Uma que acabou se tornando rei
da Suméria. Este, enfim, tem sua hegemonia quebrada pelo rei Sargão da Acádia,
da cidade-Estado de Quis, que no derradeiro conflito da série derrotou
Lugalzaguesi e fundou um império regional, submetendo Uma e Lagas, entre outras
cidades, ao seu controle. "Aparentemente, ele foi o primeiro que
empreendeu uma guerra mais ampla com o objetivo de conquistas de expansão
territorial por via militar. Quebrou o paradigma da cidade-Estado para
construir um império onde ele exercia a hegemonia política num território vasto
formado por diversas cidades-Estado", explica Pozzer.
Sargão
da Acádia era tão poderoso que, conforme aponta Morris, chegou a ter um
exército permanente de 5,4 mil homens. "Seus súditos forneciam comida, lã
e armas para que seus soldados pudessem treinar em tempo integral", diz o
arqueólogo. O pesquisador acrescenta que um dos textos políticos mais antigos
do mundo que sobreviveu até hoje vem desses episódios. Nele, um rei afirmava
que, por conta da vitória bélica que o havia feito conquistar a cidade, tinha
"libertado os habitantes de Lagas da usura, de administrações onerosas, de
fome, roubo, assassinato e sequestro". Ele escreveu que havia fundado
"a liberdade". Segundo Morris, o personagem histórico autor do
relato, Urucaguina, "é uma figura nebulosa, parcialmente perdida na névoa
do tempo". Mas entendia o valor de investir nessa mensagem, já que
produziu um registro de propaganda dos seus feitos de guerra.
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O contexto sumério
O
historiador John Keegan acredita que guerras não tenham sido muito comuns do
início da civilização sedentária até esse período dos conflitos sistemáticos
entre Lagas e Uma. Em primeiro lugar, porque a densidade populacional do mundo
ainda era baixa. Embora o número de habitantes do mundo tenha passado dos 5 ou
10 milhões em 10000 a.C. para talvez 100 milhões em 3000 a.C., em pouquíssimos
lugares havia alta densidade populacional. "Os caçadores-coletores
precisavam de 2,5 a dez quilômetros quadrados de território para sustentar cada
indivíduo. Os agricultores podiam sustentar-se e a suas famílias em extensões
muito menores", escreve. "Nessas circunstâncias tão rigorosas e
contudo tão amplas, a necessidade de lutar não deve ter sido forte. A terra era
efetivamente livre para qualquer um que quisesse andar uns poucos quilômetros e
queimar alguma floresta", argumenta Keegan. Além disso, segundo ele, a
produção devia ser tão baixa que pouco compensaria organizar saques, a não ser
que fossem "imediatamente após a colheita". Mesmo assim, as
dificuldades de transportar o produto, em tempos ainda de ausência de animais
de tração e transporte, falta de estradas e até mesmo de recipientes,
inviabilizariam a eficácia da ideia.
Dado
esse cenário, o pesquisador britânico acredita que a região do Crescente Fértil
era a que melhor reunia os ingredientes para o desenvolvimento da guerra. "Nos
milênios em que o homem estava aprendendo a plantar e colonizar as terras
vazias do Oriente Médio e da Europa, havia uma única região que produzia
grandes excedentes expostos à predação por vias de acesso que favoreciam os
movimentos rápidos", contextualiza. Tratava-se da planície aluvional dos
rios Tigre e Eufrates, conhecida dos historiadores antigos como Suméria.
Segundo
o historiador Victor Missiato, pesquisador no Instituto Mackenzie, vem daí a
complexidade de uma estabilidade nessa região. "Porque é uma região na
necessidade de recursos hídricos e territoriais com uma mistura muito grande de
povos e etnias", analisa. "É dos sumérios que temos as primeiras
provas seguras da natureza da guerra na aurora da história escrita e que
podemos começar a perceber os traços da guerra 'civilizada'", completa
Keegan.
Não foi
uma habilidade desenvolvida do dia para a noite. O pesquisador Morris comenta
que aqueles que começaram a cultivar cevada e trigo nos flancos montanhosos do
sudoeste da Ásia, por volta de 9500 a.C., eram "nitidamente combatentes de
baixa tecnologia, desorganizados. Tudo o que os arqueólogos têm recuperado de
seus túmulos e assentamentos sugere que lutavam mais ou menos do mesmo jeito
que as sociedade agrícolas mais simples observadas pelos antropólogos no século
20", afirma. "Suas armas mais mortíferas eram lâminas de pedra
lascada."
Segundo
Morris, eram combates sem tática. Eles atacavam e fugiam, conforme o ânimo. "Raramente
conseguiam estender suas campanhas por mais de alguns dias, pois logo ficavam
sem comida", explica. Sua conclusão é de que não eram povos guerreiros.
Seus movimentos de batalha eram desordenados. Quando se juntavam para vencer
algum grupo inimigo, constituíam linhas irregulares com poucas dezenas de
homem, mal-posicionados. A luta podia durar o dia todo ou ser interrompida por
qualquer motivo: o anoitecer, a hora de comer, o fato de alguém ter se ferido
ou até mesmo a chuva.
Keegan
lembra que os humanos que deram origem ao povo sumério quando se estabeleceram
na planície aluvial do Iraque "ousaram deixar a linha divisória das chuvas
no sopé dos morros circundantes — onde estão hoje a Síria, a Turquia e o Irã —
e começaram a experimentar a plantação de grãos e a criação de animais em
terras sem florestas. A Mesopotâmia — a terra entre os rios — oferecia ricas
vantagens para os colonos", ressalta. Não à toa, por volta de 3000 a.C. as
sociedade de irrigação sumérias já estavam organizadas em cidades-Estados, de
base teocrática.
Os
sacerdotes-reis tinham um poder emanado da propriedade — uma riqueza oriunda da
agricultura com irrigação natural. O rendimento era impressionante para a
época: a cada grão plantado, 200 grãos eram colhidos. Havia excedente. Era uma
geografia privilegiada, considerando o acesso hídrico. Rios sazonais garantiam
o cultivo. Montanhas ao leste e ao norte viravam refúgios para a população, com
vales tributários dos grandes rios. "Os efeitos políticos dessa geografia
são fáceis de descrever: as cidades sumérias começaram desde cedo as disputas
por limites, água e direitos de pastoreio, todos sujeitos aos caprichos das
enchentes. Os reis sumérios também logo viram sua autoridade desafiada pela
chegada de imigrantes dos montes que fundavam suas próprias cidades",
resume o historiador Keegan. Segundo ele, entre 3100 e 2300 a.C., a guerra
dominou cada vez mais a vida da Suméria.
Os
primeiros registros escritos demonstram uma mudança causada por esse clima
bélico: os reis deixam de ser sacerdotes e passam a ser guerreiros militares.
Isto é percebido pela substituição gradual de suas nomenclaturas, com a saída
do prefixo "en", que indicava "sacerdote", e a entrada de
"lugal", "grande homem". Pozzer explica que a própria ideia
de um rei naquele contexto era o de alguém que sintetizasse a devoção às
divindades, a provedoria dos alimentos e o papel heroico do guerreiro. "A
motivação [para guerrear] era a busca por territórios com maior riqueza, ou
seja, com rios e terras férteis", diz Pozzer.
Ao
mesmo tempo, a sociedade suméria foi aprimorando as técnicas de metalurgia,
desenvolvendo armas melhores. E os combates passaram a ser melhor organizados.
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Como eram as batalhas
Historiadores
reconstituem como eram aquelas batalhas a partir de hipóteses cujos pontos de
partida são o desenvolvimento tecnológico de que aquelas pessoas dispunham no
período e vestígios arqueológicos com inscrições e gravuras. Não há muito mais
do que isso à disposição.
Morris
comenta que este é o desafio quando se debruça sobre civilizações antigas que
construíram grandes monumentos, supervisionaram elaboradas redes comerciais e
promoveram padrões de vida ascendentes, mas continuaram pré-letradas. A
escrita, afinal, era parca, lacônica e rara. "Os exércitos eram
constituídos com tropas permanentes, que asseguravam as missões ditas
essenciais, como manutenção da ordem, observação das fronteiras e escolta, não
só da comitiva real como também de caravanas de mercadores de longa
distância", diz Pozzer. "Também havia os soldados que efetuavam um
determinado tempo de serviço, em missões, e depois eram desmobilizados."
De
acordo com o historiador André Leonardo Chevitarese, professor na Universidade
Federal do Rio de Janeiro, guerras na antiguidade já tinham organização tática,
com linhas de soldados montadas em fileiras, uma atrás da outra. E entre as
estratégias, ele lembra que além dos ataques em si, também se faziam cercos,
cortando fluxo de água e impedindo a entrada de alimentos na localidade
inimiga. Havia alguns combinados de conveniência. Pozzer conta que na
antiguidade, não se costumava guerrear em qualquer época do ano no Oriente
Médio. "Levavam em consideração as condições climáticas", afirma. "No
período das cheias, era muito difícil que as tropas se locomovessem. Eles
evitavam conflitos militares nessa época. A população devia estar ocupada com o
cultivo. As guerras da antiguidade já reuniam muitos elementos que são
utilizados até hoje, como infantaria e cavalaria", afirma Missiato.
"Os exércitos já eram organizados. Desde a Antiguidade já se vê divisão
tática de alguma maneira", pontua Lopes, citando a alternância entre
lanceiros com escudos, arqueiros e o desenvolvimento de práticas de cerco para
tentar derrubar as muralhas de uma cidade.
Rudzit
lembra que na antiguidade já havia liderança militar clara. Reis, chefes
tribais ou comandantes eram responsáveis por organizar as forças, planejar as
campanhas e coordenar os combates. Em civilizações mais complexas, como as da
Mesopotâmia, havia sinais de hierarquia, disciplina e divisão de funções. A
evolução tecnológica das armas é um capítulo à parte na história da humanidade.
Keegan recupera o história lembrando que os primeiros instrumentos de pedra
feito pelos ancestrais mais remotos, ainda na pré-história, eram tão
rudimentares que "não poderiam ser utilizados como armas de caça e,
portanto, certamente não o foram como armas de guerra". Mas na sequência
desses seixos lascados, os hominídeos conseguiram aprimorar o suficiente suas
habilidades para chegarem a "pontas grandes de instrumentos e lâminas
longas e finas, afiadas, quando preciso, dos dois lados".
Eram as
primeiras armas "realmente de caça, a lança de ponta para atirar ou enfiar
e a machadinha para desmembrar as carcaças abatidas" — isso tudo entre 10
mil e 15 mil anos atrás.
No
início do Neolítico, ou seja, por volta de 10 mil anos atrás, ocorreu o que
Keegan chama de "uma revolução na tecnologia das armas". Foram quatro
"novas armas tremendamente poderosas". A humanidade havia inventado o
arco, a funda, a adaga e a clava. No livro The Origins of War: From the
Stone Age to Alexander the Great, o historiador norte-americano Arther
Ferrill, professor na Universidade de Washington, analisa pinturas das cavernas
desse período e nota que nelas já é possível vislumbrar algumas raízes de
táticas de batalha, com formações de grupo. Mas as armas só ganhariam em
eficiência e letalidade com o domínio dos metais. Aos poucos, os soldados
passaram a contar não só com arcos, flechas, lanças e pedras. Também tinham
espadas, adagas e escudos. "A siderurgia avançou muito por conta das
guerras", lembra Missiato.
Keegan
lembra que materiais arqueológicos sumérios do terceiro milênio a.C. trazem
representações de soldados com capas e saiotes "que parecem reforçados com
peças de metais", naquilo que seriam protótipos de armaduras, "embora
devessem ser muito ineficazes". Também aparecem bigas de quatro rodas
puxadas por cavalos. Escavações também descobriram restos de elmos de metal que
provavelmente eram vestidos por cima de gorros de couro. "Os elmos são de
cobre, o primeiro metal não precioso que o homem aprendeu a trabalhar",
pontua. "Não tem muita utilidade militar, pois é facilmente penetrado, se
usado como proteção para o corpo em forma de folha, e perde rapidamente seu
fio, se batido para transformar-se em arma."
Mas era
questão de tempo até que eles dominassem a técnica de combinar cobre com
estanho para, assim, produzir o resistente bronze. "No final do terceiro
milênio essa técnica já estava disseminada e, na Mesopotâmia, os trabalhadores
em metais estavam atarefados inventando a maioria dos métodos de sua atividade,
dos quais dependemos ainda hoje, inclusive fundição de minério, moldagem,
ligação e soldadura", diz Keegan.
Desta
época é o machado, por exemplo. "Lança e arco e flecha são coisas muito
antigas, existem desde o paleolítico. Espadas aparecem na Idade do Bronze [de
3300 a 1200 a.C.] e vão ficando mais populares com o domínio do metal",
contextualiza Lopes. Para ele, a "grande revolução militar" data
também dessa era do Bronze. "É o uso do cavalo para combate", afirma.
No início, ainda não como montaria. Os animais, geralmente em duplas, puxavam
carros de guerra: uma plataforma com um condutor e um guerreiro que normalmente
manejava um arco para alvejar os adversários. "Costumava varrer os
inimigos. Eram os tanques de guerra de então", diz Lopes. Também era
preciso provocar e chocar o inimigo. "Uma arma de guerra que era muito
eficaz era o terror. Por exemplo, a prática da decapitação dos soldados
inimigos. Era algo disseminado para mostrar às pessoas", conta Pozzer.
"Um elemento de terror psicológico."
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Antes de Lagas e Uma
Mas
além do registro escrito em si, o que qualificaria uma guerra? O que definiria
uma guerra em tempos tão antigos — diferenciando-a de um conflito pontual ou um
desentendimento mais trivial, ainda que violento, entre grupos humanos? "Tem
muito de arbitrário em como definir uma guerra", comenta Lopes. "A
rigor, seria um conflito letal com mortes entre dois grupos. Mas
arbitrariamente, só é guerra quando há confrontos entre Estados ou dentro de
organizações estatais."
Para
Rudzit, o conceito ainda implica liderança reconhecida, preparação para o
combate, uso sistemático da força e objetivos que ultrapassam um incidente
pontual, "como conquistar território, controlar rotas comerciais, impor
tributos ou afirmar autoridade política." Chevitarese diz que uma guerra
nessa época pressupunha a invasão de territórios. "Tomar áreas de pastagem
ou levar violência ao inimigo ou vizinho. Isso era motivo para detonar uma
guerra", comenta. "Mas a noção de guerra como nós pensamos parte da
existência de Estado. Ou seja: para definirmos como guerra, precisamos estar
falando de um estágio civilizatório com Estado constituído".
O
historiador Missiato acredita que, para se qualificar como guerra, o conflito
precisa ter aspectos territoriais e políticos: a conquista do espaço e a
dominação do inimigo.
Arqueólogos
confirmam, todavia, um indício de violência entre aglomerações humanas muito
anterior a este período do primeiro registro escrito de uma guerra. Trata-se da
invenção das fortificações: as mais antigas cidades muradas de que se tem
registro. É o caso de Jericó, no vale do rio Jordão, na atual Palestina. Seus
habitantes ergueram uma torre — "intimidadora", como pontua Morris —
e a cercaram por volta do ano 8000 a.C.. Mas o pesquisador argumenta que não há
consenso entre historiadores e arqueólogos de que essa construção tivesse
"funções militares".
Keegan
não parece ter dúvidas: "Depois das escavações de Jericó [a descoberta
arqueológica é dos anos 1950], ficou claro que pelo menos a guerra — pois para
que serviriam muralhas, torres e fossos sem um inimigo fortemente armado, bem
organizado e decidido? — começara a perturbar o homem muito antes do surgimento
do primeiro grande império", afirma o historiador. Para ele, trata-se do
caso mais impressionante, pois foi cercada por um muro contínuo de três metros
de espessura na base, quatro metros de altura e cerca de 650 metros de
circunferência. Ele observa que como essa proteção foi feita de pedra, e não de
barro, isso indica um "intenso e coordenado programa de trabalho".
Para o pesquisador, trata-se de "uma verdadeira fortaleza fortificada, à
prova de tudo, exceto o ataque prolongado com máquinas de cerco".
Já o
assentamento de Çatalhoyük, que existiu do ano 7500 a 5600 a.C. na atual
Turquia tinha, segundo Keegan, "as paredes de fora das casas mais
externas" feitas em "face contínua, sem aberturas, de forma que mesmo
que um intruso fizesse um furo nelas, ou no telhado, ele se encontraria não
dentro da cidade, mas de uma única peça da casa". Também na atual Turquia,
Mersim ganhou uma fortificação por volta do ano 4300 a.C. Uruque, na Suméria,
no ano 3100 a.C.
Fonte:
BBC News Brasil

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