Ozempic
no SUS e sem patente: como canetas emagrecedoras já mudaram o mundo — e o que
vem por aí
O Rio
de Janeiro se tornou a primeira cidade brasileira a oferecer o medicamento
Ozempic pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Em ato simbólico na quarta-feira
(18/3), o prefeito Eduardo Paes (PSD) aplicou a primeira dose da chamada
"caneta emagrecedora" em uma paciente, marcando um passo inédito no
combate à obesidade no país.
A
iniciativa veio em um momento relevante: a patente da semaglutida, princípio
ativo presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy, — usados para tratar
diabetes tipo 2 e obesidade, respectivamente — expira no Brasil nesta
sexta-feira (20/3). Com o fim da exclusividade da farmacêutica Novo Nordisk,
outras empresas poderão desenvolver versões que trazem esse composto.
Na
prática, isso abre caminho para concorrência e uma eventual redução de preços,
embora isso não deva acontecer de imediato devido a entraves regulatórios e
industriais, como mostrou reportagem da BBC News Brasil.
Na
semana passada, durante um evento no Rio ao lado do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva (PT), Paes pediu que o governo federal incorporasse o medicamento em
toda a rede pública.
Lula,
porém, tratou o tema como delicado e disse que o remédio "não é um prêmio
para quem é relaxado".
"Tem
que ser dado para as pessoas que, por necessidade de saúde, não conseguem
emagrecer. Mas o médico tem que dar a receita ensinando a andar. Por que as
pessoas não andam meia hora todo dia? Por que é que não caminham? Por que não
fazem ginástica? As pessoas têm que aprender a tirar a bunda da cadeira e andar
um pouco", disse o presidente.
No
entanto, médicos lembram que a obesidade deve ser encarada como doença, e não
como falha de caráter ou simples falta de esforço em emagrecer ou manter um
peso considerado saudável.
"Não
enxergar o tratamento da obesidade com a seriedade que ele tem que ser visto
depois tantos anos de evolução, sem nenhum tratamento disponível no SUS, e
ainda enxergar a obesidade como um problema estético, isso é praticamente
criminoso, na minha opinião. Ainda mais agora quando ciência está escancarada
na nossa frente, mostrando o quanto funciona e o quanto são importantes [esses
medicamentos]", opina a médica Cynthia Valério, presidente eleita da
Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (Abeso).
Apesar
dos apelos para que as canetas sejam incluídas no Sistema Único de Saúde (SUS)
do país todo, especialistas entrevistados pela BBC News Brasil acreditam que
isso ainda está distante da realidade.
O custo
é um dos principais obstáculos. No Brasil, o tratamento mensal com essa
medicação fica na casa dos R$ 1.400.
Isso
dificulta o acesso principalmente pessoas mais pobres, que são cada vez mais
afetadas pela obesidade.
"A
gente está aqui falando sobre um dos tratamentos mais caros da história da
humanidade, porque parte dos outros tratamentos, que são tratamentos de alto
custo, são muitas vezes baseados um uma única dose de medicamento",
contextualiza Rafael Claro, professor da Escola de Enfermagem da Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG).
"No
momento, não há um tratamento que você vai ter que fazer por sessenta anos de
vida, e que tem um custo mensal tão elevado quanto as canetas",
acrescenta.
Ainda
assim, esse momento marca um novo capítulo das canetas emagrecedoras no Brasil,
que tem transformado não apenas a saúde, mas a dinâmica de consumo dessas
pessoas em diversos setores da economia, como você entende ao longo da
reportagem.
Do
preço de passagens aéreas a mudanças no supermercado, já existem diversos
exemplos de como o uso ampliado desses remédios tem modificado não apenas a
saúde, mas também a economia e a sociedade como um todo.
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A revolução das canetas emagrecedoras
De
acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 43% dos adultos tem sobrepeso
e 16% são obesos.
No
Brasil, o número é ainda mais preocupante. Dados do Atlas Mundial da Obesidade
2025 apontam que aproximadamente um a cada três brasileiros (31%) vive com
obesidade.
Esse
acúmulo de gordura no corpo não é apenas uma questão estética: ele está
diretamente relacionado a doenças como diabetes, câncer e problemas
cardiovasculares, responsáveis por quase 4 milhões de mortes todos os anos no
planeta.
Durante
décadas, quem enfrentava a obesidade tinha poucas alternativas, que muitas
vezes se limitavam a dietas restritas e exercícios físicos — medidas
importantes, mas insuficientes para os casos mais complexos, segundo estudos.
Um
estudo britânico realizado em 2015 com mais de 280 mil pessoas, mostrou que
apenas um em cada 210 homens e uma em cada 124 mulheres com obesidade consegue
manter um peso saudável só com dieta e exercício.
Segundo
Valério, para a grande maioria das pessoas, principalmente aquelas que convivem
há muito tempo com sobrepeso e obesidade, é cada vez mais difícil manter uma
dieta tão restritiva, enquanto o organismo pede por mais e mais comida, e faz
de tudo pra estocar qualquer excedente de calorias consumidas.
"As
pessoas que têm maiores índices de obesidade, elas vão, de fato, enfrentar uma
resistência muito maior para conseguir perder e sustentar o peso perdido. Isso
é fisiológico, e aí é que entra a importância de tratamento eficaz para essas
pessoas", afirma a médica.
Só que,
até uns dez anos atrás, os remédios disponíveis tinham uma ação bem limitada, e
levavam a uma perda de 5 a 10% do peso corporal. Até que surgiram as chamadas
canetas emagrecedoras.
Inicialmente
desenvolvidos para tratar o diabetes, esses medicamentos mostraram um efeito
adicional poderoso: a perda de peso significativa.
Nos
estudos que serviram de base pra aprovação do Wegovy, a perda de peso entre os
voluntários foi de até 17%. Já nos testes clínicos do Mounjaro, outra medicação
dessa classe, fabricada pela farmacêutica Eli Lilly, os pacientes que fizeram o
tratamento tiveram uma redução de peso de até 26%.
Isso
acontece porque, além de mexer no metabolismo da insulina e atrasar o
esvaziamento do estômago, essas substâncias agem em áreas como o hipotálamo,
uma região do cérebro que controla a saciedade e a fome — e, com isso, reduzem
o apetite.
Mas
além da perda de peso, as canetas emagrecedoras têm transformado a forma como
as pessoas se relacionam com atividades físicas e provocado mudanças nesse
setor.
Em
entrevista ao New York Times, pessoas que utilizam medicamentos como a
semaglutida para tratar obesidade ou diabetes relataram uma mudança
significativa na forma como encaram a prática de exercícios.
Sem a
pressão constante de queimar calorias ou perder peso, elas passaram a se
envolver com atividades físicas de maneira mais positiva — enxergando como uma
forma de bem-estar e não mais como uma punição por excessos alimentares.
A
indústria fitness já começa a se adaptar a esse cenário em que promessas de
emagrecimento rápido já não são o principal atrativo.
Nos
Estados Unidos — e, mais recentemente, no Reino Unido — empresas de bem-estar
têm criado programas e até "retiros" voltados especificamente para
usuários de canetas emagrecedoras.
"Passamos
a treinar nossos instrutores para oferecer o melhor suporte possível a esse
público", afirma Will Orr, diretor-executivo do The Gym Group em
entrevista à BBC.
Enquanto
isso, mudanças no setor também ficam evidentes em outros aspectos: nos EUA, por
exemplo, o Vigilantes do Peso, um tradicional programa de suporte ao
emagrecimento, declarou falência no ano passado.
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Mudanças nos hábitos de consumo
O uso
desses medicamentos também têm gerado uma mudança significativa nos hábitos
alimentares das pessoas, afetando a forma como elas gastam seu dinheiro com
alimentos e bebidas.
Um
relatório recente da consultoria OC&C apontou um menor interesse nos
supermercados por comidas não saudáveis, como salgadinhos e bolachas.
Em
entrevista à BBC, pacientes que usam as injeções para emagrecer relataram que
têm comprado mais alimentos frescos e menos opções de refeições prontas, por
exemplo.
Essa
mudança fez com que supermercados britânicos lançassem linhas de refeições
prontas em porções menores e ricas em nutrientes.
"O
mercado teve que responder a essa mudança de comportamento, que, no fundo, é
genuína, porque é uma mudança que busca a saúde de toda a população. Então
fazer porções menores de comida e mais saudáveis, isso é absolutamente
desejado", pontua Cynthia Valério.
Há
também um impacto na frequência com que usuários desses medicamentos vão a
restaurantes e pedem comida em casa, por aplicativos de entrega.
Uma
pesquisa realizada no ano passado pela consultoria KAM Insight revelou que
quase um terço das pessoas que usam as canetas emagrecedoras passou a sair com
menos frequência para comer e beber fora.
No
Reino Unido, isso levou o restaurante The Fat Duck — premiado com uma estrela
Michelin e comandado pelo famoso chef Heston Blumenthal — a lançar um novo menu
para pessoas que buscam uma alimentação mais "consciente", incluindo
aquelas que fazem uso de supressores de apetite.
No
Brasil, já existe até um movimento de restaurantes que oferecem rodízios — como
de comida japonesa, pizza ou churrasco — com descontos para clientes que
utilizam medicamentos como Wegovy ou Mounjaro, mediante apresentação de receita
médica.
"É
sinal que tem um público muito grande numa determinada bolha, que possivelmente
é a bolha que a gente vive, que está fazendo o uso dessas canetas e que, por
isso, deixava de ir no rodízio, já que sabia que ia comer uma quantidade
pequena de comida. Já não fazia mais sentido ir lá. E os rodízios estão
percebendo isso", comenta Rafael Claro.
Estudos
demonstram ainda que usuários de Mounjaro e Wegovy estão consumindo cada vez
menos bebidas alcóolicas.
Uma
pesquisa realizada em fevereiro de 2025 pela empresa de pesquisa de mercado
Worldpanel by Numerator constatou uma queda de 15 pontos percentuais no volume
de compras de bebidas alcoólicas entre famílias com usuários das canetas em
comparação com um grupo de controle.
Outros
setores também devem sentir os efeitos, como moda e beleza.
Analistas
apontam que a perda de peso em larga escala pode impulsionar a demanda por
roupas novas — e até fortalecer o mercado de segunda mão, à medida que
consumidores substituem peças que já não servem mais.
Também
há projeções de aumento na procura por cirurgias para remoção de excesso de
pele após um emagrecimento significativo.
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Redução no preço do açúcar e até de passagens aéreas
A
popularidade das chamadas "canetas emagrecedoras" também vem sendo
apontada como um fator que influencia a queda de preços de alguns produtos,
como o açúcar.
No
Brasil, os valores atingiram em fevereiro o menor nível desde 2019, segundo o
Cepea/Esalq.
Em Nova
York, os contratos futuros do açúcar bruto de cana caíram para menos de 14
centavos de dólar por libra, o patamar mais baixo desde outubro de 2020 e menos
da metade do registrado no fim de 2023.
Enquanto
isso, o mercado de laticínios segue na direção oposta. Reportagem do Financial
Times mostrou que os preços do soro de leite dispararam, impulsionados tanto
pelo uso desses medicamentos quanto por tendências mais amplas de saúde, que
favorecem produtos ricos em proteína.
De
acordo com John Lancaster, da corretora StoneX, a demanda "aumentou
dramaticamente", e produtos com alto teor proteico à base de soro — usados
em pós e barras — atingiram níveis próximos de recordes na Europa e nos Estados
Unidos.
Os
efeitos desses fármacos podem chegar até a setores menos óbvios, como o de
viagens de avião.
Um
estudo do banco de investimentos Jefferies aponta que as quatro maiores
companhias aéreas dos Estados Unidos — American Airlines, Delta Air Lines,
Southwest Airlines e United Airlines — poderiam economizar até US$ 580 milhões
por ano em combustível caso os passageiros, em média, fiquem mais leves.
Isso
ocorre porque o peso total da aeronave impacta diretamente o consumo de
combustível.
Segundo
o estudo, essas empresas devem consumir juntas cerca de 16 bilhões de galões em
2026, a um custo estimado de US$ 38,6 bilhões — quase 20% de suas despesas
totais.
A
economia gerada pelo eventual emagrecimento dos passageiros representaria cerca
de 1,5% desse valor.
Ainda
assim, pequenas variações de peso são relevantes: quanto mais leve o avião,
menor o esforço necessário para mantê-lo em voo.
O
relatório também sugere possíveis ganhos para investidores: uma redução de 2%
no peso médio das aeronaves poderia elevar o lucro por ação em cerca de 4%.
Isso
tem alimentado especulações de que, no futuro, parte dessa eficiência no uso
dos combustíveis possa até se refletir em passagens mais baratas.
Embora
ainda haja muita especulação — e nem todas essas tendências necessariamente se
concretizem —, é inegável que esses medicamentos já estão provocando mudanças
relevantes.
"A
gente pode ou estar diante de uma situação muito semelhante com a pílula
anticoncepcional, que não mudou simplesmente a taxa de natalidade. Ela mudou a
sociedade como um todo e teve um impacto social gigantesco", afirma
Fernanda Scagliusi, pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Alimentação,
Corporalidades e Cultura da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São
Paulo (USP).
Mas, se
o impacto for negativo, Scagliusi pontua que poderíamos viver algo muito
parecido à crise dos opioides nos EUA.
"E
que foi colocada de uma maneira de marketing muito semelhante ao atual: 'Você
não precisa viver com dor', 'Não aceite a dor, há a solução para isso'... Assim
como hoje em dia se fala: 'Você não precisa viver com obesidade, há a solução
para isso'…Porém, naquele caso, foi um desastre", analisa a pesquisadora.
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Preocupações com canetas emagrecedoras
Apesar
das mudanças na saúde e dos bons resultados relacionados à perda de peso, as
canetas emagrecedoras trouxeram à tona uma das principais preocupações em torno
dessa nova geração de tratamentos contra a obesidade: o uso com finalidade
estética.
Especialistas
destacam que embora esses medicamentos tenham sido desenvolvidos para tratar
uma doença crônica, muitas pessoas têm recorrido a eles sem indicação médica
adequada, como uma solução rápida "para perder alguns quilos".
Segundo
Cynthia Valério, o principal problema desse uso indiscriminado é afastar do
tratamento quem realmente precisa.
"A
pessoa que precisa e já é resistente ao tratamento, e tem inseguranças, vai
ficar ainda mais assustada quando tiver notícias dessas pessoas que tinham peso
normal, sem indicação e sem acompanhamento, e que acabam muitas vezes com muito
mais efeitos colaterais. Porque, afinal de contas, o remédio foi estudado para
quem tinha obesidade", destaca.
Para
Renata Pereira, farmacêutica especialista em estética, esses medicamentos são
vistos hoje como um objeto de consumo, o que leva muitas pessoas a consumirem
sem entender o que isso envolve.
"A
informação hoje em torno das canetas emagrecedoras não está sob controle. Você
acaba gerando aquele sonho de consumo. Então a pessoa que quer emagrecer, mesmo
que ela não esteja no estágio de obesidade, ela vê ali um caminho mais fácil,
porque de fato funciona, elas têm resultado", diz Renata Pereira,
farmacêutica especialista em estética.
E é
justamente esse resultado que ajudou a impulsionar um mercado multibilionário
desses medicamentos.
No
Brasil, o Conselho Federal de Farmácia apontou que as vendas desses
medicamentos cresceram 88% em 2025 na comparação com o ano anterior.
O
aumento da demanda também atraiu a atenção de criminosos, dando origem a um
mercado paralelo. A Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias estima
prejuízos de quase R$ 69 milhões relacionados ao roubo dessas canetas apenas no
Estado de São Paulo.
Além
disso, cresce a preocupação com produtos falsificados, que têm sido alvo de
operações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e de outros
órgãos de fiscalização.
"Ninguém
tem o número de medicamentos irregulares sendo utilizados no Brasil, ninguém
tem. Quantas pessoas estão comprando isso?", questiona Pereira.
Por
meio de nota, a Novo Nordisk, responsável pela produção do Ozempic e do Wegovy,
disse que não endossa, promove ou apoia o uso fora da bula de seus produtos em
nenhuma circunstância. Segundo eles, o uso fora dessas indicações aprovadas não
conta com o mesmo respaldo científico e de segurança.
A
Lilly, fabricante do Mounjaro, mostrou "profunda preocupação com uso de
medicamentos pra fins estéticos", e diz não promover nem incentivar o uso
não aprovado de seus produtos, além de cooperar com a Anvisa pra coibir o
mercado de contrabando, roubos e canetas falsas.
Já a
Anvisa informou que determinou a retenção de receita no ato de venda desses
medicamentos para estimular o uso racional e ter maior controle sobre o uso.
Além
disso, disse estar atuando ativamente na fiscalização de anúncios de vendas
desses remédios na internet — algo que é totalmente proibido no Brasil — e
também tem coibido a entrada de canetas emagrecedoras importadas de outros
países.
Fonte:
BBC News Brasil

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