Agro
usa estudo sem base científica para tentar aprovar marco temporal no STF
Um
estudo usado por entidades do agronegócio para reforçar os argumentos
favoráveis à tese do marco temporal no julgamento sobre o tema pelo STF
(Supremo Tribunal Federal) em 2025, e que estima em cerca de R$ 170 milhões o
impacto anual da demarcação de novas terras indígenas no Mato Grosso, apresenta
falhas importantes que comprometem sua credibilidade, apontam especialistas
ouvidos pela Repórter Brasil.
O marco
temporal determina que indígenas só teriam direito à demarcação das áreas que
estivessem sob sua posse ou em disputa judicial na data da promulgação da
Constituição Federal, em 5 de outubro de 1988. O argumento é usado por
ruralistas para impedir a destinação de novos territórios a povos originários e
para contestar territórios já delimitados.
Encontrado
pela reportagem entre as peças anexadas ao processo que tramitava na mais alta
corte do país, o levantamento foi elaborado pelo Imea (Instituto Mato-grossense
de Economia Agropecuária) e apresentado ao STF em 24 de novembro, nos momentos
finais do julgamento.
A
repercussão foi imediata. A ALMT (Assembleia Legislativa de Mato Grosso) citou
o estudo em outro documento protocolado no processo: “Segundo o Imea, os
decretos federais que homologaram novas Terras Indígenas em Mato Grosso retiram
do uso agropecuário mais de 291 mil hectares, produzindo efeitos econômicos
imediatos e significativos”, diz o texto. Os números apresentados pelo Imea,
além disso, ganharam divulgação em meios de comunicação como O Estado de S.
Paulo e Canal Rural.
Menos
de um mês depois, em 18 de dezembro, a Corte declarou pela segunda vez a
inconstitucionalidade da tese do marco temporal. Mesmo com a derrota no STF, a
pauta continua sendo uma das prioridades do agronegócio. Na última quarta-feira
(11), a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) incluiu a
aprovação da PEC 48 — proposta que tenta inserir a tese diretamente na
Constituição — entre as prioridades da Agenda Legislativa do Agro para 2026.
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Para especialistas, credibilidade do estudo fica comprometida com falta de
informações básicas
O
documento do Imea sustenta que as homologações das Terras Indígenas Manoki,
Uirapuru e Estação Parecis, e a criação da reserva indígena Kanela do Araguaia,
medidas anunciadas pelo governo federal em novembro do ano passado, provocariam
perdas anuais de R$ 170,58 milhões e a eliminação de 498 empregos no setor
agropecuário. As áreas mapeadas abrangem sete municípios mato-grossenses e,
segundo o instituto, estão sobrepostas a 112 propriedades rurais.
Para a
pesquisadora Germana Barata, professora da Unicamp (Universidade Estadual de
Campinas) e especialista em comunicação científica, a falta de clareza sobre
autoria e metodologia compromete a credibilidade do estudo.
“Um
relatório que pretende subsidiar um debate público precisa ter transparência
sobre esses pontos. Aqui [no estudo do Imea] não sabemos quem produziu os
dados, de onde vieram exatamente as bases utilizadas ou como elas podem ser
verificadas por outros pesquisadores”, afirma. “É um nível de transparência que
seria importante ter, ainda mais quando um documento como esse está anexado ao
STF para ajudar a sustentar um argumento no debate sobre o marco temporal.”
Segundo
ela, quando os dados ou procedimentos não são plenamente acessíveis, o trabalho
perde valor acadêmico. “Se esses dados não podem ser contestados ou comparados,
você já está criando uma barreira para verificar se estão corretos”.
Esse
entendimento é compartilhado por instituições de fomento à pesquisa. “A ciência
é construída a partir do debate de ideias e confronto de teses sobre
determinado assunto. Portanto, a metodologia utilizada deve ser bem descrita e
livre de vieses”, afirma a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
Nível Superior) à reportagem. Segundo o órgão, vinculado ao Ministério da
Educação, a produção científica depende de transparência metodológica e da
possibilidade de verificação independente.
Na
avaliação de Ricardo Terena, coordenador jurídico da Apib (Articulação dos
Povos Indígenas do Brasil), o alcance desse tipo de levantamento vai além do
processo judicial. “O efeito não se encerra no STF. Esses estudos ajudam a
moldar o ambiente político contra a demarcação”, afirma.
Para
Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima,
a circulação de levantamentos desse tipo faz parte de uma estratégia recorrente
para influenciar o debate público. “Apresentam PDFs com aparência técnica,
dados que não podem ser auditados e sem revisão por pares. Isso é consultoria
de agro disfarçada de instituição séria”, afirma. “Não é ciência, é lobby”,
define.
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Imea e Famato dizem que estudo tem ‘lastro técnico’
Entidade
privada sem fins lucrativos, o Imea é mantido por cinco associações do
agronegócio mato-grossenses: Famato (Federação da Agricultura e Pecuária de
Mato Grosso), Aprosoja-MT (Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato
Grosso), Ampa (Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão), Acrimat
(Associação dos Criadores de Mato Grosso) e Aprosmat (Associação dos Produtores
de Sementes de Mato Grosso).
Em nota
enviada à Repórter Brasil, o instituto afirma que suas análises possuem “total
lastro técnico” e são baseadas em dados públicos e rastreáveis, como
informações do IBGE e do Indea. A entidade diz também que mantém autonomia
científica. “A autonomia científica do Imea é preservada por um corpo técnico
multidisciplinar de especialistas cuja produção institucional independe de
interesses externos.”
Já a
Famato, que exerce a Presidência do Imea, declara que a utilização de estudos
do instituto em debates judiciais busca oferecer “elementos técnicos objetivos”
sobre impactos socioeconômicos relacionados ao setor rural. “Subsidiar o Estado
com dados rastreáveis não compromete a independência judicial, mas oferece o
lastro necessário para que o juízo jurídico seja exercido com base em fatos”,
afirma a federação, também em nota à reportagem.
A
Repórter Brasil questionou o Imea e a Famato sobre a falta de autoria do estudo
apresentado ao STF, a possibilidade de acesso público aos dados, modelos e
premissas utilizados e se o levantamento passou por revisão externa ou
validação independente. Nenhuma das organizações respondeu diretamente a esses
questionamentos (leia os posicionamentos na íntegra).
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Problemas metodológicos
O uso
de estudos do Imea para pressionar decisões políticas e judiciais não é novo.
Desde 2009, durante as discussões do Código Florestal, números produzidos pelo
instituto aparecem em debates no Congresso e no STF, como em 2021, durante
outro julgamento do marco temporal na Corte.
No
levantamento protocolado no STF no ano passado, parte dos dados utilizados não
pode ser checada externamente. Embora cite fontes públicas — como o IBGE
(Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Indea (Instituto de Defesa
Agropecuária de Mato Grosso) e o Sigef (Sistema de Gestão Fundiária) —, o
documento recorre também a bases próprias do instituto, que não estão
disponíveis para consulta pública.
“O
método científico pressupõe transparência e possibilidade de reprodução. Outros
pesquisadores precisam conseguir chegar aos mesmos resultados usando os mesmos
dados e procedimentos”, explica o economista Dante Mendes Aldrighi, professor
titular da Universidade de São Paulo (USP) e editor da revista “Estudos
Econômicos”.
Aldrighi
não teve acesso ao relatório completo apresentado pelo Imea ao STF, mas fez
comentários a partir da descrição da reportagem sobre o conteúdo. Em relação à
identificação da autoria, ele aponta que esse procedimento “indispensável”
permite responsabilização em caso de erro ou interpretação inadequada dos
dados.
Os
critérios elencados pelos pesquisadores ouvidos pela Repórter Brasil orientam
também a avaliação de propostas de pesquisas científicas no país. À reportagem,
Monica Felts, diretora científica do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico), diz que projetos científicos submetidos ao órgão
precisam identificar claramente seus responsáveis e apresentar metodologia
detalhada.
Segundo
Felts, cada proposta deve indicar o pesquisador responsável e seu currículo na
Plataforma Lattes, permitindo avaliar sua experiência e produção científica. Os
projetos também passam por avaliação de especialistas independentes e comitês
científicos responsáveis por analisar seu mérito e rigor metodológico.
De
acordo com a Capes, a consistência dos dados e a possibilidade de reprodução
dos resultados são centrais para a validade científica. “O conjunto de dados
mostrado deve ser consistente para que outros pesquisadores testem as hipóteses
ou elaborem outras. A pesquisa se torna robusta quando outros grupos são
capazes de reproduzir os resultados obtidos.”
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O que os cálculos deixam de fora
Os
números apresentados pelo estudo do Imea também são contestados por
organizações socioambientais, que apontam problemas nas premissas adotadas e
nas dimensões consideradas na análise.
Segundo
o Observa-MT (Observatório Socioambiental de Mato Grosso), “o estudo considera
apenas perdas econômicas associadas à produção agropecuária e ignora serviços
ecossistêmicos e o valor da floresta em pé”, afirma a organização. Esses
fatores incluem a conservação da biodiversidade, a proteção de recursos
hídricos e o papel das terras indígenas na mitigação das mudanças climáticas.
Além do
impacto ambiental positivo, estudos recentes indicam que terras indígenas da
Amazônia ajudam a regular o regime de chuvas que abastece cerca de 80% das
áreas agropecuárias do país.
Para
Dante Mendes Aldrighi, da USP, ignorar esses benefícios ambientais pode
distorcer a análise econômica. “Eles estão imputando valor social apenas ao
número de empregos, mas a preservação da mata e do ambiente original também são
valores sociais muito importantes”, afirma. “Se ignoram esse outro benefício de
se preservar o meio ambiente, a metodologia fica bastante enviesada”.
Mesmo
considerando as premissas adotadas no estudo, especialistas afirmam que os
impactos econômicos apresentados são desproporcionais quando comparados à
dimensão da economia de Mato Grosso. “O valor da produção nessas áreas é ínfimo
em relação ao total do estado”, pontua Moreno Saraiva Martins, coordenador do
programa Povos Indígenas no Brasil do ISA (Instituto Socioambiental).
Cálculos
baseados em dados do próprio Imea e do Indea corroboram essa avaliação. Segundo
eles, a produção agropecuária nas terras que seriam afetadas pelas homologações
de terras indígenas representa menos de 0,25% da produção estadual total.
• Dia Mundial da Água: Acesso à água é
atravessado por desigualdades de gênero
O Dia
Mundial da Água traz como tema “água e gênero”. A proposta chama atenção para
um aspecto ainda pouco visível no debate público: a forma como a crise hídrica
impacta de maneira desigual diferentes grupos sociais, especialmente mulheres,
meninas e pessoas trans.
No
campo da Saúde Coletiva, esse recorte é central. A falta de acesso adequado à
água e ao saneamento básico não se limita a um problema de infraestrutura, mas
configura um determinante direto das condições de vida, saúde e dignidade. Em
muitos territórios, são as mulheres que assumem a responsabilidade pelo
abastecimento doméstico, o que amplia desigualdades históricas e sobrecargas de
trabalho.
Esse
cenário tende a se agravar com as mudanças climáticas. Como explica Léo Heller,
“há vários indícios de que as mudanças climáticas vêm reduzindo sazonalmente a
disponibilidade de água, tanto nas fontes acessadas diretamente pelas
populações quanto nos mananciais utilizados pelos sistemas de abastecimento”.
Ele alerta que os sistemas ainda não estão preparados: “via de regra, os
prestadores de serviço não vêm se organizando para acionar planos de
contingência, prevendo, por exemplo, flexibilidade para períodos de estiagem
extrema”.
Ao
mesmo tempo, eventos extremos também afetam a infraestrutura. “O excesso de
água, resultante das oscilações mais intensas do clima, vem impactando os
sistemas de abastecimento”, afirma. Esses efeitos, no entanto, não são
distribuídos de forma igual. “O mais grave é que esses processos atingem
principalmente as populações mais pobres, com menor capacidade de acessar
alternativas de abastecimento”, afirma Heller.
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Gênero e água
A
desigualdade no acesso à água e ao saneamento tem impactos diretos na saúde,
que também recaem de forma diferenciada sobre as mulheres, especialmente pelo
papel social que ocupam no cuidado. Heller lembra que “os efeitos do acesso
inadequado à água e ao esgotamento sanitário na saúde humana já estão bem
estabelecidos”, citando evidências de que melhorias nesses serviços reduzem
significativamente doenças como diarreia infantil.
Ele
também chama atenção para a dimensão estrutural do problema: “estima-se que 1,4
milhão de mortes poderiam ser evitadas no mundo com acesso seguro à água,
esgoto e higiene, o que mostra a centralidade dessas políticas para a saúde
pública”.
No caso
das arboviroses, como dengue, Zika e chikungunya, a relação com o saneamento é
direta. “O fornecimento irregular de água leva ao armazenamento precário,
criando criadouros para o mosquito; esgotos a céu aberto e drenagem inadequada
geram empoçamentos; e a coleta de lixo insuficiente também contribui para a
proliferação”, explica. Sobre o papel do clima, ele pondera: “as mudanças
climáticas potencializam esse cenário, ao combinar mais calor e mais chuvas,
favorecendo a disseminação dos vetores”, afirma.
A
ausência de infraestrutura adequada também expõe mulheres, meninas e pessoas
trans a situações de violência e insegurança no cotidiano. A falta de banheiros
seguros, próximos e acessíveis transforma uma necessidade básica em risco,
reforçando desigualdades que atravessam o corpo e o território.
A
importância da água ganha ainda mais evidência em momentos específicos da vida
feminina, como gestação e lactação. Carmen Froes, do GT Saúde e Ambiente da
Abrasco, destaca:
“Em
relação a essa questão específica de gênero, me vem à mente dois momentos
específicos da vida da mulher, que são a gestação e a lactação. Nesses
períodos, a necessidade de água qualitativamente adequada, sem contaminação
biológica ou química e em quantidades suficientes, é fundamental, porque é
através do corpo feminino que o feto é nutrido e hidratado, e da mesma forma,
durante a amamentação, que deve ser exclusiva pelo menos até seis meses, que o
bebê é nutrido e hidratado. Água é vida, água é alimento. Esses são momentos em
que a vulnerabilidade de gênero em relação à água é muito clara, tanto do ponto
de vista da quantidade quanto da qualidade.”
Apesar
de o Brasil possuir grande disponibilidade hídrica, isso não se traduz
automaticamente em acesso equitativo. Como aponta Heller, “nem sempre a
abundância de água na natureza se converte em serviços adequados para a
população”, citando o contraste de regiões com ampla oferta hídrica e baixos
indicadores de acesso. Para ele, o desafio está na gestão: “o que explica o
acesso está muito mais na esfera das políticas públicas do que na
disponibilidade de água nos rios e aquíferos”.
O tema
reforça a necessidade de compreender o acesso à água e ao esgotamento sanitário
como direitos humanos fundamentais. Mais do que ampliar a infraestrutura, é
preciso enfrentar desigualdades estruturais e garantir políticas públicas
integradas e orientadas pela equidade. Mais do que uma data simbólica, o Dia
Mundial da Água funciona como um chamado à ação. Incorporar a perspectiva de
gênero nesse debate é reconhecer que a crise da água não afeta a todos da mesma
forma e que sua superação passa, necessariamente, pela construção de justiça
social e pela proteção da vida.
Fonte:
Repórter Brasil/Abrasco

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