Seca
e descaso: no Norte brasileiro, só metade das aldeias indígenas tem água boa
para beber
Virada
de cabeça para baixo no chão de terra batida, ao lado de uma casa de
beneficiamento de farinha, uma enorme caixa d’água chama a atenção de quem
passa pela comunidade Bem Viver, na Terra Indígena (TI) Raposa Serra do Sol,
localizada a 300 quilômetros de Boa Vista, capital de Roraima.
Sob sol
e chuva, ao relento, o objeto empoeirado transmite uma mensagem urgente: em vez
de ser utilizado para armazenar água potável para a população da aldeia, o
recipiente de 5 mil litros permanece inutilizado há quase dois anos.
O
reservatório, repassado à comunidade pelo Distrito Sanitário Especial Indígena
(Dsei) Leste Roraima, unidade gestora do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena
(SasiSUS), não recebeu uma mísera gota d’água. Isso porque, desde que chegou,
sequer foi instalado.
Sem
poder contar com a estrutura, os moradores da região foram forçados a criar um
plano alternativo: a missão consiste em captar a água de uma cachoeira próxima,
ligada à aldeia por meio de uma rede improvisada de canos de aproximadamente
700 metros.
Embora
a conexão evite a escassez total, o consumo ocorre sem os devidos processos de
tratamento da água. Ao mesmo tempo, a tubulação fina e frágil sofre diariamente
com entupimentos, quase sempre causados pelo acúmulo de folhas e detritos.
Segundo
o cacique Diassis Gabriel de Souza, do povo Macuxi, o poder público também
prometeu aos residentes de Bem Viver a perfuração de um poço e a construção de
um “castelo d’água” (como é chamada a estrutura de reservatório elevado). No
entanto, isso nunca aconteceu. “Só deixaram a caixa d’água no meio do caminho”,
disse à Mongabay.
A
própria cisterna demorou a chegar. Sem tempo a perder, os moradores se
deslocaram até a comunidade São Mateus, a 38 quilômetros dali, em busca de
resolver o impasse. A missão toda envolveu um custo de frete de R$ 2 mil.
“Avisamos que já tínhamos trazido a caixa [d’água] e que eles podiam vir para
concluir o serviço. Isso foi em 2023. Disseram que voltariam em agosto [daquele
ano], mas nunca mais vieram”, lamentou o líder indígena.
Moradora
da aldeia, Eldina Gabriel Macuxi reclama de problemas sanitários frequentes
causados pela falta de água potável tratada, sobretudo para as crianças.
Segundo ela, a situação se agrava no início do período de chuvas — de abril a
agosto —, quando a água das fontes, rios e igarapés fica um pouco mais suja.
“No
inverno, há sempre o aumento [de casos] de diarreia, nas crianças e nos
adultos. A água vem suja porque escorre das serras com sujeira de bichos, mato
e queimada. A gente tenta coar, mas não é suficiente”, disse.
A
dependência da água de superfície — aquela que não é obtida por perfuração —
também acarreta outros riscos para quem a utiliza e consome, segundo Jacir
Macuxi, esposo de Eldina. Ex-coordenador do Conselho Indígena de Roraima (CIR),
ele alerta que a expansão do garimpo e o uso de agrotóxicos em áreas de
plantação expõem muitas fontes de água a produtos químicos.
“Tem
lugares onde o mercúrio já contaminou os rios. O peixe ingere, a gente pesca e
come sem saber. Se a água vier do fundo, a gente acredita que é mais limpa. O
rio pode servir para outra atividade”, disse, citando a agricultura. “Mas, para
beber, precisamos de água segura.”
A
Mongabay questionou o Ministério da Saúde sobre a situação de Bem Viver. Em
nota, citando informações do Dsei Leste Roraima, a pasta disse, no final de
janeiro, que o estabelecimento do sistema na comunidade ocorreu “em caráter
emergencial” e que a “instalação definitiva depende da chegada de materiais
complementares, já em processo de aquisição”.
O órgão
acrescentou que “são mantidas medidas provisórias para garantir o acesso à água
segura enquanto o sistema é finalizado”. No entanto, o documento não contempla
esclarecimentos sobre o atraso das aquisições nem sobre a inutilização da caixa
d’água.
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Um problema de dimensões regionais
Na
resposta oficial à reportagem, o Ministério da Saúde informou que cerca de 63%
da população indígena da região Norte (248,7 mil pessoas) “tem acesso a
sistemas de abastecimento de água”. O governo disse, ainda, que o número de
aldeias contempladas cresceu 20,6% de 2022 a 2023, subindo de 1.593 para 1.934
comunidades.
Ainda
assim, os dados podem esconder uma realidade incômoda: considerando o total de
aldeias registradas no Norte brasileiro (4.134), as 1.934 que dispõem de
estruturas de fornecimento hídrico representam apenas 47% — menos da metade.
Em todo
o estado de Roraima, 345 das 704 aldeias não possuem o devido acesso à água
(49%), enquanto no Pará, de um total de 843, 516 integram a estatística
negativa (61,2%). Já no estado do Amazonas, são 582 aldeias desabastecidas
entre as 1.883 existentes (30,9%). Os dados foram confirmados à reportagem pelo
ministério durante a fase de apuração, em 2025. Por e-mail, o órgão disse, no
entanto, que o levantamento por estado “não é preciso, uma vez que a extração
dos dados é feita pelo Dsei, que pega mais de um estado”.
Ainda
assim, mesmo quando a água chega, os desafios se acumulam. Em algumas aldeias,
por exemplo, é necessário o uso da Solução Alternativa de Tratamento de Água
com Zeólita (Salta-Z), uma tecnologia de baixo custo criada para fornecer água
potável e segura às populações indígenas e quilombolas.
Desenvolvido
pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), o composto é fundamental para
comunidades onde a água bruta apresenta alto teor de turbidez e elevada
concentração de elementos tóxicos, como o ferro e o manganês.
Em
outros locais, a água até chega às caixas d’água, mas não é devidamente
distribuída aos moradores. Nesses casos, famílias precisam transportar o
necessário para sobreviver em galões, baldes e outros recipientes. Tudo é ainda
pior durante períodos de seca extrema — como a que devastou a Amazônia nos
últimos anos.
Segundo
Ligia da Paz, pesquisadora e engenheira sanitarista da Mandí, organização da
sociedade civil que desenvolve soluções hídricas a partir do contexto
amazônico, o drama vivido na região Norte é fruto de um “problema histórico” do
Estado brasileiro.
Em sua
visão, as políticas nacionais de saneamento “foram construídas a partir de uma
lógica sanitarista e higienista, importada de modelos eurocêntricos, voltada ao
controle da água e dos territórios, e não à garantia de direitos ou ao diálogo
com os ecossistemas amazônicos”.
“É um
modelo pensado para canalizar rios, construir grandes obras e concentrar
investimentos, mas que não responde à realidade climática e territorial da
Amazônia”, disse a especialista.
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A água chega, mas com ferrugem
Kátia
Barbosa, líder Munduruku, é professora na Escola Indígena Ester Caldeira
Cardoso, na aldeia Kwatá, no município de Borba, a 150 quilômetros de Manaus
(AM). Ela revela outro problema: é preciso estar sempre atento à coloração e ao
cheiro da água encontrada.
Segundo
a docente, vários poços foram cavados onde mora e trabalha. No entanto, em
muitas ocasiões, a água apresenta alta concentração de ferrugem, o que impede o
consumo imediato. O problema pode se estender por toda a Terra Indígena
Coatá-Laranjal, da qual a aldeia de Kátia faz parte ao lado de outras 37
comunidades.
“Já
tentaram cavar a 100 metros de profundidade e não encontraram água de
qualidade”, disse a representante. Na TI em Borba, o composto Salta-Z também se
tornou indispensável para garantir abastecimento de água purificada aos 4.171
habitantes.
A água
que recebe a solução é captada diretamente dos rios, armazenada em uma caixa
d’água e, depois, purificada. O que sai desse processo é utilizado pelos
indígenas para beber, cozinhar e escovar os dentes. Mas nem sempre se pode
garantir o básico: em períodos de estiagem, o nível dos rios baixa, o que
inviabiliza o fornecimento contínuo.
Quando
a crise aperta, as próprias mulheres da aldeia cavam poços de 4 a 5 metros de
profundidade às margens do rio, driblando as limitações impostas pelo clima. A
estratégia de emergência, porém, não evita problemas residuais: segundo a líder
Munduruku, períodos de seca são acompanhados por “surtos de contaminação”.
A
tarefa quase sempre recai sobre as mulheres indígenas, responsáveis pelas
tarefas domésticas e pela produção de farinha. “Quando não tem água na cacimba
[poço escavado em área de várzea ou margem de rio], as mulheres recorrem aos
olhos d’água para amolecer a mandioca. Quando as cacimbas ficam sujas, são elas
que limpam. Na nossa cultura, as mulheres são responsáveis por lidar com a
água”, disse Kátia.
A
realidade, segundo ela, poderia ser diferente. “Mandamos fotos [ao poder
público], reivindicamos, mas não chega água. Mesmo que a aldeia tenha um poço
artesiano, ele seca. Somos pouco ouvidos.”
A
preocupação é endossada por Alexandre Pessoa, engenheiro sanitarista e
coordenador do projeto Águas e Saneamento da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Segundo o especialista, é necessário fortalecer órgãos públicos, como a
Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), que atua sob o Ministério da Saúde, para
enfrentar o problema.
“O
Brasil é um país continental, com dezenas de etnias e territórios indígenas
distintos. Garantir saneamento, território, educação e saúde é garantir o
direito à vida”, disse.
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Infecções sempre à espreita
Em
diferentes estados nortistas, o drama sanitário se repete. No município de
Barreirinha (AM), indígenas Sateré-Mawé relatam sentir medo constante de
contrair doenças comumente evitáveis, como infecções, vômitos e diarreias.
Ali, o
descaso também parece patológico.
Silas
Sateré-Mawé, morador da aldeia, disse que sua comunidade aguarda a conclusão
das obras do sistema de abastecimento de água há pelo menos dois anos. “A
construção do poço artesiano teve início em 28 de abril de 2023. Nós, aldeados,
passamos um mês ajudando na perfuração dos poços. E depois ficou inacabado. Era
um sonho dos Sateré-Mawé que foi jogado não sei para onde”, disse.
A
aldeia de Silas faz parte da Terra Indígena Andirá-Marau, onde vivem mais de 14
mil pessoas. As obras da TI estão sob a responsabilidade do Dsei Parintins —
que atribuiu “eventuais paralisações” ao “descumprimento contratual por
empresas executoras, tendo sido adotadas todas as medidas administrativas
cabíveis, inclusive rescisão contratual, com previsão orçamentária assegurada
para a conclusão e ampliação dos sistemas”.
O Dsei
disse, ainda, que “o território conta com obras já entregues, frentes em
execução e um conjunto robusto de investimentos planejados para 2026,
totalizando mais de R$ 20 milhões, além da manutenção de ações emergenciais de
mitigação de riscos sanitários”.
Especialistas
questionam essas informações. Ligia da Paz defende que atrasos nas obras fazem
parte de uma crise “sistêmica”. “Quando não há planejamento adequado, os
sistemas são mal dimensionados; sem governança, falta continuidade; e, sem
recursos, os projetos simplesmente param”, disse.
A
especialista também destacou o papel da crise climática global e alertou para a
redução da recarga dos aquíferos e alteração dos regimes de chuva — eventos
que, quando ocorrem simultaneamente, comprometem tanto a quantidade quanto a
qualidade da água disponível para as aldeias.
No
início de 2023, a crise humanitária na Terra Indígena Yanomami, tópico que foi
destaque em diversas reportagens da Mongabay, teve evidente participação do
avanço do garimpo. Desde então, membros da comunidade são apenas mais um povo
que luta pelo acesso digno à água tratada, cuja existência é ameaçada pelo
extrativismo mineral.
O
cacique da comunidade Hokomai-ú, na região de Palimiú, Fernando Palimitheli,
contou à Mongabay que até hoje precisa carregar água em baldes quando deixa o
igarapé, sem ainda ter à disposição “caixa d’água ou torneira”.
“Lá
onde o tamanduá-bandeira [vive], lá em cima, na cabeceira, ele toma banho, faz
o cocô dele e [tudo] vai descendo. Outro bicho morre e, de lá de cima, vem
descendo, cheira podre. As crianças pegam diarreia e dor de barriga”, disse a
liderança.
Questionado
pela Mongabay sobre o relato do cacique, o Ministério dos Povos Indígenas não
havia enviado um posicionamento oficial até o fechamento desta reportagem.
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Futuras soluções tecnológicas
Diante
de períodos de seca, de obras inacabadas e da falta de garantias por parte do
poder público, a nanotecnologia surge como aliada de muitas comunidades
tradicionais.
Em 185
comunidades localizadas nos municípios de Santarém, Alenquer, Óbidos, Aveiro,
Oriximiná, Jacareacanga e Juruti, no oeste do Pará, além de Nhamundá, no
Amazonas, a água que grupos indígenas e quilombolas consomem de igarapés,
barreiros e outros reservatórios agora conta com novos filtros que prometem
conter mais de 99% das impurezas.
A
tecnologia foi reconhecida pela Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente
(SVSA), por meio da nota técnica 68/2024. No texto, o órgão observa que “tais
dispositivos envolvem o emprego de técnica de tratamento por meio de membranas
de microfiltração e que esse processo apresenta elevada eficiência para remoção
de partículas em suspensão (turbidez) e de agentes patogênicos, cujo tamanho
seja superior aos poros das membranas”.
Em
outro ponto do documento, a SVSA afirma que “a utilização [do filtro] tende a
contribuir significativamente para a maior segurança à saúde da população sem
acesso à água tratada”. Após a filtragem, em uma etapa anterior ao consumo
humano, ainda é necessário adicionar hipoclorito de sódio ao líquido tratado
para completar o processo.
A
tecnologia foi adotada em 2024, durante a seca extrema que atingiu diversas
partes da Amazônia. Na época, o projeto contou com a ajuda de doações para uma
campanha de arrecadação criada pela ONG Saúde & Alegria, entidade que atua
desde 1987 com o desenvolvimento comunitário e sustentável no oeste paraense.
Os
filtros coletivos são instalados em escolas, Unidades Básicas de Saúde (UBS) e
espaços comunitários, abastecendo o uso doméstico. Estima-se que mais de 10 mil
pessoas sejam beneficiadas pela medida.
“O
impacto [do filtro] na saúde pública é imediato, com redução significativa da
incidência de doenças diarreicas, hepatite A e parasitoses intestinais —
principais causas de morbimortalidade infantil nessas populações tradicionais”,
disse Rodrigo Souza, gestor de Infraestrutura Comunitária da ONG.
Segundo
o representante, a solução deve ser replicada como política pública. Ele
reforça que, em regiões amazônicas, muitas vezes o problema não é a falta de
água, mas sim da água que se pode beber. “Poços artesianos convencionais nem
sempre resolvem”, disse.
Pessoa,
da Fiocruz, concorda que poços improvisados não possam ser tratados como
solução única. “Diante da insegurança hídrica, soluções complementares se
tornam cada vez mais necessárias.”
Fonte:
Mongabay

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