Bactéria
'disfarçada' pode ainda ser confundida em exames mesmo depois de surto que
matou 15 bebês
Um
surto de sepse que atingiu 65 recém-nascidos no Brasil, em 2013, levando à
morte de 15 prematuros, ajudou a revelar a presença de uma bactéria emergente e
de difícil identificação, que ainda pode estar sendo confundida com outros
microrganismos em exames laboratoriais.
O
Phytobacter diazotrophicus ainda pode ser identificado como Pantoea em muitos
laboratórios, tanto no Brasil quanto no exterior, segundo o microbiologista
brasileiro Marcelo Pillonetto. Isso ocorre porque sistemas automatizados de
identificação e testes bioquímicos muitas vezes classificam erroneamente
espécies do gênero.
A
história dessa descoberta foi recontada no documentário "A Saga do
Phytobacter", lançado neste ano e financiado pela Secretaria de Estado da
Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti) do estado do Paraná.
Mesmo
os equipamentos automatizados mais modernos, que utilizam a chamada
espectrometria de massa, estão presentes em apenas cerca de 10% dos
aproximadamente 20 mil laboratórios nacionais. E o sequenciamento genético -
técnica mais eficaz e cara depois desta - ainda é restrita a laboratórios
centrais de pesquisa dos estados e a alguns hospitais privados de alta
complexidade.
A
investigação sobre a contaminação de 2013 levou à revisão de métodos de
diagnóstico em laboratórios e a saga foi registrada em um documentário lançado
neste ano.
A
ORIGEM:
O surto
ocorreu de outubro de 2013 a maio de 2014, em quatro estados - Paraná, Minas
Gerais São Paulo e Rio Grande do Sul - e foi associado à nutrição contaminada
utilizada em terapias intravenosas hospitalares. Inicialmente, as amostras
analisadas indicaram a presença da bactéria Pantoea, mas o microrganismo era,
na verdade, Phytobacter diazotrophicus — sendo este o primeiro relato de
infecção por essa espécie em humanos.
A
identificação de que a nomenclatura estava incorreta ocorreu após testes
realizados pelo Laboratório Central do Paraná (Lacen/PR), que faz parte da rede
oficial do Sistema Único de Saúde (SUS), em uma investigação científica
liderada por Pillonetto, em parceria com a Universidade de Ciências Aplicadas
de Zurique (ZHAW).
A
espécie Phytobacter diazotrophicus foi descrita originalmente na China, em
2008, em plantações de arroz, mas sua capacidade de causar doenças em humanos
só foi confirmada após os estudos detalhados no Brasil.
A
confusão entre as espécies ocorreu porque os métodos tradicionais e os
equipamentos automatizados usados na rotina dos hospitais muitas vezes não
conseguem distinguir o Phytobacter de seus “parentes” próximos, explicou
Pillonetto ao g1. Análises posteriores mostraram que genomas bacterianos
depositados em bancos de dados internacionais de coleções de culturas de
referência global estavam, desde 1974, com nomes incorretos.
A
descoberta foi comunicada oficialmente em 2018, e os pesquisadores trabalharam
para atualizar equipamentos laboratoriais. Em 2023, ela foi incluída no banco
de dados de um fabricante de espectrometria de massa — método mais moderno e
rápido de identificação bacteriana.
Em
2023, houve um surto menor da mesma bactéria, em São José dos Pinhais (região
metropolitana de Curitiba), em uma clínica de hemodiálise. Quatro pacientes
tiveram sepse, e felizmente todos sobreviveram.
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Descoberta de bactéria emergente cria desafios para laboratórios
Segundo
Pillonetto, a identificação correta da bactéria gerou um alerta entre
microbiologistas e levou à distribuição de amostras para cerca de 300
laboratórios no Brasil e no exterior. O objetivo é que os profissionais de
saúde aprendam a reconhecer esse novo inimigo.
“Na
prática, essa pesquisa chama a atenção para um patógeno emergente, que vinha
sendo confundido com várias outras espécies. O conhecimento aprofundado desta
espécie permite diagnósticos precisos e imediatos, além da escolha do
antibiótico adequado, o que é crucial em casos de infecção generalizada. Mas
ainda há um desconhecimento significativo”, destaca o pesquisador.
Estudos
apontam que bactérias do gênero Phytobacter podem estar sendo frequentemente
identificadas de forma incorreta em amostras clínicas, porque métodos
laboratoriais tradicionais podem confundir esses microrganismos com espécies de
outros gêneros, como:
• Enterobacter
• Kluyvera
• Pantoea
• Citrobacter
A
confusão taxonômica pode dificultar o reconhecimento de surtos hospitalares e
levar à subnotificação da presença dessas bactérias.
“A
dificuldade não é porque ela não cresce no laboratório, mas sim porque se
disfarça bem. Sem tecnologias avançadas de genética ou equipamentos de ponta,
como a espectrometria de massa, essa bactéria passa despercebida. E ela tem uma
capacidade preocupante de se espalhar em ambientes hospitalares por meio de
soluções contaminadas ou superfícies”, explica Pillonetto.
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O que é considerado “padrão ouro” na identificação
Sequenciamento
genético permite reduzir o tempo de identificação de cerca de 72 horas para 24
horas — Foto: Nilton Lincopan
Quando
hospitais precisam identificar bactérias em exames, sistemas automatizados
usados na maioria dos laboratórios nem sempre conseguem identificar espécies
complexas e emergentes. Os aparelhos têm em seus bancos de dados diversas
bactérias já conhecidas, mas, quando não há identificação, o ideal é recorrer
ao chamado “padrão ouro” da microbiologia: o sequenciamento genético.
Esse
sequenciamento permite reduzir o tempo de identificação de cerca de 72 horas
para 24 horas, além de indicar se a bactéria sofreu modificações e qual é seu
perfil de resistência, permitindo a escolha mais precisa do antibiótico. No
entanto, essa tecnologia ainda é restrita a laboratórios de pesquisa e a alguns
hospitais privados de alta complexidade.
Isso
ocorre porque os kits usados no sequenciamento são produzidos no exterior e
ainda têm custo elevado, principalmente devido aos altos impostos, segundo
especialistas ouvidos pelo g1.
Mesmo
equipamentos automatizados mais modernos, que utilizam espectrometria de massa,
estão presentes em apenas cerca de 10% dos aproximadamente 20 mil laboratórios
brasileiros.
O
professor do Departamento de Microbiologia do ICB-USP, Nilton Lincopan, afirma
que as ferramentas genômicas ainda são onerosas e exigem mão de obra
qualificada, mas são essenciais para identificar bactérias emergentes. Uma
alternativa viável, segundo ele, seria aproximar laboratórios públicos e
hospitais dos centros de pesquisa das universidades.
O kit
adquirido mais recentemente pela equipe de Lincopan para sequenciar 96
bactérias, por exemplo, custou R$ 75 mil. Após aberto, o material perde a
validade, o que exige o acúmulo de amostras para melhor aproveitamento — o que
pode atrasar diagnósticos.
Já
existem kits capazes de analisar 24 bactérias, mas nem sempre estão disponíveis
nos centros de referência.
“Talvez
esses próprios laboratórios-escola poderiam ser referência para cada região, e
o sistema público de saúde não teria gastos com infraestrutura e mão de obra
qualificada. Por outro lado, o laboratório-escola realizaria seu papel em
termos de extensão universitária”, sugere Lincopan.
O
microbiologista avalia que essa integração permitiria transformar dados em
pesquisa aplicada, contribuindo para o enfrentamento de desafios como
resistência bacteriana, surtos hospitalares e diagnóstico precoce.
Pillonetto
destaca que a identificação precisa do Phytobacter é vital, pois o
microrganismo tem demonstrado capacidade crescente de adquirir genes de
resistência a antibióticos potentes.
O
especialista acrescenta que é fundamental que as instituições invistam em
equipamentos adequados e na capacitação de profissionais para melhorar a
identificação de microrganismos, reduzir erros diagnósticos e enfrentar a
resistência antimicrobiana.
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Da confusão à identificação correta
Inicialmente,
os microrganismos responsáveis pelo surto de 2013 foram classificados como
Acinetobacter baumannii, Rhizobium radiobacter, Pantoea ou outras bactérias da
família Enterobacteriaceae.
Mas
análises moleculares mais detalhadas mostraram que parte dos isolados
correspondia, na realidade, à espécie Phytobacter diazotrophicus.
O
estudo confirmou a presença de três bactérias envolvidas no surto:
• Acinetobacter baumannii
• Phytobacter diazotrophicus
• Rhizobium radiobacter
As
análises genéticas indicaram que as duas primeiras eram muito semelhantes,
sugerindo uma origem comum de contaminação. Em um dos pacientes, as três
espécies foram detectadas simultaneamente.
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Presença em hospitais e unidades neonatais
Estudos
em diferentes países têm detectado espécies do gênero Phytobacter em ambientes
hospitalares.
Em
Singapura, pesquisadores encontraram duas amostras de Phytobacter
diazotrophicus em uma UTI neonatal, coletadas em uma torneira e no sifão da pia
de uma sala de preparo de leite.
Inicialmente,
as bactérias foram identificadas incorretamente como Cronobacter sakazakii e
Klebsiella oxytoca. A identidade real só foi confirmada após sequenciamento
completo do genoma.
Segundo
pesquisadores, bactérias desse grupo são encontradas tanto em ambientes
naturais quanto em contextos clínicos e vêm sendo cada vez mais relatadas em
infecções humanas.
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Potencial de resistência a antibióticos
Pesquisas
apontam que algumas espécies do gênero podem carregar genes de resistência a
antibióticos de última linha.
Um
estudo publicado na revista científica "Microbiology Spectrum"
identificou o Phytobacter diazotrophicus em pacientes pediátricos e em
ambientes hospitalares no Japão. As amostras apresentavam o gene blaNDM-1,
associado à resistência a carbapenêmicos.
Outro
trabalho relatou genes ligados à resistência à colistina e à produção de
carbapenemase, reforçando a preocupação com o potencial do microrganismo.
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Casos clínicos e infecções raras
Além de
surtos hospitalares, há registros de infecções isoladas associadas ao gênero.
Um
relato publicado no periódico científico "BMJ" descreveu um caso de
sepse causado por Phytobacter ursingii em uma paciente idosa que recebia
nutrição venosa.
Outro
estudo descreveu um caso de sepse neonatal na China causada por Phytobacter
diazotrophicus em uma bebê de 27 dias com galactosemia tipo 1.
Segundo
os pesquisadores, o microrganismo é considerado um patógeno oportunista e já
foi isolado em sangue humano, fluidos intravenosos e águas residuais
hospitalares.
Para
Pillonetto, o episódio do surto de 2013 no Brasil e a identificação correta da
bactéria reforçam a necessidade de atualização dos laboratórios clínicos.
Fonte:
g1

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