Os
homens serão extintos? A verdade sobre o cromossomo Y
Diminuto
em comparação ao cromossomo X e com apenas cerca de cinquenta genes funcionais,
o cromossomo Y vem há décadas ganhando manchetes, muitas vezes em tom
apocalíptico. Muito se especula até sobre um eventual "fim dos
homens".
Por
trás da discussão, está o amplo consenso de que o cromossomo Y sofreu uma
degradação histórica considerável, colocando em debate o seu destino a
longuíssimo prazo. Ao mesmo tempo, acumulam-se evidências que vinculam a sua
perda em algumas células a implicações para a saúde masculina.
Mas, na
comunidade científica, não é consenso que o cromossomo Y poderia desaparecer,
muito menos os homens. Os pesquisadores ainda desvendam os mistérios da
genética, com um longo caminho adiante e uma história que já se prolonga há
dezenas de milhões de anos.
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A origem evolutiva do cromossomo Y
Há
aproximadamente 180 milhões de anos, os cromossomos sexuais dos mamíferos
formavam um par praticamente idêntico. Com o tempo, esse par ancestral se
diferenciou até dar origem aos cromossomos X e Y atuais.
Nos
seres humanos e outros mamíferos, o sexo é determinado cromossomicamente: as
mulheres normalmente têm dois cromossomos X, e os homens, um X e um Y. Embora
esse par represente apenas cerca de 4% do DNA total, seu papel biológico vai
muito além de determinar o desenvolvimento de testículos ou ovários.
O
cromossomo Y, em particular, se destaca pelo reduzido conteúdo genético.
Enquanto o cromossomo X contém entre 900 e 1,4 mil genes, segundo diferentes
estimativas, o Y conserva entre 45 e 51 genes codificadores de proteínas,
dependendo do critério utilizado para contá-los.
Um
deles, o gene SRY, atua como desencadeador do desenvolvimento masculino. Alguns
outros participam da produção de esperma. As funções dos restantes seguem sendo
objeto de estudo e debate, o que contribui para a percepção do Y como um
cromossomo atípico do ponto de vista evolutivo.
A
bióloga evolutiva australiana Jenny Graves estuda esse processo de degradação
há décadas. Em um artigo publicado no The Conversation em 2014, ela estimou
que, se a perda de genes continuasse no ritmo observado – quase dez genes a
cada um milhão de anos desde há 166 milhões de anos –, o cromossomo Y poderia
desaparecer em cerca de 4,5 milhões de anos.
A
afirmação, incluída quase de passagem em um artigo técnico de 2004, provocou
uma reação desproporcional. "Surpreende-me muito que alguém se preocupe
com a extinção dos homens dentro de cinco ou seis milhões de anos",
declarou Graves ao Science Alert, lembrando que a espécie humana sequer existe
há 100 mil anos.
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Por que o cromossomo Y se degrada?
De
acordo com Graves, há duas razões principais. Como ela explicou à BBC Science
Focus em 2024, a primeira é o contexto biológico. O cromossomo Y é transmitido
exclusivamente pela linhagem masculina e, a cada geração, passa pelos
testículos, que constituem um ambiente geneticamente exigente.
A
produção de esperma requer numerosas divisões celulares, e cada uma delas
implica uma nova oportunidade para que mutações se acumulem.
A
segunda, e talvez mais determinante, é seu isolamento. Ao contrário dos demais
cromossomos, o Y não dispõe de um homólogo com o qual possa trocar segmentos de
DNA para corrigir erros.
Na
maioria dos casos, os cromossomos "se apoiam" em seu par durante a
recombinação para compensar danos. O Y carece desse respaldo estrutural, de
modo que as alterações acumuladas se tornam muito mais difíceis de eliminar.
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O cromossomo Y está condenado?
Nem
toda a comunidade científica compartilha do diagnóstico. Como publicou a Vice
no final do ano passado, a bióloga evolutiva Jenn Hughes, do Instituto
Whitehead do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), sustenta há anos a
visão contrária: os genes essenciais do cromossomo Y humano têm se mantido
estáveis por 25 milhões de anos. A conclusão seria reforçada por estudos
posteriores em primatas.
Seu
argumento é que os genes remanescentes cumprem funções cruciais em todo o
organismo, o que gera forte pressão evolutiva para preservá-los. Dessa
perspectiva, o cromossomo Y não estaria desaparecendo, mas se estabilizando.
Jenny
Graves não nega a estabilidade, mas introduz uma nuance: o fato de algo
permanecer estável hoje não significa que vá perdurar indefinidamente. O
cromossomo Y contém abundantes sequências repetidas, suscetíveis a degradação
geração após geração. Os genes que hoje parecem firmes poderiam ser
substituídos, se as condições evolutivas mudassem.
Ela
resume, segundo a Vice, o horizonte temporal do Y como "qualquer coisa
entre agora e nunca". Quando ambas as cientistas debateram publicamente em
2011, o público ficou dividido em partes iguais. A discussão permanece aberta.
O que
se sabe com certeza é que, em outros animais, surgiram sistemas alternativos de
determinação sexual. Segundo a BBC Science Focus, algumas ratas-toupeira da
Europa Oriental e ratos-espinhosos do Japão perderam completamente o cromossomo
Y e redistribuíram ou substituíram suas funções em outros cromossomos – e
continuam sendo populações viáveis. As moscas-da-fruta, por sua vez, perderam
quase todos os genes do cromossomo Y.
Graves
sustenta que, se surgisse um gene determinante do sexo mais eficiente em uma
população humana pequena e isolada, onde acidentes genéticos são mais
prováveis, ele poderia se espalhar sem eliminar características masculinas
visíveis. "Talvez isso já tenha acontecido em alguma população humana em
algum lugar", afirmou ao Science Alert.
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Doenças em homens mais velhos
O
debate evolutivo em escala de milhões de anos convive com uma preocupação muito
mais imediata: a perda do cromossomo Y em células do corpo à medida que os
homens envelhecem.
Em
artigo recente no The Conversation, Graves explica que as novas técnicas de
detecção genômica mostram que esse fenômeno é frequente em tecidos de homens
idosos. Com o passar do tempo, o cromossomo Y desaparece de algumas células, e
suas descendentes já não o recuperam.
O
tecido acaba se tornando uma mistura heterogênea: coexistem células que mantêm
o Y e outras que o perderam. Segundo dados compilados pela pesquisadora, 40%
dos homens de 60 anos já apresentam essa perda, proporção que sobe para 57% aos
90 anos. Fatores ambientais como tabagismo ou exposição a cancerígenos também
influenciam.
Durante
anos, presumiu-se que essa perda fosse irrelevante. Se o cromossomo Y contém
poucos genes e as células podem sobreviver sem ele, parecia lógico pensar que
sua ausência não teria grandes consequências.
Contudo,
segundo Graves, dados recentes apontam para outra direção. Diversos estudos
encontraram associações entre a perda do Y e doenças cardiovasculares,
neurodegenerativas e diferentes tipos de câncer.
Um
estudo alemão em larga escala observou que homens acima de 60 anos com alta
frequência de perda do Y tinham maior risco de sofrer ataques cardíacos. Também
foi detectada uma frequência dez vezes maior dessa perda em pacientes com
Alzheimer, além de uma associação com maior mortalidade por covid-19.
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O desafio da causalidade
Estabelecer
uma relação causal é complexo: as doenças poderiam provocar a perda do Y, ou um
terceiro fator poderia estar por trás de ambos os fenômenos.
No
entanto, um experimento com camundongos sugere um possível efeito direto. Ao
transplantar células sanguíneas sem cromossomo Y em camundongos irradiados, os
animais desenvolveram mais patologias associadas ao envelhecimento, incluindo
alterações na função cardíaca e casos de insuficiência cardíaca.
Como um
cromossomo com tão poucos genes pode ter impacto tão amplo? Parte da resposta
está no fato de que vários desses genes se expressam em todo o organismo, não
apenas nos testículos, e alguns atuam como supressores de tumores.
Além
disso, o cromossomo Y abriga genes não codificantes que parecem regular a
atividade de outros genes em cromossomos distintos. Sua perda pode, portanto,
alterar mecanismos que vão muito além da determinação sexual.
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Então, os homens vão desaparecer?
Não da
noite para o dia. Humanos não podem se reproduzir por partenogênese, ou seja,
sem a contribuição genética masculina, e existem pelo menos 30 genes com
impressão genômica que devem vir do esperma.
Se o
cromossomo Y desaparecesse, a alternativa não seria a extinção imediata, mas a
evolução de um novo sistema de determinação sexual. Em teoria, esse processo
poderia inclusive levar, a muito longo prazo, a uma diferenciação entre
espécies, como sugere Graves.
Por
ora, não há evidências de uma emergência evolutiva iminente. O cromossomo Y
pode se manter por milhões de anos ou transformar-se em outra coisa. Sua
trajetória futura segue incerta, mas está longe de um desfecho imediato.
Além
disso, o sequenciamento completo do DNA do cromossomo Y humano foi alcançado há
apenas alguns anos, de modo que nosso conhecimento detalhado sobre seu
funcionamento ainda é relativamente recente.
Mais do
que o obituário de um cromossomo em decadência, essa nova etapa pode permitir
uma compreensão mais aprofundada de seu papel na biologia e na evolução
humanas.
Fonte:
DW Brasil

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