Maria
Luiza Falcão: Diesel, ICMS e um país dividido diante de uma guerra
Ao
pedir que os estados reduzam o ICMS sobre os combustíveis, o presidente Lula
reage a um cenário que se deteriora rapidamente, marcado pela escalada do preço
do petróleo em meio a um conflito sem horizonte claro de término. A medida,
apresentada como resposta imediata, revela mais do que uma preocupação
conjuntural. Indica que o impacto da guerra já começou a atravessar fronteiras
e a se infiltrar no cotidiano da economia brasileira — com potencial de
atingir, de forma direta, o custo dos alimentos.
No
Brasil, o diesel ocupa uma posição estratégica singular. Não se trata apenas de
um derivado energético, mas do combustível que sustenta a economia real. Ele
move o transporte de cargas, viabiliza a produção agrícola e conecta regiões
inteiras em um país de dimensões continentais. Quando o diesel sobe, não sobe
sozinho. Ele percorre toda a cadeia produtiva, encarece o frete, pressiona os
custos e, inevitavelmente, chega ao consumidor final. É nesse momento que a
questão energética deixa de ser um tema técnico e se transforma em questão
social — e, rapidamente, em questão política.
A
redução do ICMS aparece, nesse contexto, como uma tentativa de conter o impacto
no curto prazo. Trata-se de uma medida de efeito relativamente rápido, capaz de
amortecer parte da alta. Mas seus limites são evidentes. Ao transferir o custo
para os estados, pressiona orçamentos já fragilizados e não altera o fator
central do problema: a formação internacional dos preços e a dependência
brasileira da importação de diesel. Em outras palavras, trata-se de uma
resposta que ganha tempo, mas não resolve a vulnerabilidade estrutural que o
episódio expõe.
Essa
vulnerabilidade, no entanto, não se limita ao combustível. Ela se estende a
outro elo crítico da cadeia produtiva, frequentemente menos visível, mas
decisivo: os fertilizantes. O Brasil, potência agrícola, depende fortemente da
importação desses insumos essenciais, muitos deles provenientes de regiões
atravessadas por tensões geopolíticas. Em um cenário de conflito prolongado,
interrupções logísticas, sanções ou elevação abrupta de preços podem
comprometer não apenas os custos, mas a própria capacidade de produção.
O
efeito é cumulativo. O diesel encarece o transporte e a produção; os
fertilizantes pressionam a oferta; e ambos convergem para o mesmo ponto:
alimentos mais caros. Já não se trata apenas de inflação, mas de um risco mais
amplo de desorganização do abastecimento em determinadas cadeias, especialmente
se o cenário internacional se agravar.
É nesse
contexto que o problema deixa de ser apenas econômico e passa a assumir uma
dimensão histórica mais ampla. O mundo vive um momento de escalada simultânea
de conflitos, tensões e disputas estratégicas. Ainda que não haja uma
declaração formal, os sinais de fragmentação, rearmamento e disputa por
recursos essenciais tornam cada vez mais plausível a leitura de que caminhamos
para algo próximo de uma economia de guerra difusa — um ambiente em que
energia, alimentos e cadeias produtivas passam a ser tratados como ativos
estratégicos.
O
problema é que essa mudança de era ainda não foi plenamente assimilada.
O
debate público segue, em grande medida, operando com categorias de normalidade
— como se estivéssemos diante de choques pontuais e reversíveis. Mas o que se
desenha é diferente. Trata-se de uma transição para um cenário mais instável,
em que crises deixam de ser exceção e passam a ser parte da regra.
E o
Brasil chega a esse momento profundamente dividido.
A
polarização política não é apenas um ruído de fundo. Ela se transforma em
obstáculo concreto à construção de respostas. Medidas que exigiriam coordenação
nacional passam a ser disputadas como posições ideológicas. O que deveria ser
tratado como questão de segurança econômica e alimentar corre o risco de ser
fragmentado em conflitos políticos internos.
Essa é
talvez a maior vulnerabilidade.
Porque
crises dessa natureza não aguardam consensos. Elas exigem ação — rápida,
coordenada e estratégica. E, na ausência disso, seus efeitos se ampliam. O
encadeamento já está em curso: petróleo mais caro eleva o diesel; fertilizantes
pressionam a produção; o transporte encarece; e o resultado se materializa no
aumento do custo dos alimentos.
É nesse
ponto que a guerra, ainda que distante, entra nas casas brasileiras.
Quando
isso acontece, o debate muda. Explicações complexas perdem espaço diante da
experiência concreta da perda de poder de compra. E, a partir daí, o impacto
deixa de ser apenas econômico. Torna-se social e, inevitavelmente, político.
O
pedido de redução do ICMS é, portanto, apenas o início de uma resposta ainda
incompleta. Ele revela percepção do problema, mas também evidencia os limites
de uma estratégia baseada apenas em medidas emergenciais. Se o cenário
internacional continuar a se deteriorar, o Brasil será forçado a enfrentar suas
fragilidades estruturais: a dependência de derivados importados, a
vulnerabilidade em fertilizantes, a logística concentrada no transporte
rodoviário e, sobretudo, a dificuldade de agir como um país em momentos
críticos.
A
questão central já não é se haverá impacto. Ele já começou.
A
questão é se o Brasil compreenderá, a tempo, a natureza da crise que enfrenta.
Porque,
se o mundo caminha para uma lógica de economia de guerra — ainda que não
declarada —, a resposta não pode continuar sendo fragmentada, reativa e
condicionada pela polarização interna.
Em
momentos assim, a história cobra outra postura.
E o
risco maior não está apenas no preço do diesel ou no custo dos alimentos.
Está na
possibilidade de que um país não reconheça a gravidade do tempo em que vive —
até que seus efeitos se tornem incontornáveis.
• Paulo Gala: Choque do petróleo e
incerteza global - a virada na trajetória de juros no Brasil e no mundo
A
“super quarta” trouxe decisões relevantes de política monetária tanto nos
Estados Unidos quanto no Brasil, com sinais importantes para o cenário
econômico global e doméstico. Começando pelo Federal Reserve, a decisão foi
interpretada como mais dura (hawkish) do que o esperado por parte do mercado.
Havia alguma expectativa de corte de 0,25 ponto percentual, especialmente por
parte de membros mais inclinados a uma postura expansionista (dovish), mas
prevaleceu a manutenção dos juros. Além disso, a comunicação do presidente
Jerome Powell reforçou um tom cauteloso, indicando que o ciclo de cortes pode
ser postergado. O mercado, que antes projetava reduções já neste ano, passou a
precificar cortes apenas mais adiante, possivelmente em dezembro.
Essa
mudança de expectativa está diretamente relacionada ao agravamento do cenário
geopolítico. O conflito no Oriente Médio elevou significativamente o preço do
petróleo, com o Brent ultrapassando US$ 115 por barril. Trata-se de um choque
relevante, com impacto direto sobre a inflação global. Esse movimento tende a
contaminar indicadores como o CPI e o PPI nos próximos meses, especialmente
considerando que os dados mais recentes ainda não incorporam plenamente a alta
dos combustíveis.
O
cenário, portanto, tornou-se mais complexo nos Estados Unidos. A inflação pode
voltar a ganhar força, o que reduz o espaço para flexibilização monetária. A
possibilidade de novos aumentos de juros, embora não seja o cenário base,
voltou ao radar, evidenciando uma deterioração significativa das condições
macroeconômicas.
No
Brasil, o Banco Central do Brasil optou por um corte de 0,25 ponto percentual
na taxa Selic, o mínimo esperado pelo mercado. A decisão em si já era
amplamente antecipada, mas o comunicado do Comitê de Política Monetária
surpreendeu pelo tom bastante duro. Houve críticas de parte do mercado, com
alguns analistas argumentando que, diante do cenário atual, sequer haveria
espaço para iniciar o ciclo de cortes.
Ainda
assim, o Copom optou por iniciar a flexibilização, deixando claro que os
próximos passos dependerão fortemente da evolução do cenário externo,
especialmente do conflito no Oriente Médio. O comunicado enfatiza o elevado
grau de incerteza e destaca que futuras decisões estarão condicionadas à
evolução dos preços de energia e seus impactos inflacionários.
Esse
ponto é crucial. O Brasil já enfrenta uma defasagem relevante nos preços de
combustíveis, estimada entre 30% e 40%. Embora a Petrobras tenha conseguido
segurar parcialmente os reajustes, há limites para essa estratégia. Além disso,
fatores como aumento das importações de diesel e risco de greve de
caminhoneiros ampliam a pressão inflacionária.
Se o
petróleo continuar subindo — cenário plausível caso o conflito se prolongue —
os impactos sobre a inflação brasileira podem ser significativos. Estamos
falando de um IPCA que pode se aproximar de 4,5% ou até 5%, acompanhado de uma
taxa de câmbio mais depreciada, possivelmente na faixa de R$ 5,50 por dólar.
Nesse contexto, o ciclo de queda da Selic fica ameaçado, e não se pode
descartar, no limite, até uma reversão para alta de juros.
Por
outro lado, a economia doméstica vinha apresentando sinais relativamente
positivos até recentemente. Indicadores de atividade, como comércio, serviços e
indústria, mostraram alguma recuperação no fim do ano passado e início deste
ano. O mercado de trabalho segue resiliente, ainda que com sinais mistos. Esses
elementos foram reconhecidos pelo Banco Central no comunicado. No entanto, o
choque externo muda substancialmente o cenário. Sem o aumento do petróleo, o
caminho parecia relativamente claro: uma trajetória de queda de juros levando a
Selic para algo próximo de 12% ao final do ano. Agora, essa trajetória está em
xeque.
A
principal conclusão é que houve uma mudança relevante — e rápida — no cenário
macroeconômico global. O conflito no Oriente Médio, já em sua terceira semana,
tende a se prolongar, mantendo o petróleo em níveis elevados e pressionando a
inflação mundial. Diante disso, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, os
bancos centrais passam a adotar posturas mais cautelosas. O Fed sinaliza o
adiamento do ciclo de cortes, enquanto o Banco Central brasileiro inicia a
flexibilização de forma hesitante e altamente condicionada ao cenário externo.
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Guerra no Irã e a fome no mundo. Por Chico Teixeira
A etapa
atual do conflito no Irã, com a destruição e paralisação da produção de gás e
petróleo, força um grave aumento nos preços dos alimentos em todo o mundo.
Hoje, cerca de 673 milhões de pessoas passam fome no mundo, em especial na
África (20%), na América Latina (5,2%) e no Sul da Ásia (9,0%). No entanto, a
insegurança alimentar pode chegar a próximo de 800 milhões de pessoas,
incidindo dramaticamente sobre a mortalidade infantil, com um repunte de 16 mil
mortes diárias na África subsaariana e no Sul da Ásia, detendo uma tendência de
queda registrada depois de 1990.
A
guerra atual, ao destruir fontes e meios de transporte de gás e diesel, tem um
impacto monstruoso sobre o preço dos alimentos, causando inflação nos países
mais avançados e fome nos países pobres ou em regiões de insegurança alimentar,
mesmo em países ricos, como África do Sul, Nigéria e Brasil. O transporte
mundial de alimentos é feito em navios e caminhões movidos a óleo diesel, como
no Brasil — cerca de 3,5 milhões de veículos no país —, e a frigorificação
ocorre com energia de termoelétricas ou a diesel, como nos navios, encarecendo
a produção, conservação e distribuição de alimentos em todo o mundo.
Além
disso, incide sobre o preço dos fertilizantes, muito dependentes do petróleo
para a produção e distribuição. A guerra é, pois, uma preocupação global, com
impactos para além do Oriente Médio e da Ásia. Devemos agradecer a Trump e
Netanyahu pelo aumento da fome no mundo e a morte de milhares de crianças que
jamais ouviram falar de Trump.
• Guerra prolongada contra o Irã pode
elevar preços globais de alimentos, alerta economista da ONU
Uma
guerra prolongada contra o Irã pode provocar aumento significativo nos preços
dos alimentos em escala global, segundo avaliação do economista-chefe da
Organização das Nações Unidas (ONU) para a Alimentação e Agricultura, Máximo
Torero. Ele afirma que, caso o conflito se estenda por mais de três meses, os
impactos sobre a produção agrícola tendem a se intensificar.
"Por
isso é tão importante não permitir que isso continue a se intensificar por um
período prolongado", afirmou Máximo Torero. O economista indicou que a
continuidade da crise pode elevar os custos de insumos essenciais e comprometer
a próxima safra, com efeitos duradouros. Ele também apontou a necessidade de
buscar alternativas logísticas para reduzir os impactos no abastecimento.
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Impacto nos fertilizantes
Os
países do Golfo Pérsico, incluindo Irã, Arábia Saudita e Omã, estão entre os
principais exportadores de fertilizantes nitrogenados, como ureia e amônia.
Juntos, respondem por cerca de um terço das exportações globais de ureia e
entre 20% e 30% das exportações de amônia. Estimativas indicam que os preços
globais dos fertilizantes podem permanecer entre 15% e 20% mais altos no
primeiro semestre do ano, caso a crise continue. O aumento tende a pressionar
os custos agrícolas e, consequentemente, os preços dos alimentos.
Até 30%
do comércio global de fertilizantes passa pelo Estreito de Ormuz, rota
estratégica para o escoamento da produção da região. Interrupções no fluxo já
resultaram na retenção de cerca de 3 a 4 milhões de toneladas desses insumos.
Desde o início do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, os preços
da energia têm apresentado forte volatilidade. O fechamento do Estreito de
Ormuz, por onde circula cerca de 20% do petróleo mundial, contribuiu para a
instabilidade no mercado.
Em 8 de
março, o preço do barril de petróleo ultrapassou os 100 dólares e chegou a
quase 120 nas primeiras horas do dia, antes de recuar. Ainda assim, a oscilação
permanece. A Guarda Revolucionária iraniana informou que permitirá a passagem
pelo estreito apenas a países que expulsem embaixadores dos Estados Unidos e de
Israel. Posteriormente, reforçou que embarcações desses países e de seus
aliados não podem utilizar a rota.
Fonte:
Brasil 247

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