sexta-feira, 20 de março de 2026

Maria Luiza Falcão: Diesel, ICMS e um país dividido diante de uma guerra

Ao pedir que os estados reduzam o ICMS sobre os combustíveis, o presidente Lula reage a um cenário que se deteriora rapidamente, marcado pela escalada do preço do petróleo em meio a um conflito sem horizonte claro de término. A medida, apresentada como resposta imediata, revela mais do que uma preocupação conjuntural. Indica que o impacto da guerra já começou a atravessar fronteiras e a se infiltrar no cotidiano da economia brasileira — com potencial de atingir, de forma direta, o custo dos alimentos.

No Brasil, o diesel ocupa uma posição estratégica singular. Não se trata apenas de um derivado energético, mas do combustível que sustenta a economia real. Ele move o transporte de cargas, viabiliza a produção agrícola e conecta regiões inteiras em um país de dimensões continentais. Quando o diesel sobe, não sobe sozinho. Ele percorre toda a cadeia produtiva, encarece o frete, pressiona os custos e, inevitavelmente, chega ao consumidor final. É nesse momento que a questão energética deixa de ser um tema técnico e se transforma em questão social — e, rapidamente, em questão política.

A redução do ICMS aparece, nesse contexto, como uma tentativa de conter o impacto no curto prazo. Trata-se de uma medida de efeito relativamente rápido, capaz de amortecer parte da alta. Mas seus limites são evidentes. Ao transferir o custo para os estados, pressiona orçamentos já fragilizados e não altera o fator central do problema: a formação internacional dos preços e a dependência brasileira da importação de diesel. Em outras palavras, trata-se de uma resposta que ganha tempo, mas não resolve a vulnerabilidade estrutural que o episódio expõe.

Essa vulnerabilidade, no entanto, não se limita ao combustível. Ela se estende a outro elo crítico da cadeia produtiva, frequentemente menos visível, mas decisivo: os fertilizantes. O Brasil, potência agrícola, depende fortemente da importação desses insumos essenciais, muitos deles provenientes de regiões atravessadas por tensões geopolíticas. Em um cenário de conflito prolongado, interrupções logísticas, sanções ou elevação abrupta de preços podem comprometer não apenas os custos, mas a própria capacidade de produção.

O efeito é cumulativo. O diesel encarece o transporte e a produção; os fertilizantes pressionam a oferta; e ambos convergem para o mesmo ponto: alimentos mais caros. Já não se trata apenas de inflação, mas de um risco mais amplo de desorganização do abastecimento em determinadas cadeias, especialmente se o cenário internacional se agravar.

É nesse contexto que o problema deixa de ser apenas econômico e passa a assumir uma dimensão histórica mais ampla. O mundo vive um momento de escalada simultânea de conflitos, tensões e disputas estratégicas. Ainda que não haja uma declaração formal, os sinais de fragmentação, rearmamento e disputa por recursos essenciais tornam cada vez mais plausível a leitura de que caminhamos para algo próximo de uma economia de guerra difusa — um ambiente em que energia, alimentos e cadeias produtivas passam a ser tratados como ativos estratégicos.

O problema é que essa mudança de era ainda não foi plenamente assimilada.

O debate público segue, em grande medida, operando com categorias de normalidade — como se estivéssemos diante de choques pontuais e reversíveis. Mas o que se desenha é diferente. Trata-se de uma transição para um cenário mais instável, em que crises deixam de ser exceção e passam a ser parte da regra.

E o Brasil chega a esse momento profundamente dividido.

A polarização política não é apenas um ruído de fundo. Ela se transforma em obstáculo concreto à construção de respostas. Medidas que exigiriam coordenação nacional passam a ser disputadas como posições ideológicas. O que deveria ser tratado como questão de segurança econômica e alimentar corre o risco de ser fragmentado em conflitos políticos internos.

Essa é talvez a maior vulnerabilidade.

Porque crises dessa natureza não aguardam consensos. Elas exigem ação — rápida, coordenada e estratégica. E, na ausência disso, seus efeitos se ampliam. O encadeamento já está em curso: petróleo mais caro eleva o diesel; fertilizantes pressionam a produção; o transporte encarece; e o resultado se materializa no aumento do custo dos alimentos.

É nesse ponto que a guerra, ainda que distante, entra nas casas brasileiras.

Quando isso acontece, o debate muda. Explicações complexas perdem espaço diante da experiência concreta da perda de poder de compra. E, a partir daí, o impacto deixa de ser apenas econômico. Torna-se social e, inevitavelmente, político.

O pedido de redução do ICMS é, portanto, apenas o início de uma resposta ainda incompleta. Ele revela percepção do problema, mas também evidencia os limites de uma estratégia baseada apenas em medidas emergenciais. Se o cenário internacional continuar a se deteriorar, o Brasil será forçado a enfrentar suas fragilidades estruturais: a dependência de derivados importados, a vulnerabilidade em fertilizantes, a logística concentrada no transporte rodoviário e, sobretudo, a dificuldade de agir como um país em momentos críticos.

A questão central já não é se haverá impacto. Ele já começou.

A questão é se o Brasil compreenderá, a tempo, a natureza da crise que enfrenta.

Porque, se o mundo caminha para uma lógica de economia de guerra — ainda que não declarada —, a resposta não pode continuar sendo fragmentada, reativa e condicionada pela polarização interna.

Em momentos assim, a história cobra outra postura.

E o risco maior não está apenas no preço do diesel ou no custo dos alimentos.

Está na possibilidade de que um país não reconheça a gravidade do tempo em que vive — até que seus efeitos se tornem incontornáveis.

•        Paulo Gala: Choque do petróleo e incerteza global - a virada na trajetória de juros no Brasil e no mundo

A “super quarta” trouxe decisões relevantes de política monetária tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, com sinais importantes para o cenário econômico global e doméstico. Começando pelo Federal Reserve, a decisão foi interpretada como mais dura (hawkish) do que o esperado por parte do mercado. Havia alguma expectativa de corte de 0,25 ponto percentual, especialmente por parte de membros mais inclinados a uma postura expansionista (dovish), mas prevaleceu a manutenção dos juros. Além disso, a comunicação do presidente Jerome Powell reforçou um tom cauteloso, indicando que o ciclo de cortes pode ser postergado. O mercado, que antes projetava reduções já neste ano, passou a precificar cortes apenas mais adiante, possivelmente em dezembro.

Essa mudança de expectativa está diretamente relacionada ao agravamento do cenário geopolítico. O conflito no Oriente Médio elevou significativamente o preço do petróleo, com o Brent ultrapassando US$ 115 por barril. Trata-se de um choque relevante, com impacto direto sobre a inflação global. Esse movimento tende a contaminar indicadores como o CPI e o PPI nos próximos meses, especialmente considerando que os dados mais recentes ainda não incorporam plenamente a alta dos combustíveis.

O cenário, portanto, tornou-se mais complexo nos Estados Unidos. A inflação pode voltar a ganhar força, o que reduz o espaço para flexibilização monetária. A possibilidade de novos aumentos de juros, embora não seja o cenário base, voltou ao radar, evidenciando uma deterioração significativa das condições macroeconômicas.

No Brasil, o Banco Central do Brasil optou por um corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic, o mínimo esperado pelo mercado. A decisão em si já era amplamente antecipada, mas o comunicado do Comitê de Política Monetária surpreendeu pelo tom bastante duro. Houve críticas de parte do mercado, com alguns analistas argumentando que, diante do cenário atual, sequer haveria espaço para iniciar o ciclo de cortes.

Ainda assim, o Copom optou por iniciar a flexibilização, deixando claro que os próximos passos dependerão fortemente da evolução do cenário externo, especialmente do conflito no Oriente Médio. O comunicado enfatiza o elevado grau de incerteza e destaca que futuras decisões estarão condicionadas à evolução dos preços de energia e seus impactos inflacionários.

Esse ponto é crucial. O Brasil já enfrenta uma defasagem relevante nos preços de combustíveis, estimada entre 30% e 40%. Embora a Petrobras tenha conseguido segurar parcialmente os reajustes, há limites para essa estratégia. Além disso, fatores como aumento das importações de diesel e risco de greve de caminhoneiros ampliam a pressão inflacionária.

Se o petróleo continuar subindo — cenário plausível caso o conflito se prolongue — os impactos sobre a inflação brasileira podem ser significativos. Estamos falando de um IPCA que pode se aproximar de 4,5% ou até 5%, acompanhado de uma taxa de câmbio mais depreciada, possivelmente na faixa de R$ 5,50 por dólar. Nesse contexto, o ciclo de queda da Selic fica ameaçado, e não se pode descartar, no limite, até uma reversão para alta de juros.

Por outro lado, a economia doméstica vinha apresentando sinais relativamente positivos até recentemente. Indicadores de atividade, como comércio, serviços e indústria, mostraram alguma recuperação no fim do ano passado e início deste ano. O mercado de trabalho segue resiliente, ainda que com sinais mistos. Esses elementos foram reconhecidos pelo Banco Central no comunicado. No entanto, o choque externo muda substancialmente o cenário. Sem o aumento do petróleo, o caminho parecia relativamente claro: uma trajetória de queda de juros levando a Selic para algo próximo de 12% ao final do ano. Agora, essa trajetória está em xeque.

A principal conclusão é que houve uma mudança relevante — e rápida — no cenário macroeconômico global. O conflito no Oriente Médio, já em sua terceira semana, tende a se prolongar, mantendo o petróleo em níveis elevados e pressionando a inflação mundial. Diante disso, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, os bancos centrais passam a adotar posturas mais cautelosas. O Fed sinaliza o adiamento do ciclo de cortes, enquanto o Banco Central brasileiro inicia a flexibilização de forma hesitante e altamente condicionada ao cenário externo.

<><> Guerra no Irã e a fome no mundo. Por Chico Teixeira

A etapa atual do conflito no Irã, com a destruição e paralisação da produção de gás e petróleo, força um grave aumento nos preços dos alimentos em todo o mundo. Hoje, cerca de 673 milhões de pessoas passam fome no mundo, em especial na África (20%), na América Latina (5,2%) e no Sul da Ásia (9,0%). No entanto, a insegurança alimentar pode chegar a próximo de 800 milhões de pessoas, incidindo dramaticamente sobre a mortalidade infantil, com um repunte de 16 mil mortes diárias na África subsaariana e no Sul da Ásia, detendo uma tendência de queda registrada depois de 1990.

A guerra atual, ao destruir fontes e meios de transporte de gás e diesel, tem um impacto monstruoso sobre o preço dos alimentos, causando inflação nos países mais avançados e fome nos países pobres ou em regiões de insegurança alimentar, mesmo em países ricos, como África do Sul, Nigéria e Brasil. O transporte mundial de alimentos é feito em navios e caminhões movidos a óleo diesel, como no Brasil — cerca de 3,5 milhões de veículos no país —, e a frigorificação ocorre com energia de termoelétricas ou a diesel, como nos navios, encarecendo a produção, conservação e distribuição de alimentos em todo o mundo.

Além disso, incide sobre o preço dos fertilizantes, muito dependentes do petróleo para a produção e distribuição. A guerra é, pois, uma preocupação global, com impactos para além do Oriente Médio e da Ásia. Devemos agradecer a Trump e Netanyahu pelo aumento da fome no mundo e a morte de milhares de crianças que jamais ouviram falar de Trump.

•        Guerra prolongada contra o Irã pode elevar preços globais de alimentos, alerta economista da ONU

Uma guerra prolongada contra o Irã pode provocar aumento significativo nos preços dos alimentos em escala global, segundo avaliação do economista-chefe da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Alimentação e Agricultura, Máximo Torero. Ele afirma que, caso o conflito se estenda por mais de três meses, os impactos sobre a produção agrícola tendem a se intensificar.

"Por isso é tão importante não permitir que isso continue a se intensificar por um período prolongado", afirmou Máximo Torero. O economista indicou que a continuidade da crise pode elevar os custos de insumos essenciais e comprometer a próxima safra, com efeitos duradouros. Ele também apontou a necessidade de buscar alternativas logísticas para reduzir os impactos no abastecimento.

<><> Impacto nos fertilizantes

Os países do Golfo Pérsico, incluindo Irã, Arábia Saudita e Omã, estão entre os principais exportadores de fertilizantes nitrogenados, como ureia e amônia. Juntos, respondem por cerca de um terço das exportações globais de ureia e entre 20% e 30% das exportações de amônia. Estimativas indicam que os preços globais dos fertilizantes podem permanecer entre 15% e 20% mais altos no primeiro semestre do ano, caso a crise continue. O aumento tende a pressionar os custos agrícolas e, consequentemente, os preços dos alimentos.

Até 30% do comércio global de fertilizantes passa pelo Estreito de Ormuz, rota estratégica para o escoamento da produção da região. Interrupções no fluxo já resultaram na retenção de cerca de 3 a 4 milhões de toneladas desses insumos. Desde o início do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, os preços da energia têm apresentado forte volatilidade. O fechamento do Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de 20% do petróleo mundial, contribuiu para a instabilidade no mercado.

Em 8 de março, o preço do barril de petróleo ultrapassou os 100 dólares e chegou a quase 120 nas primeiras horas do dia, antes de recuar. Ainda assim, a oscilação permanece. A Guarda Revolucionária iraniana informou que permitirá a passagem pelo estreito apenas a países que expulsem embaixadores dos Estados Unidos e de Israel. Posteriormente, reforçou que embarcações desses países e de seus aliados não podem utilizar a rota.

 

Fonte: Brasil 247

 

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