sexta-feira, 20 de março de 2026

Edgar Silva dos Anjos: 2026 - Por que não basta apenas vencer eleições

O debate sobre 2026 tem sido frequentemente reduzido à lógica da sucessão eleitoral, como se o próximo pleito fosse apenas mais um capítulo do calendário político. No entanto, o que estará em disputa ultrapassa a alternância de poder e envolve algo mais profundo: a capacidade de consolidar uma maioria democrática que não dependa apenas de conjunturas favoráveis, mas que seja sustentada por vínculos sociais, reconhecimento público e coerência estratégica ao longo do tempo.

A democracia brasileira atravessou anos de tensão institucional intensa, experimentou radicalizações que testaram seus limites e enfrentou ataques que colocaram em risco consensos básicos. A vitória democrática recente foi necessária e decisiva, mas ela não encerra o processo de reconstrução; inaugura uma etapa mais exigente.

Se a política do último período operou em regime de emergência — respondendo a crises, neutralizando ataques e defendendo instituições — o momento atual exige outra postura. Emergência garante sobrevivência; não garante consolidação. Para que a democracia se fortaleça de forma duradoura, é preciso que ela deixe de ser percebida apenas como defesa institucional e passe a ser reconhecida como experiência concreta na vida das pessoas.

Quando o emprego aparece, quando o serviço público funciona com previsibilidade, quando há horizonte econômico minimamente estável, a democracia deixa de ser abstração e passa a ser vivência cotidiana. É nesse ponto que a disputa se torna estrutural.

O desafio, portanto, não é apenas vencer eleições, mas transformar impacto político em reconhecimento social contínuo. Mobilizações pontuais produzem visibilidade, mas não necessariamente constroem maioria. Maiorias se formam na repetição do contato, na presença territorial persistente, na capacidade de traduzir decisões institucionais em efeitos percebidos.

Alianças amplas continuarão sendo parte do cenário brasileiro, dado o grau de fragmentação partidária e a complexidade social do país. A história recente mostra que frentes amplas foram decisivas para preservar a institucionalidade em momentos críticos. Contudo, alianças só se sustentam quando existe horizonte compartilhado e coordenação efetiva, e não apenas urgência circunstancial.

Consolidar maioria democrática implica, ao mesmo tempo, entregar resultados concretos, manter presença social organizada e desenvolver uma comunicação que não seja apenas reativa, mas que expresse direção política. Não se trata de retórica otimista, e sim de método.

A ausência de organização territorial, por exemplo, não é compensada por desempenho digital; a falta de coerência estratégica não é resolvida por narrativas bem construídas.

Em 2026, a eleição será menos um ponto de partida e mais um teste. O que estará sendo avaliado é se o campo democrático conseguiu sair da defensiva e estruturar base social consistente, capaz de sustentar um projeto para além de um ciclo de governo.

Caso essa base exista, o resultado eleitoral tende a refletir um processo acumulado; caso contrário, a disputa ficará novamente dependente de conjunturas instáveis e variáveis difíceis de controlar.

O que está em jogo, portanto, não é apenas quem ocupará cargos institucionais, mas se haverá direção política reconhecida como legítima por uma maioria social organizada. Democracia consolidada não é apenas a que vence; é a que consegue sustentar, no tempo, as escolhas que faz.

•        Lula e o mais do mesmo. Por Luís Nassif

Em uma disputa com qualquer dos Bolsonaro, eu votaria no Lula, é evidente. Porque ele representa a continuidade democrática, a soberania nacional, a esperança de impedir o desmanche do país.

Mas, em termos de construção do futuro, seria mais do mesmo. O país continuaria amarrado ao livre fluxo de capitais, exigindo taxas de juros elevadas, os spreads bancários continuariam nas alturas, a política industrial seria uma série de esboços sem envolver mercado, indústria, comércio, sindicatos, movimentos sociais.

O problema é que para a parte decisiva do eleitorado – aquele que ainda não definiu seu voto -, a construção do futuro é peça central, a criação da esperança, a perspectiva de que amanhã será melhor do que hoje, são elementos centrais. A construção do sonho não passa apenas pelos dados do PIB ou do IPCA.

O governo JK registrou uma inflação média de 25% a 30% ao ano, um déficit público entre 2% a 4% do PIB, uma dívida externa que, entre 1955 e 1961, saltou de US$700 milhões para US$3 bilhões. Mas com o PIB crescendo 7% ao ano, uma industrialização acelerada.

A situação atual do Brasil é incomparavelmente melhor do que a de JK. Mas não há espaço para repetir alguns dos recursos de JK – crescimento com inflação e gastos públicos. Mas a lição maior continua de pé: desenvolvimento exige coordenação. JK entendia que o país precisava de direção, escala e prioridade.

Sem esses planos, sem um discurso de mobilização, o mais do mesmo irá se impor. O país continuará com Selic de dois dígitos, para administrar o carry trade, continuará com o vôo de galinha, abrirá terras raras e energia verde a parcerias estrangeiras, sem dispor de uma estratégia clara de contrapartidas.

Grande parte da carreira de Lula se deveu à sua notável intuição, de entender um país que aspirava o combate à miséria e as formas de inclusão social. Agora está na hora de entender o novo momento, a construção da fé no futuro, a esperança de que amanhã será melhor do que hoje.

Vale não apenas para as eleições, mas para legitimar um eventual quarto mandato. Há uma sede de Brasil, presente em todos os cantos, na torcida pelo Oscar, até em competições alpinas, na explosão da nova música nordestina. O Brasil quer Brasil e Lula precisa se dar conta disso. E a maneira de atender esta demanda é ter um plano de meta com uma marca Lula, com várias metas, cada qual envolvendo vários setores.

Há várias pontas soltas aguardando a costura final de um plano de governo: os investimentos do BNDES, as propostas da Nova Indústria Brasil, a transição energética. E há jogadores de primeiríssima aguardando a convocação para o grande projeto nacional: universidades, institutos de pesquisas, confederações empresariais e sindicais, movimentos sociais, organizações da sociedade civil.

A bola está na marca do pênalti pedindo a Lula para chutar.

Se Lula julga que já deu tudo o que tinha dar ao país – e sua contribuição para a preservação do Brasil como Nação é imensa – lamento informá-lo que não deu. Personagens da história, como ele, só se aposentam quando apontam sucessores capazes de levar adiante e aprimorar sua obra. Um quarto mandato se justificaria não pelo reconhecimento de tudo o que ele fez até agora pelo país, mas pela esperança de que amplie seus horizontes e apresente um plano de construção do país do século 21.

•        A disputa contra a regressão reacionária é uma guerra de posição. Por Alberto Cantalice

O que se apresenta para as eleições de 2026 em muito pouco se difere da disputa realizada no pleito de 2022. Naquele momento, ficou claro que a continuidade de Jair Bolsonaro na presidência abriria uma janela de oportunidades para que, "autorizado" pela maioria da população, o então incumbente promovesse um turning point rumo ao autoritarismo de caráter regressivo. Fato que ficou claro na tentativa de golpe de Estado do 8 de janeiro.

Além do rompimento da democracia, avizinhava-se um choque à la Milei na economia, com a privatização do que restava do patrimônio da União e cortes profundos nos programas de transferências de renda, já que a proposta orçamentária apresentada pelo então ministro Paulo Guedes não previa o provisionamento de tais recursos.

A vitória de Lula por pequena margem consumou a rejeição do intento planejado pela trinca palaciana Bolsonaro-Guedes-Braga Netto, e o apoio sólido das demais instituições da República e da cidadania derrotou a trama golpista.

Entretanto, o estreitamento da margem da vitória não arrefeceu o ímpeto da extrema-direita que, por imposição do patriarca, ungiu seu primogênito como herdeiro do legado para enfrentar Lula.

O rápido crescimento nas pesquisas do contendor ungido enterrou as pretensões da Faria Lima e de parte da mídia hegemônica em construir a candidatura de Tarcísio de Freitas e, com isso, aglutinar o sentimento conservador e avesso a mudanças existente na sociedade.

Vencida essa etapa, o bolsonarismo buscou "humanizar" o candidato, tentando torná-lo palatável aos olhos do eleitorado não polarizado. Empreitada que contou inicialmente com a simpatia de setores da mídia.

Tão logo abraçado pelo PL, voltaram com toda a força as fake news contra o governo Lula e a tentativa de colar a crise das falcatruas do INSS e a picaretagem do banco Master no atual governo. Intento que, completamente fora da realidade fática, tem no desgoverno Bolsonaro e na presidência do Banco Central da era Campos Neto sua origem. Mestres na construção de falsas narrativas, a extrema-direita tenta iludir a população e emparedar as forças democráticas, usando de métodos escusos, criando um cenário de guerra de posição de caráter ofensivo.

Em contraposição, é exigido do PT e do governo a divulgação massiva dos feitos do atual mandato de Lula, a defesa da soberania nacional e a execução das pautas de interesse dos trabalhadores, onde pontificam o fim da escala 6×1, a aprovação da PEC da Segurança e a tributação das BETs. Pautas essas que sofrem uma blindagem por parte da maioria conservadora no Congresso Nacional e na mídia empresarial.

Cabe ainda lembrar que a candidatura de Flávio "BolsoMaster" é fruto das viúvas do golpe tentado do 8 de janeiro, e que, com sua vitória, nada garante a continuidade do processo democrático, já que entre suas bandeiras está a anistia ao seu pai e a todos os personagens desse período sombrio.

A tarefa dos democratas é derrotar essa regressão reacionária para avançar nas pautas populares. Sem luta não há vitória!

 

Fonte: Outras Palavras/Jornal  GGN/Brasil 247

 

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