Edgar
Silva dos Anjos: 2026 - Por que não basta apenas vencer eleições
O
debate sobre 2026 tem sido frequentemente reduzido à lógica da sucessão
eleitoral, como se o próximo pleito fosse apenas mais um capítulo do calendário
político. No entanto, o que estará em disputa ultrapassa a alternância de poder
e envolve algo mais profundo: a capacidade de consolidar uma maioria
democrática que não dependa apenas de conjunturas favoráveis, mas que seja
sustentada por vínculos sociais, reconhecimento público e coerência estratégica
ao longo do tempo.
A
democracia brasileira atravessou anos de tensão institucional intensa,
experimentou radicalizações que testaram seus limites e enfrentou ataques que
colocaram em risco consensos básicos. A vitória democrática recente foi
necessária e decisiva, mas ela não encerra o processo de reconstrução; inaugura
uma etapa mais exigente.
Se a
política do último período operou em regime de emergência — respondendo a
crises, neutralizando ataques e defendendo instituições — o momento atual exige
outra postura. Emergência garante sobrevivência; não garante consolidação. Para
que a democracia se fortaleça de forma duradoura, é preciso que ela deixe de
ser percebida apenas como defesa institucional e passe a ser reconhecida como
experiência concreta na vida das pessoas.
Quando
o emprego aparece, quando o serviço público funciona com previsibilidade,
quando há horizonte econômico minimamente estável, a democracia deixa de ser
abstração e passa a ser vivência cotidiana. É nesse ponto que a disputa se
torna estrutural.
O
desafio, portanto, não é apenas vencer eleições, mas transformar impacto
político em reconhecimento social contínuo. Mobilizações pontuais produzem
visibilidade, mas não necessariamente constroem maioria. Maiorias se formam na
repetição do contato, na presença territorial persistente, na capacidade de
traduzir decisões institucionais em efeitos percebidos.
Alianças
amplas continuarão sendo parte do cenário brasileiro, dado o grau de
fragmentação partidária e a complexidade social do país. A história recente
mostra que frentes amplas foram decisivas para preservar a institucionalidade
em momentos críticos. Contudo, alianças só se sustentam quando existe horizonte
compartilhado e coordenação efetiva, e não apenas urgência circunstancial.
Consolidar
maioria democrática implica, ao mesmo tempo, entregar resultados concretos,
manter presença social organizada e desenvolver uma comunicação que não seja
apenas reativa, mas que expresse direção política. Não se trata de retórica
otimista, e sim de método.
A
ausência de organização territorial, por exemplo, não é compensada por
desempenho digital; a falta de coerência estratégica não é resolvida por
narrativas bem construídas.
Em
2026, a eleição será menos um ponto de partida e mais um teste. O que estará
sendo avaliado é se o campo democrático conseguiu sair da defensiva e
estruturar base social consistente, capaz de sustentar um projeto para além de
um ciclo de governo.
Caso
essa base exista, o resultado eleitoral tende a refletir um processo acumulado;
caso contrário, a disputa ficará novamente dependente de conjunturas instáveis
e variáveis difíceis de controlar.
O que
está em jogo, portanto, não é apenas quem ocupará cargos institucionais, mas se
haverá direção política reconhecida como legítima por uma maioria social
organizada. Democracia consolidada não é apenas a que vence; é a que consegue
sustentar, no tempo, as escolhas que faz.
• Lula e o mais do mesmo. Por Luís Nassif
Em uma
disputa com qualquer dos Bolsonaro, eu votaria no Lula, é evidente. Porque ele
representa a continuidade democrática, a soberania nacional, a esperança de
impedir o desmanche do país.
Mas, em
termos de construção do futuro, seria mais do mesmo. O país continuaria
amarrado ao livre fluxo de capitais, exigindo taxas de juros elevadas, os
spreads bancários continuariam nas alturas, a política industrial seria uma
série de esboços sem envolver mercado, indústria, comércio, sindicatos,
movimentos sociais.
O
problema é que para a parte decisiva do eleitorado – aquele que ainda não
definiu seu voto -, a construção do futuro é peça central, a criação da
esperança, a perspectiva de que amanhã será melhor do que hoje, são elementos
centrais. A construção do sonho não passa apenas pelos dados do PIB ou do IPCA.
O
governo JK registrou uma inflação média de 25% a 30% ao ano, um déficit público
entre 2% a 4% do PIB, uma dívida externa que, entre 1955 e 1961, saltou de
US$700 milhões para US$3 bilhões. Mas com o PIB crescendo 7% ao ano, uma
industrialização acelerada.
A
situação atual do Brasil é incomparavelmente melhor do que a de JK. Mas não há
espaço para repetir alguns dos recursos de JK – crescimento com inflação e
gastos públicos. Mas a lição maior continua de pé: desenvolvimento exige
coordenação. JK entendia que o país precisava de direção, escala e prioridade.
Sem
esses planos, sem um discurso de mobilização, o mais do mesmo irá se impor. O
país continuará com Selic de dois dígitos, para administrar o carry trade,
continuará com o vôo de galinha, abrirá terras raras e energia verde a
parcerias estrangeiras, sem dispor de uma estratégia clara de contrapartidas.
Grande
parte da carreira de Lula se deveu à sua notável intuição, de entender um país
que aspirava o combate à miséria e as formas de inclusão social. Agora está na
hora de entender o novo momento, a construção da fé no futuro, a esperança de
que amanhã será melhor do que hoje.
Vale
não apenas para as eleições, mas para legitimar um eventual quarto mandato. Há
uma sede de Brasil, presente em todos os cantos, na torcida pelo Oscar, até em
competições alpinas, na explosão da nova música nordestina. O Brasil quer
Brasil e Lula precisa se dar conta disso. E a maneira de atender esta demanda é
ter um plano de meta com uma marca Lula, com várias metas, cada qual envolvendo
vários setores.
Há
várias pontas soltas aguardando a costura final de um plano de governo: os
investimentos do BNDES, as propostas da Nova Indústria Brasil, a transição
energética. E há jogadores de primeiríssima aguardando a convocação para o
grande projeto nacional: universidades, institutos de pesquisas, confederações
empresariais e sindicais, movimentos sociais, organizações da sociedade civil.
A bola
está na marca do pênalti pedindo a Lula para chutar.
Se Lula
julga que já deu tudo o que tinha dar ao país – e sua contribuição para a
preservação do Brasil como Nação é imensa – lamento informá-lo que não deu.
Personagens da história, como ele, só se aposentam quando apontam sucessores
capazes de levar adiante e aprimorar sua obra. Um quarto mandato se
justificaria não pelo reconhecimento de tudo o que ele fez até agora pelo país,
mas pela esperança de que amplie seus horizontes e apresente um plano de
construção do país do século 21.
• A disputa contra a regressão reacionária
é uma guerra de posição. Por Alberto Cantalice
O que
se apresenta para as eleições de 2026 em muito pouco se difere da disputa
realizada no pleito de 2022. Naquele momento, ficou claro que a continuidade de
Jair Bolsonaro na presidência abriria uma janela de oportunidades para que,
"autorizado" pela maioria da população, o então incumbente promovesse
um turning point rumo ao autoritarismo de caráter regressivo. Fato que ficou
claro na tentativa de golpe de Estado do 8 de janeiro.
Além do
rompimento da democracia, avizinhava-se um choque à la Milei na economia, com a
privatização do que restava do patrimônio da União e cortes profundos nos
programas de transferências de renda, já que a proposta orçamentária
apresentada pelo então ministro Paulo Guedes não previa o provisionamento de
tais recursos.
A
vitória de Lula por pequena margem consumou a rejeição do intento planejado
pela trinca palaciana Bolsonaro-Guedes-Braga Netto, e o apoio sólido das demais
instituições da República e da cidadania derrotou a trama golpista.
Entretanto,
o estreitamento da margem da vitória não arrefeceu o ímpeto da extrema-direita
que, por imposição do patriarca, ungiu seu primogênito como herdeiro do legado
para enfrentar Lula.
O
rápido crescimento nas pesquisas do contendor ungido enterrou as pretensões da
Faria Lima e de parte da mídia hegemônica em construir a candidatura de
Tarcísio de Freitas e, com isso, aglutinar o sentimento conservador e avesso a
mudanças existente na sociedade.
Vencida
essa etapa, o bolsonarismo buscou "humanizar" o candidato, tentando
torná-lo palatável aos olhos do eleitorado não polarizado. Empreitada que
contou inicialmente com a simpatia de setores da mídia.
Tão
logo abraçado pelo PL, voltaram com toda a força as fake news contra o governo
Lula e a tentativa de colar a crise das falcatruas do INSS e a picaretagem do
banco Master no atual governo. Intento que, completamente fora da realidade
fática, tem no desgoverno Bolsonaro e na presidência do Banco Central da era
Campos Neto sua origem. Mestres na construção de falsas narrativas, a
extrema-direita tenta iludir a população e emparedar as forças democráticas,
usando de métodos escusos, criando um cenário de guerra de posição de caráter
ofensivo.
Em
contraposição, é exigido do PT e do governo a divulgação massiva dos feitos do
atual mandato de Lula, a defesa da soberania nacional e a execução das pautas
de interesse dos trabalhadores, onde pontificam o fim da escala 6×1, a
aprovação da PEC da Segurança e a tributação das BETs. Pautas essas que sofrem
uma blindagem por parte da maioria conservadora no Congresso Nacional e na
mídia empresarial.
Cabe
ainda lembrar que a candidatura de Flávio "BolsoMaster" é fruto das
viúvas do golpe tentado do 8 de janeiro, e que, com sua vitória, nada garante a
continuidade do processo democrático, já que entre suas bandeiras está a
anistia ao seu pai e a todos os personagens desse período sombrio.
A
tarefa dos democratas é derrotar essa regressão reacionária para avançar nas
pautas populares. Sem luta não há vitória!
Fonte:
Outras Palavras/Jornal GGN/Brasil 247

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