A
guerra contra a saúde pública
É
inegável que vivemos em tempos cada vez mais violentos. Em tempos nos quais o
império estadunidense começa a perder a hegemonia em favor de uma ordem mundial
multipolar, o perigo de guerras regionais que possam escalar para eventos
maiores cresce dia após dia. Especialmente quando o estado terrorista, genocida
e fascista de Israel pode manter suas agressões às potências vizinhas ao mesmo
tempo que continua e escala impunemente o genocídio palestino.
Esta
violência tem seu próprio slogan político: “Mais dinheiro para armas”, e é o
lema pelo qual vivem a OTAN e a União Europeia. A realidade é que o incremento
do gasto militar, defendido como uma promessa de segurança, não defende a paz,
mas a ameaça. A década de 2020 mostrou à humanidade que o sistema que
construímos abandonou qualquer pretensão de regras e leis internacionais.
A
guerra, o rearmamento, a violência e a desestabilização têm um interesse
explicitamente econômico, atentando simultaneamente contra a saúde e o sistema
de saúde público; e somente a partir do desarme e do antibelicismo se poderá
proteger a saúde da humanidade.
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A guerra contra a saúde
Este
título descreve de forma ambígua as duas formas em que o Estado capitalista
confronta seu aparato militar com seu sistema de saúde: através da priorização
do financiamento da indústria militar sobre a do sistema nacional de saúde; e a
batalha ideológica, política e econômica que se trava para minar o sistema de
saúde.
Comecemos,
pois, pelo combate no plano econômico que surge ao colocar em uma balança o
gasto militar e o sanitário. O marco de referência é a macroeconomia
convencional, que constrói uma retórica centrada na poupança e na redução do
déficit, e é neste plano onde se realizaram múltiplos estudos que constatam que
a decisão do aumento do gasto em um setor força o deslocamento do gasto em
outros. Especificamente, o estudo de Ikegami e Wang (2023) analisa se o aumento
do gasto em defesa de 2000 a 2017 em 116 países implicou um desvio de fundos
estatais do sistema de saúde para a indústria militar. Grigorakis e
Galyfianakis (2024) também vinculam o maior gasto militar nos países
pertencientes à OTAN com um aumento da inacessibilidade dos sistemas de saúde.
Um estudo de Fan, Liu & Coyte (2018) estimou que, para cada ponto do PIB de
aumento no gasto em defesa, o gasto em saúde diminuía entre 0,962% e 0,556%.
O
aumento no investimento do gasto em defesa (até 2% em 2025) resultou em uma
diminuição de 6,683 bilhões de euros no gasto público em saúde.
Levemos
estes dados aos números. Segundo a análise realizada por Samuel López-López e
Francisco Escribano Sotos para a Associação de Economia da Saúde, o aumento no
investimento do gasto em defesa resultou em uma diminuição de 6,683 bilhões de
euros no gasto público sanitário. Também estimam que aumentos progressivos até
5% (solicitado pela OTAN a todos os seus estados-membros) resultariam em uma
perda de 30,9 bilhões de euros.
Embora
as ações do governo progressista em nível internacional tenham livrado a
Espanha do compromisso de 5% em Defesa, não faltam "quintacolunistas"
espanhóis com apoio internacional que esperam pacientemente para tomar o
governo e servir de bandeja a economia espanhola ao belicismo americano.
O
rearmamento tem sido especialmente veloz nos últimos oito anos de governo
progressista. Assim foi com o governo de PSOE e Unidas Podemos e não tem sido
diferente com os governos do PP, ou do PSOE com Sumar, coalizão da qual faz
parte a Esquerda Unida (Izquierda Unida), representante histórica do movimento
contra a guerra.
Embora
ambos os lados do espectro político parlamentar se submetam à maquinaria do
Estado que pede guerra, nem todos os partidos o fazem da mesma forma. A sede de
sangue da direita espanhola, profundamente arrastada às vontades americanas, é
entendida como um incentivo político e econômico, após 4 anos em que a
contratação de ex-altos cargos do governo por empresas militares disparou.
Este
incentivo político é fundamental para entender a segunda versão desta guerra
contra a saúde: a execução planejada da saúde pública.
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A execução da saúde pública
Há um
fronte aberto contra nossas instituições de saúde. O projeto político da
direita espanhola consiste na sabotagem total e completa da confiança da
população nas estruturas públicas que são o patrimônio da classe trabalhadora
espanhola.
O PP e
o Vox conseguem isso privatizando os serviços que são mais lucrativos e
minguando a capacidade das instituições de atender às necessidades da
população. O resultado é nefasto.
Apesar
de o governo da Comunidade de Madrid ser o exemplo mais claro, não é exclusivo:
Andaluzia, Extremadura, Baleares, Galiza, Castela e Leão... O modelo de governo
conservador é definido pela privatização.
Mas
cabe destacar que não é um exercício unicamente ideológico: há um lucro real e
evidente dos dirigentes políticos através desta privatização. Isso não se deve
a um grupo de políticos que se aproveitam de sua posição privilegiada para
enganar o sistema: é a norma que rege o "Regime de 78".
A
democracia liberal espanhola que surge após o fim da ditadura constrói uma
sólida rede entre o sistema de partidos, o Ibex-35 e a oligarquia franquista.
Este ecossistema interdependente demonstra que os lobbies da saúde e militar
estão profundamente incrustados na política espanhola, e serão a pólis à qual
os diferentes governos responderão, não a classe trabalhadora.
Embora
possa parecer que este exercício de privatização não tem nada a ver com o
aumento do gasto militar, ambos respondem aos mesmos interesses capitalistas
que priorizam o lucro à saúde da população: os donos do mundo são os mesmos. O
capitalismo imperialista é incompatível com a preservação da saúde humana.
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Saúde no planeta Terra
No
âmbito da saúde, é frequente falar do conceito de One-Health (Saúde Única). Sob
este enfoque, a saúde humana vincula-se à saúde ambiental e animal, pois os
vínculos que unem a vida neste planeta nos convertem em organismos
interdependentes.
Os
efeitos da guerra sobre a população humana são indescritíveis. A morte e o
trauma deixam cicatrizes que levam décadas para serem reparadas. Mas as
consequências da guerra no meio ambiente são igualmente devastadoras.
Se
começarmos pelo principal substrato bélico, a prova reside no fato de que o
exército estadunidense é a entidade mais poluente do mundo. Em tempos de paz
relativa (considerando o constante intervencionismo americano por todo o
planeta), o exército dos EUA gerou 636 milhões de toneladas métricas de CO2 na
década de 2010, ocupando o 47º lugar na lista de países mais poluentes do
mundo, apesar de não ser um país.
Mas os
conflitos ativos contribuem da mesma forma para a destruição do planeta.
Somente o primeiro ano desta nova fase do genocídio israelense na Palestina
gerou 31 milhões de toneladas de CO2. Da mesma forma, o primeiro ano da guerra
entre Ucrânia e Rússia liberou 150 milhões de toneladas de CO2. Estas cifras
não incluem os incêndios e a destruição sistemática do meio ambiente
resultantes dos conflitos bélicos.
Um
exemplo claro de como os conflitos bélicos resultam na destruição da natureza é
a Guerra do Vietnã, na qual se empregou o Napalm como agente químico para
queimar todo tipo de obstáculos ambientais, com consequências atrozes quando
utilizado sobre a população civil. Estudos epidemiológicos demonstraram um
aumento em anomalias congênitas na população submetida às armas químicas
estadunidenses. Um estudo de Westing, Phung Tuu et al. (2006) estima que até
10% da área do Vietnã do Sul foi atacada com herbicidas e que a perda de
vegetação no Vietnã foi de até 90 milhões de metros cúbicos.
Estas
ações não podem ser descritas de outra forma que não ecocídio. E preveni-lo ou
detê-lo é condição necessária para preservar a saúde global e o sistema público
de saúde.
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A libertação antibelicista
A
citação anterior de Umberto Eco alude ao inevitável caráter bélico do fascismo,
que permeou profundamente o “senso comum” ocidental: a guerra como mais uma
faceta da vida.
O ser
humano não está condenado à batalha incessante com seus semelhantes. Apesar das
divisões irreais que o relato de extrema-direita tenta construir entre os seres
humanos, a dignidade que nos caracteriza como espécie é superior ao ódio que
tenta nos separar.
A
guerra não é um mecanismo de resolução de disputas razoável, nem é o destino ao
qual as nações modernas estão condenadas. É um relato muito cômodo (e
lucrativo) indicar que o investimento em Defesa é fundamental para preservar
nosso modo de vida, mas a realidade é que a principal ameaça à qualidade de
vida é a exploração econômica, trabalhista e ambiental do capitalismo.
A
libertação das correntes que nos prendem a um fuzil não pode ocorrer de forma
espontânea nem isolada. Como exposto no artigo, a lógica de guerra devorará os
últimos vestígios do que é público para encher ainda mais os bolsos de
multimilionários, e apenas a união da classe trabalhadora poderá enfrentar a
indústria militar.
O
antibelicismo é defesa da saúde pública, que é defesa da educação pública, que
é defesa do meio ambiente. É a tarefa do ser humano construir um mundo melhor,
não destruí-lo, e isso só será possível quando o ruído dos mísseis não nos
impedir de falar.
Fonte:
Por Markel Gamarra Segovia, em El Salto

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