Luís
Nassif: Por que não há um plano de metas de Lula
O que
tem a ver o receio que a Lava Jato plantou em Lula com sua resistência a um
plano de metas — instrumento que permitiria ao brasileiro, minimamente,
enxergar o futuro?
A
resposta é mais direta do que parece.
Um
plano de metas exige organizar a estrutura pública em torno de projetos e
objetivos claramente definidos. E isso — exatamente isso — tiraria de Lula a
liberdade necessária para operar seu presidencialismo de coalizão. Metas
documentadas criam rastros. Rastros criam responsabilidades. E obrigam a uma
mudança no modelo de atuação política.
<><>
O modelo que já funcionou
Não
seria necessário nem demitir os ministros do Centrão. Juscelino Kubitschek
provou isso. Manteve intacta a estrutura ministerial e, ao mesmo tempo, montou
grupos de trabalho paralelos para definir planos e metas. A engenharia foi
simples e eficaz: um Conselho de Desenvolvimento ligado diretamente à
Presidência coordenava prioridades e execução. O BNDE financiava a indústria
pesada, a infraestrutura, a energia e o transporte. O Ministério da Fazenda
respondia pela política macroeconômica — mas subordinada ao projeto de
desenvolvimento, não ao contrário.
Lula
poderia fazer o mesmo hoje. Há capital humano de sobra: planejadores de renome,
quadros qualificados espalhados pelo IPEA, pela Finep, pelo BNDES. Montaria um
Conselho de Desenvolvimento, definiria prioridades técnicas, e os ministros
continuariam com seus cargos e suas bancadas satisfeitas.
Qual
seria o problema, então?
<><>
A lógica que incomoda
O
problema é que um plano de metas impõe uma lógica econômica. E a lógica
econômica não negocia com lobbies.
Tome-se
o setor elétrico como exemplo concreto. Quem define os leilões de energia — o
tipo, o volume, os lotes — é o Ministério de Minas e Energia, sob Alexandre
Silveira, em articulação com a Casa Civil. É ali que se decide se haverá
leilão, se entram ou não as térmicas subsidiadas, se os lotes são desenhados
para favorecer determinados grupos. O resto vem atrás.
E os
ganhadores são sempre os mesmos. Em 2024, a Eletrobras ficou com mais de 30%
dos investimentos contratados nos leilões. O BTG, naquele mesmo ano, levou 36%
— e em 2025 um fundo do banco arrematou o maior lote disponível. A geometria
dos lotes não responde à eficiência energética: responde às pressões dos
grandes grupos e às suas respectivas bancadas no Congresso.
Um
plano de metas — construído com critério técnico e exposição pública — jamais
teria deixado passar a Lei da Eletrobras de 2021, que obrigou a contratação de
usinas térmicas a custos absurdos para o consumidor. Simplesmente não teria
sobrevivido ao escrutínio.
<><>
A esfinge e seu dilema
Essa é
“a esfinge de Lula” — o decifra-me ou te devoro.
O jogo
de atender lobbies tem uma função real e não deve ser subestimado: ele costura
apoios episódicos no Congresso, apaga incêndios antes que virem crises, permite
ao governo empurrar o país com a barriga sem implodir. Numa democracia com 30
partidos, isso não é pouca coisa. A alternativa imediata é o caos.
Mas o
custo estratégico é alto demais.
Um
governo sem plano não mobiliza o setor real da economia. Não atrai investimento
privado de qualidade — aquele que não depende de concessão política para
existir. Não dá sinal de esperança para a geração que está nas universidades,
nem para os jovens que transitam pelas periferias sem perspectiva clara de
futuro. E, sem narrativa de futuro, um governo vive apenas de gerenciar o
presente — até que o presente se torne insustentável.
<><>
O tempo corre
A
exploração do caso Lulinha pelos grandes jornais — e agora pelo Jornal Nacional
— indica que a Lava Jato 2 está a pleno vapor. A janela para Lula mudar o jogo,
saindo da defensiva e colocando um projeto positivo na mesa, se estreita a cada
semana.
A
esfinge não espera.
• O receio que a Lava Jato plantou em Lula
Lula
não é um homem de recuos fáceis. Basta observar como enfrentou a Lava Jato — a
exposição pública de sua família, as campanhas de humilhação sistemática, os
anos de prisão — sem jamais se dobrar. Não é a coragem que lhe falta.
O que
lhe falta, hoje, é a capacidade de conviver com o imprevisível. E esse déficit,
instalado pelo trauma de uma perseguição judicial sem paralelo na história
democrática brasileira, compromete seu projeto de governo.
<><>
O padrão que não foi aplicado a ele
Para
entender o que aconteceu com Lula, é preciso comparar com seus pares diretos —
os presidentes brasileiros contemporâneos tratados segundo o padrão normal da
república.
Quando
Fernando Henrique Cardoso deixou a presidência, saiu de um apartamento classe
média na rua Maranhão e foi morar em um imóvel de alto padrão na rua Rio de
Janeiro, declarado por valor equivalente à metade do preço de mercado, segundo
moradores do próprio prédio. O vendedor era um banqueiro que operava contas de
campanha do PSDB. Sua primeira palestra remunerada foi para a Ambev — empresa
que havia sido diretamente beneficiada pela aprovação, pelo CADE, da fusão
entre Brahma e Antarctica durante seu governo — com cachê de 150 mil dólares.
Nenhum inquérito. Nenhuma manchete. Nenhum perito avaliando o apartamento.
FHC
fundou depois o Instituto Fernando Henrique Cardoso, com instalações de alto
padrão bancadas por patrocinadores privados. Também não houve investigação
sobre eventuais sobreposições entre os financiadores do instituto e os
beneficiados por decisões de seu governo.
Esses
fatos não são acusações. São registros públicos que nunca foram tratados como
suspeitos — porque, no padrão republicano vigente à época, não havia razão para
isso. Políticos que deixam o poder constroem legados, dão palestras, recebem
patrocínios. É assim em todo o mundo democrático: Bill Clinton, Tony Blair,
Barack Obama fizeram o mesmo.
Quando
chegou a vez de Lula, o padrão mudou. Palestras viraram propina. Um sítio em
Atibaia que ele frequentava, mas não possuía, virou prova de enriquecimento
ilícito. A decisão de uma empresa de telefonia de instalar uma antena próxima
ao imóvel chegou a ser mencionada em peças judiciais. O triplex do Guarujá —
cujo contrato de compra nunca foi assinado por Lula — rendeu uma condenação que
o impediu de concorrer à presidência em 2018.
<><>
O trauma e suas consequências políticas
É nesse
contexto que se entende o que aconteceu com Lula. A Lava Jato não apenas o
prendeu — instalou nele um mecanismo de defesa que até hoje governa suas
escolhas políticas.
De
volta à presidência, Lula optou pelo caminho da máxima previsibilidade.
Escolheu o presidencialismo de coalizão em sua forma mais clássica e aguda —
distribuição de cargos em ministérios e estatais em troca de apoio parlamentar,
o modelo que FHC consolidou e que o PT sempre criticou, mas que oferece algo
que Lula passou a valorizar acima de quase tudo: controle. Nada de improviso.
Nada que escape ao cálculo.
O
problema é que o imprevisível não se deixa conter por arranjos políticos. E
Lula, que sobreviveu ao que haveria de mais brutal na política brasileira,
parece ainda não ter encontrado uma forma de governar que incorpore o risco em
vez de apenas tentar eliminá-lo.
A prova
mais recente veio de fora de qualquer trama política. O Estadão publicou como
manchete a sugestão de que a viagem do filho de Lula à Espanha poderia ser uma
tentativa de fuga diante do escândalo do INSS — para depois registrar, no corpo
da própria matéria, que a viagem havia sido planejada um ano antes de qualquer
escândalo. A sequência é reveladora: o desmentido estava no texto, mas o dano
estava no título. Uma não-notícia tornou-se fato político.
Lula
pode argumentar, com razão, que a perseguição não cessou. Mas governar em
estado permanente de defesa tem um custo. A cautela que o protege também o
limita. E o Brasil de 2026 exige mais do que previsibilidade — exige liderança
capaz de assumir riscos calculados.
O homem
que enfrentou a Lava Jato de cabeça erguida ainda está lá. A questão é se ele
vai conseguir, desta vez, governar sem o peso do receio que ela deixou.
Fonte:
Jornal GGN

Nenhum comentário:
Postar um comentário