sábado, 21 de março de 2026

Luís Nassif: Por que não há um plano de metas de Lula

O que tem a ver o receio que a Lava Jato plantou em Lula com sua resistência a um plano de metas — instrumento que permitiria ao brasileiro, minimamente, enxergar o futuro?

A resposta é mais direta do que parece.

Um plano de metas exige organizar a estrutura pública em torno de projetos e objetivos claramente definidos. E isso — exatamente isso — tiraria de Lula a liberdade necessária para operar seu presidencialismo de coalizão. Metas documentadas criam rastros. Rastros criam responsabilidades. E obrigam a uma mudança no modelo de atuação política.

<><> O modelo que já funcionou

Não seria necessário nem demitir os ministros do Centrão. Juscelino Kubitschek provou isso. Manteve intacta a estrutura ministerial e, ao mesmo tempo, montou grupos de trabalho paralelos para definir planos e metas. A engenharia foi simples e eficaz: um Conselho de Desenvolvimento ligado diretamente à Presidência coordenava prioridades e execução. O BNDE financiava a indústria pesada, a infraestrutura, a energia e o transporte. O Ministério da Fazenda respondia pela política macroeconômica — mas subordinada ao projeto de desenvolvimento, não ao contrário.

Lula poderia fazer o mesmo hoje. Há capital humano de sobra: planejadores de renome, quadros qualificados espalhados pelo IPEA, pela Finep, pelo BNDES. Montaria um Conselho de Desenvolvimento, definiria prioridades técnicas, e os ministros continuariam com seus cargos e suas bancadas satisfeitas.

Qual seria o problema, então?

<><> A lógica que incomoda

O problema é que um plano de metas impõe uma lógica econômica. E a lógica econômica não negocia com lobbies.

Tome-se o setor elétrico como exemplo concreto. Quem define os leilões de energia — o tipo, o volume, os lotes — é o Ministério de Minas e Energia, sob Alexandre Silveira, em articulação com a Casa Civil. É ali que se decide se haverá leilão, se entram ou não as térmicas subsidiadas, se os lotes são desenhados para favorecer determinados grupos. O resto vem atrás.

E os ganhadores são sempre os mesmos. Em 2024, a Eletrobras ficou com mais de 30% dos investimentos contratados nos leilões. O BTG, naquele mesmo ano, levou 36% — e em 2025 um fundo do banco arrematou o maior lote disponível. A geometria dos lotes não responde à eficiência energética: responde às pressões dos grandes grupos e às suas respectivas bancadas no Congresso.

Um plano de metas — construído com critério técnico e exposição pública — jamais teria deixado passar a Lei da Eletrobras de 2021, que obrigou a contratação de usinas térmicas a custos absurdos para o consumidor. Simplesmente não teria sobrevivido ao escrutínio.

<><> A esfinge e seu dilema

Essa é “a esfinge de Lula” — o decifra-me ou te devoro.

O jogo de atender lobbies tem uma função real e não deve ser subestimado: ele costura apoios episódicos no Congresso, apaga incêndios antes que virem crises, permite ao governo empurrar o país com a barriga sem implodir. Numa democracia com 30 partidos, isso não é pouca coisa. A alternativa imediata é o caos.

Mas o custo estratégico é alto demais.

Um governo sem plano não mobiliza o setor real da economia. Não atrai investimento privado de qualidade — aquele que não depende de concessão política para existir. Não dá sinal de esperança para a geração que está nas universidades, nem para os jovens que transitam pelas periferias sem perspectiva clara de futuro. E, sem narrativa de futuro, um governo vive apenas de gerenciar o presente — até que o presente se torne insustentável.

<><> O tempo corre

A exploração do caso Lulinha pelos grandes jornais — e agora pelo Jornal Nacional — indica que a Lava Jato 2 está a pleno vapor. A janela para Lula mudar o jogo, saindo da defensiva e colocando um projeto positivo na mesa, se estreita a cada semana.

A esfinge não espera.

•        O receio que a Lava Jato plantou em Lula

Lula não é um homem de recuos fáceis. Basta observar como enfrentou a Lava Jato — a exposição pública de sua família, as campanhas de humilhação sistemática, os anos de prisão — sem jamais se dobrar. Não é a coragem que lhe falta.

O que lhe falta, hoje, é a capacidade de conviver com o imprevisível. E esse déficit, instalado pelo trauma de uma perseguição judicial sem paralelo na história democrática brasileira, compromete seu projeto de governo.

<><> O padrão que não foi aplicado a ele

Para entender o que aconteceu com Lula, é preciso comparar com seus pares diretos — os presidentes brasileiros contemporâneos tratados segundo o padrão normal da república.

Quando Fernando Henrique Cardoso deixou a presidência, saiu de um apartamento classe média na rua Maranhão e foi morar em um imóvel de alto padrão na rua Rio de Janeiro, declarado por valor equivalente à metade do preço de mercado, segundo moradores do próprio prédio. O vendedor era um banqueiro que operava contas de campanha do PSDB. Sua primeira palestra remunerada foi para a Ambev — empresa que havia sido diretamente beneficiada pela aprovação, pelo CADE, da fusão entre Brahma e Antarctica durante seu governo — com cachê de 150 mil dólares. Nenhum inquérito. Nenhuma manchete. Nenhum perito avaliando o apartamento.

FHC fundou depois o Instituto Fernando Henrique Cardoso, com instalações de alto padrão bancadas por patrocinadores privados. Também não houve investigação sobre eventuais sobreposições entre os financiadores do instituto e os beneficiados por decisões de seu governo.

Esses fatos não são acusações. São registros públicos que nunca foram tratados como suspeitos — porque, no padrão republicano vigente à época, não havia razão para isso. Políticos que deixam o poder constroem legados, dão palestras, recebem patrocínios. É assim em todo o mundo democrático: Bill Clinton, Tony Blair, Barack Obama fizeram o mesmo.

Quando chegou a vez de Lula, o padrão mudou. Palestras viraram propina. Um sítio em Atibaia que ele frequentava, mas não possuía, virou prova de enriquecimento ilícito. A decisão de uma empresa de telefonia de instalar uma antena próxima ao imóvel chegou a ser mencionada em peças judiciais. O triplex do Guarujá — cujo contrato de compra nunca foi assinado por Lula — rendeu uma condenação que o impediu de concorrer à presidência em 2018.

<><> O trauma e suas consequências políticas

É nesse contexto que se entende o que aconteceu com Lula. A Lava Jato não apenas o prendeu — instalou nele um mecanismo de defesa que até hoje governa suas escolhas políticas.

De volta à presidência, Lula optou pelo caminho da máxima previsibilidade. Escolheu o presidencialismo de coalizão em sua forma mais clássica e aguda — distribuição de cargos em ministérios e estatais em troca de apoio parlamentar, o modelo que FHC consolidou e que o PT sempre criticou, mas que oferece algo que Lula passou a valorizar acima de quase tudo: controle. Nada de improviso. Nada que escape ao cálculo.

O problema é que o imprevisível não se deixa conter por arranjos políticos. E Lula, que sobreviveu ao que haveria de mais brutal na política brasileira, parece ainda não ter encontrado uma forma de governar que incorpore o risco em vez de apenas tentar eliminá-lo.

A prova mais recente veio de fora de qualquer trama política. O Estadão publicou como manchete a sugestão de que a viagem do filho de Lula à Espanha poderia ser uma tentativa de fuga diante do escândalo do INSS — para depois registrar, no corpo da própria matéria, que a viagem havia sido planejada um ano antes de qualquer escândalo. A sequência é reveladora: o desmentido estava no texto, mas o dano estava no título. Uma não-notícia tornou-se fato político.

Lula pode argumentar, com razão, que a perseguição não cessou. Mas governar em estado permanente de defesa tem um custo. A cautela que o protege também o limita. E o Brasil de 2026 exige mais do que previsibilidade — exige liderança capaz de assumir riscos calculados.

O homem que enfrentou a Lava Jato de cabeça erguida ainda está lá. A questão é se ele vai conseguir, desta vez, governar sem o peso do receio que ela deixou.

 

Fonte: Jornal GGN

 

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