Flávio
Bolsonaro perde sobrenome nas manchetes: a maquiagem da imprensa para suavizar
o ‘Zero Um’
“O
único problema do senador Flávio qual é? Sobrenome, né?”, disse o então
vice-presidente da República, Hamilton Mourão, quando estava cercado por
jornalistas no dia 22 de janeiro de 2019. Fazia menos de um mês que ele havia
assumido o cargo.
Três
dias antes, o Jornal Nacional havia divulgado um relatório elaborado em
dezembro de 2018 pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf,
que detectou movimentações financeiras atípicas entre junho e julho de 2017. O
documento apontava 48 depósitos de R$ 2 mil em dinheiro no autoatendimento de
uma agência bancária da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a Alerj, em
uma conta de Flávio Bolsonaro, somando R$ 96 mil.
Na
época em que a notícia saiu, ele já havia deixado o cargo de deputado estadual
e tinha sido eleito senador pelo extinto PSL. Nem bem o governo de extrema
direita começara e já tinha uma bomba caindo no meio do Palácio do Planalto.
Sete
anos se passaram e a fala de Mourão está mais atual que nunca. Reparem aí: o
sobrenome do senador (agora, do Partido Liberal) simplesmente desapareceu das
manchetes de veículos como Folha, Globo, Exame, Veja, CNN, etc. Assim, ao se
tornar pré-candidato ao cargo de presidente da República, o “Zero Um” passou a
ser tratado apenas como “Flávio”. Simplesmente Flávio. Candidamente Flávio.
Mimosamente Flávio.
Você
vai ouvir que é uma questão técnica, editorial; que é para diferenciar o filho
do pai; que é porque é mais fácil inserir um nome mais curto nas manchetes, tem
menos caracteres… Bem, se a questão fosse essa, o noticiário deveria ter
estampado simplesmente “Jair” em suas matérias esses anos todos, concordam?
Talvez
acompanhar os números nos ajude a entender a razão dessa operação política.
Pesquisas realizadas no ano passado, em abril, mostraram que o nome Jair
Bolsonaro era ali um dos mais rejeitados do país. Levantamento do Datafolha
indicou então que 67% dos brasileiros eram contra uma eventual candidatura de
J. Bolsonaro à Presidência (ele insistia em se dizer candidato, apesar de
inelegível).
Em
outro levantamento do mesmo instituto, divulgado em dezembro do ano passado,
Jair Bolsonaro aparecia com 45% de rejeição, um dos índices mais altos entre
lideranças políticas testadas. Lula tinha 44% e Flávio Bolsonaro, 38%. Levando
em consideração que Lula já está em seu terceiro mandato e o “Zero Um” ainda
está só na vontade, convenhamos que é muita rejeição para quem nunca colocou
uma faixa presidencial.
Significa
dizer que Bolsonaro não é apenas um sobrenome, mas pode ser um grande problema
eleitoral. É aqui que entra a engenharia de parte da imprensa brasileira.
Ao
retirar o sobrenome das manchetes, o que se produz não é apenas economia de
caracteres. Produz-se um deslocamento e apagamento simbólico, uma vez que
“Flávio Bolsonaro” carrega uma história, um campo político, uma genealogia de
escândalos, investigações e radicalização.
Já
“Flávio”, não.
“Flávio”
é quase um primeiro nome de colega de escola, de vizinho de condomínio, de um
boy gente boa qualquer. Simplesmente Flávio. Candidamente Flávio. Mimosamente
Flávio.
Com
“Flávio”, ficam mais longe do pré-candidato nomes como o de Adriano Magalhães
da Nóbrega, miliciano do Escritório do Crime, morto por policiais militares na
Bahia em 2020. Quando era deputado estadual, o “Zero Um” empregou em seu
gabinete a mulher e a mãe do ex-policial, figura exaltada por ele, a quem
concedeu, em 2005, a Medalha Tiradentes e disse aqui, no Roda Viva, que se
tratava de um policial exemplar.
Com
“Flávio”, fica bem distante o curioso caso da loja de chocolates, empresa do
“Zero Um” que recebia depósitos sucessivos com exatamente os mesmos valores em
reais, todos abaixo de R$ 10 mil (uma vez que depósitos a partir desse valor
precisavam ser informados às autoridades financeiras).
Com
“Flávio”, fica longe a acusação de organização criminosa, peculato, lavagem de
dinheiro e apropriação indébita feita pelo Ministério Público do Rio de
Janeiro. Quatro meses depois disso, lemos em vários veículos da imprensa que o
senador comprou um imóvel três vezes mais caro do que o valor do patrimônio
total declarado por ele em 2018.
É o
início de um processo já bastante conhecido: o retrofit. Retrofit é uma palavra
da arquitetura que significa atualizar um prédio antigo sem demolir sua
estrutura. Na política – e na cobertura política – o termo também é útil. Em
vez de derrubar uma figura desgastada, atualiza-se sua fachada. Não se troca o
edifício, mas a pintura.
A gente
sabe que esse mecanismo não é novo na trajetória da família Bolsonaro. Voltemos
alguns anos (tapem o nariz).
Quando
Jair Bolsonaro começou a disputar seriamente a Presidência, ali por 2017 e
2018, o então deputado carregava uma biografia política considerada radioativa
por grande parte do sistema político e empresarial. Havia décadas de
declarações misóginas, racistas, elogios à ditadura militar, defesas abertas da
tortura.
O
mercado financeiro se fazia de doido (aliás, parte dele concordava com a
toxicidade do deputado). Parte da imprensa também. Lembram ali como dissemos
coisas como: “Não tem condição nenhuma de esse cara vencer”? Eu fiz isso,
sentada em um boteco no Rio de Janeiro ao lado de um amigo querido. Ele, que
trabalha em um banco e conhece dinheiro grande de perto, estava mais ligado.
“Fabi, vai ser ele”.
Pois:
bastou que Bolsonaro anunciasse nomes considerados “técnicos” ou “liberais”
para que o processo de higienização começasse. O principal deles era Paulo
Guedes. Nomeado ministro da Economia após a eleição, ele entendeu a pandemia da
Covid-19 como um bom momento para fazer reformas estruturais (o gênio ao
contrário também disse que o vírus foi inventado pela China, nosso grande
parceiro comercial).
A
presença de Guedes na campanha de 2018 foi interpretada por amplos setores da
imprensa e do mercado como uma espécie de garantia civilizatória. A lógica
implícita era simples: se houver economistas ortodoxos por perto, talvez o
resto seja administrável.
Um
homem branco de terno limpo e bem passado sempre enche os olhos da galera, né,
gente? Taí Daniel Vorcaro, cujo Banco Master ocupava dois endereços que mostram
o poder da performance. No edifício Auri Plaza, na Vila Olímpia, eram 14,5 mil
metros quadrados alugados por cerca de R$ 3,3 milhões mensais. No Pátio Victor
Malzoni, na Faria Lima, locava mais 1,9 mil metros quadrados por
aproximadamente R$ 720 mil.
Foi
assim que Bolsonaro passou a ser descrito, em muitas análises, como alguém
“duro nos costumes”, mas cercado por um “time econômico confiável”. Um
enquadramento que deslocava o foco daquilo que ele próprio dizia e fazia. O
radicalismo virava detalhe e o mercado, protagonista. Besteira se tinha um
racismo aqui, uma misoginia ali, uma burrice e um despreparo para lá.
Com o
apoio de Bolsonaro, Guedes dominou o debate econômico na campanha e foi o
grande fiador do candidato para o empresariado e o mercado financeiro. Sua
presença se tornou tão relevante que Bolsonaro praticamente não debatia
assuntos econômicos: mandava perguntar ao Guedes, seu “Posto Ipiranga”. O nome
do economista foi bem recebido por uma parcela da mídia, bem como por
investidores e banqueiros, em razão de suas posições ultraliberais. Bastou um
economista com doutorado em Chicago aparecer ao lado do capitão para que parte
considerável da imprensa tratasse a toxicidade de Jair como detalhe superável.
O conteúdo da caixa não havia mudado. Só a embalagem.
Voltemos
ao “Zero Um”, que passa por retrofitagem semelhante.
Flávio
Bolsonaro anunciou sua pré-candidatura em dezembro de 2025 (quando disse a já
clássica “Eu tenho preço”). Dias depois, começou a temporada do sobrenome que
some. A ombudsman da Folha de S.Paulo, Alexandra Moraes, notou o fenômeno em
sua coluna de 15 de março de 2026: “De repente do Bolsonaro fez-se o Flávio.
Como numa espécie de versão pragmática do ‘Soneto de Separação’, alguns
leitores observaram que o senador Flávio Bolsonaro vem perdendo o sobrenome no
noticiário, na medida em que consolida seu papel de candidato viável contra o
presidente Lula. Se antes era o 01 do Bolsopai, agora virou apenas Flávio. Que
Flávio?”
Obviamente,
para você, para mim e para todo o jornalismo brasileiro, o sobrenome Bolsonaro
não é detalhe biográfico. É contexto político obrigatório para uma imprensa que
tanto prega a questão dos fatos. Ele carrega um pai condenado pelo Supremo
Tribunal Federal, o STF, à inelegibilidade e a 27 anos e 3 meses de prisão por
tentativa de golpe de estado.
Carrega
não só os citados Adriano, os chocolates mágicos, a mansão: ainda tem Fabrício
Queiroz, a denúncia de R$ 6 milhões desviados da Alerj… Nada disso prescreveu,
nem foi arquivado: as provas foram anuladas. Suprimir o sobrenome é suprimir
esse peso sem ter que falar sobre ele.
Este
mês, Flávio Bolsonaro apareceu com 55% de rejeição segundo a Genial Quaest.
Lula surgiu com 56%. De novo, o “Zero Um” tem rejeição altíssima para um
candidato que nunca governou o país. A pesquisa aponta que, para vencer a
disputa em 2026, o desafio para ambos será a imagem de moderação. O
levantamento mostrou que, atualmente, 48% dos brasileiros dizem não ver Flávio
Bolsonaro como mais moderado que outros integrantes de sua família.
É aqui
que a coisa pega, minha pirraia: o sobrenome é o problema. Metade do Brasil
rejeita o “Bolsonaro”, e é exatamente esse sobrenome que some das manchetes
enquanto o senador tenta parecer outra coisa.
O fato
de 48% dos entrevistados afirmarem que ele não é mais moderado que sua família
indica que sua imagem ainda está fortemente associada ao núcleo duro do
bolsonarismo. Isso ainda limita sua capacidade de ampliar alianças políticas
para conquistar setores moderados do eleitorado. A imprensa, ao apagar o
sobrenome, está fazendo o trabalho que as pesquisas mostram ser necessário para
a candidatura. Esses recursos da objetividade são completamente
instrumentalizados para vocalizar algo que não se pode vocalizar em primeira
pessoa.
Chamar
o filho do golpista de “Flávio” – sem mais, sem sobrenome, sem contexto – é
vocalizar, sem se implicar, que ele é uma figura nova. Palatável. Moderada.
Separada do pai. É fazer política sem assinar embaixo.
Vamos
apostar em Flávio.
Simplesmente
Flávio. Candidamente Flávio. Mimosamente Flávio.
Fonte:
Por Fabiana Moraes, em The Intercept

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