Cidade-Consultora:
Quando a democracia é terceirizada
Imagine
os corredores onde as políticas que moldam o futuro de uma metrópole são
desenhadas. Ao lado dos servidores públicos, sentam-se consultores de empresas
privadas, não apenas para dar conselhos pontuais, mas para fornecer a própria
capacidade de governar como um serviço pago.
Como
uma cidade se torna inteligente nesse cenário? E, mais importante, quem
realmente toma as decisões? Essa dinâmica é o cerne de uma pesquisa que revela
a crescente influência do setor privado no coração do Estado, um fenômeno
chamado de “Estado-Consultor”, onde a lógica do mercado não só auxilia, mas se
incorpora à própria estrutura da administração pública, redefinindo o que
significa governar e quem se beneficia disso.
As
ideias estão presentes no artigo “Consultancy State: Government as (a) Service
and the Anti-politics of Technological Expertise in Indian Cities”, dos autores
Matt Birkinshaw e Sanjay Srivastava, publicado no periódico International
Journal of Urban and Regional Research. O estudo oferece um olhar profundo
sobre como a busca pela boa governança, por meio da tecnologia, está
remodelando o Estado, a cidadania e o futuro das cidades na Índia.
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Quando o governo se torna um serviço
O
conceito central do estudo descreve uma tendência percebida ao observar que a
expertise técnica abre uma porta para que o setor privado se incorpore
diretamente ao Estado, reelaborando e ressignificando algumas ideias. As
consultorias passam a fornecer a própria capacidade de governança como um
produto comercial.
Uma das
mudanças é a própria ideia de serviço. Na Índia, o conceito tradicional de
serviço foi historicamente ligado a um dever social e religioso. Passou a ser
interpretado como uma atitude ou obrigação ligada à nação. Essa mudança
preparou as transformações nas relações sociais para uma transição suave ao
capitalismo, sem alterações radicais, segundo os pesquisadores.
No
entanto, uma nova noção de serviço emerge do modelo de negócios de tecnologia,
no âmbito do “software como serviço” (SaaS). Nessa nova lógica, o governo aluga
capacidades e competências de empresas privadas da mesma forma que uma empresa
assina um software na nuvem.
Antes,
o Estado esforçava-se para apoiar o crescimento do setor privado, agora o setor
privado se insere no Estado por meio de consultorias tecnológicas e de gestão.
Infiltra-se em seu funcionamento e internamente molda suas políticas,
prioridades e operações.
A
digitalização atual dos serviços do Estado representaria uma segunda mudança no
capitalismo indiano. Em muitas cidades ocidentais, as tecnologias são vendidas
por empresas globais como IBM, KPMG, Deloitte, entre outras, que influenciam
ativamente os arranjos de governança desde o início da década de 1990,
transformando-se no que os autores chamam de “nova economia política da reforma
do setor público”.
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Transformando cidadãos em clientes: a máquina antipolítica
Esse
modelo tem uma consequência perigosa: ele cria uma máquina antipolítica. As
consultorias reduzem problemas urbanos complexos — essencialmente sociais,
econômicos e políticos — a questões puramente técnicas.
A
solução, segundo essa lógica, não está no debate democrático ou na negociação
política, mas na implementação de tecnologia e gestão “eficiente”, uma versão
envernizada do tecnoneoliberalismo.
A
análise realizada pelos autores nos relatórios das consultorias é reveladora.
Eles se debruçaram sobre um corpus de 13 documentos e 584 páginas, publicados
pelas quatro maiores empresas globais de consultoria (Deloitte, KPMG, PWC e
McKinsey).
O
vocabulário utilizado expõe as prioridades dessas empresas: a palavra
“negócios” apareceu com muito mais frequência do que a palavra “cidadãos”.
O termo
“setor privado” foi um dos mais usados em contraste com palavras como
“política” ou “negociação política” (political ou politics), usado 27 vezes,
num universo de mais de cem mil palavras. O destaque fica para o termo
“democrático” e “democracia” (democratic ou democracy) que aparece só oito
vezes.
A
consequência direta é a marginalização da participação popular. O debate
democrático é substituído por painéis ou dashboards de controle com métricas de
desempenho. O cidadão é implicitamente redefinido como um consumidor de classe
média, cujas preocupações sobre segurança, limpeza urbana, trânsito e
estacionamento inteligente são priorizadas em detrimento de questões como
moradia, trabalho informal e representação política dos grupos marginalizados.
Um
vereador entrevistado confirmou a falta de participação do público ou de seus
representantes no projeto de cidades inteligentes: “Quando a proposta foi
feita, a opinião de nenhum membro do nosso distrito foi levada em consideração.
Nem mesmo o nosso prefeito foi consultado”, segundo ele.
As
disposições legais municipais para a participação na governança urbana são
excessivamente generalizadas e, segundo o estudo, as redes sociais teriam sido
usadas como forma de “consultas públicas”, o que teria dizimado a maioria dos
fóruns estruturados, resultando em perda de conexão entre o órgão municipal e o
público.
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O caso da STARMAP
Para
entender como essas dinâmicas funcionam na prática, os pesquisadores realizaram
um estudo etnográfico da STARMAP, um órgão que coordena o Projeto de
Modernização dos Registros de Terras da Índia Digital (DILRMP) do governo
central, destinado a digitalizar os registros cadastrais e esclarecer as
escrituras de propriedade.
A
pesquisa revela uma contradição entre um visionário tecnocrata e um técnico de
linha de frente, demonstrando o abismo entre a promessa tecnológica e a
realidade política.
A visão
do chefe da STARMAP, Dr. Satish Kumar, é emblemática. Com entusiasmo, ele
descreve o projeto de digitalização de antigos mapas do território ainda em
tecido, conhecidos como mussavis. Para ele, a tecnologia é a chave para superar
a burocracia, aumentar a eficiência e, acima de tudo, promover a transparência.
Nessa visão, a parceria com empresas privadas e a adoção de ferramentas
digitais são o caminho para um governo moderno e responsável.
No
entanto, a perspectiva dos técnicos locais da STARMAP, como o Sr. Y, revela uma
realidade muito mais complexa. Eles conhecem a situação do terreno, uma
experiência adquirida pela prática e pelo tempo. Embora reconheçam que os mapas
digitais sejam mais precisos, têm a convicção de que são impotentes perante as
estruturas de poder locais.
Eles
mostram exemplos concretos de corrupção que a tecnologia não consegue corrigir.
Descrevem o caso de um grande empreendimento imobiliário construído na rota
onde já havia sido planejada uma estrada. Em outra situação, um terreno foi
adquirido conscientemente no lugar que se tornaria uma rua para que fosse
desapropriado por um valor maior.
O
mecanismo dessa corrupção é o jaan-pechaan (conhecimento e influência), onde a
relação entre um funcionário local (patwari) e um proprietário de terras pode
levar a ajustes no mapa. Uma unidade de terra como um kila (aproximadamente um
acre) pode se tornar maior ou menor em um mapa para benefício mútuo.
A linha
entre o público e o privado se torna perigosamente tênue. Os pesquisadores
observaram que inúmeros patwaris trabalham para empresas imobiliárias privadas,
que os emprestam para ajudar nos escritórios do governo, infiltrando o capital
privado no Estado em seu nível mais fundamental.
Há uma
frustração entre os técnicos da ponta. Seu conhecimento local é
sistematicamente desvalorizado pela alta burocracia, que prefere a aparente
neutralidade dos dados. “Nós sabemos, pois somos pessoas locais, mas quase
nenhum dos chefes valoriza nosso conhecimento”, declarou um deles numa das
entrevistas.
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O legado oculto da governança digital
O
estudo conclui que a ascensão do “Estado-Consultor” representa muito mais do
que a simples terceirização. Trata-se de uma profunda remodelação das funções
do Estado para alinhá-las com lógicas de mercado e interesses corporativos. A
frustração do Sr. Y não é só a de um técnico ignorado, é a personificação da
falha da máquina antipolítica.
Mostra
como a solução tecnológica, vendida pelo “Estado-Consultor”, não apenas vacila
em resolver problemas políticos como também os obscurece, deixando as
estruturas de poder corruptas intactas sob um verniz de dados digitais.
O foco
em soluções tecnológicas e na monetização de ativos públicos, como dados e
terras, favorece os interesses de uma elite econômica e de corporações,
enquanto mascara as consequências políticas dessas decisões. Embora o contexto
seja indiano, a dinâmica de consultores privados que encapsulam problemas
sociais em desafios técnicos, marginalizando o debate democrático, é um padrão
que se repete em outras cidades ao redor do mundo que buscam usar a grife de
“inteligentes”.
No fim,
embora a tecnologia possa oferecer ferramentas para a transparência, seu uso no
contexto do “Estado-Consultor” tende a reduzir a participação democrática. Ao
priorizar soluções que beneficiam o mercado, esse modelo acaba por codificar um
viés de elite no próprio software da governança urbana, deixando um legado de
dependência e desigualdade para o futuro.
O caso
indiano é facilmente generalizável para outros locais do Sul Global. A
utilização de consultorias para auxiliar governos em reformas ou modernizações
da máquina pública tem sido frequente, quase sempre em projetos financiados por
agências internacionais do Norte, por exemplo. Grandes projetos do Banco
Mundial no Brasil seguem essa mesma lógica.
Na
esteira das parcerias entre big techs e governos, tem sido comum o empréstimo
de tecnologias em áreas-chave como forma de serviço, seja para mapeamento
urbano e de trânsito ou para ferramentas de ensino em escolas e universidades.
Não ocorrem apenas como uma terceirização do serviço. Os órgãos, departamentos
e instituições se remodelam para utilizar as tecnologias já existentes das big
techs, em nome da suposta eficiência e economia.
O
estudo de Birkinshaw e Srivastava se enquadra no eixo de pesquisa que OplanoB
classifica como “capitalismo de vigilância pelo Sul Global”. Essa perspectiva
destaca a importância das assimetrias de diferentes tipos de poder (político,
econômico, simbólico) entre diversos atores e, principalmente, como essas
dinâmicas se desenvolvem no Sul Global.
Fonte:
Por Fabrício Maciel, em Outras Palavras

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