sábado, 21 de março de 2026

Guerra no Irã pode fazer Kim Jong-un temer pelo futuro da Coreia do Norte?

Kim Jong-un deve estar tendo pensamentos complexos depois que os Estados Unidos e Israel lançaram uma guerra contra o Irã.

Coreia do Norte condenou rapidamente os ataques como uma "guerra de agressão injustificável". Afinal, o Irã e a Coreia do Norte mantêm desde 1979 uma "aliança de sangue antiamericana" e, posteriormente, construíram uma parceria no desenvolvimento de mísseis.

O Irã também é o principal destino das exportações de armas norte-coreanas, segundo um ex-diplomata da Coreia do Norte ouvido pela BBC sob condição de anonimato.

No entanto, analistas apontam dois fatores que colocam a Coreia do Norte em uma posição muito mais vantajosa do que o Irã: seu arsenal nuclear e o apoio da China.

Em 2003, durante a Guerra do Iraque, o então líder Kim Jong-il desapareceu por 50 dias. Segundo a inteligência sul-coreana, ele passou a maior parte desse período escondido em um bunker no complexo de Samjiyon, a cerca de 600 km da capital, Pyongyang.

Em contraste, seu filho e sucessor, Kim Jong-un, não evitou a exposição pública, mesmo após o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, ter sido morto nos ataques.

Essa resposta diferente, de certa forma, reflete a crescente confiança da Coreia do Norte em sua própria força, afirma Jang Yong-seok, ex-diretor da equipe de análise da Coreia do Norte do Serviço Nacional de Inteligência da Coreia do Sul.

<><> 'Uma espécie de potência nuclear'

A Coreia do Norte é, na prática, um Estado nuclear — e até o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou em 2025 que o país era "uma espécie de potência nuclear", com "muitas armas nucleares".

Segundo um relatório de 2025 do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri, na sigla em inglês), a Coreia do Norte possui cerca de 50 ogivas nucleares e material suficiente para produzir outras 40. Em julho de 2024, a Coreia do Sul alertou que a Coreia do Norte estava nos "estágios finais" de desenvolvimento de uma arma nuclear tática, de menor alcance e destinada ao uso em campo de batalha.

No ano passado, o presidente sul-coreano, Lee Jae Myung, também afirmou que a Coreia do Norte estava próxima de desenvolver um míssil balístico intercontinental capaz de atingir o território continental dos EUA com uma ogiva nuclear — embora ainda haja dúvidas sobre o sistema de orientação do míssil e sua capacidade de proteger a ogiva durante a reentrada na atmosfera.

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), da Organização das Nações Unidas (ONU), afirmou que o Irã possui "um programa nuclear muito amplo e ambicioso", mas disse não ter visto evidências de um "programa estruturado para fabricar armas nucleares".

Após o acordo nuclear histórico de 2015, o Irã concordou em impor restrições adicionais ao seu programa de enriquecimento de urânio. As inspeções da AIEA também foram ampliadas, o que ajudou a desacelerar o programa nuclear iraniano, afirma Jang Ji-hyang, especialista em Oriente Médio do Instituto Asan de Estudos Políticos.

Mas, após a retirada unilateral de Trump do acordo, em 2018, o Irã passou a limitar o acesso da AIEA às suas instalações nucleares. A agência afirmou, em um relatório confidencial, que o país interrompeu toda a cooperação após a guerra com Israel em junho de 2025, segundo a agência Associated Press.

No entanto, a Coreia do Norte realizou seu primeiro teste nuclear em 2006 e, três anos depois, expulsou todos os inspetores da AIEA. Desde então, conduziu mais cinco testes nucleares, sendo o último em 2017.

Na época, a Coreia do Norte demonstrava interesse em se aproximar dos EUA, o que levou a dois encontros históricos entre os líderes dos dois países, em 2018 e 2019. Kim buscava o fim das sanções internacionais e ofereceu desmontar a usina nuclear de Yongbyon. Mas Trump queria mais, e as negociações acabaram fracassando.

Hoje, a Coreia do Norte parece mais confiante. A guerra na Ucrânia aproximou o país da Rússia, que fornece cooperação econômica e militar considerada essencial, afirma Jenny Town, que lidera o programa sobre a Coreia no centro de estudos americano Stimson Center.

Ainda assim, Trump e Kim parecem ter uma boa relação pessoal, com o presidente americano elogiando o líder norte-coreano até recentemente, no ano passado.

Kim reconhece "oportunidades únicas ao lidar com Trump", mas não pretende "fazer concessões para reativar essa relação", diz Town.

Mesmo assim, a Coreia do Norte não atacou diretamente Trump ao condenar a guerra no Irã. E, no congresso do partido realizado no mês passado, o país afirmou que manteria uma boa relação com os EUA se seu status fosse respeitado — deixando, na prática, a porta aberta para o diálogo.

<><> China, Rússia e 'reféns nucleares'

A geografia também joga a favor da Coreia do Norte, pois o país faz fronteira com a China, que o vê como um importante escudo contra os EUA e seu aliado, a Coreia do Sul. Além disso, caso o regime norte-coreano colapse, a China pode enfrentar um grande fluxo de refugiados.

Por isso, historicamente, a relação entre os dois países comunistas tem sido descrita próxima "como lábios e dentes". Desde 1961, a China se comprometeu a proteger a Coreia do Norte em caso de invasão, por meio de um tratado de defesa mútua — o único desse tipo assinado pela China.

Isso não significa que a China veja a Coreia do Norte como um aliado perfeito, já que a expansão de seu arsenal nuclear desestabiliza a região. A China pode não ver com bons olhos, também, o fortalecimento dos laços entre Pyongyang e Moscou, especialmente depois que os dois países assinaram um acordo de defesa em 2024, segundo Jang Yong-seok, pesquisador visitante da Universidade Nacional de Seul (Coreia do Sul).

Ainda assim, ele afirma: "A Coreia do Norte tem importância estratégica para a China… E a China é muito firme em seus interesses estratégicos, e Kim Jong-un sabe disso."

A Coreia do Norte também mantém a Coreia do Sul e o Japão como "reféns nucleares" devido à proximidade geográfica, afirma Jang, do Instituto Asan.

As duas Coreias são separadas apenas pela zona desmilitarizada, que tem cerca de 250 km de extensão e 4 km de largura, com suas capitais distando cerca de 200 km entre si.

Isso significa que a área metropolitana de Seul, que inclui Incheon e a província de Gyeonggi, está ao alcance direto de ataques norte-coreanos, diz Jang, ex-integrante do Serviço Nacional de Inteligência da Coreia do Sul.

"É questionável se a Coreia do Sul conseguiria interceptar mísseis como Israel, os EUA ou outros países do Oriente Médio", acrescenta.

O Japão também está dentro do alcance direto de ataque da Coreia do Norte, que frequentemente lança mísseis no Mar do Japão durante seus testes.

A Coreia do Sul e o Japão juntos abrigam cerca de 80 mil tropas dos EUA, enquanto aproximadamente 50 mil militares americanos estão estacionados no Oriente Médio.

A guerra no Irã provavelmente reforçou, na visão de Kim, a percepção de que Ali Khamenei estava "desamparado por não possuir armas nucleares" e de que negociações com os EUA não garantiriam a sobrevivência do regime, afirma Ellen Kim, do centro de estudos Korea-US Economic Institute, sediado em Washington D.C. (EUA).

Town concorda. "A Coreia do Norte pode ter sofrido muito ao longo dos anos para desenvolver sua capacidade de dissuasão nuclear, mas, em momentos como este, Kim Jong-un certamente acredita que tomou a decisão certa, sabendo que os riscos de atacar um país com armas nucleares são altos demais para serem uma opção viável."

¨      O cálculo de sobrevivência de Kim diante da guerra no Irã

Os desdobramentos da guerra no Irã vêm sendo interpretados por analistas como um sinal de que o presidente dos EUA, Donald Trump, não está disposto a abandonar sua postura intervencionista. A morte do antigo aiatolá Ali Khamenei, precedida pela captura do líder venezuelano Nicolás Maduro, acendeu o alerta sobre até onde pode ir esse movimento, e se o interesse americano poderia se estender também à Coreia do Norte de Kim Jong-un.

E embora haja paralelos entre Irã e Coreia do Norte, ambos isolados e fortemente sancionados pelo Ocidente, uma diferença na relação dos dois países com os EUA é crucial:  Pyongyang tem armas nucleares. Impedir seu desenvolvimento foi justamente a justificativa da Casa Branca para bombardear o Irã.

Mas isso é o suficiente para que Kim Jong-un se mantenha a salvo da pressão americana? Para Jeongmin Kim, diretora da consultoria Korea Risk Group, a Coreia do Norte tenta manter um perfil discreto neste momento, longe do frenesi do discurso por desnuclearização que antes pressionava sua política externa e colocava o país na lista de prioridades dos EUA.

"Há várias razões para a Coreia do Norte ser muito cuidadosa sobre como abordar isso. O arsenal nuclear norte-coreano é supostamente muito mais desenvolvido [que o do Irã]", afirmou.

"Mas, ainda assim, o que aconteceu no Irã foi que, durante o que eles acreditavam ser uma negociação com o governo Trump, o ataque ocorreu. Da perspectiva da Coreia do Norte, esse é um cenário que eles realmente não querem ver acontecer com eles mesmos."

Um dos ensinamentos mais valiosos dos acontecimentos recentes é que manter armas nucleares é fundamental para a sobrevivência do regime liderado por Kim Jong-un. Pyongyang pode usar a ameaça de seu arsenal nuclear, combinada com avanços na tecnologia de mísseis balísticos, tanto como instrumento de pressão em negociações quanto para garantir que os EUA teriam de arriscar uma guerra nuclear para derrubar o regime.

<><> Desnuclearização sai da lista de prioridades

Durante o governo do ex-presidente americano Barack Obama, os EUA mantiveram o que chamavam de "paciência estratégica" em relação ao programa nuclear norte-coreano.

O primeiro governo Trump tentou atuar na pauta de forma mais incisiva. Os dois líderes se encontraram em Singapura em junho de 2018 para uma cúpula inédita, após meses de uma retórica hostil – o americano chegou a chamar Kim de um "homem-foguete em uma missão suicida".

A reunião rendeu uma declaração não vinculativa de Pyongyang com o compromisso de "desnuclearização completa" da Península Coreana. Um ano depois, porém, o andamento da proposta já havia fracassado. No governo de Joe Biden, a Coreia do Norte ficou oficialmente em segundo plano na política externa de Washington.

"Ironicamente, embora o dossiê da Coreia do Norte tenha perdido prioridade tanto para os EUA quanto para a Coreia do Sul, seu arsenal foi muito fortalecido, quase exponencialmente, porque agora eles têm combustível sólido, combustível líquido e mísseis balísticos que podem atacar o Japão", afirma a pesquisadora Jeongmin Kim.

A própria Coreia do Norte diz ser capaz de atingir até o território continental dos EUA. Analistas concordam, porém, que caso Trump decida recorrer a táticas mais robustas pela desnuclearização da Coreia do Norte, Kim buscará ajuda de seus dois aliados mais poderosos: Rússia e China.

Contudo, os dois países se abstiveram de entrar no conflito iraniano e fizeram pouca pressão contra a derrocada de Maduro na Venezuela.

"É algo que os líderes norte-coreanos observam: embora tenhamos uma cláusula e um tratado de defesa mútua com Rússia e China, eles não serão capazes de nos defender completamente quando algo assim acontecer", avalia a especialista.

Sem a certeza de apoio de seus únicos aliados, a desnuclearização parece uma alternativa distante para a Coreia do Norte. Em setembro, o país afirmou que sua posição como um Estado com armas nucleares é irreversível e que comentários americanos sobre o tema são "anacrônicos".

"Pode-se dar adeus a qualquer esperança que ainda restasse de que Pyongyang abriria mão de suas armas nucleares, já que a Coreia do Norte simplesmente não vai participar de nenhuma negociação sobre nada", avalia Andrei Lankov, professor de história e relações internacionais na Universidade Kookmin, em Seul. "Os ataques ao Irã são o último prego nesse caixão."

<><> Coreia do Sul também é pressionada

Além disso, o fato de a Coreia do Norte possivelmente depender agora mais do que nunca de seu programa nuclear para garantir a sobrevivência do regime pode ter enormes implicações para seu vizinho do Sul. Esse é um problema para Seul porque eles também não sabem o quão confiáveis seus melhores aliados são neste momento.

"O único aliado de sangue que a Coreia do Sul tem, que são os Estados Unidos, tornou‑se pouco confiável ou, basicamente, não tradicional", lembra Jeongmin Kim. Na Estratégia de Defesa Nacional mais recente dos EUA, a Coreia do Sul foi tomada como capaz de se defender com seus próprios meios, o que limita o apoio militar americano ao país a casos críticos.

"Da perspectiva da Coreia do Sul, o risco e a ameaça aumentaram, mas também aumentou a pressão sobre suas próprias defesas quando se trata de capacidades convencionais."

Um relatório da 38 North, um think tank especializado em assuntos norte-coreanos administrado pelo Stimson Center, sediado em Washington, publicado nesta segunda-feira (16/03), pontua que Coreia do Norte conseguiu desenvolver seu programa nuclear ao dissuadir os Estados Unidos, em 1994, de atacar suas instalações de pesquisa nuclear graças à sua capacidade de infligir danos massivos a Seul.

Dessa maneira, a ameaça de retaliação iraniana diante de ataques ao seu programa nuclear nunca foi tão extrema quanto a ameaça de Pyongyang contra a Coreia do Sul.

<><> Derrubar Kim Jong-un nos planos de Trump?

Apesar do estado de alerta com a incerta atuação americana, uma tentativa de derrubar Kim Jong-un por meios militares parece mais distante.

A analista do Korea Crisis Group argumenta que a ação no Irã foi justificada pelos EUA como um apoio a Israel. Se a mesma lógica fosse usada por Washington, seria necessária uma ofensiva de Seul para legitimar a presença americana em uma eventual intervenção contra Kim.

"Mas não há nenhuma possibilidade da Coreia do Sul, pelo menos o governo atual, realizar um ataque inicial contra a Coreia do Norte, a menos que haja um sinal confiável e iminente de um ataque em massa do lado norte-coreano contra o lado sul-coreano", afirma. 

O relatório do 38 North afirmou ainda que outra lição para o regime de Kim é que a liderança precisa ser protegida e posições de contingência devem estar prontas caso o governante seja eliminado.

Ainda assim, a Coreia do Norte certamente ficou encorajada pela forma como o Irã conseguiu resistir até agora a uma força militar muito superior, avalia Kim Sang-woo, ex-político sul-coreano e atualmente membro do conselho da Fundação para a Paz Kim Dae-jung.

"Creio que Pyongyang está observando como a situação está evoluindo e eles devem estar bastante satisfeitos com os resultados até agora", opina. "O Irã conseguiu colocar os EUA em uma posição difícil. Eles achavam que terminariam o trabalho rapidamente, como fizeram na Venezuela, mas agora parecem estar presos e sofrendo pressão interna e internacional."

 

Fonte: BBC News Coreia/DW Brasil

 

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