A
dignidade dos presbíteros
A minha
intenção em desenvolver esta reflexão não tem nada a haver com os movimentos
percebidos em nossos dias, com o fomento do Clericalismo, como já denunciava o
Papa Francisco. Tenho em mente apresentar algumas preocupações pessoais e
percepções dos sinais dos tempos e de como cada presbítero é chamado a ser e a
existir no contemporâneo. Penso estar aqui o estado da questão por excelência;
já que a passagem da modernidade à pós-modernidade tem nos forçado a assumir a
reviravolta antropológica, que afeta também a teologia do sacramento da ordem e
o seu modo de acontecer no mundo. As narrativas aristotélico-tomista, que foram
densamente assumidas, com a sua importância à sistematização racional da
Contrarreforma católica do século XVI, ainda hoje têm a sua relevância interna
à compreensão da nossa dogmática católica; mas que não é mais determinante para
que estejamos inseridos nos novos movimentos da história, principalmente quando
estes são assumidos de modo anacrônico e descontextualizado.
O
desenvolvimento da teologia do sacramento da ordem na nossa Época hipermoderna
precisa discernir que há novas engenharias, que podem ser um invólucros
eficazes para que sejamos capazes de ser e estar no mundo, com uma inserção
epistemológica e pastoral. Em tempos não tão distantes, o neotomismo e outras
linhas de reflexão conseguiram perfurar e estar inseridos nas correntes do
pensamento contemporâneo, quando foram capazes de dialogar com as demais
ciências e campos do saber. Sem isso, nem nós mesmos estaremos abertos a nos
ouvir entre nós. Tudo isso nos ao enfrentamento da questão de qual seja o nosso
lugar de existência e da nossa dignidade enquanto ministros ordenados.
Quando
tratarmos da identidade e da dignidade da pessoa do presbítero, nas nossas
Igrejas Particulares, devemos, necessariamente, ter presente os ensinamentos do
Concílio Vaticano II. Como afirmou recentemente o Papa Leão: “ele continua a
ser a nossa bússola”. Também gostaria de mencionar uma obra já traduzida no
Brasil, que é do teólogo jesuíta Albert Vanhoye - in memoriam - , com o
seguinte titulo: “Sacerdotes Antigos e Sacerdote Novo segundo o Novo
Testamento”. Nesta direção já fiz algumas reflexões às quais também indico como
complementar ao que proponho-me neste ensaio: "O presbítero no mundo.
Artigo de Matias Soares" e "Sacerdotes e presbíteros: Uma leitura
aproximativa". Como estamos sentindo uma retomada aguerrida do retorno à “grande
disciplina” (cf. B. Libânio), com sua negação dos ensinamentos do Concílio
Vaticano II, que nos colocou em sintonia dialógica com a principal reviravolta
da cultura contemporânea, faz-se mister algumas reflexões nesta direção; tendo
como ponto de partida a centralidade da pessoa humana, com a sua consciência,
como protagonista de todos os processos, pois é “no fundo da própria
consciência, que o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à
qual deve obedecer; essa voz, que sempre o está a chamar ao amor do bem e fuga
do mal, soa no momento oportuno, na intimidade do seu coração: faze isto, evita
aquilo. O homem tem no coração uma lei escrita pelo próprio Deus; a sua
dignidade está em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado. A consciência é o
centro mais secreto e o santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus,
cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser” (cf. Gaudium et Spes, 16).
Assim como os demais membros do povo de Deus, o protagonismo está agora sob a
responsabilidade da pessoa do presbítero, com suas subjetividades, dramas e
história, que não podem ser descartadas e tratadas com indiferença e confusões.
Na
atual conjuntura, somos evocados a ter ciência de que “o estilo sinodal é o
caminho da Igreja no terceiro milênio”, como já nos ensinou o Papa Francisco e
continua o Papa Leão XIV. Na Igreja, “todos devemos ser sinodais”. A pirâmide
precisa estar invertida. O principal método é o da escuta. O discernimento
evangélico e eclesial passa pelo reconhecimento de todos como baluartes dos
processos. A nossa carta é o Evangelho de Jesus Cristo e não O Príncipe de
Nicolau Maquiavel. Temos que governar pela conquista, que é consequência do
testemunho, que harmoniza e enobrece o todo; e não o medo, que fere e afasta.
Urge mais respeito à nossa história e às comunidades, com suas caminhadas e
dinâmicas eclesiais. Enquanto presbíteros, todos estamos ligados a estes processos,
com a nossa humanidade, marcada por afetos, desafios e possibilidades. Enquanto
seres humanos, com liberdades e projetos, não podemos ser tratados como
“profissionais e burocratas do sagrado”.
Os
presbíteros precisam ser também objetos do cuidado e da proteção, sem
vitimismos; mas com profunda empatia evangélica. Assim como os demais seres
humanos, nós também desejamos a felicidade. Sem comportamentos humanizados e
estruturas humanizadas, seremos tentados a nos distanciar da mística
presbiteral e poderemos causar feridas na vida dos demais membros do povo de
Deus. Se há algo que a teologia do presbiterato no Concílio nos ofertou, lido
no conjunto dos seus documentos, é que na base de quem recebe o sacramento da
ordem está sempre uma pessoa. Já afirmavam os Padres da Igreja: “a graça
pressupõe a natureza”. Esse ensinamento continua fundante. Cuidemos da pessoa
dos presbíteros e teremos comunidades mais felizes com seus pastores e
vice-versa. Quando a lógica do poder se sobrepõe a do serviço, o estrago vai
acontecer, cedo ou tarde. Assim como existe a preocupação da Igreja com a
dignidade dos demais fiéis, também deve haver com a dos presbíteros, que
desejam ser sujeitos e construtores de história.
O
Concílio Vaticano II aprofundou a temática da identidade presbiteral no decreto
Presbyterorum Ordinis. Deveríamos rezar e estudar este documento e suas
declinações pós-conciliares. Se referindo à missão destes ministros ordenados,
assim afirmou o decreto: “o fim que os presbíteros pretendem atingir com o seu
ministério e com a sua vida é a glória de Deus Pai em Cristo. Esta glória
consiste em que os homens aceitem consciente, livre e gratamente a obra de Deus
perfeitamente realizada em Cristo, e a manifestem em toda a sua vida. Os
presbíteros, portanto, quer se entreguem à oração e à adoração quer preguem a
palavra de Deus, quer ofereçam o sacrifício eucarístico e administrem os demais
sacramentos, quer exerçam outros ministérios favor dos homens, concorrem não só
para aumentar a glória de Deus mas também para promover a vida divina nos
homens.
Tudo
isto, enquanto dimana da Páscoa de Cristo, será consumado no advento glorioso
do mesmo Senhor, quando Ele entregar o reino nas mãos do Pai” (cf.
Presbyterorum Ordinis, 2). Em continuidade, há a preocupação de situar o
presbítero com a sua responsabilidade de estar no mundo, já que “o seu próprio
ministério exige, por um título especial, que não se conformem a este mundo;
mas exige também que vivam neste mundo entre os homens e, como bons pastores,
conheçam as suas ovelhas e procurem trazer aquelas que não pertencem a este
redil, para que também elas ouçam a voz de Cristo e haja um só rebanho e um só
pastor. Para o conseguirem, muito importam as virtudes que justamente se
apreciam no convívio humano, como são a bondade, a sinceridade, a fortaleza de
alma e a constância, o cuidado assíduo da justiça, a delicadeza, e outras que o
Apóstolo Paulo recomenda quando diz: ‘tudo quanto é verdadeiro, tudo quanto é
puro, tudo quanto é justo, tudo quanto é santo, tudo quanto é amável, tudo
quanto é de bom nome, toda a virtude, todo o louvor da disciplina, tudo isso
pensai’” (cf. Presbyterorum Ordinis, 3). Com essa citação do Apóstolo, vemos
como na comunidade eclesial a estabilidade humana dos sacerdotes é importante à
própria vitalidade da caminhada pastoral dos fiéis.
Por
fim, como cooperadores da ordem episcopal, os presbíteros, assim como os demais
membros do povo de Deus, têm o seu lugar e a sua identidade própria. A teologia
conciliar é a do reconhecimento da pessoa, como sujeito, e não só objeto das
ações eclesiais. Não é a toa que os elementos da construção acerca do que seja
a sinodalidade estão nos documentos do evento conciliar, especialmente na Lumen
Gentium. Ainda sobre a relação entre os ministros ordenados, especialmente
entre os bispos e os presbíteros, assim admoestam os padres conciliares: “os
presbíteros, como esclarecidos cooperadores da ordem episcopal e a sua ajuda e
instrumento, chamados para o serviço do Povo de Deus, constituem com o seu
Bispo um presbitério com diversas funções.
Em cada
uma das comunidades de fiéis, tornam de algum modo presente o Bispo, ao qual
estão associados com ânimo fiel e generoso e cujos encargos e solicitude
assumem, segundo a própria medida, e exercem com cuidado quotidiano. Sob a
autoridade do Bispo, santificam e governam a porção do rebanho a si confiada,
tornam visível, no lugar em que estão, a Igreja universal e prestam uma grande
ajuda para a edificação de todo o corpo de Cristo (cf. Ef. 4, 12). Sempre
atentos ao bem dos filhos de Deus, procurem dar a sua ajuda ao trabalho de toda
a diocese, melhor, de toda a Igreja. Por causa desta participação no sacerdócio
e na missão, reconheçam os presbíteros o Bispo verdadeiramente como pai, e
obedeçam-lhe com reverência. O Bispo, por seu lado, considere os sacerdotes,
seus colaboradores, como filhos e amigos, à imitação de Cristo que já não chama
aos seus discípulos servos mas amigos (cf. Jo. 15,15). Deste modo, todos os
sacerdotes, tanto diocesanos como religiosos, estão associados ao corpo
episcopal em razão da Ordem e do ministério, e, segundo a própria vocação e
graça, contribuem para o bem de toda a Igreja” (cf. Lumen Gentium, 28). Há um
longo caminho a ser percorrido. Tudo passa pela lógica do serviço e do amor ao
Evangelho. Sem abertura de coração à conversão e ao diálogo sereno, verdadeiro
e respeitoso, não avançaremos. São necessárias a coragem e a liberdade do
Espírito Santo entre nós para que nos escutemos mutuamente e cresçamos
sinodalmente. Assim o seja!
Fonte:
Por Matias Soares, em IHU

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