As
mulheres que se arrependem de serem mães
Carmen
adora seu filho de 10 anos de idade. Mas ela conta que, se pudesse voltar no
tempo, nunca teria sido mãe.
"A
maternidade acabou com a minha saúde, meu tempo, meu dinheiro, minha força e
meu corpo", segundo ela. "O preço é alto demais e o custo é para
sempre."
Carmen
é professora e está na casa dos 40 anos. Ela faz parte de uma comunidade oculta
de mulheres que se arrependem de terem tido filhos.
Este
arrependimento raramente é expresso em voz alta.
As
mulheres que entraram em contato com a reportagem só concordaram em contar como
se sentem em condição de anonimato. Elas receiam ser objeto de julgamentos
severos e suas famílias não conhecem seu sentimento.
Carmen
tentou expressar seu arrependimento em palavras em um fórum geral de pais há
alguns anos. Ela conta que algumas pessoas demonstraram empatia, mas outras
reagiram como se ela fosse "um monstro".
As
extremas pressões e sacrifícios que podem envolver a maternidade são retratadas
no filme Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria. Sua protagonista, Rose Byrne,
concorreu ao Oscar de melhor atriz de 2026, vencido por Jessie Buckley (Hamnet:
A Vida Antes de Hamlet).
Byrne
oferece um retrato visceral de uma mãe desgastada, que se sente sozinha na luta
para atender às necessidades de sua filha e manter a estrutura da vida
familiar.
Carmen
se identifica com o tema do filme.
"A
maternidade é um trabalho sem fim que você faz mesmo quando não quer, pois uma
pequena pessoa depende de você", ela conta. "Parece uma armadilha da
qual você não consegue escapar."
Ela é
inflexivelmente sincera ao expressar como ela acha que ser mãe é
"devastador".
Mas o
brilho na sua voz é perceptível quando pergunto sobre seu filho, Teo (nome
fictício).
"Teo
não tem nada a ver com meu arrependimento", ela conta. "Ele é um
menino fantástico e adorável, que eu amo intensamente."
"Daria
minha vida por ele, sem dúvida. Ele é gentil, fácil de se lidar e um aluno
brilhante."
Para a
psicoterapeuta Anna Mathur, "muitas vezes, quando as mulheres sentem
segurança suficiente para falar sobre o arrependimento maternal, o que aflora
não é falta de amor, mas a sensação de isolamento, exaustão ou perda de
identidade".
Carmen
se descreve como perfeccionista. Ela considera difícil suportar a
responsabilidade de criar "um bom cidadão, uma pessoa boa e feliz".
Carmen
prometeu a si mesma que Teo nunca se sentiria como ela enquanto crescesse. Ela
vem de uma família pobre e disfuncional, "onde a violência era a linguagem
principal" e nunca se sentiu amada.
Inicialmente,
ser mãe era "uma alegria", ela conta. Teo dormia bem e ela gostava
dos dias que passava cuidando do seu bebê, quando estava em
licença-maternidade.
Mas
tudo mudou quando seu filho começou a mostrar sérios atrasos de
desenvolvimento. "Cada momento simples se transformou em motivo de
observação e preocupação", segundo Carmen.
"Eu
me senti muito culpada", ela conta, "e receei que sua vida se
tornaria uma luta."
Por
fim, Teo não foi diagnosticado com as condições temidas por Carmen. Agora, ele
se sai bem, mas a mãe afirma que o estresse e a preocupação constante fizeram
com que ela desenvolvesse uma doença autoimune.
Relacionar
o arrependimento materno a pais negligentes e pouco amorosos é uma conclusão
precipitada, segundo a socióloga israelense Orna Donath, autora do livro
Regretting Motherhood: A Study ("Maternidade arrependida: um estudo",
em tradução livre).
Donath
entrevistou 23 mães. Cada uma delas enfatizou a diferença entre seus
sentimentos de arrependimento da maternidade e como elas se sentiam em relação
aos seus filhos.
Diversas
se sentiam enganadas pela maternidade porque a realidade não correspondia à
versão idealizada vendida pela sociedade.
"Lamento
ter tido filhos e sido mãe, mas amo os filhos que tenho", diz uma
participante do estudo, mãe de dois adolescentes.
"Eu
gosto que eles estejam aqui, simplesmente não quero ser mãe."
Os
poucos dados disponíveis indicam que esta sensação não é incomum.
Um
estudo de 2023, realizado na Polônia, estima que 5 a 14% dos pais se arrependem
da sua decisão de ter filhos e optariam por não ser pais, se tivessem uma nova
chance.
Os pais
podem não falar abertamente sobre o arrependimento, mas eles estão encontrando
uma comunidade na internet.
Carmen
percebeu que não estava sozinha quando entrou no grupo do Facebook I Regret
Having Children ("Eu me arrependo de ter filhos", em tradução livre),
com 96 mil membros espalhados pelo mundo.
"A
maternidade é repleta de doces momentos, mas eles não compensam a liberdade que
eu poderia ter no lugar deles", declarou à BBC uma das mães do grupo. Ela
mora na Austrália e tem uma filha de cinco anos de idade.
"Uso
bem a minha máscara em frente à minha filha", ela conta. "Mas, quando
ela está na cama e meu marido e eu temos aquela janela curta de tempo de
qualidade juntos, tiro minha máscara e prefiro ficar sozinha."
Ter um
filho significa que as finanças são apertadas e todos os seus objetivos e
ambições (como viajar, abrir um negócio e construir um portfólio de
investimentos) foram colocados de lado.
"Perdi
toda a motivação para tudo", segundo ela, "exceto tentar criar um ser
humano decente neste mundo confuso."
Outra
mãe, esta do Reino Unido, afirma que acha um "menosprezo" quando as
pessoas consideram que uma mãe infeliz deve estar sofrendo de depressão
pós-parto.
"As
pessoas ficam mais confortáveis rotulando desta forma. Meus filhos, agora, são
adultos e eu ainda lamento a vida que nunca consegui ter."
"Agora,
minha preocupação é ter que cuidar dos futuros netos", ela conta. "A
criação não acaba nunca."
O grupo
do Facebook foi criado em 2007. Seu conteúdo vem direto dos pais
(principalmente, mulheres) que enviam mensagens privadas com suas histórias,
para que sejam postadas de forma anônima.
A
moderadora do grupo é a cientista de laboratório norte-americana Gianina, de 44
anos. Ela conta que "o objetivo nunca foi envergonhar os pais, nem
promover um estilo de vida específico".
"É
mais questão de documentar um fenômeno cultural que, muitas vezes, não tem
espaço nas conversas comuns", segundo ela.
"A
comunidade é grande e ativa porque muitas pessoas lutam silenciosamente com
sentimentos que, segundo ouviram, não deveriam existir."
Gianina
tinha dúvidas se deveria ter filhos e conta que a leitura das histórias no
fórum influenciou sua decisão de não ser mãe.
Os
jovens adultos atuais abordam a questão de ter filhos de forma muito diferente
das gerações anteriores, segundo a psicoterapeuta irlandesa Margaret O'Connor,
especializada em ajudar as pessoas a decidir se devem ou não ser pais.
"Existe
muito mais percepção de que isso é uma escolha", segundo O'Connor.
"Não é algo automático, que você precisa fazer."
"Tenho
pessoas que me procuram na casa dos 20 e 30 anos de idade que sabem que querem
ter filhos, mas ainda se preocupam um pouco com as dificuldades e gostariam de
ter mais apoio para enfrentar isso."
É
difícil indicar os sinais vermelhos que podem levar uma mulher a se arrepender
da sua decisão de buscar a maternidade, alerta O'Connor, pois a experiência de
cada pessoa é única.
"Você
precisa ter a máxima certeza possível sobre esta grande decisão e tomá-la por
seus próprios motivos... não por pressões externas do seu parceiro ou dos seus
pais", ela conta.
Ela
também aconselha a não comprar com tanta rapidez a ideia de "aldeia"
que todos irão defender.
"A
mensagem que recebemos, geralmente, é 'todos estaremos aqui para cuidar do
bebê", destaca ela.
"Mas
as pessoas, muitas vezes, não estão. É o seu bebê e você será responsável por
ele."
Para
O'Connor, é totalmente normal que os pais se arrependam, considerando a
dimensão e o grau de exigência da função.
Ela
sugere procurar um terapeuta para tentar descobrir a causa desse arrependimento
e falar "em um espaço seguro, onde não haverá julgamentos".
O
arrependimento maternal nem sempre é "pura ou totalmente reversível",
segundo Mathur.
"Para
algumas mulheres, estes sentimentos [de arrependimento] são significativamente
reduzidos ou se alteram com o apoio, descanso, tempo e mudança das
circunstâncias", orienta ela.
"Mas,
para outras, elementos desta sensação ainda assim podem permanecer e é
importante dar espaço para esta honestidade, sem sentir vergonha."
O
estudo de Orna Donath também concluiu que, para algumas pessoas, o
arrependimento da maternidade é uma sensação que nunca desaparece.
"Todas
as mulheres com quem conversei tentam fazer o seu melhor, paralelamente ao seu
arrependimento", ela conta.
"Há
alguns anos, recebi uma carta de uma mulher que se arrepende de ser mãe",
ela conta.
"Ela
escreveu que o que a ajuda não é ter esperança de que, um dia, isso
desapareça... Ela prefere aceitar em vez de lutar contra isso e ficar desolada
toda vez que perceber que não irá passar."
Carmen
acredita que a sensação é permanente, "pois o sacrifício é para
sempre".
Mas ela
consulta um terapeuta há alguns anos e afirma que ele a ajudou a se aceitar e
reconhecer como se sente em relação à maternidade.
"Não
vivo mais me sentindo amarga", ela conta.
Agora,
Carmen reserva um tempo para ir à academia, encontrar amigos e tenta se
permitir não lutar pela perfeição.
"Finalmente
posso dizer 'não, desculpe, estou cansada e vou dormir cedo. Coma o que quiser
na janta; o papai está aqui.'"
Ela
aprendeu que, quando faz isso, o mundo não implode.
"Teo
observa que sou um ser humano, que não sou perfeita, e aceita isso."
Pergunto
a Carmen qual o momento mais feliz que ela passa com seu filho. Ela responde
que, todas as noites, antes de Teo ir dormir, eles sobem na mesma cama e contam
seu dia um para o outro.
Teo se
esquiva para o calor do edredon e se aconchega junto à mãe.
"É
ali que entro realmente em conexão com Teo e observo a pessoa que mais amo no
mundo", ela conta. "Deixo de me sentir um monstro."
Fonte:
BBC News

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