Kakay:
Lava Master - a volta dos que não foram
O
telefone recebe freneticamente mensagens que são anunciadas com aquele barulho
chato. Como advogado criminal, sinto-me na obrigação de conferi-las. Na TV, uma
jornalista fala sobre a lista de contatos de Daniel Vorcaro e escuto ela citar
meu nome. Fizeram um gráfico com nomes de autoridades do Executivo, do Senado,
da Câmara, ministros de Estado e, em um grupo denominado “ministros do
Supremo”, consta o meu nome: Kakay.
Um
jornalista me liga para saber se quero me manifestar. Respondi que, se meu nome
não estivesse na agenda de um banqueiro com o poder do Vorcaro, eu me sentiria
desprestigiado.
Começo
a perceber as incríveis ilações que, de maneira irresponsável, as pessoas se
permitem fazer nos momentos de espetacularização de um escândalo. Eu já
advoguei para dezenas de inimigos públicos preferenciais, mas ainda me
impressiona. Uma matéria espalhafatosa ressalta que determinado senador era
muito amigo do banqueiro preso. Como se isso fosse crime ou algo estranho.
O
cidadão que, até ontem, era naturalmente recebido com pompas e galas em todos
os gabinetes e festas virou leproso. Se ele um dia esteve na sua casa ou se
foram juntos a um restaurante, a divulgação desse encontro virá com ares de
suspeita, com ênfase no fato de que certamente o interlocutor do investigado
deveria também ser investigado. Nem preciso falar em presunção de inocência; é
questão de bom senso. A hipocrisia nessas horas é a regra.
E a
cobertura midiática sobre o escândalo da vez resvala para o mau gosto da
vulgaridade. Uma enxurrada de mensagens íntimas do investigado com mulheres nos
noticiários expõe o nível da baixaria –não dessas mensagens que, sendo privadas
entre adultos, não deveriam ser publicizadas, pois em nada contribuem para a
investigação. Só para, ao expor detalhes íntimos, normais entre casais, ou que
deveriam ser normais, ridicularizar e constranger o investigado e, o pior,
expor pessoas que não são investigadas nem suspeitas de nada ilícito.
O
massacre da imagem, que parece estar fora do controle, em regra, na verdade,
tem método. Toda essa espetacularização abala profundamente o acusado e seus
familiares. A pressão para uma colaboração é um dos objetivos. Toda delação
premiada pressupõe, como premissa básica, a voluntariedade. O cidadão tem o
direito, como instrumento de defesa, de optar conscientemente por delatar e
obter benefícios com esse ato.
Mas,
desde a operação Lava Jato, que estuprou o instituto da delação, os métodos são
de quebrar, ilegalmente e imoralmente, a moral da pessoa para forçar uma
colaboração. Até mesmo a exposição das fotos tiradas ilegal dentro do presídio
busca fazer um prejulgamento e fixar uma imagem para desmoralizar aquele que
está sob a custódia do Estado. Não há nenhum respeito pelo investigado. Ao
contrário, a ideia é humilhar e constranger. É incrível como os métodos
lavajatistas vieram para ficar. E sob os aplausos de uma mídia escandalosa, com
o auxílio luxuoso de uma população ávida por escândalos.
Mesmo a
transferência de Vorcaro para um presídio federal de segurança máxima,
verdadeiro centro de terror, parece se encaixar nesse enredo. Salvo, e eu não
conheço os detalhes técnicos, se houver fundada suspeita de que o “suicídio” do
tal Sicário foi, na verdade, uma queima de arquivo.
Não é
demais ressaltar que o cidadão estava sob a responsabilidade do Estado, que
tinha a obrigação de velar por sua segurança. Evidentemente, essa morte foi
estranha e deve ser investigada. Quando vieram a público algumas conversas com
ele, houve um mal-estar até entre as pessoas próximas de Vorcaro. Uma coisa é
fazer parte de um grupo que está lidando com questões financeiras; outra é
estar em um grupo que planeja simular um assalto para “quebrar os dentes” de um
conhecido e respeitado jornalista.
De
qualquer maneira, a apuração está só começando. Muito ainda há para ser
revelado. O grau de espetacularização segue uma triste linha lavajatista. O
Supremo, que foi o tribunal que enfrentou o golpe bolsonarista e manteve a
democracia, entrou na lista de tiro muito mais pelos seus acertos do que pelos
seus erros e exageros. Não se pode desprezar as forças políticas que se
posicionam, ávidas pelos holofotes e pelo poder, nesse momento de tão grave
investigação.
Em toda
averiguação policial politizada, as primeiras vítimas são a verdade, a
seriedade investigativa e a imparcialidade. A parcialidade, característica
principal da operação Lava Jato, leva à perseguição, à escolha de alvos a serem
investigados e, claro, a uma disputa mais pelo poder do que pela verdade. Essa
é uma reflexão necessária que devemos fazer para evitar prejulgamentos,
perseguições por verdades encomendadas e graves injustiças.
Lembrando-nos
de Augusto dos Anjos, em “Versos Íntimos”:
“Acostuma-te
à lama que te espera!
O
homem, que, nesta terra miserável,
Mora,
entre feras, sente inevitável
Necessidade
de também ser fera.
Toma um
fósforo. Acende teu cigarro!
O
beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão
que afaga é a mesma que apedreja.”
• BC resiste a dar mais tempo para BRB
apresentar solução para prejuízo com caso Master
O Banco
Central resiste a dar tempo extra para o BRB (Banco de Brasília) apresentar uma
solução para cobrir o prejuízo deixado por transações com o Banco Master. Nos
bastidores, a autoridade monetária cobra mais empenho do governo do Distrito
Federal, acionista controlador da instituição.
O BRB
enfrenta dificuldades para cumprir o prazo inicialmente previsto, de 31 de
março, para divulgação dos resultados do ano passado e tenta negociar. Nessa
data, o banco terá de mostrar como pretende cobrir o buraco no balanço e
solucionar a crise decorrente da compra de ativos fraudulentos do Master.
O banco
do Distrito Federal comprou R$ 12,2 bilhões em créditos falsificados do Master,
apontaram as investigações, mas o banco disse ter recuperado parcialmente esse
valor. O montante necessário para provisionamento (reserva financeira) é hoje
de R$ 8,8 bilhões. A auditoria forense independente contratada pelo BRB
calculou um valor maior, de R$ 13,3 bilhões, de carteiras de crédito com
indícios de ausência de lastro adequado.
O fator
tempo se tornou mais crítico depois que a assembleia extraordinária dos
acionistas do banco, agendada para esta quarta (18), foi cancelada. No BC, a
equipe técnica não mostra disposição em abrir uma exceção para o BRB, apesar
dos últimos acontecimentos.
Na
visão de um técnico, o governo do Distrito Federal tem instrumentos para tomar
providências para salvar o BRB.
O
pedido de prazo maior para a publicação ainda não chegou formalmente à cúpula
do BC, segundo uma pessoa a par das negociações. Ela ressalta que se trata
menos de postergar as datas e mais sobre as dificuldades que a instituição terá
se não divulgar seus demonstrativos financeiros —como problemas de confiança
por não haver divulgação há sete meses.
O
presidente do BRB, Nelson Souza, tinha prometido apresentar o balanço de 2025
já com uma solução de injeção de capital. Isso ficou mais difícil agora que os
bancos, que tinham sinalizado apoio ao banco, colocaram pé no freio no socorro
devido às dificuldades que a instituição financeira enfrenta para ter apoio do
governador Ibaneis Rocha na obtenção desses recursos.
Na
semana passada, foi sancionada a lei que autoriza a gestão de Ibaneis Rocha
(MDB) a executar ações para socorrer o banco, como a contratação de até R$ 6,6
bilhões em operações de crédito com o FGC (Fundo Garantidor de Créditos) ou
instituições financeiras.
Também
foram listados nove imóveis que podem ser vendidos, transferidos, usados como
garantia em empréstimos ou na estruturação de fundos de investimento.
Se o
BRB não apresentar uma solução dentro do prazo, o Banco Central poderá tomar
medidas mais drásticas. Raet (regime de administração especial temporária),
intervenção ou liquidação extrajudicial estão no mapa de possibilidades à
disposição do regulador.
O risco
real de o BC decretar Raet no BRB já tinha entrado no radar, em fevereiro, com
a resistência de Ibaneis em assumir um compromisso firme junto ao órgão
regulador com a capitalização, como mostrou a Folha. Ibaneis só assinou o
compromisso com o BC depois que foi alertado que podia ter os seus bens
pessoais bloqueados em caso de uma intervenção no banco público.
No
Raet, as atividades da instituição seguem em operação, mas os dirigentes perdem
seus mandatos e são substituídos por pessoa jurídica especializada, com plenos
poderes de gestão. No caso de intervenção, as atividades são suspensas
temporariamente (até 12 meses). Esse regime é adotado quando se vê
possibilidade de recuperação.
Já no
caso da liquidação extrajudicial, o funcionamento da instituição é interrompido
e a sua retirada do sistema financeiro nacional é feita de forma organizada.
Essa opção é adotada pelo BC quando a situação de insolvência é irrecuperável.
As
propriedades selecionadas pelo governo do Distrito Federal no plano de socorro
ao BRB são motivo de polêmica. O vaivém de decisões judiciais sobre o uso
desses imóveis atrapalhou a estratégia traçada pelo presidente do BRB na
constituição de um fundo de investimento imobiliário.
Segundo
interlocutores ouvidos pela Folha, potenciais investidores no fundo ficaram
reticentes depois de a Justiça do DF ter concedido uma liminar que barrava o
uso de imóveis. A decisão acabou sendo revista após recurso apresentado pelo
governo do Distrito Federal e pelo próprio banco.
Uma
dessas pessoas reconheceu que, se não for possível estabilizar as questões
jurídicas, o novo fundo imobiliário não conseguirá atrair investidores a tempo
de salvar o banco.
• Mãe de miliciano, ex-assessora de Flávio
Bolsonaro na Alerj é denunciada por lavar dinheiro do filho
O
Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) apresentou nesta quinta-feira (19)
uma denúncia formal contra Raimunda Veras Magalhães, ex-assessora do gabinete
de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro
(Alerj). Ela é acusada de integrar uma sofisticada rede de lavagem de dinheiro
para ocultar recursos oriundos da contravenção e do jogo do bicho controlados
por seu filho, o miliciano Adriano da Nóbrega, morto em 2020.
A
denúncia aponta que Raimunda fazia parte de uma estrutura composta por empresas
de fachada que movimentaram cerca de R$ 8,5 milhões. Entre os negócios
utilizados para dar aparência lícita ao dinheiro do crime, os investigadores
identificaram depósitos de bebidas, bares e até um quiosque de serviços de
sobrancelha em um shopping da Zona Norte, que registrou movimentações de R$ 2
milhões em apenas seis meses.
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Conexões políticas e o caso das 'rachadinhas'
Raimunda
trabalhou com Flávio Bolsonaro, que atualmente é senador e figura como
pré-candidato à Presidência da República, entre abril de 2016 e novembro de
2018. Vale lembrar que ela já havia sido alvo das investigações sobre o esquema
de “rachadinha” no antigo gabinete do parlamentar, processo que acabou
arquivado após decisões dos tribunais superiores (STJ e STF) que anularam as
provas colhidas na época.
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Expansão da organização criminosa
As
investigações do Gaeco (Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime
Organizado) revelam que a estrutura criminosa de Adriano da Nóbrega não apenas
sobreviveu à sua morte, como se sofisticou. O MP-RJ ofereceu três denúncias
distintas que detalham:
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Liderança de Julia Lotufo:
- A
viúva do miliciano é apontada como a peça-chave na contabilidade e controle de
ativos, operando negócios de agiotagem e mercado imobiliário irregular.
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Envolvimento de parlamentar:
- O
deputado federal Juninho do Pneu (União Brasil-RJ) também foi denunciado. Ele é
acusado de adquirir bens de Adriano, avaliados em R$ 3,5 milhões, mesmo tendo
ciência da origem ilícita do patrimônio.
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Rede de matadores:
- Uma
das ações penais foca especificamente na manutenção de um grupo de matadores de
aluguel que prestava serviços à organização.
De
acordo com os promotores, o grupo mantinha uma associação estreita com o
bicheiro Bernardo Bello para o controle de pontos de jogo em Copacabana. A
Justiça agora deve decidir se aceita as denúncias, tornando os envolvidos réus
no processo que investiga a ocultação de patrimônio e a persistência das
atividades da milícia no Rio de Janeiro.
Fonte:
Poder 360/JB

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