Quem
decide a Bíblia? Estado, Igreja e um debate de dois mil anos
Na
primeira semana de março, continuou a tramitar no Senado Federal, por meio da
Comissão de Educação e Cultura (CE), o Projeto de Lei nº 4.606, de 2019. O
projeto (já aprovado pela Câmara dos Deputados de forma unânime em 2022), de
autoria do deputado federal Pastor Sargento Isidório (Avante/BA), propõe uma
decisão legislativa digna de um concílio eclesiástico:
“Art.
1º. Fica vedada qualquer alteração, edição ou adição aos textos da Bíblia
Sagrada, composta pelo Antigo e pelo Novo Testamento em seus capítulos ou
versículos, sendo garantida a pregação do seu conteúdo em todo território
nacional.”.
O que
impressiona em um projeto como este não é propriamente o seu objetivo último –
que, em tese, seria preservar o texto sagrado em favor das duas maiores
expressões do cristianismo no Brasil, o catolicismo e o protestantismo –, mas a
pretensão de que o Poder Legislativo brasileiro adentre um debate complexo, que
se estende por quase dois milênios, para sancionar, de modo definitivo, a
vedação de qualquer alteração, edição ou acréscimo à Escritura Sagrada.
Trata-se
da típica “força de vontade” que tem mais “vontade” do que “força”. Como bem
disse o teólogo Gutierres Siqueira, a missão de preservar o texto bíblico
deveria ser das igrejas, o que se fundamenta na própria tradição
histórico-teológica.
Seria,
portanto, delegar ao Estado uma função que deveria ser de observância e
proeminência da Igreja. Estaríamos, assim, criando uma versão estatal da Bíblia
Sagrada.
Uma boa
parte dos cristãos de hoje ainda pode cair no equívoco de que há um escrito
original da bíblia sagrada; nós, historiadores, chamaríamos a este documento de
autógrafo, aquele escrito de próprio punho do autor original sem nenhuma
intermediação de copistas. Entretanto, ao se falar do texto bíblico, ao menos
até o presente momento, há uma só afirmação possível: não existe um só
manuscrito original da bíblia, nem do Antigo Testamento (escrito em hebraico),
nem do Novo Testamento (escrito em grego).
Há
diversos fatores que contribuíram para esta lacuna; quem sabe a ordem do
imperador Diocleciano, em 303, para destruir toda literatura cristã, tenha
alguma parcela importante neste prejuízo. Porém, o mais verossímil, é que os
materiais usados para a escrita desses documentos eram extremamente perecíveis
caso não conservados em ambiente seco (papiro e pergaminhos de pele/couro).
Aqui, todavia, antes de se levantar um debate sobre a adulteração ou não dos
textos bíblicos através do tempo, descobre-se, aliás, uma verdadeira história
da transmissão do sagrado em sua forma escrita, a partir de técnicas muito
elaboradas de cópia e transcrição.
Foi
partindo da crença de que aqueles escritos eram a própria revelação da vontade
de Deus, que vertentes do judaísmo foram construindo verdadeiras castas de
escribas e copistas. Antes da invenção da prensa (1440), a bíblia (e todos os
demais livros) só existia em forma manuscrita; o antigo e novo testamentos
foram copiados a mão por quase mil e quinhentos anos. A casta dos escribas, em
especial a dos judeus, tinha que conhecer o número exato de caracteres (letras,
números, sinais etc.) contidos no documento, saber localizar com facilidade as
palavras-chave, e era um pré-requisito saber de memória a maior parte dos
escritos sagrados. Como escreveu o teólogo Donald Demaray, qualquer erro
identificável numa transcrição levava à sua destruição, seguido do reinício do
trabalho.
Na
Idade Média, tivemos os massoretas (IV-IX d.C.), que foram escribas judeus que
preservaram e padronizaram o texto da bíblia hebraica, acrescentando sinais
vocálicos na tentativa de garantir a sua correta transmissão (facilidade na
oralização). Deles, em especial, observa-se um esforço quase inacreditável para
as transcrições: 1) contavam cada letra de um livro; 2) contavam cada palavra
de um livro; 3) anotavam o número exato de vezes que uma palavra ou frase
aparecia em toda a bíblia. Estes esforços tinham por pretensão última a
preservação e transmissão dos textos sagrados a partir de uma espécie de
controle de qualidade, geralmente elaborado em grupo e passando por várias
revisões.
É no
processo de elaboração e aplicação dessas complexas técnicas de preservação
textual que surgem, enfim, os escritos com os quais os tradutores se deparam ao
verter a bíblia sagrada para outra língua. Logicamente, – e isto aqui interessa
bastante a este artigo –, durante todo o processo de transmissão, surgiam as
perguntas: qual livro bíblico é realmente inspirado por Deus? Quais padrões
textuais, e por quais critérios, um livro pode ser considerado tão autêntico
quanto o outro? Bem, isto nunca foi um assunto de Estado porque a Igreja sempre
entendera que era um debate para os doutores (que inclusive é um dos
ministérios espirituais disponibilizados aos cristãos, conforme Efésios 4,11),
e anuência dos fiéis. Pergunto: seria preciso lembrar que o próprio Lutero, em
matéria de fé, ao invés de levar as 95 teses ao imperador Carlos V, apregoou-as
às portas da catedral em convocação aos doutores, seus pares? A questão é que,
em algum momento da história da transmissão dos escritos sagrados, nasceu a
questão sobre o cânon, expressão que só a partir do século IV, através de
Atanásio de Alexandria, passou a significar “livros da Sagrada Escritura”. O
vocábulo cânon provém do grego kanon, referindo-se à cana ou vara utilizada
para fazer medições; daí a associação de cânon como padrão ou norma; é nisto a
frase de Josh McDowell: “a palavra cânon aplicada a Escritura significa uma
lista oficialmente aceita de livros.”.
Há um
importante estudo do filósofo e teólogo Norman Geisler acerca dos princípios
básicos que guiaram a normativa canônica através da história. O escrito era
submetido a cinco provas básicas para inquirir sobre sua inspiração,
confiabilidade, aceitabilidade dos fiéis, uso dos pais da Igreja e mesmo a
antiguidade. O ponto é que nem sempre todos os cristianismos chegaram às mesmas
conclusões sobre a quantidade e mesmo o modo de traduzir os livros. A tradição
da Igreja Ortodoxa Etíope, uma das mais antigas do cristianismo, reconhece 81
livros em seu cânon; as igrejas da Igreja Ortodoxa, cuja tradição canônica se
consolidou a partir da Septuaginta (II a.C.), admitem um conjunto mais amplo
que o ocidental, geralmente entre 76 e 79 livros, com variações. A Igreja
Católica fixou 73 livros no cânon reafirmado no Concílio de Trento (1545-1563).
Por fim, o protestantismo, surgido no século XVI com a Reforma Protestante,
reconheceu 66 livros, ao adotar o cânon hebraico para o Antigo Testamento e
manter os 27 escritos do Novo Testamento. Por pouco não foram 65 livros, e isso
porque Lutero detestava a Epístola de Tiago por parecer “muito católica”.
A
questão que resta é ampla e antiga: qual é a versão “verdadeira” da bíblia
sagrada? Mesmo dentro do protestantismo brasileiro, munido de uma respeitada
tradução como a Almeida Revista e Corrigida (1898), um atento leitor verá que
há neste texto escolhas que foram reconsideradas na Almeida Corrigida Fiel
(1994), e assim por diante quanto às demais versões. O que se deve dizer é que
a Bíblia Sagrada, enquanto artigo de fé, é também, justamente por isso, objeto
de um manuseio teológico que não se deixa excluir das intenções de seus
tradutores. Há um porquê de a bíblia católica traduzir eucaristia, ao tempo que
as protestantes preferem ceia do Senhor. Quem acredita que deve haver uma
versão bíblica oficial, da qual não se poderá “alterar, editar ou adicionar”,
não entendeu nem o debate complexo que está por detrás disto, e sequer ainda
soube discernir quais são as matérias do Estado e quais as da Igreja.
Fonte:
Por Vinicius Santos Santana, em Outras Palavras

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