terça-feira, 24 de março de 2026

Quem decide a Bíblia? Estado, Igreja e um debate de dois mil anos

Na primeira semana de março, continuou a tramitar no Senado Federal, por meio da Comissão de Educação e Cultura (CE), o Projeto de Lei nº 4.606, de 2019. O projeto (já aprovado pela Câmara dos Deputados de forma unânime em 2022), de autoria do deputado federal Pastor Sargento Isidório (Avante/BA), propõe uma decisão legislativa digna de um concílio eclesiástico:

“Art. 1º. Fica vedada qualquer alteração, edição ou adição aos textos da Bíblia Sagrada, composta pelo Antigo e pelo Novo Testamento em seus capítulos ou versículos, sendo garantida a pregação do seu conteúdo em todo território nacional.”.

O que impressiona em um projeto como este não é propriamente o seu objetivo último – que, em tese, seria preservar o texto sagrado em favor das duas maiores expressões do cristianismo no Brasil, o catolicismo e o protestantismo –, mas a pretensão de que o Poder Legislativo brasileiro adentre um debate complexo, que se estende por quase dois milênios, para sancionar, de modo definitivo, a vedação de qualquer alteração, edição ou acréscimo à Escritura Sagrada.

Trata-se da típica “força de vontade” que tem mais “vontade” do que “força”. Como bem disse o teólogo Gutierres Siqueira, a missão de preservar o texto bíblico deveria ser das igrejas, o que se fundamenta na própria tradição histórico-teológica.

Seria, portanto, delegar ao Estado uma função que deveria ser de observância e proeminência da Igreja. Estaríamos, assim, criando uma versão estatal da Bíblia Sagrada.

Uma boa parte dos cristãos de hoje ainda pode cair no equívoco de que há um escrito original da bíblia sagrada; nós, historiadores, chamaríamos a este documento de autógrafo, aquele escrito de próprio punho do autor original sem nenhuma intermediação de copistas. Entretanto, ao se falar do texto bíblico, ao menos até o presente momento, há uma só afirmação possível: não existe um só manuscrito original da bíblia, nem do Antigo Testamento (escrito em hebraico), nem do Novo Testamento (escrito em grego).

Há diversos fatores que contribuíram para esta lacuna; quem sabe a ordem do imperador Diocleciano, em 303, para destruir toda literatura cristã, tenha alguma parcela importante neste prejuízo. Porém, o mais verossímil, é que os materiais usados para a escrita desses documentos eram extremamente perecíveis caso não conservados em ambiente seco (papiro e pergaminhos de pele/couro). Aqui, todavia, antes de se levantar um debate sobre a adulteração ou não dos textos bíblicos através do tempo, descobre-se, aliás, uma verdadeira história da transmissão do sagrado em sua forma escrita, a partir de técnicas muito elaboradas de cópia e transcrição.

Foi partindo da crença de que aqueles escritos eram a própria revelação da vontade de Deus, que vertentes do judaísmo foram construindo verdadeiras castas de escribas e copistas. Antes da invenção da prensa (1440), a bíblia (e todos os demais livros) só existia em forma manuscrita; o antigo e novo testamentos foram copiados a mão por quase mil e quinhentos anos. A casta dos escribas, em especial a dos judeus, tinha que conhecer o número exato de caracteres (letras, números, sinais etc.) contidos no documento, saber localizar com facilidade as palavras-chave, e era um pré-requisito saber de memória a maior parte dos escritos sagrados. Como escreveu o teólogo Donald Demaray, qualquer erro identificável numa transcrição levava à sua destruição, seguido do reinício do trabalho.

Na Idade Média, tivemos os massoretas (IV-IX d.C.), que foram escribas judeus que preservaram e padronizaram o texto da bíblia hebraica, acrescentando sinais vocálicos na tentativa de garantir a sua correta transmissão (facilidade na oralização). Deles, em especial, observa-se um esforço quase inacreditável para as transcrições: 1) contavam cada letra de um livro; 2) contavam cada palavra de um livro; 3) anotavam o número exato de vezes que uma palavra ou frase aparecia em toda a bíblia. Estes esforços tinham por pretensão última a preservação e transmissão dos textos sagrados a partir de uma espécie de controle de qualidade, geralmente elaborado em grupo e passando por várias revisões.

É no processo de elaboração e aplicação dessas complexas técnicas de preservação textual que surgem, enfim, os escritos com os quais os tradutores se deparam ao verter a bíblia sagrada para outra língua. Logicamente, – e isto aqui interessa bastante a este artigo –, durante todo o processo de transmissão, surgiam as perguntas: qual livro bíblico é realmente inspirado por Deus? Quais padrões textuais, e por quais critérios, um livro pode ser considerado tão autêntico quanto o outro? Bem, isto nunca foi um assunto de Estado porque a Igreja sempre entendera que era um debate para os doutores (que inclusive é um dos ministérios espirituais disponibilizados aos cristãos, conforme Efésios 4,11), e anuência dos fiéis. Pergunto: seria preciso lembrar que o próprio Lutero, em matéria de fé, ao invés de levar as 95 teses ao imperador Carlos V, apregoou-as às portas da catedral em convocação aos doutores, seus pares? A questão é que, em algum momento da história da transmissão dos escritos sagrados, nasceu a questão sobre o cânon, expressão que só a partir do século IV, através de Atanásio de Alexandria, passou a significar “livros da Sagrada Escritura”. O vocábulo cânon provém do grego kanon, referindo-se à cana ou vara utilizada para fazer medições; daí a associação de cânon como padrão ou norma; é nisto a frase de Josh McDowell: “a palavra cânon aplicada a Escritura significa uma lista oficialmente aceita de livros.”.

Há um importante estudo do filósofo e teólogo Norman Geisler acerca dos princípios básicos que guiaram a normativa canônica através da história. O escrito era submetido a cinco provas básicas para inquirir sobre sua inspiração, confiabilidade, aceitabilidade dos fiéis, uso dos pais da Igreja e mesmo a antiguidade. O ponto é que nem sempre todos os cristianismos chegaram às mesmas conclusões sobre a quantidade e mesmo o modo de traduzir os livros. A tradição da Igreja Ortodoxa Etíope, uma das mais antigas do cristianismo, reconhece 81 livros em seu cânon; as igrejas da Igreja Ortodoxa, cuja tradição canônica se consolidou a partir da Septuaginta (II a.C.), admitem um conjunto mais amplo que o ocidental, geralmente entre 76 e 79 livros, com variações. A Igreja Católica fixou 73 livros no cânon reafirmado no Concílio de Trento (1545-1563). Por fim, o protestantismo, surgido no século XVI com a Reforma Protestante, reconheceu 66 livros, ao adotar o cânon hebraico para o Antigo Testamento e manter os 27 escritos do Novo Testamento. Por pouco não foram 65 livros, e isso porque Lutero detestava a Epístola de Tiago por parecer “muito católica”.

A questão que resta é ampla e antiga: qual é a versão “verdadeira” da bíblia sagrada? Mesmo dentro do protestantismo brasileiro, munido de uma respeitada tradução como a Almeida Revista e Corrigida (1898), um atento leitor verá que há neste texto escolhas que foram reconsideradas na Almeida Corrigida Fiel (1994), e assim por diante quanto às demais versões. O que se deve dizer é que a Bíblia Sagrada, enquanto artigo de fé, é também, justamente por isso, objeto de um manuseio teológico que não se deixa excluir das intenções de seus tradutores. Há um porquê de a bíblia católica traduzir eucaristia, ao tempo que as protestantes preferem ceia do Senhor. Quem acredita que deve haver uma versão bíblica oficial, da qual não se poderá “alterar, editar ou adicionar”, não entendeu nem o debate complexo que está por detrás disto, e sequer ainda soube discernir quais são as matérias do Estado e quais as da Igreja.

 

Fonte: Por Vinicius Santos Santana, em Outras Palavras

 

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