Formação
territorial do Brasil
A ideia
de “formação territorial” foi proposta pelo geógrafo Antônio Carlos Robert de
Moraes como uma confluência da geografia histórica, econômica, política e
regional do Brasil. Em um de seus últimos livros, Geografia histórica do
Brasil: novos ensaios, uma proposta, uma crítica, de 2009, o autor argumenta
sobre a necessária relação entre o processo de formação territorial do país com
o horizonte de elaborações da teoria do Sistema-mundo.
Neste
texto reforço a agenda de Antônio Carlos Robert de Moraes tomando como ponto de
apoio a geografia histórica de Manuel Correia de Andrade, geógrafo nordestino
de formação regional e marxista. Com licença ao anacronismo, as sutilezas das
visões geo-históricas e geopolíticas da “formação territorial do Brasil” não
passaram desapercebidas ao marxista, por mais que perspectivas geo-históricas
sejam hoje correntemente aceitas, ora em oposição à história das classes
sociais, ora como processos prévios de acumulação de capital em escala global.
Em A
questão do território no Brasil (2004), Manuel Correia de Andrade demonstra uma
sensibilidade incomum, vinda de um geógrafo com formação política marxista: a
organização territorial em um país de colonização como o nosso poderia
apresentar lógicas distintas conforme fossem dirigidas por intenções
marcadamente econômicas ou políticas. “A questão do território” era a ótica
através da qual política e economia não podiam ser fundidas sem refletir sobre
intuições sistêmicas.
Contemporaneamente,
a distinção entre as dimensões da política e da economia no processo de
organização territorial e empresarial tem no sociólogo italiano Giovanni
Arrighi (1996), expoente da teoria do sistema-mundo – de formação política
marxista, entre os poucos, porém fiéis, apaixonados pela história econômica de
Henri Pirenne e Fernand Braudel, além de gramsciano –, seu grande defensor,
ganhando um equilíbrio de forças ideais inconteste no âmbito da abordagem do
sistema-mundo, uma teoria do poder no capitalismo histórico.
“Na
estratégia territorialista, o controle do território e da população é o
objetivo da gestão do Estado e da guerra, enquanto o controle do capital
circulante é o meio. Na estratégia capitalista, a relação entre os meios e os
fins se inverte: o controle do capital circulante é o objetivo, enquanto o
controle do território e da população é o meio” (Arrighi, 1996, p. 34).
Por sua
vez, por óbvio, o geógrafo Manuel Correia de Andrade não usa uma diferenciação
em termos, abstendo-se de conceptualizações duais de tipo “territorialismo” ou
“capitalismo”. Contudo, apresenta sutilezas no mesmo sentido, em contexto
brasileiro, visto que “o ‘descobrimento’ e a ocupação do território brasileiro,
feitos a partir do século XVI, foram um capítulo da expansão territorial
portuguesa no Atlântico, estimulada pela revolução comercial” (Andrade, 2004,
p. 29).
Observa-se
que a expansão da “nação” portuguesa e a revolução comercial não se fundem no
mesmo processo; são correlacionados, mas não causais. Em defesa dessa
interpretação, esses processos são também dirigidos por grupos sociais
diferentes: a burguesa e a dinastia de Avis (Andrade, 2004).
Com
efeito, pelo menos dois longos fenômenos são muito bem-marcados na exposição de
Manuel Correia de Andrade. De um lado, a busca por mercados transacionáveis no
comércio global, uma vez que os produtos da África e do Oriente começassem a
escassear; de outro, um processo de “ocupação” do território com manobras
marcadamente militares, pois “fizeram o levantamento da costa, explorando-a à
procura de produtos florestais e marinhos (…) combatendo corsários (…),
fundando pequenas feitorias” (Andrade, 2004, p. 30), enfrentando a resistência
indígena. Processos meramente originários?
Em
outro sentido, a história da costa para produção açucareira é vista por Manuel
Correia de Andrade como um “empreendimento inteiramente capitalista” (Andrade,
2004, p. 32), ao passo que “a penetração para o interior a partir dos núcleos
coloniais próximos à costa – Pernambuco, Bahia e São Vicente – visando a
redução dos índios e sua escravização e a procura de pastagens (…)” (Andrade,
2004, p. 33) são atos militares.
Costa
litorânea, mercado global e exploração de recursos escassos; interior, ação
militar e povoamento – talvez também em estilo do historiador norte-americano
Frederick Jackson Turner –, formam cadeias conectadas em respectivos
embasamentos geográficos cujos processos em relação não são idênticos – o
primeiro vem de um impulso essencialmente econômico, o segundo, um impulso ou
necessidade de atuações política, militar e de defesa. Igualmente, a luta
contra os franceses levou a fundações de cidades (Andrade, 2004).
A
“ocupação do território” faz Manuel Correia de Andrade ressaltar a ação
política sem subsumi-la à lógica econômica, refletindo, por exemplo, sobre
lógicas de localização de capitais em paralelo à da exploração de recursos
econômicos escassos (Andrade, 2004) ou, ainda, “também a luta contra os
indígenas foi um fator de estímulo para a expansão que se iniciou tendo como
base a vila de Olinda” (Andrade, 2004, p. 39).
Ao
final da leitura do curto capítulo de síntese de dois longos séculos, “A
ocupação territorial e a evolução das cidades e vilas brasileiras (séc. XVI e
XVII)”, distinguem-se algumas lógicas de ocupação territorial associadas e
concomitantes: a busca por recursos escassos pela classe capitalista atuante no
mercado global; a procura complementar por recursos abundantes na periferia,
como a abertura de pastagens, por colonos locais, que pudessem sustentar a
exploração de recursos escassos; a luta interimperialista entre as potências
europeias por territórios tropicais; a luta governamental interna de defesa do
território contra indígenas e escravos rebeldes; a lógica de povoamento
dirigida associada à lógica de defesa.
Lógicas
políticas e econômicas estavam associadas, mas não se confundiam, assim como
não se confundem o litoral e o interior, dinâmica de franja pioneira e dinâmica
de fronteira. A leitura dicotômica não necessariamente é reducionista, se
empiricamente pertinente.
Essa
percepção é finalmente corroborada por formulação teórica, para além da
histórica: “Observa-se, assim, que foi grande a visão geopolítica dos
estadistas portugueses dos séculos XVI e XVII, garantindo o controle do imenso
território em que se transformaria o Brasil, sem dispor de grandes recursos e
de tropas bem adestradas. Souberam conciliar e desenvolver a colaboração entre
a ação do Estado e dos grupos econômicos ligados ao comércio, obtendo até
financiamento de grupos judeus que haviam sido expulsos do país pela inquisição
e que se haviam estabelecido na Holanda” (Andrade, 2004, p. 41).
Nesta
passagem escrita, em quase-termos braudelianos e arrighinianos – com a
reiterada licença ao anacronismo –, o “territorialismo” português foi em parte
financiado pelo “capitalismo” holandês. Há uma geografia histórica e regional a
ser reconstituída no Brasil considerando nexos teóricos causais da teoria do
sistema-mundo.
Dualidades
de tipos de regimes de poder ou intercâmbios políticos, lógicas intensivas e
extensivas nos espaços, longas pendulações seculares, entre outras, têm campo
vasto para serem exploradas, para além de abordagens metodológicas de valor
mais intuitivo do que propriamente teórico.
No
âmbito do Sistema-mundo, a abordagem de Giovanni Arrighi diferencia-se da
abordagem de Immanuel Wallerstein por seus achados terem valor de teoria.
Dialogando com Karl Marx e Fernand Braudel, Giovanni Arrighi incorpora
teorizações de ambos: no que diz respeito à Marx, vale-se de sua teoria do
valor, principalmente no aspecto da necessidade constante de valorização do
capital; quanto ao historiador Fernand Braudel, assume a longa duração do
capitalismo histórico desde o século XVI, situa as finanças como zona de
valorização preferencial do capitalismo e os períodos de ascensão do capital
fictício e financeiro como marcadores de transição da hegemonia e da liderança
urbana global – bem como incorpora, também, a ideia do sistema-interestatal de
Max Weber (Arrighi, 1996).
A
partir dessas visões gerais, Giovanni Arrighi defende ter descoberto uma outra
característica ao qual atribuo força de “lei”: uma dinâmica de pêndulo
diacrônico do capitalismo histórico em termos de regimes de acumulação de
poder, conformando ciclos sistêmicos.
Para
Giovanni Arrighi, a oscilação entre esses regimes de poder pode representar
vias alternativas de desenvolvimento econômico-político no âmbito do
Sistema-mundo, em que as pendulações cíclicas dos regimes de poder por ele
formulados (Arrighi, 1996) sejam materializadas em espaços da semiperiferia e
da periferia. Com efeito, em seu livro maior, países marginais aos núcleos
orgânicos do sistema-mundo foram deixados de fora do quadro, bem como
“estruturas fundamentais da economia de mercado e da vida material, que foram
excluídas de nossa investigação” (Arrighi, 1996, p. 370).
A
geo-história da formação territorial do Brasil pode ser novamente iluminada por
esses achados, enriquecendo teoria e investigação empírica mutuamente. Será o
despertar da nova transição geopolítica do século XXI, tal como interpretada
por Giovanni Arrighi em outra obra (Arrighi, 2008), suficientemente estimulante
em traçar novas relações longuíssimas, ao estímulo das “botas de sete léguas”
de Fernand Braudel?
A
dimensão do território pode ser alvo de reavaliações teóricas, em sentido
forte, tendo possível valor preditivo sobre o comportamento do Brasil. Giovanni
Arrighi, sobre os ombros de Marx, Weber e Braudel, convida a Geografia a
considerar a potência heurística renovada de mais uma ampla interpretação do
capitalismo histórico. Se economia de mercado e “vida material (…) foram
excluídas de nossa investigação [de Arrighi]”, cabe à geografia recolocá-las.
Fonte:
Larissa Alves de Lira, em A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário