Como
nasceu a rivalidade histórica entre Cuba e os EUA
Uma das
rivalidades mais antigas da história contemporânea envolve o país mais poderoso
do mundo e uma ilha com menos de 10 milhões de habitantes.
Os
Estados Unidos e Cuba se enfrentam desde o triunfo da revolução socialista de
Fidel Castro (1926-2016), mais de seis décadas atrás. Este longo período já
presenciou uma invasão da ilha apoiada pela CIA, a ameaça de um confronto
nuclear e diversas crises migratórias.
Gerações
de cubanos e americanos viveram marcadas por um antagonismo político que ainda
não teve solução. E, nas últimas décadas, as relações entre os dois países se
mantiveram em uma tensa calmaria, com altos e baixos.
Mas o
retorno de Donald Trump à Casa Branca em 2025 fez as tensões dispararem. Seu
governo endureceu o embargo econômico vigente desde os anos 1960. Havana
atribui a este embargo grande parte das suas dificuldades. Trump também tomou
medidas para dificultar o envio de combustível do exterior para Cuba.
Some-se
a isso a crise energética, econômica e social que já acometia a ilha, agravada
após a queda do apoio venezuelano frente à captura de Nicolás Maduro no início
de janeiro, em uma operação militar realizada pelos Estados Unidos.
Trump
já alertou que Cuba "está a ponto de cair" e, ao mesmo tempo, afirma
que seu governo e o de Havana estão negociando uma saída para o impasse.
Todo
este cenário gera incredulidade. Embora o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel,
tenha confirmado os contatos entre os dois governos, aqueles que testemunham
essa longa inimizade estão acostumados a ver as eventuais aproximações entre
Washington e Havana acabarem frustradas.
Mas
como nasceu a rivalidade entre os dois países vizinhos?
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Direito de intervir
No dia
15 de fevereiro de 1898, um encouraçado norte-americano chamado Maine explodiu
no porto de Havana, causando a morte de mais de 260 tripulantes. Após o
naufrágio, um Tribunal de Investigações Navais dos Estados Unidos concluiu que
a embarcação havia sido destruída por uma mina submarina.
As
suspeitas recaíram sobre a Espanha, que travava, na época, uma guerra contra os
rebeldes cubanos que lutavam pela independência da ilha desde 1895.
Em
abril, os Estados Unidos intervieram militarmente na luta. Assim começava a
Guerra Hispano-Americana, que levou ao fim da soberania espanhola sobre Cuba,
após mais de quatro séculos de colonização.
Uma
investigação posterior da marinha americana concluiu, em 1976, que a explosão
provavelmente foi causada por um incêndio interno que detonou a munição do
navio, não por uma mina espanhola, nem por sabotagem.
Após a
derrota espanhola, a economia, a infraestrutura e as indústrias de Cuba ficaram
devastadas pela guerra. O país precisava se reconstruir e os Estados Unidos
desempenharam um papel fundamental neste processo.
"Empresários
americanos encontraram oportunidades a preços muito modestos. Os Estados Unidos
entraram diretamente na economia cubana", explica à BBC News Mundo (o
serviço em espanhol da BBC) o professor Michael Bustamante, da Universidade de
Miami, nos Estados Unidos.
Cuba
funcionou como protetorado americano entre 1898 e 1902, quando só então
conseguiu sua independência formal. Mas sua primeira Constituição trouxe uma
ressalva.
Entre
1901 e 1934, vigorou um apêndice chamado Emenda Platt que, na prática, mantinha
a ilha sob influência direta de Washington.
Cuba
"era uma república independente, mas com claro grau de controle externo da
sua política por parte dos Estados Unidos, que se reservava o direito de
intervir nos assuntos internos da ilha", afirma Bustamante.
O
artigo 3 da Emenda concedia explicitamente aos Estados Unidos a possibilidade
de exercer este direito. Foi este documento que permitiu, por exemplo, a
instalação em território cubano da base naval de Guantánamo, que segue ativa
sob controle americano até hoje.
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A Revolução de Fidel Castro
Na
década de 1950, a indústria doméstica e o capital cubano haviam recuperado seu
peso na economia nacional, mas a ilha continuava sofrendo enorme influência de
empresas americanas.
Setores
fundamentais contavam com forte participação dos Estados Unidos, como o níquel,
a eletricidade, as telecomunicações e as finanças. Os dois vizinhos mantinham
estreitas relações políticas e econômicas.
Nas
ruas das principais cidades da ilha, era possível observar os letreiros da
Coca-Cola e carros americanos último tipo, que circulam até hoje. Na época,
conviviam em Cuba a prosperidade e o luxo, ao lado da desigualdade e da
corrupção.
Em
1952, o militar Fulgencio Batista (1901-1973), que havia governado Cuba
democraticamente entre 1940 e 1944, deu um golpe de Estado e tomou o poder. Seu
governo foi caracterizado pelo autoritarismo, perseguição e abusos contra a
oposição.
Esta
situação agravou o já crescente descontentamento entre setores da população,
devido aos problemas enfrentados pela ilha e pela ingerência dos Estados
Unidos, que apoiaram Batista e outros governos autoritários cubanos anteriores,
como o de Gerardo Machado (1871-1939), que liderou a ilha entre 1925 e 1933.
"Os
Estados Unidos mantinham relações neocoloniais com Cuba em muitos
sentidos", explica Bustamante. "O sentimento contra a dominação
americana se dava não só em setores da esquerda, mas de diversas
ideologias."
Setores
da oposição pretendiam retornar ao status quo anterior ao golpe de Batista,
enquanto outros defendiam uma reforma nacionalista da economia, reduzindo a
dependência dos Estados Unidos.
Neste
segundo grupo, começou a se destacar o jovem advogado Fidel Castro, líder
político com ideias socialistas. Ele acreditava na maior soberania do país e
encontrou nas armas uma forma de fazer a revolução.
Um
primeiro levantamento armado fracassado em 1953 levou Castro a cumprir quase
dois anos de prisão e se exilar no México. Ele regressou a Cuba no final de
1956, ao lado de mais 80 homens e um jovem argentino revolucionário, chamado
Ernesto "Che" Guevara (1928-1967).
Os
rebeldes organizaram uma guerrilha no leste do país e, em pouco mais de dois
anos, a insurreição se espalhou por toda a ilha. Na madrugada de 1° de janeiro
de 1959, Fulgencio Batista pegou um avião e fugiu para a República Dominicana.
Sete dias mais tarde, Fidel Castro e os chamados "barbudos" entraram
triunfantes em Havana, com grande apoio popular.
Assim
começava a revolução cubana.
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Onda de nacionalizações e o embargo
O
divórcio entre Cuba e os Estados Unidos não foi automático.
"Na
verdade, havia pessoas no Departamento de Estado americano que acreditavam que
Castro fosse um simples nacionalista e queriam manter boas relações com o novo
governo", segundo Bustamante.
Mas
dois eventos ocorridos no início dos anos 1960 fraturaram os vínculos. O
primeiro foi uma reforma agrária lançada por Castro, propondo a nacionalização
de parte das terras controladas pelos Estados Unidos.
Bustamante
esclarece que esta ainda não era uma ideia comunista, pois a intenção não era
sua total expropriação. "Era mais uma visão de capitalismo
reformado", descreve o professor.
Mas os
alarmes americanos começaram a soar pouco depois, com a visita a Cuba do então
diplomata soviético Anastas Mikoyan (1895-1978), para assinar acordos com o
governo local.
Com
esta visita, o maior adversário geopolítico dos Estados Unidos na época — a
União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) — ganhava terreno,
justamente no seu quintal.
Um dos
acordos assinados entre Havana e Moscou foi o intercâmbio de açúcar cubano por
petróleo russo. O problema era que diversas das refinarias instaladas em Cuba
eram americanas.
"Quando
os Estados Unidos ordenaram às suas empresas que se negassem a processar
petróleo russo, o governo cubano interveio nas refinarias e as
nacionalizou", conta Bustamante.
Washington
reagiu cortando a quota de açúcar garantida para Cuba no mercado
norte-americano. E Moscou respondeu passando a ser o principal comprador do
açúcar cubano.
Estas
medidas levaram à primeira fase do embargo econômico dos Estados Unidos a Cuba.
Havana respondeu com a total nacionalização das indústrias e empresas
americanas.
A
ruptura das relações se consumou em janeiro de 1961 e Fidel Castro deu início à
virada socialista da sua revolução.
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Os anos de maior tensão
Os
meses que se seguiram foram de máxima tensão.
Em
abril de 1961, cerca de 1,5 mil combatentes, na sua maioria exilados cubanos,
opositores de Castro, chegaram a Cuba em aviões e navios com o apoio da CIA,
para derrubar o governo da ilha.
O
evento ficou conhecido como a invasão da Baía dos Porcos. Ela foi esmagada
pelas forças cubanas em três dias, após a retirada do apoio aéreo no último
momento, pelo então presidente americano John F. Kennedy (1917-1963).
O
fracasso americano fortaleceu Castro, que aprofundou sua proposta socialista —
levando Kennedy a reavaliar sua política em relação a Cuba, segundo o
Escritório do Historiador do Departamento de Estado americano.
Washington
criou um novo programa clandestino chamado Operação Mangusto, para alcançar o
objetivo não atingido pela invasão da Baía dos Porcos.
A
missão incluiu operações políticas, psicológicas, militares, de sabotagem e
inteligência, além de tentativas de assassinatos de líderes políticos
fundamentais do país, incluindo Fidel Castro.
"A
Operação Mangusto pretendia gerar uma situação de insurreição em Cuba, que
colocasse o país à beira do desastre", explica o pesquisador Oscar
Zanetti, da Academia de História de Cuba.
"Mas
ficou claro que as possibilidades de que um movimento interno levasse a
revolução ao colapso eram praticamente nulas", segundo ele. "Por
isso, em março de 1962, ganhou impulso a opção de uma intervenção direta dos
Estados Unidos, utilizando todos os meios militares necessários."
A
pequena Cuba precisou, então, se defender. E a União Soviética, na época sob a
liderança de Nikita Khrushchev (1894-1971), estava disposta a apoiar a ilha.
Em
meados de 1962, relatórios de inteligência americanos informaram sobre o
aumento do envio de armas soviéticas para Cuba. E, em outubro, um avião tirou
fotografias e descobriu mísseis sendo instalados no país.
Assim
começava a crise dos mísseis de Cuba, o ponto culminante da Guerra Fria
(1947-1991). Por 13 dias, o mundo enfrentou a possibilidade de um confronto
nuclear entre as grandes potências da época. E Cuba estava no centro das
discussões.
Após
intensas negociações, a crise foi solucionada e a URSS retirou seus mísseis de
Cuba. Mas o episódio gerou imensas feridas e desconfiança. O governo cubano
consolidou sua adesão ao bloco socialista da União Soviética e Europa Oriental,
afastando-se ainda mais do seu vizinho do norte.
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Décadas de impasse
O
historiador cubano Rafael Rojas define as décadas que se passaram entre meados
dos anos 1960 e os anos 1990 como de "distensão" entre os Estados
Unidos e Cuba. Chegaram até a ocorrer negociações e colaborações, em temas como
migração e segurança.
Mas
isso não fez com que Cuba consolidasse a hegemonia americana no hemisfério.
Diversos
presidentes passaram pela Casa Branca, democratas e republicanos. E, em Havana,
o sistema socialista de partido único, liderado por Fidel Castro, se
consolidou.
A
revolução cubana inspirou vários movimentos de esquerda na região, como as
guerrilhas colombianas nos anos 1960, o sandinismo nicaraguense na década de
1980 e a revolução bolivariana na Venezuela, no final dos anos 1990.
Neste
período, a migração foi, ao mesmo tempo, um ponto de conflito e cooperação.
Desde
1959, os Estados Unidos ofereceram tratamento preferencial aos migrantes
cubanos, incentivando a saída de dissidentes e os que buscavam condições de
vida alternativas.
Isso
ocorria tanto por vias regulares, como também, muitas vezes, pelo mar e em
embarcações precárias.
Um dos
casos mais notórios ocorreu quando Fidel Castro abriu as portas do país para
todos os que desejassem deixar a ilha. O êxodo de Mariel, como ficou conhecido
em referência ao porto de Cuba, levou 125 mil pessoas a saírem rumo ao Estado
americano da Flórida, em 1980.
Outro
episódio foi a crise dos balseiros em 1994, quando Cuba mergulhou em uma severa
crise econômica, depois do colapso da União Soviética em 1991.
Houve
fortes protestos na época, o que não é comum na ilha. Frente às pressões, Fidel
Castro reabriu as fronteiras e cerca de 35 mil pessoas partiram rumo aos
Estados Unidos.
O
episódio levou Washington a alterar sua política de imigração, implementando a
doutrina de "pés secos, pés molhados". Na prática, quem chegasse a
solo americano poderia ficar e quem fosse interceptado no mar era devolvido.
Os anos
1990 também trouxeram o endurecimento das medidas contra Cuba.
A
implementação da chamada Lei Helms-Burton em 1996 trouxe mais restrições para a
economia e consolidou o embargo, que só poderia ser anulado por aprovação do
Congresso, não por uma simples ordem executiva do presidente.
Condicionado
pelo embargo e vítima das suas próprias restrições e deficiências de produção,
o país caribenho se tornou extremamente dependente do turismo. E, até hoje, não
conseguiu deixar totalmente para trás os reveses da década de 1990.
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Resolução congelada
De 1994
até hoje, as relações entre Cuba e os Estados Unidos seguem sem ser
restauradas, embora tenha havido momentos de maior e menor proximidade.
Fidel
Castro deixou o poder em 2006 devido a graves problemas de saúde. Ele foi
substituído pelo irmão, Raúl Castro. Sob o governo de Raúl e a presidência de
Barack Obama nos Estados Unidos (2009-2017), os dois países deram um passo para
a normalização das relações bilaterais em 2015.
"Desde
2013, em vista das medidas de liberalização econômica tomadas por Raúl Castro,
os Estados Unidos e Cuba iniciaram negociações, com a intermediação do papa
Francisco (1936-2025) e da igreja católica cubana", recorda o historiador
Rojas.
Após o
chamado "degelo" de 2015, as Embaixadas foram reabertas, restrições
de viagem foram suspensas e sobreveio uma abertura econômica que trouxe
esperança às pessoas que exigiam mudanças.
Mas a
chegada de Donald Trump à Casa Branca em 2017, meses depois da morte de Fidel
Castro, trouxe o desmantelamento desta abertura.
E, com
seu regresso em 2025, o embargo, as pressões e as restrições sobre a ilha se
endureceram ainda mais, bem como as tensões entre os dois países.
Fonte:
BBC News Mundo

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