Como
a guerra no Irã já afetou o mundo - e quanto tempo o conflito ainda pode durar
Enquanto
o presidente dos EUA, Donald Trump, afirma ter iniciado negociações com o Irã e
o governo iraniano nega que isso tenha ocorrido, as consequências do conflito
que já dura três semanas continuam a se espalhar pelo mundo.
Os
preços do petróleo no mercado internacional caíram após as declarações de Trump
na segunda-feira (23/09), mas permaneceram em patamar elevado desde que os
Estados Unidos e Israel lançaram amplos ataques ao Irã, matando o líder supremo
do país no dia 28 de fevereiro.
A
commodity disparou e levou junto os preços de combustíveis ao redor do mundo -
o barril do petróleo chegou ao patamar dos US$ 100 e permaneceu assim até o
domingo (22/03).
O Irã
respondeu lançando ataques a Israel e aos Estados aliados americanos no Golfo
Pérsico. O combate sofreu rápida escalada, chegando até o Líbano, acumulando
mortes e danos por toda a região.
<><>
O que está acontecendo no Irã?
Os
primeiros ataques dos Estados Unidos e Israel tiveram como alvo a
infraestrutura de mísseis, instalações militares e os líderes do Irã na capital
Teerã e em outras partes do país.
O líder
supremo iraniano desde 1989, o aiatolá Ali Khamenei, foi morto durante a
primeira onda de ataques.
As
forças israelenses afirmam que dezenas de outras figuras de alto escalão do
poderoso Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI) também foram mortas.
O filho
de Ali Khamenei, Mojtaba Khamenei, foi nomeado seu sucessor no dia 8 de março.
O
secretário da Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, declarou posteriormente
que o sucessor havia sido ferido e "provavelmente está desfigurado",
o que o Irã nega.
Outras
autoridades iranianas de alto escalão mortas incluem o chefe de segurança Ali
Larijani, o ministro da Inteligência Esmail Khatib e o chefe da força
paramilitar Basij, Gholamreza Soleimani. Israel afirma que eles foram atingidos
durante ataques aéreos.
Os
Estados Unidos e Israel também atacaram instalações fundamentais para o
programa nuclear iraniano (que o Irã defende ser totalmente pacífico) e a
infraestrutura de petróleo e gás do país.
Elas
incluem a ilha de Kharg, que abriga um importante terminal petrolífero,
considerado a tábua de salvação econômica do Irã.
Israel
também atacou South Pars, que faz parte do maior campo de gás natural do mundo.
O grupo
americano Ativistas dos Direitos Humanos no Irã (HRANA, na sigla em inglês)
informou que 3.230 pessoas foram mortas no Irã até 21 de março. Elas incluem
1.167 militares e 1.406 civis, incluindo pelo menos 210 crianças. E 657 mortes
não foram classificadas como civis ou militares.
O Irã
acusou os Estados Unidos e Israel de lançarem um ataque a uma escola de meninas
perto de uma base do CGRI no sul do Irã, no dia 28 de fevereiro, matando 168
pessoas, incluindo cerca de 110 crianças.
Os
Estados Unidos declararam que estão investigando o incidente, enquanto Israel
afirmou que "não tinha conhecimento" de operações militares naquela
região.
Um
vídeo analisado por especialistas mostra um míssil Tomahawk americano atingindo
uma base militar perto da escola, segundo informado pela BBC Verify, o serviço
de verificação de dados e imagens da BBC.
O
acesso dos jornalistas internacionais ao Irã é limitado e a conexão à internet
no país é quase totalmente restrita.
Fora do
território iraniano, um submarino americano afundou um navio de guerra do Irã
no Oceano Índico, perto do Sri Lanka, no dia 4 de março, causando a morte de
pelo menos 87 pessoas.
<><>
Quais países o Irã atacou?
O Irã
descreveu os ataques dos Estados Unidos e de Israel como "não provocados,
ilegais e ilegítimos". Em resposta, o país realizou amplos ataques com
mísseis e drones.
O CGRI
declarou ter atingido instalações militares e governamentais israelenses em Tel
Aviv e em outros locais em Israel. Autoridades israelenses afirmam que, do
início da guerra até 22 de março, ataques com mísseis mataram 16 pessoas, todas
civis.
Houve
também ataques em países que abrigam bases americanas: Catar, Bahrein,
Jordânia, Emirados Árabes Unidos (EAU) e Kuwait, além dos aliados americanos
Omã e Arábia Saudita. Foram mortos 13 militares americanos.
O Irã
também foi acusado de atacar instalações de petróleo e gás, de transporte
marítimo e civis.
Em 18
de março, o Irã atacou um complexo energético no Catar, em resposta a um ataque
israelense no dia anterior ao campo de gás South Pars. Não houve relatos de
mortes.
Pelo
menos 20 pessoas foram mortas até agora na região do Golfo. A maioria delas
eram pessoal de segurança ou trabalhadores estrangeiros. Foram oito pessoas nos
EAU e seis no Kuwait, enquanto Omã, Arábia Saudita e o Bahrein registraram duas
mortes cada um.
No
norte do Iraque, um drone matou um soldado francês em uma base militar curda.
Também no Iraque, as Forças de Mobilização Popular (FMP), formadas na última
década para enfrentar o grupo Estado Islâmico, declararam que 27 dos seus
membros foram mortos.
Na
Cisjordânia ocupada por Israel, um ataque de mísseis iranianos matou quatro
mulheres palestinas em um salão de beleza.
A
Turquia declarou que as defesas aéreas da Otan derrubaram três mísseis
iranianos sobre o seu espaço aéreo e o Azerbaijão acusou o Irã de atacar um
aeroporto com drones.
Os
Estados Unidos e seus aliados árabes condenaram os ataques iranianos. Eles
afirmaram que "o ataque a civis e a outros países não envolvidos nas
hostilidades é irresponsável".
No dia
14 de março, o grupo armado palestino Hamas na Faixa de Gaza pediu ao Irã a
suspensão dos ataques aos Estados do Golfo, em um raro apelo ao seu principal
aliado.
Fora da
região, um drone atingiu uma base militar britânica em Chipre, segundo o
Ministério da Defesa do Reino Unido. Autoridades ocidentais afirmaram
posteriormente que o drone não havia sido lançado pelo Irã.
Nos
últimos dias, o Irã teria disparado dois mísseis balísticos em direção à base
militar britânica de Diego Garcia, no Oceano Índico. Nenhum deles atingiu o
alvo.
Em 7 de
março, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, pediu desculpas aos países
vizinhos atacados. Ele declarou que, "de agora em diante", as forças
armadas iranianas não atacariam países vizinhos, "a menos que sejam
atacadas em primeiro lugar".
Mas os
ataques continuaram desde então.
<><>
O que está acontecendo no Líbano?
Uma
nova frente de guerra se abriu no Líbano no dia 2 de março, quando o grupo
Hezbollah, apoiado pelo Irã, disparou foguetes contra posições israelenses. O
grupo afirmou estar buscando vingança pelo assassinato de Ali Khamenei.
Israel
lançou ataques em resposta, atingindo a região sul e central da capital
libanesa, Beirute, e partes do sul e do leste do Líbano.
O
ministro da Defesa de Israel declarou, no dia 3 de março, que tropas terrestres
iriam "avançar e capturar novas áreas estratégicas no Líbano", para
impedir os ataques do Hezbollah.
No dia
20 de março, o ministro da Saúde libanês declarou que os ataques de Israel
mataram 1.001 pessoas, incluindo 118 crianças.
Mais de
um milhão de pessoas foram deslocadas de suas casas, segundo o governo libanês.
O número representa cerca de um a cada seis habitantes do país.
As
forças armadas israelenses também relataram que dois dos seus soldados foram
mortos até 8 de março.
<><>
Por que os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã?
O
ministério da Defesa israelense, Israel Katz, descreveu os primeiros ataques ao
Irã como "preventivos" para "retirar ameaças contra o Estado de
Israel". Mas ele não explicou o porquê da necessidade de tomada de ações
militares naquele momento.
O
secretário de Estado americano, Marco Rubio, declarou em 2 de março que
Washington sabia que haveria ações israelenses, o que significava que os
Estados Unidos precisavam agir "preventivamente", frente a ataques
esperados do Irã às forças americanas.
Mas
existem também outras razões por trás dos ataques.
Israel
e seu principal aliado, os Estados Unidos, são arqui-inimigos do Irã desde a
Revolução Islâmica de 1979. Os líderes iranianos convocam repetidamente a
eliminação de Israel e denunciam que os Estados Unidos são seu maior inimigo.
Os dois
países lideram a oposição ocidental ao programa nuclear iraniano. Eles afirmam
que o Irã busca desenvolver uma bomba nuclear, o que o país nega veementemente.
Israel
e os Estados Unidos atacaram instalações militares e nucleares iranianas em
junho de 2025, durante a Guerra dos 12 Dias. Desde então, os dois países
afirmam que o Irã vem tentando reconstruir seu programa nuclear e desenvolver
mísseis capazes de carregar armas nucleares.
Israel
considera o Irã uma ameaça à sua existência e quer a total retirada do programa
nuclear e de mísseis do Irã, bem como a mudança do regime vigente no país.
Os
Estados Unidos começaram a falar abertamente sobre a possibilidade de atacar o
Irã em janeiro, quando forças iranianas reprimiram manifestantes com força
letal no país.
O Irã e
os Estados Unidos começaram negociações e, aparentemente, vinham fazendo
progresso até 27 de fevereiro, quando o presidente americano, Donald Trump,
declarou "não estar feliz" com o andamento das negociações.
Horas
depois, os Estados Unidos e Israel deram início aos ataques.
<><>
Como a guerra está afetando a economia e os preços da energia?
A
instabilidade no Oriente Médio começou a causar impactos à economia global.
O Irã
foi acusado de atacar navios no Golfo Pérsico, forçando o efetivo fechamento do
Estreito de Ormuz, uma artéria fundamental por onde passam cerca de 20% do
abastecimento global de petróleo.
No dia
21 de março, Trump deu ao Irã 48 horas para "abrir completamente, sem
ameaças" o Estreito de Ormuz ou os Estados Unidos "obliterariam"
as usinas energéticas iranianas.
O Irã
afirmou que, se isso acontecesse, o país atacaria a infraestrutura de energia e
dessalinização pertencente aos Estados Unidos na região.
Foram
relatados ataques aos principais centros de petróleo e gás. Os ataques levaram
alguns dos maiores produtores mundiais de gás e petróleo a suspender sua
produção, gerando forte aumento dos preços da energia.
<><>
Viajar para a região é seguro? E quanto tempo poderá durar a guerra?
No dia
20 de março, Trump declarou que estava considerando "relaxar" a
guerra porque os Estados Unidos estariam "chegando muito perto" de
atingir seus objetivos militares.
Anteriormente,
ele delineou uma ampla missão para o conflito, a fim de garantir que o Irã não
pudesse desenvolver armas dirigidas aos Estados Unidos, Israel ou qualquer
outro aliado americano "por muito tempo".
A
secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, indicou anteriormente
que a guerra poderia durar até seis semanas. Já o primeiro-ministro de Israel,
Benjamin Netanyahu, afirmou no início da guerra que a campanha iria
"continuar pelo tempo que for necessário".
A
guerra gerou uma das mais sérias interrupções ao tráfego global desde a
pandemia de covid-19. Algumas linhas aéreas mantiveram suas operações ou
retomaram uma quantidade limitada de voos.
No
Reino Unido, o Ministério das Relações Exteriores aconselhou qualquer pessoa
com planos de viajar para o Oriente Médio a consultar seu website em busca de
aconselhamento em relação ao seu país de destino.
Com
colaboração de Mallory Moench, Raffi Berg, Emily Atkinson, Olivia Ireland,
Robert Greenall, Hafsa Khalil, Gabriela Pomeroy, Jaroslav Lukiv e da BBC News
Persa.
Fonte:
BBC News Persa

Nenhum comentário:
Postar um comentário