José
Luís Fiori: O cruzado, o imperador, e seu ataque aos persas
A
“ordem mundial baseada em regras” entrou em colapso depois do ataque militar
dos EUA e de Israel contra o Irã, no dia 28 de fevereiro de 2026. Um ataque sem
justificativa que foi realizado no meio de uma negociação diplomática que
estava em pleno curso, entre os EUA e o Irã.
Da
parte de Israel, trata-se de um velho projeto acalentado há muitos anos por seu
primeiro-ministro Benjamin Netanyahu: o de conseguir o apoio do governo
norte-americano para realizar um ataque massivo contra as instalações
nucleares, e contra o sistema de defesa balístico do Estado iraniano, visando,
em última instância, derrotar e submeter o povo persa aos desígnios do povo
judeu.
Da
parte dos EUA, entretanto, as coisas estão menos claras, e tudo indica que o
presidente norte-americano acabou se submetendo aos argumentos do
primeiro-ministro israelense. Haja vista que, desde o primeiro momento do
ataque, o presidente Donald Trump mudou várias vezes de opinião, demonstrando
insegurança com relação aos objetivos da estratégia de guerra.
E tudo
indica que, de fato, o presidente norte-americano se deixou seduzir pelo plano
israelense de uma guerra curta e de uma vitória rápida e fácil, obtida através
da decapitação das principais lideranças civis e militares do Irã. Mesmo assim,
não há dúvida de que essa declaração de guerra se enquadra perfeitamente no
projeto do presidente americano, de reafirmação do poder militar dos EUA e de
reconstrução de sua supremacia unipolar dentro do sistema mundial.
Como já
havia ocorrido com sua “guerra tarifária” contra o mundo e com seus ataques ou
ameaças contra Venezuela, Colômbia, Cuba e Groenlândia, contra seus próprios
aliados europeus e, ainda, contra a China. A verdade é que, através dessas
ameaças e de suas ações concretas, e mais ainda, através de sua presença diária
na imprensa mundial, o presidente norte-americano vem conseguindo manter o
mundo em estado de permanente sobressalto, transformando a incerteza e o medo
nas peças centrais de sua estratégia de poder pessoal e do próprio poder dos
EUA.
Nas
primeiras horas do ataque, as forças israelenses mataram o Ayatollah Ali
Khamenei e uma boa parte da cúpula dirigente do Estado e das Forças Armadas
iranianas. Mas em poucas horas a liderança civil, religiosa e militar do país
se reorganizou e contra-atacou, de forma implacável, Israel e o território de
seus vizinhos árabes onde estão instaladas as 19 bases militares americanas
distribuídas pelo Oriente Médio.
A
maioria dos analistas internacionais, assim como os comandos militares de
Israel e dos EUA, foram surpreendidos pela rapidez e precisão destrutiva da
resposta iraniana, e com isto, duas semanas depois do início das hostilidades,
a guerra tomou um rumo completamente imprevisto e imprevisível, envolvendo um
número cada vez maior de países e atingindo em cadeia toda a economia mundial.
A
começar pela escassez e aumento dos preços mundiais do petróleo e da energia, e
dos fertilizantes e alimentos em geral, atingidos pelo fechamento do Estreito
de Ormuz, que foi anunciado desde o início pelos iranianos, caso fossem
atacados, mas não foi tomado em sério pelas forças invasoras.
Assim
mesmo, após essa derrota estratégica inicial e duas semanas de ataques aéreos e
de destruição de ambos os lados, já é possível extrair algumas lições e
identificar algumas consequências irreversíveis. Começando pelo fato de que o
assassinato do Ayatollah Ali Khamenei, Líder Supremo e máxima autoridade
religiosa do Irã, nas primeiras horas do ataque, transformou o conflito numa
“guerra santa”, envolvendo dois “estados religiosos” – Israel e Irã.
O que a
história ensina é que, nas “guerras religiosas”, não há possibilidade de paz;
são guerras que só acabam (a menos que haja intervenção externa) com a
destruição completa do adversário, que deve ser morto ou convertido à força.
Por outro lado, já nas primeiras horas do conflito, ficou visível a natureza
absolutamente fictícia do sistema de estados árabes do Golfo Pérsico, criado ou
incentivado pelos colonialistas europeus e sustentado pela tutela e proteção
das bases militares norte-americanas instaladas em seus territórios.
Os
sucessivos ataques balísticos iranianos demonstraram que essas bases militares
não são capazes de proteger os povos desses pequenos reinos. Mais do que isto,
se mostraram incapazes de impedir a destruição do seu sistema informação e
rastreio balístico e de apoio logístico de todo o Oriente Médio, incluindo o
famoso sistema de defesa aérea de Israel – seu Domo de Ferro (Iron Dome)
– que foi “vazado” de forma sistemática e destrutiva pelas sucessivas ondas de
mísseis e drones persas.
Para
não falar da incapacidade norte-americana de impedir o fechamento do Estreito
de Ormuz, que obrigou Donald Trump a pedir ajuda a seus aliados europeus e à
própria China, que acabou de ser declarada inimiga número um dos EUA, devido a
sua nova doutrina estratégica de defesa divulgada em dezembro de 2025.
Por
outro lado, do ponto de vista de suas consequências mais amplas, como dissemos
incialmente, este ataque injustificado explicitou de forma definitiva a
irrelevância absoluta do Direito Internacional para os EUA e para Israel,
instaurando, de forma permanente, o uso da força e da guerra como dois pilares
da nova ordem mundial que está nascendo à sombra do caos, sob a batuta de
Donald Trump e Benjamin Netanyahu.
Estes
dois países desprezam de forma explícita qualquer tentativa de legitimar seu
comportamento agressivo através de algum tipo de argumento moral ou de lei
internacional. Criou-se uma situação caótica, em que o uso da força transforma
todos os conflitos num teste de força, numa guerra, cujo limite será sempre o
recurso à ameaça ou ao uso de armas nucleares. Por isso mesmo, a ameaça de
utilização do armamento nuclear transformou-se também numa “moeda corrente” na
imprensa e no discurso das potências atômicas.
Neste
momento, o que se pode prever é a prolongação de uma guerra de atrito ainda por
várias semanas, enquanto se mantiver apenas como uma guerra de atrito aéreo.
Mas será cada vez maior o risco de que essa guerra se transforme numa ameaça
existencial, sobretudo para Israel, que dispõe de armamento atômico.
O mesmo
se pode dizer dos EUA, porque a simples prolongação da guerra já representa uma
derrota estratégica para um presidente que se comporta e gosta de ser visto
como um governante violento e imprevisível que dispõe armas nucleares táticas.
Neste caso, entretanto, não se deve descartar um contra-ataque iraniano às
usinas nucleares de Israel, o que teria efeito análogo ao lançamento de uma
bomba atômica.
Fora do
campo de batalha, existe apenas um fator que pode ser capaz de interromper o
avanço dessa “marcha santa” da insensatez, da inclemência e da inumanidade. E
este fator pode vir a ser o impacto econômico da guerra dentro dos EUA, junto
com seu efeito em cadeia na economia mundial. Esse impacto deve ser cada vez
maior, e pode alcançar níveis insuportáveis, caso a organização militar dos
houtis do Iêmen se colocar ao lado do Irã e decidir fechar também o Estreito de
Bab al-Mandab, que dá acesso ao Mar Vermelho e ao Canal de Suez, provocando,
assim, uma ruptura sem precedentes do sistema mundial de energia e comércio.
Nesse
caso, com certeza, a pressão sobre o presidente norte-americano, a favor da
paz, dentro e fora dos EUA, pode se tornar insuportável, mesmo que seja por
conta apenas dos interesses eleitorais de Donald Trump. Para finalizar, o mundo
está atravessando um momento de incerteza radical, e todos os caminhos e
cenários futuros são mera especulação. Mas os dados já foram lançados, e as
grandes e médias potências do mundo já estão se ajustando à nova realidade, e à
nova ordem forjada pelo cajado da força e da inclemência, procurando assegurar
sua soberania energética e redesenhando suas economias de guerra para o momento
em que tenham que enfrentar a violência e o arbítrio do império militar global
dos EUA.
¨
Os limites da nova escalada militar dos EUA. Por Daniel
de Pinho Barreiros
A
arquitetura de segurança nacional dos Estados Unidos atravessou uma
transformação fundamental com a promulgação da Ordem Executiva de 27 de janeiro
de 2025, que formalizou o projeto Golden Dome for America.
Originalmente concebido como uma versão doméstica e escalonada do sistema
israelense Iron Dome, o projeto evoluiu rapidamente para uma estratégia de
defesa continental, visando neutralizar não apenas ameaças regionais, mas
também tornar obsoletas as estratégias nucleares das grandes potências, como
Rússia e China.
Esta
mudança de paradigma aponta para o abandono definitivo da doutrina de
Destruição Mútua Assegurada (MAD) em favor de uma postura de dominância
estratégica, onde se busca a invulnerabilidade total do território
norte-americano através de uma infraestrutura de múltiplas camadas que integra
o espaço sideral, o domínio ciber-físico e o controle de recursos críticos no
Ártico. A viabilidade técnica do Golden Dome repousa sobre a
transição de uma defesa centrada em interceptadores terrestres para uma
arquitetura baseada em ativos posicionados na Órbita Terrestre Baixa (LEO).
Formando
a chamada Proliferated Warfighter Space Architecture (PWSA),
esses ativos são projetados para manter uma “custódia persistente” sobre
qualquer ameaça balística ou hipersônica inimiga desde o momento do seu
lançamento. Ao contrário dos sistemas de defesa de meio curso, no qual um
míssil inimigo é interceptado antes de seu mergulho em direção ao alvo, a
estratégia do Golden Dome prioriza uma interceptação precoce,
na fase de impulso: durante os seus primeiros três a cinco minutos de voo, um
míssil é um alvo muito vulnerável, porque emite uma assinatura infravermelha
massiva, detectável pelos sensores.
Já em
meio curso, uma ogiva inimiga é protegida pelo chamado “problema da
discriminação”: é difícil distingui-la de outros objetos lançados
propositalmente pelo oponente (iscas), com objetivo de confundir as defesas. A
natureza dupla do Golden Dome é um dos seus aspectos mais estratégicos e,
simultaneamente, desestabilizadores. Embora apresentado como um sistema
defensivo, ele confere aos Estados Unidos uma capacidade nitidamente ofensiva,
pois visa inutilizar o poder de ataque do adversário antes que seus projéteis
ganhem alguma altitude, utilizando para isso plataformas de precisão como o
veículo de planeio Common-Hypersonic Glide Body (C-HGB).
Com um
custo de aquisição de US$ 41 milhões por unidade, o C-HGB é capaz de atingir
alvos com uma precisão de 14 polegadas, podendo ser lançado a partir de
plataformas orbitais que eliminariam as fronteiras geopolíticas tradicionais e
reduziriam drasticamente o tempo disponível para a reação do adversário. Assim,
a capacidade de neutralizar uma ofensiva nuclear inimiga daria aos Estados
Unidos um poder de first strike assimétrico.
Entretanto,
a eficácia total desta estratégia é diretamente proporcional à densidade da
constelação de satélites que fornece dados para que os interceptadores
encontrem sua presa. E esta densidade introduz um problema logístico conhecido
como a “razão de ausência”: como os satélites na órbita terrestre baixa se
movem a altas velocidades em relação à Terra, apenas uma pequena fração da
frota total está posicionada sobre um ponto de lançamento específico em um dado
momento.
Para
garantir a neutralização de uma salva massiva de mísseis inimigos, lançados de
um mesmo ponto, seriam necessárias centenas de milhares de interceptadores
espaciais, o que elevaria os custos e a complexidade do sistema a patamares sem
precedentes na história militar. Então, nada no projeto é simples.
O
financiamento e a sustentabilidade do Golden Dome, por exemplo,
exigiriam uma mudança radical nos modelos de aquisição militar do Pentágono. O
modelo “Anything-as-a-Service” (XaaS), visado como base de sustentação
do Golden Dome, é uma abordagem de aquisição em que o governo paga
pelo acesso a uma funcionalidade ou ao resultado final, em vez de comprar,
possuir e operar o hardware ou software subjacente.
Ele
difere do modelo tradicional, em que o governo compra um produto e assume a
responsabilidade por sua manutenção e atualização. Como os satélites
pretendidos na órbita baixa são considerados “munições perecíveis” devido à
rápida decomposição orbital (não permanecem em uma órbita plenamente estável),
devem ser repostos em um ciclo contínuo, exigindo contratos flexíveis com os
provedores privados.
Então,
o aspecto de “assinatura de serviços” do XaaS, se por um lado agiliza a
aquisição militar, por outro, torna o Departamento de Defesa politicamente
vulnerável à ação dos gigantes do setor de tecnologia, como a SpaceX, a Anduril
Industries e a Palantir. Além disso, a viabilidade operacional do Golden
Dome não é apenas uma questão de algoritmos e lasers, mas também de
geografia física e controle de recursos naturais.
O
Ártico, e especificamente a Groenlândia, tornou-se o epicentro terrestre do
projeto. A Base Espacial norte-americana de Pituffik funciona como o único nó
capaz de centralizar as comunicações com todos os planos orbitais empregados na
órbita baixa pelas planejadas constelações de satélites do Golden Dome,
aproveitando uma janela atmosférica única de baixa umidade que permite o uso de
lasers (links ópticos) para a transmissão massiva de dados
necessários para interceptações hipersônicas em tempo real.
Isso
sem falar da busca de total controle sobre o depósito de Tanbreez, que fornece
tântalo, nióbio e zircônio, necessários para a produção de cerâmicas de
temperatura ultra-alta (ZrB2). Sem esses materiais, as armas e interceptadores
americanos não sobreviveriam às tensões térmicas de reentrada atmosférica em
velocidades hipersônicas.
A busca
americana por invulnerabilidade vem ainda provocando uma reação proporcional de
seus rivais, através de estratégias que visam evitar o arco de vigilância
do Golden Dome, caso seja posto em operação.
A
Rússia vem priorizando o desenvolvimento do drone subaquático de propulsão
nuclear “Poseidon”, que opera em profundidades oceânicas não rastreáveis pelos
satélites, enquanto a China opera seu próprio sistema de bombardeio orbital
fracionado (FOBS) com habilidade de atacar por rotas inesperadas, como o Polo
Sul, contornando os sensores americanos tradicionalmente orientados para o Polo
Norte.
Além
disso, vem sendo buscada persistentemente a redução do tempo de queima de
combustível durante o lançamento de mísseis, de modo a diminuir a janela de
detecção infravermelha por sensores orbitais. Por fim, a vulnerabilidade física
dos ativos espaciais continua sendo um ponto fraco explorável. Mísseis
antissatélite (ASAT) de baixo custo poderiam destruir constelações de ativos
orbitais que custaram milhões, criando lacunas no escudo protetor do Golden
Dome capazes de ser exploradas por salvas de mísseis subsequentes.
O
custo-benefício desta troca favorece o atacante: é financeiramente mais barato
saturar e destruir partes da rede orbital do que mantê-la e repô-la
continuamente. O projeto Golden Dome, assim, representa o maior
esforço tecnológico da história militar americana para alcançar a segurança
absoluta, mas sua viabilidade é questionada por limitações físicas
persistentes.
Além
disso, os riscos geopolíticos gerados por sua implementação são imensos. A
integração de Inteligência Artificial para a tomada autônoma de decisões em
órbita, eliminando a latência de confirmação humana no solo (onde entra o
projeto para a construção de datacenters no espaço, anunciado recentemente por
Elon Musk), cria um ambiente onde uma falha de software ou um
falso positivo de sensor pode desencadear um conflito de escala global.
A
manutenção deste sistema, estimada em trilhões de dólares ao longo das próximas
décadas, colocaria os Estados Unidos em uma posição delicada. A necessidade de
lançamentos espaciais frequentes para substituir ativos orbitais rapidamente
depreciados exigiria uma economia de guerra contínua sem nunca garantir a
segurança total que o projeto se propõe a entregar. No final, o Golden
Dome pode se provar menos como um escudo impenetrável e mais como um
acelerador de uma nova e perigosa corrida armamentista que desafia os limites
da física e da diplomacia.
Fonte:
A Terra é Redonda

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