Assim
o capital abocanha orlas e céus nas cidades litorâneas
No
final de fevereiro, um dos mais importantes jornais do coração do capitalismo
deu destaque à cidade-ostentação brasileira, Balneário Camboriú (SC), que não
encontra limites na corrida ao céu e almeja reconhecimento internacional.
Intitulada A “Dubai” brasileira — onde arranha-céus e preços exorbitantes de
imóveis se encontram, uma recente reportagem do Financial Times mostra a
ambição grotesca do balneário catarinense: o Senna Tower, empreendimento que
promete ser o prédio residencial mais alto do mundo, com mais de um quilômetro
e meio de altura e 157 andares. A conclusão da obra está prevista para 2033.
São
mostrados, também, os detalhes glamourosos e atrativos locais da cidade: praia
exuberante, localização privilegiada, atração de marcas internacionais,
trabalhos de designers mundialmente famosos e opções culturais para atender a
um “segmento mais exigente”. O
presidente da incorporadora responsável pelo megaempreendimento vende que o
local combina “a inovação de Dubai com o estilo de vida de Miami”. O jornal
estadunidense deixa claro que vale muito a pena investir na região.
Para os
brasileiros, essa notícia já parece batida — graças à insistente propaganda
turística e anúncios para atrair investidores e fomentar a compra de imóveis. O
Outras Palavras já mostrou o outro lado de todo este marketing: a
verticalização recente da cidade catarinense é um produto histórico fortalecido
por leis municipais e diversos fluxos de capital — muito dinheiro público e
influência do agronegócio. E as pessoas que botaram a mão na massa para
construir essas enormes torres foram expulsas.
O
episódio revela a tendência da urbanização brasileira a uma dinâmica
“irrefreável” — nas palavras dos representantes do setor imobiliário. Fenômenos
como a desmetropolização estariam, cada vez mais, demandando grandes
empreendimentos no interior e litorais do país, especialmente nas médias
cidades. Em agosto passado, um painel organizado pela Secovi, o sindicato das
empresas do mercado imobiliário e condominial, reuniu grandes escritórios de
arquitetura e da construção civil, exibindo dados, gráficos e estatísticas que
unem argumentos como “otimização do solo urbano” a mudanças sociais ligadas ao
“padrão de renda e à nova geração, que busca maior facilidade e conforto”.
<><>
“Mercado nas alturas”
Apesar
de ser um país em que 84,8% da população reside em casas, o último Censo do
IBGE mostrou que a proporção de pessoas morando em apartamentos cresceu de 7,6%
(2000) para 12,5% (2022). Há outro dado relevante. As duas cidades que puxam o
ranking não são metrópoles, mas municípios litorâneos: Santos (SP) e Balneário
Camboriú (SC) contam com mais da metade de seus moradores vivendo nesse tipo de
habitação. A primeira, por conta da limitação espacial — a maior parte do
município incide sobre uma ilha, e a tendência é que a cidade se expanda “para
cima”; já a cidade catarinense, fenômeno é puxado pelo turismo e por uma orla
totalmente entregue ao mercado imobiliário, sem limite de altura para
arranha-céus:
“Áreas
litorâneas valorizadas economicamente crescem verticalmente como forma de
atrair mais pessoas que desejam ficar próximas de praias. A orla da cidade
catarinense é um caso extremo dessa situação”, argumenta o geógrafo Bruno
Perez, analista do IBGE, em reportagem à Pesquisa FAPESP.
Assim
como Balneário Camboriú, muitas cidades litorâneas brasileiras não adotam um
limite fixo e absoluto de altura, seja em metros ou número de andares. Quando
esse limite existe, a outorga onerosa — instrumento jurídico que permite
construir além do permitido mediante contrapartida financeira — acaba por
flexibilizá-lo, elevando o gabarito das edificações. É claro que há diretrizes
estabelecidas nos planos diretores, como o coeficiente de aproveitamento do
terreno e a taxa de ocupação do lote, que as incorporadoras precisam respeitar.
Mas, na prática, os céus seguem reféns do capital imobiliário, que atua para
maximizar a rentabilidade por metro quadrado de terreno — assim, no litoral,
onde a terra é escassa e valorizada pela proximidade com o mar, a lógica é
construir o máximo possível em área privada, transformando a vista em
mercadoria. A altura torna-se, assim, um ativo comercial.
Voltando
ao Financial Times, que fornece elementos para compreender a dinâmica desta
urbanização litorânea: para quem essas cidades são construídas? Hoje, o mercado
imobiliário da cidade catarinense é o mais caro do Brasil. O empresário do
agronegócio Carlos Mario Zani comprou sua propriedade na região em 2024; pagou
R$ 4,7 milhões por uma cobertura duplex de 192 m² com três suítes e piscina
privativa. Em um ano e meio, Zani diz ao jornal que recebeu uma oferta de R$ 7
milhões. No Senna Tower, as unidades começam em R$ 30 milhões, até coberturas
triplex estimadas em R$ 400 milhões.
A
expansão urbana acelerada está sobrecarregando a cidade. No auge da temporada
turística, por volta do Ano Novo, as ruas ficam congestionadas, já que a
população de 150 mil habitantes aumenta para mais de 1 milhão. O esgoto
transborda para as praias, tornando-as impróprias para banho. Porém, mais
projetos grandiosos estão a caminho. Há planos para o maior centro de esqui
indoor da América Latina, com neve artificial. O conceito é um clube privado
para membros no topo de uma montanha, com um hotel sofisticado e exclusivo.
As leis
em Balneário Camboriú, especialmente na Avenida Atlântica, foram se
transformando para privilegiar os megaempreendimentos. O Plano Diretor de 2006
impede a construção de unidades habitacionais na Praia Central com menos de 100
metros quadrados — comparativamente, as residências do Programa Minha Casa
Minha Vida têm em torno de 45-50. As propostas de alteração de uso do solo —
como a transição de rural para urbano; ou de uso residencial para comercial,
reguladas pelo Plano Diretor municipal — são impostas pelas construtoras, que
também “direcionam” com seu poder econômico obras públicas que serão realizadas
pela Prefeitura. Elas, ao final, se aproveitam de instrumentos importantes do
planejamento urbano — que deveriam ser participativos — e muito dinheiro
público. Esta mesma dinâmica ocorre em várias outras cidades do litoral
brasileiro.
Além do
adensamento urbano, da mudança da paisagem natural e riscos ambientais, o
resultado final é a segregação: o trabalhador que gerou a riqueza, e os
próprios prestadores de serviços, não conseguem morar no balneário luxuoso —
sendo expulsos para as bordas ou cidades vizinhas.
<><>
Vivendo numa ilha de calor
Santos
é emblemática quando o assunto é a alta proporção de habitantes vivendo em
prédios e os impactos decorrentes das transformações — e, para muitos, da
degradação — de sua paisagem urbana. Segundo o IBGE, a cidade é a mais
verticalizada do país. Seus altos edifícios impedem a entrada da brisa e fazem
do município líder no litoral de São Paulo em ilhas de calor. Os dados são da
UrbVerde, plataforma de monitoramento socioambiental da Universidade de São
Paulo (USP).
O
índice é calculado na multiplicação da chamada população vulnerável (idosos e
crianças) pelo fator de intensidade térmica (diferença de temperatura entre um
setor e outro do município). Seu coeficiente é de 83,3 numa escala que vai até
100. “A verticalização é uma questão central” analisa Marcel Fantin, urbanista
do centro de pesquisa. Ele argumenta que o tipo de arquitetura interfere na
movimentação de ventos adequada e desestrutura toda a infraestrutura
verde-urbana, o que inclusive intensifica doenças cardiovasculares. Outro
aspecto relevante é a permeabilidade do solo, a qual é reduzida ou até mesmo
nula na escala do lote, com a construção de subsolos presentes na maior parte
dos edifícios, sobrecarregando a infraestrutura de drenagem existente, o que
pode resultar em enchentes e problemas de saneamento.
<><>
Mercado imobiliário age para abocanhar o litoral
Agora
imagine os efeitos citados da expansão da construção sem considerar — ou mesmo
pressionando para alterar — mecanismos de planejamento urbano. Só ano passado,
os municípios de Mongaguá e Itanhaém, no litoral sul de São Paulo, avançam com
novas construções, com revisão da lei de uso e ocupação do solo em andamento. A
segunda já prevê incentivo à verticalização em áreas classificadas como
“ocupação prioritária”.
No
litoral norte paulista, em Ubatuba, a praia turística de Itamambuca — que já
vive problemas de superadensamento e alto índice de poluição de seu principal
rio, promovida pela construção de prédios de três a cinco andares. Neste caso,
a altura das edificações, apesar de não parecerem “tão altas”, é preocupante em
uma área que carece de infraestrutura urbana, o que pode levar, entre outros
problemas, à sobrecarga e ao colapso do sistema de esgotamento sanitário. Em
2025, moradores começaram a promover abaixo-assinado com o objetivo de
pressionar o Ministério Público para impedir as construções. Antes disso, a
cidade já lidava com cicatrizes e avanço da verticalização.
No
Guarujá (SP), moradores e Promotoria contestam planos urbanísticos do município
para verticalizar bairros residenciais. Segundo a Folha, a prefeitura havia
tentado uma manobra sobrepondo discussões sobre a lei de zoneamento e do Plano
Diretor. Moradores temem as sombras projetadas sobre as casas do entorno e
questionam a capacidade da cidade de absorver o aumento populacional, sobretudo
diante do risco de sobrecarga no sistema de esgoto. Estudos já apontam, em
diversas localidades litorâneas da região, elevado risco de erosão — estimando
que mais de 60% da faixa de areia pode desaparecer.
Em
Santa Catarina, na Praia dos Ingleses, já se teme o “efeito Balneário
Camboriú”. Reportagem relata a construção de um prédio de dez andares,
divulgado como “raro empreendimento pé na areia”, apesar da resistência da
população local. A prefeitura tem concedido autorizações por meio da Outorga
Onerosa do Direito de Construir (OODC), mediante contrapartidas financeiras dos
proprietários. A Associação de Moradores dos Ingleses e Santinho denuncia a
falta de participação popular nas decisões, além de pouca transparência e
planejamento adequado — tendo como alerta o caso de Balneário Camboriú e sua
verticalização considerada predatória.
Fonte:
Por Lucas Scatolini, em Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário