Moraes
concede prisão domiciliar temporária para Bolsonaro após quatro meses de cadeia
O
ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu nova
prisão domiciliar a Jair Bolsonaro (PL) nesta
terça-feira (25/3) após o ex-presidente passar por mais uma internação
hospitalar.
O
benefício, porém, terá duração temporária de 90 dias, a contar do dia da alta
hospitalar, para recuperação integral de uma broncopneumonia.
Após
esse período, Moraes determinou que seja realizada nova avaliação da saúde de
Bolsonaro para decidir se ele pode retornar ao 19º Batalhão da Polícia Militar
do Distrito Federal, conhecido como Papudinha, onde estava detido
desde janeiro.
"Após
esse prazo [de 90 dias], será reanalisada a presença dos requisitos necessários
para a manutenção da prisão domiciliar humanitária, inclusive com perícia
médica se houver necessidade", determinou.
Moraes
determinou uma séria de regras e restrições para a prisão domiciliar. Entre
elas, proibiu "quaisquer acampamentos, manifestações ou aglomerações de
indivíduos em um raio de um quilometro" do endereço residencial de
Bolsonaro.
Em
novembro, a realização de uma vígilia convocada pelo senador Flávio Bolsonaro
(PL-Republicanos) em apoio ao pai foi um dos motivos para a revogação da prisão
domiciliar, após avaliação de que esse ato facilitaria uma eventual tentativa
de fuga.
Além
disso, Bolsonaro tentou, naquela ocasião, retirar sua tornozeleira eletrônica
com uma solda, o que também motivou sua transferência para a prisão.
Moraes
determinou agora que o ex-presidente volte a usar a tornozeleira eletrônica,
enquanto estiver preso em casa.
Ele
também proibiu o "uso de celular, telefone ou qualquer outro meio de
comunicação externa, diretamente ou por intermédio de terceiros".
"Nas
hipóteses autorizadas de visitas, deverá ser realizada vistoria prévia, sendo
que celulares ou quaisquer outros aparelhos eletrônicos deverão ficar em
depósito com os agentes policiais que estiverem realizando a segurança",
decidiu também.
Enquanto
estiver em casa, Bolsonaro poderá receber visitas dos filhos e de advogados,
por períodos limitados, nos mesmos horários que estava autorizado na Papudinha.
Também
poderá receber visitas médicas e de outros profissionais de saúde, mantendo as
sessões de fisioterapia.
Moraes
determinou, porém, que todos os veículos sejam vistoriados ao deixarem a
residência.
O
ministro também suspendeu todas as visitas que estavam autorizadas antes da
internação, já que Bolsonaro estará em casa em recuperação.
A
decisão de Moraes veio um dia após o procurador-geral da República (PGR), Paulo
Gonet, se manifestar favorável ao pleito da defesa, por entender que houve um
agravamento da situação médica de Bolsonaro em relação ao início de março,
quando outro pedido de prisão domiciliar foi negado pelo STF.
Além
disso, Moraes recebeu a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro em seu gabinete na
segunda-feira (24/3) para falar sobre o estado de saúde do marido e reforçar os
argumentos pela prisão domiciliar.
O
ex-presidente tem 71 anos e já passou por inúmeras cirurgias e internações
desde 2018, quando sofreu uma facada durante a campanha presidencial.
No
último episódio, ele deu entrada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do DF
Star, em Brasília, no dia 13 de março, e foi transferido para um quarto na
segunda-feira (24/3).
Ele
passa por um tratamento para pneumonia bacteriana bilateral causada por
broncoaspiração e ainda não há previsão de alta. Segundo o último boletim
médico, o ex-presidente continua recebendo antibiótico na veia, suporte clínico
e fisioterapia respiratória e motora.
Bolsonaro
está preso desde agosto, quando foi detido preventivamente em sua residência.
No dia 22 de novembro, porém, ele perdeu o direito à prisão domiciliar,
após tentar romper sua tornozeleira
eletrônica com
uma solda.
O
ex-presidente foi transferido para uma cela especial da Superintendência da
Polícia Federal e passou a cumprir lá a pena de mais de 27 anos de prisão à
qual foi condenado por tentativa de golpe de Estado.
Em
janeiro, dias após ele sofrer uma queda quando estava sozinho na cela e ser
levado para exames no DF Star, Moraes autorizou a transferência do
ex-presidente para
a Papudinha.
Na
ocasião, Moraes recusou outro pedido de prisão domiciliar e considerou que a
nova prisão oferecia condições melhores que a PF, com uma cela individual mais
ampla e confortável e maior suporte médico.
Ainda
assim, a defesa voltou a argumentar que Bolsonaro precisa de acompanhamento
constante devido a problemas de saúde e que isso só poderia ser garantido na
prisão domiciliar.
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As internações e tentativas de prisão domiciliar
Bolsonaro
esteve no DF Star em 7 de janeiro, quando
realizou exames após
ter caído na prisão e batido a cabeça na madrugada.
Pouco
antes, durante o Natal, ele havia passado por uma cirurgia para corrigir
hérnias na região da virilha e outros procedimentos para conter o quadro de
soluços.
O
ex-presidente sofre com as sequelas da facada que levou no abdômen durante a
campanha eleitoral de 2018. Desde então, ele passou por diversas cirurgias.
Sua
defesa chegou a encaminhar, em janeiro, ao STF um pedido de prisão domiciliar
de caráter humanitário, alegando que o estado de saúde de Bolsonaro poderia ser
agravado pelo cumprimento da pena em regime fechado, mas o pedido foi negado.
A
decisão foi criticada pela família Bolsonaro, que tem feito campanha para que o
ex-presidente cumpra a pena em regime domiciliar.
Em uma
carta compartilhada nas redes sociais ainda em janeiro, Carlos Bolsonaro disse
que as medidas de Moraes "violam garantias constitucionais básicas" e
que a manutenção do pai na Polícia Federal expõe Jair Bolsonaro a
"riscos".
Em
março, Moraes voltou a negar o pedido de prisão domiciliar a Bolsonaro, decisão
depois referendada pela Primeira Turma do STF.
Na
decisão, o ministro argumentou que as instalações da Papudinha oferecem
atendimento médico adequado.
Além
disso, Moraes afirmou que a tentativa de violação da tornozeleira eletrônica,
ocorrida no ano passado, também impedia o deferimento do pedido.
Após a
nova internação em 13 de março, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do
ex-presidente e pré-candidato à Presidência, criticou as negativas da prisão
domiciliar e afirmou que estão brincando com a vida do pai dele.
"Mais
uma vez, reforço aqui, que estão brincando com a vida do meu pai. Não dá mais
pra ficar com essa postura de achar que isso aqui é algum tipo de frescura, ou
ficar com essa paranoia de que ele pode fugir, cumpra-se a lei. O mínimo que
ele deveria ter é essa domiciliar humanitária em casa, onde ele pode ter
cuidado permanente da família", disse Flávio.
Já o
advogado de Bolsonaro, Paulo Cunha Bueno, publicou uma nota na rede social X
cobrando novamente a transferência do ex-presidente para o regime de prisão
domiciliar.
A
defesa argumenta que o sistema prisional não tem condições de oferecer os
cuidados médicos necessários e afirma que o risco de agravamento da saúde já
havia sido alertado em laudos anteriores.
Cunha
Bueno destacou ainda a concessão de prisão domiciliar ao ex-presidente Fernando
Collor, também acometido por problemas de saúde.
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O que é broncopneumonia e quais os sintomas
A
pneumonia é uma doença provocada por micro-organismos (vírus, bactéria ou
fungo) ou pela inalação de produtos tóxicos.
A
doença pode ser adquirida pelo ar, saliva, secreções, transfusão de sangue ou,
durante o inverno, devido a mudanças bruscas de temperatura, segundo
informações da Fiocruz.
No caso
de Bolsonaro, a broncopneumonia é causada por bactérias e acomete ambos os
pulmões, por isso é chamada de bilateral.
Ainda
no caso do ex-presidente, a doença ocorreu por broncoaspiração, quando
substâncias estranhas (saliva, alimentos, vômito) entram nas vias aéreas e
chegam aos pulmões, trazendo bactérias da boca e faringe ou causando inflamação
química pelo ácido gástrico.
Esse
material estranho causa infecção no tecido pulmonar, resultando em pneumonia
aspirativa
Os
sintomas mais comuns de pneumonia, segundo a Fiocruz, são:
- tosse com
secreção (pode haver sangue misturado),
- febre alta (que
pode chegar a 40°C),
- calafrios,
- falta de ar,
- dor no peito
durante a respiração.
O
diagnóstico é feito por exame clínico e raio-x do tórax. Exames complementares
também podem ser necessários para identificar o agente causador da doença.
O
tratamento depende do micro-organismo causador da doença. Nas pneumonias
bacterianas, são usados antibióticos, como é o caso do ex-presidente.
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Visitas no hospital só com autorização expressa
Moraes
autorizou que Bolsonaro seja acompanhado no hospital pela esposa Michelle,
podendo receber visitas dos filhos Flávio, Carlos, Jair Renan e Laura, e da
enteada Letícia.
O
ministro também estabeleceu que Bolsonaro seja acompanhado por segurança e
fiscalização 24 horas durante a internação, com a presença de, no mínimo, dois
policiais militares na porta do quarto de hospital.
E vedou
a presença na UTI e no quarto hospitalar de qualquer celular, computador ou
dispositivos eletrônicos não relacionados ao cuidado médico.
Outras
visitas a Bolsonaro no hospital só poderão ocorrer com expressa autorização
judicial, explicitou Moraes na decisão.
• Prerrogativas questiona possível prisão
domiciliar para Bolsonaro
O grupo
jurídico Prerrogativas afirmou que a eventual concessão de prisão domiciliar a
Jair Bolsonaro (PL) representaria uma aplicação seletiva da lei penal no país,
informa a Folha de São Paulo. A discussão ganhou força após a
Procuradoria-Geral da República (PGR) defender, nesta segunda-feira (23), a
adoção da medida, que será analisada pelo ministro Alexandre de Moraes, do
Supremo Tribunal Federal (STF).
De
acordo com nota do grupo, a concessão do benefício deve ser analisada sob o
princípio da igualdade jurídica, sem favorecimentos. A posição foi reforçada
pelo coordenador do Prerrogativas, Marco Aurélio de Carvalho, que destacou a
necessidade de uniformidade na aplicação da legislação penal. Segundo ele, “o
Prerrogativas defende a aplicação da lei sem seletividade, para Chico e para
Francisco. Se para o Bolsonaro cabe o direito de ser transferido para regime
domiciliar, antes disso também cabe o direito para o réu pobre, preto e
periférico que está em situações semelhantes ou até piores”.
A
discussão interna no grupo foi intensificada após a publicação de um artigo
assinado também pelo advogado Roberto Podval, integrante da entidade, que
defende a prisão domiciliar de Bolsonaro sob o argumento de “questão de
humanidade”. A divergência evidenciou diferentes interpretações sobre o alcance
da medida e seus impactos no sistema de Justiça.
Marco
Aurélio de Carvalho também criticou as condições em que Bolsonaro está detido,
comparando com a realidade da maioria dos presos no Brasil. “O Bolsonaro ficou
numa cela de 60 metros quadrados, teve todos os cuidados médicos. Cuidados que
geralmente os presos brasileiros não têm”, afirmou.
Para o
coordenador, a eventual concessão do benefício pode representar riscos
institucionais. Ele alertou para possíveis consequências da decisão ao afirmar:
“O que talvez a Procuradoria Geral da República e o Supremo não tenham
percebido é que estão criando um jacaré na banheira. Se virarem de costas, não
sabemos o que pode acontecer”.
Carvalho
ainda avaliou que o caso coloca o Judiciário diante de uma oportunidade de
reafirmar sua independência. “Esse caso é uma oportunidade para o STF mostrar
neutralidade, sua vocação contramajoritária, que não vai se deixar pressionar
pela opinião pública ou por grupos ou hordas”, declarou.
A
análise do pedido pela Suprema Corte deve ocorrer nos próximos dias, em meio a
um cenário de forte repercussão política e jurídica sobre o tratamento dado a
figuras públicas no sistema penal brasileiro.
• Se Bolsonaro vai para casa, milhares de
presos doentes deveriam ir também. Por Paulo Henrique Arantes
O vai
da valsa indica que Jair Bolsonaro cumprirá sua pena, ainda embrionária, em
prisão domiciliar. As razões do benefício seriam seus problemas de saúde e a
impossibilidade de tratá-los no cárcere. Apesar da evidente dramatização do seu
quadro médico – a vitimização, como se sabe, é inerente aos covardes –, um
gesto humanitário da Justiça, leia-se Alexandre de Moraes, constituirá
demonstração de grandeza perante alguém que jamais faria algo parecido se as
posições fossem invertidas.
Presos
famosos geram manchetes constantes. Bolsonaro é ex-presidente da República e
sua vida é de interesse público; portanto, não erra a imprensa ao destacar cada
soluço dele. Mas os jornalistas deveriam, em paralelo, ocupar-se de relatar a
desumanidade reinante nos presídios brasileiros e o número enorme de presos
que, por doença e impossibilidade de tratamento adequado na cadeia, deveriam
estar em regime domiciliar. Se a questão é humanitária, que se humanize de fato
a abordagem do tema.
Os
últimos levantamentos dos órgãos oficiais informam haver 900 mil pessoas
encarceradas no Brasil, das quais em torno de 560 mil estão condenadas – as
demais permanecem presas em caráter provisório. Estudos realizados pelo
Departamento Penitenciário Nacional, hoje transformado em Secretaria Nacional
de Políticas Penais, revelam que 10% dessas pessoas podem ter doença grave, ou
seja, 56 mil indivíduos, se considerados aqueles que cumprem pena, e 90 mil, se
levados em conta também os provisórios.
Sabe-se
que doenças crônicas cardíacas e renais, além da diabetes, são
subdiagnosticadas no ambiente carcerário. Também se tem conhecimento de que a
tuberculose afeta 30 vezes mais os indivíduos que vivem em presídios, entre os
quais são prevalentes os transtornos mentais graves. Esses brasileiros, que
cometeram crimes variados, mas não tentaram destruir as instituições da
República nem planejaram assassinar o presidente eleito, sobrevivem com falta
de médicos, acesso mínimo a exames e precários hospitais de custódia.
Um
mutirão institucional no estado de Roraima, realizado em 2018 e 2019 pelo
Judiciário local, por meio das Varas de Execuções Penais, pelo Grupo de
Monitoramento do Sistema Carcerário e por profissionais de saúde, avaliou
pedidos de prisão domiciliar por motivos médicos. Foi realizada avaliação
clínica caso a caso, numa ação que não constituiu levantamento estatístico
puro, mas processo decisório com base médica. Dos 337 presos avaliados, 142
foram mandados para prisão domiciliar – nada menos que 42%.
O
levantamento de Roraima, um experimento institucional raro, deveria ser
replicado no país inteiro, tendo comprovado a existência de uma demanda
reprimida por prisão domiciliar devido a problema de saúde e o fato de que o
sistema prisional não consegue atendê-la.
A
provável ida de Bolsonaro para casa deveria servir de gatilho para que milhares
de outros criminosos doentes seguissem o mesmo caminho. Motivação humanitária
não deveria servir apenas ao menos humanizado dos políticos brasileiros.
Fonte:
BBC News Brasil

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