O
imperialismo está nu: era Trump retrata não a força do gigante do norte, mas
sua decadência
Muito
resumidamente, poderíamos pensar o surgimento do imperialismo, a partir do
que descreveu Lenin, como a fase do
monopólio capitalista, que passou a ocorrer na virada do século XIX para o XX.
“Estamos falando, portanto, de nações imperialistas que
sistematicamente e sob diferentes formas, drenam os recursos da periferia,
lançando mão de mecanismos econômicos e extraeconômicos, como as guerras, as
ocupações coloniais e anexações territoriais”, pontua a professora e
pesquisadora Juliane Furno, autora do
livro Imperialismo: uma
introdução econômica (Da Vinci Livros, 2022) “O trumpismo
reconfigura o estilo da hegemonia norte-americana, deslocando a ênfase
da liderança liberal-multilateral para um modelo de dominação transacional e
coercitiva, com maior centralidade de tarifas, sanções, recuperação da
pungência econômica, militarização e contenção tecnológica. Não se trata de
retorno simples ao protecionismo clássico, mas de um uso geoeconômico de
instrumentos de Estado em um capitalismo já profundamente globalizado,
financeirizado e tecnologicamente monopolista”, explica em entrevista concedida
por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
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Confira a entrevista.
·
O que é o “imperialismo” e até que ponto ele continua
como uma categoria válida para a compreensão do mundo contemporâneo?
Juliane
Furno – O imperialismo foi definido
pelos clássicos do marxismo, em especial
por Lenin como uma fase, a fase própria
do capitalismo quando este tornou-se monopolista, na virada para o
século XX. Portanto, não estamos tratando de uma política ou de uma opção, mas
dá própria natureza do capitalismo com base no desenvolvimento das leis
tendenciais e gerais e desenvolvimento, tal como Marx teorizou. O imperialismo,
portanto, é um processo histórico na qual os capitais das nações mais
desenvolvidas precisam, para se reproduzir em escala ampliada, da subjugação da
periferia. Estamos falando de nações imperialistas que,
sistematicamente e sob diferentes formas, drenam os recursos da periferia,
lançando mão de mecanismos econômicos e extraeconômicos, como as guerras,
as ocupações coloniais e anexações territoriais. Sendo
o imperialismo a fase própria do capitalismo atual, é
impossível analisá-lo prescindindo dessa categoria. Embora a forma de atuação
do imperialismo hoje seja distinta daquela que o formou, o imperialismo não
perdeu força nem primazia explicativa da dinâmica global, apenas melhor se
adaptou ao momento histórico.
·
Pensando em uma espécie de genealogia do imperialismo,
muito embora o conceito tenha ficado mais conhecido na segunda metade do século
XX, quais as características que marcam as diferentes fases do imperialismo,
digamos assim, do clássico ao contemporâneo?
Juliane
Furno – O imperialismo passou por, basicamente, três grandes fases. A
primeira delas foi muito bem compreendida pelos autores clássicos do marxismo,
tais como Lenin, Rosa Luxemburgo, Rudolf Hilferding e Nikolai Bukharin.
Nessa fase, que vai da virada do século XIX para o século XX, as principais
características que marcaram a ação imperialista das potências centrais foram a
reatualização das políticas coloniais; a partilha do mundo – em um mundo já
partilhado, por isso acirrando o conflito global que levará à primeira guerra
mundial –; os monopólios e exclusivismos metropolitanos; as conquistas
territoriais e anexações coloniais; e o advento da primazia da exportação de
capitais em detrimento da exportação de mercadorias, selando o papel central
que vai adquirir o sistema financeiro e a dependência
financeira na periferia. Isso tudo era exercido, prioritariamente, por
mecanismos que Marx denominaria de “acumulação primitiva” ou
originária de capitais. Ou seja, as nações centrais vão fortalecer o nascente
capitalismo lançando mão de práticas não exatamente “capitalistas” ou não
exatamente de “mercado”. Ou seja, os instrumentos recorrentes vão ser a
coerção, a violência, as anexações territoriais, a pilhagem.
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Pós-guerra
No
pós-Segunda Guerra, o imperialismo vai se reorganizar menos como colonialismo
direto e mais como uma ordem internacional. Surge o que o
franco-egípcio Samir Amin chamaria de imperialismo coletivo, em
uma alusão ao caráter subordinado que as potências imperialistas da Europa
ocidental e do Japão tinham em relação aos EUA. Portanto,
um imperialismo coletivo, mas hierarquizado. Para Amin, o imperialismo coletivo
se caracteriza pela existência de cinco grandes monopólios: o monopólio da
tecnologia, do
controle dos fluxos financeiros/mercados globais, do acesso aos recursos
naturais, da comunicação e das armas de destruição em massa (poder militar). Portanto,
nesse período o imperialismo vai se expressar, sobretudo, pelo poder
do dólar como nova moeda-chave e das instituições multilateriais (Fundo
Monetário Internacional e Banco Mundial) e como poder militar e alianças,
selado na construção da Organização do
Tratado do Atlântico Norte – Otan e no espraiamento das bases
militares americanas. Em uma frase: no pós-1945, o imperialismo é a
expressão externa da necessidade interna do capital monopolista de encontrar
saídas para o excedente, combinado com hegemonia político-militar –
especialmente dos EUA – e a expansão das corporações e do capital
para a periferia. Na caracterização de Paul Baran e Paul Sweezy,
o imperialismo do pós-Segunda Guerra é a forma internacional assumida pelo
capitalismo monopolista sob hegemonia dos EUA, e ele deve ser entendido
a partir de um problema estrutural do próprio centro, que é a tendência à
estagnação. Para contornar essa tendência de um crescimento acelerado do
capitalismo que gera muito mais “excedente” do que capacidade interna de
absorvê-los, o imperialismo irá funcionar como uma válvula externa de absorção
desse excedente, principalmente via exportações de capitais (sobretudo
investimento direto e financeiro para a periferia), expansão das grandes
corporações e pela apropriação do excedente da periferia, que se dá, em
especial, por lucros repatriados, controle de setores estratégicos e pela troca
desigual.
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Imperialismo contemporâneo
Por
fim, há a fase contemporânea do imperialismo, que vem se desenvolvendo dos anos
1970 para cá. O primeiro ponto, mais uma vez, foi o poder do imperialismo
estadunidense através
do controle do dólar. O aumento da taxa de juros dos títulos americanos, em
1979, e a valorização subsequente do dólar levou a um movimento de
enquadramento dos aliados dos EUA e de penalização da periferia,
através do que ficou conhecido como crise da dívida externa. O
imperialismo contemporâneo também vai se estruturar a partir da reestruturação
produtiva e da emergência das cadeias globais de valor, ou, na expressão
de Itan Suwandi, nas “cadeias de valor trabalho”, que tem como objetivo a
arbitragem do valor da força de trabalho e o aumento da superexploração. Parto
da análise feita por Ellen Wood, para quem o imperialismo não terminou nem
se enfraqueceu pela sua nova conformação “sem colônias”. De acordo com a
autora, a ausência relativa de ocupações territoriais, que se mantém
atualmente, não significa o fim do imperialismo, mas – justamente – a
emergência da forma mais avançada de imperialismo especificamente capitalista. Enquanto
no período ainda de desenvolvimento do capitalismo o imperialismo comportava-se
com uma faceta correlata a explorações de tipo extra econômica, no período
atual – de maturidade do capitalismo – os mecanismos próprios de mercados são
muito mais proeminentes que a exploração extraeconômica, o que não limita nem
enfraquece o imperialismo, só o que ressignifica em um contexto de maturidade
capitalista. A revisão aos clássicos sugere que a forma prioritária de
recorrência a formas de extração de mais valor extraeconômicas estava
em consonância com um tempo histórico no qual o capitalismo ainda não tinha
adquirido sua maturidade, no que diz respeito às operações das suas leis gerais
em escala global.
·
Um conceito correlato é o de “globalização”. Qual a
relação entre as categorias de imperialismo e globalização e como elas têm
explicado as relações entre os países no mundo contemporâneo?
Juliane
Furno – Essa questão me lembra que uma vez li um texto que o economista
marxista indiano Prabhat Patnaik, escreveu no fim da década de 1990. Ele
formulou críticas contundentes a setores da esquerda pelo relativo abandono
e/ou pela substituição da categoria “imperialismo” pela de “globalização”. Concordo
que a questão não é meramente semântica. O esvaziamento dessa categoria – que
mobilizou gerações de revolucionários desde o fim do século XIX – significou,
em grande medida, a legitimação de um projeto de dominação cujo êxito se amplia
precisamente quando seus mecanismos permanecem obscurecidos. Globalização pode ser até
compreendida como uma das subfases do imperialismo contemporâneo, ou mesmo um
dos seus mecanismos, sobretudo no aspecto financeiro, mas jamais substituirá a
noção de imperialismo, que transcende a era da globalização, que por sinal está
em xeque exatamente por força do novo imperialismo estadunidense.
·
Donald Trump e Marco Rubio têm discursos
contundentes contra países fora o eixo EUA-Europa. Que tipo de imperialismo
temos testemunhado no governo Trump?
Juliane
Furno – A era Trump – entendida
aqui como o ciclo político inaugurado em 2016 e radicalizado a partir do
segundo mandato, assim como o conjunto de práticas e coalizões sociais e
ideológicas que o sustentam – evidencia uma inflexão do paradigma anterior de
exercício da hegemonia imperialista que foi erigida no pós-Segunda Guerra
Mundial e a aceleração de uma ofensiva
restauradora global.
O trumpismo reconfigura o estilo da hegemonia norte-americana,
deslocando a ênfase da liderança liberal-multilateral para um modelo de
dominação transacional e coercitiva, com maior centralidade de tarifas,
sanções, recuperação da pungência econômica, militarização e contenção
tecnológica. Não se trata de retorno simples ao protecionismo clássico, mas de
um uso geoeconômico de instrumentos de Estado em um capitalismo já
profundamente globalizado, financeirizado e tecnologicamente monopolista. Parto
da perspectiva de que o imperialismo mais “nu e cru” dos EUA na
era Trump, ou seja, de um imperialismo sem o recurso de muitos
subterfúgios retóricos, é expressão menos da força dos EUA e mais da sua
decadência – Juliane Furno
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Quando nascem os monstros
As
características centrais da atual fase do capitalismo global podem
ser definidas, em termos gramscianos, como um período de “interregno”, que pode ser lido
como um momento de prolongada crise política e crise de hegemonia, no qual o
antigo equilíbrio vai se desfazendo enquanto o novo ainda não tomou forma.
Na era Trump nós estamos sendo testemunhas oculares dos estertores da
hegemonia dos EUA e dos últimos espasmos de um poder que já não sabe mais
persuadir, apenas punir. Por isso, a ascensão de Donald Trump não é
apenas um desvio acidental, mas uma expressão política do esgotamento da
hegemonia americana, caracterizado por um modelo que já não consegue mais
produzir o que produziu no seu período dourado: estabilidade, previsibilidade e
legitimidade. Quando a potência hegemônica não consegue mais organizar o
sistema, falamos em “império em declínio”, com toda a
ressalva de que tal afirmação não significa a anunciação de um colapso.
Significa, entretanto, o reconhecimento de uma perda de capacidade de
estabilizar, organizar e legitimar a ordem internacional. O uso desmedido de
instrumentos econômicos e, sobretudo, militares, tais como as ações recentes
envolvendo Venezuela, Irã e as possíveis
ofensivas já anunciadas sob Cuba, Groenlândia, México e Colômbia,
são o prenúncio de uma inflexão imperialista que busca retomar, pela força, o
que anteriormente se organizava em bases mais consensuais.
·
Qual é a “cara” do imperialismo hoje?
Juliane
Furno – A “cara” do imperialismo hoje, como já mencionei, é
menos a ocupação colonial direta e as ações militares, embora ela ainda exista
e tenha ganhado proeminência na atualidade, e mais um sistema de comando e de
captura do excedente global que combina cadeias produtivas transnacionais,
mecanismos de transferência de valor da periferia ao centro, monopólios
tecnológicos e de propriedade intelectual, poder financeiro-dólar e coerção
geoeconômica/militar. O núcleo “produtivo” e “econômico” aparece como um
processo de arbitragem global do trabalho, que ocorre no processo de
deslocamento da força de trabalho para os locais onde ela é mais barata e
vulnerável, enquanto o valor (lucro) é apropriado onde estão as grandes marcas,
o design, as finanças e propriedade intelectual. É um processo
em que a produção é feita na periferia, mas o valor vai ser contabilizado
no PIB dos países em que estão localizadas as grandes empresas. É a
tese do John Smith sobre “global labor arbitrage”,
“superexploração” e “ilusão do PIB” como relação predominante no imperialismo
contemporâneo.
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Monopólios
Outra
dimensão contemporânea, já parcialmente explicitada acima, é a fase
de fortalecimento dos monopólios que geram, por sua vez, rendas de
monopólios e reforçam hierarquias, como o domínio tecnológico (incluindo
patentes), o controle financeiro, o acesso a recursos naturais, o controle da
comunicação e superioridade militar. Isso ajuda a explicar por que ter
indústria ou mesmo sem um país industrializado não basta, já que sem controle
dos nós estratégicos, como tecnologia/finanças/padrões, o país pode produzir
muito e capturar pouco.
Há
também, a partir da leitura do autor Michael Hudson, uma faceta
financeira que fortalece e redefine o imperialismo contemporâneo. Podemos
caracterizar como um imperialismo de endividamento e de
manutenção de uma arquitetura financeira coercitiva. Portanto, há uma
forma do imperialismo que está centrada na capacidade dos EUA de
financiar seus déficits gêmeos (na conta corrente e no resultado primário), via
sistema dólar, convertendo a arquitetura monetária atual em um mecanismo de
transferência de valor e de disciplinamento sob os países periféricos.
Na
prática contemporânea, isso se soma ao uso de sanções, compliance, leis
anticorrupção e extraterritorialidade, que transformam as finanças em
instrumento geopolítico de coerção e extração de valor. Por fim, há um tema
bastante novo, mas com potencial de desenvolvimento que é o da disputa por
tecnologias críticas,
tais como chips, IA, dados, plataformas e outras tecnologias
que já viraram parte do comando imperial. Portanto, quem controla
a infraestrutura digital e a propriedade intelectual também
controla os termos de inserção, assim como a vigilância, impõe dependência
tecnológica e captura o valor.
·
Em que medida, no contexto latino-americano, o
anti-imperialismo continua sendo uma luta das esquerdas nacionais e a partir de
que ponto essa luta deixou de ser travada?
Juliane
Furno – Dentro de uma tradição teórica que vem dos movimentos de
libertação nacional latino-americanos, o anti-imperialismo na
América Latina continua
sendo uma pauta estrutural porque a própria luta de classes não se
esgota no interior do Estado-nação dependente, incluindo, necessariamente, a
disputa contra os mecanismos externos que bloqueiam o pleno exercício da
soberania e do desenvolvimento. O imperialismo molda uma estrutura desigual
entre centro e periferia, por isso a luta de classes nos países dependentes
passa, necessariamente, pela centralidade da questão nacional, articulando
dimensões anti-imperialistas e anticapitalistas. O nacionalismo na periferia
do capitalismo não é uma pauta conservadora, muito menos abstrata. É a
disputa concreta por margem de decisão sobre moeda, finanças, política
industrial, tecnologia, energia, recursos naturais e integração regional, ou seja,
é ampliar a soberania sobre como se organiza a reprodução social e a acumulação
num país dependente. A questão nacional, especialmente latino-americana, não
nega o caráter classista da luta política, é exatamente a afirmação da luta
classe por conectar dominação interna e externa. Todas as revoluções
latino-americanas (mexicana, cubana, salvadorenha, nicaraguense) foram feitas
sob as consignas nacionais e, por isso mesmo, desafiaram
o imperialismo e o capitalismo. Sobre a segunda parte da
questão, não é que o anti-imperialismo tenha desaparecido
completamente, mas ele deixou de ser o eixo organizador hegemônico em partes
importantes da esquerda
latino-americana a
partir de uma virada histórica bem identificável, que podemos situar no início
da década de 1990. Com a derrota/encerramento de ciclos revolucionários, o
colapso do socialismo real e a hegemonia do “não há alternativa” ou “fim da
história”, muitas esquerdas migraram para estratégias de governabilidade, com
foco em políticas sociais e democratização, frequentemente aceitando o núcleo
duro da integração subordinada (financeira/comercial/tecnológica).
·
Quais são ou deveriam ser as principais lutas
anti-imperialistas no contexto brasileiro?
Juliane
Furno – As principais lutas
anti-imperialistas no Brasil tendem
a aparecer como lutas por soberania material, ou seja, por capacidade concreta
de decidir sobre o excedente, investimento, tecnologia e território e não
apenas como retórica diplomática. Do ponto de vista mais macroeconômico, penso
que o Brasil deve reduzir os canais pelos quais o excedente produzido
internamente seja apropriado pelas potências imperialistas. Isso envolve
uma política macroeconômica e cambial que preze pela autonomia,
evitando as amarras permanentes sobre a definição da taxa de taxa e de juros. Penso
também que devemos, de forma contundente, enfrentar a financeirização e a
vulnerabilidade externas, impondo controles domésticos sobre os fluxos de
capitais, sobre a dívida e revendo a mecânica das remessas de lucro.
Por
fim, equipar o Estado de capacidade e autonomia política, voltando a falar e a
exercitar a capacidade de planejamento, guiado por uma perspectiva
de projeto de Brasil, pautando em transformações estruturais. Outro ponto
que acho que concretiza a luta anti-imperialista no Brasil é a defesa
do controle sobre as commodities estratégicas, cada vez mais
disputadas em tempos de transição ecológica e energética. Por isso, penso que
devemos ousar em uma política petrolífera e energética nacionalista,
fortalecendo a exploração nacional e voltando a reafirmar o papel estratégico
da Petrobras e da Eletrobras. No campo da mineração essa pauta
será ainda mais central, especialmente no campo das terras raras e de outros
minerais essenciais. Finalmente, creio ser fundamental avançar na integração
latino-americana,
para que a luta anti-imperialista tenha um bloco sólido de retaguarda. A
integração produtiva e de infraestrutura regional é um passo importante, assim
como coordenação financeira/comercial para aumentar as margens de manobra da
região e a consolidação de uma plataforma de política externa não subordinada,
intensificando a diversificação de parceiros políticos e comerciais.
·
Quais os riscos para o Brasil, no caso da eleição de
candidatos de direita ou extrema-direita, de voltarmos a uma condição política
de subserviência aos interesses imperialistas?
Juliane
Furno – Uma vitória da extrema-direita tende a recolocar o
Brasil numa posição de maior subserviência, com mecanismos concretos de
política econômica, externa, ambiental e de segurança. Um risco é a troca de
uma diplomacia mais autônoma por um alinhamento ideológico automático e
subordinado. Isso pode levar a mais tensões no campo do esvaziamento do
multilateralismo, pode levar a um isolamento regional e também há o risco de
adesão a agendas que reduzem a nossa margem de manobra, especialmente no campo
produtivo e comercial. Do ponto de vista da estrutura produtiva brasileira, há
risco de agravamento da reprimarização da
economia brasileira,
levando a uma maior vulnerabilidade aos ciclos econômicos. Podemos falar também
sobre a agenda de privatização, que reduz as capacidades de edificação de
um projeto nacional de desenvolvimento.
·
Negri e Hardt cunharam o
conceito de Império. Qual a diferença entre esta categoria e a de imperialismo
e qual sua atualidade?
Juliane
Furno – Negri e Hardt, no seu livro Império apregoaram que
a categoria imperialismo teria ficado obsoleta porque o capitalismo
teria se mundializado a ponto de transcender o Estado-nação. Assim, a soberania
dos países já não repousaria tanto nos Estados, e o poder político e econômico
teria se deslocado destes para as grandes corporações, com atuações e
interesses transnacionais. Essa ideia torna anacrônica a disputa imperialista
conduzida por Estados nacionais que teria caracterizado a noção de
imperialismo. Portanto, esses autores constatam que as soberanias nacionais
foram desterritorializadas e agora apresentam-se em redes. Há ainda um papel
para os Estados nacionais, mas menos potente que as corporações e,
principalmente, os organismos multilaterais, o que daria ao império uma ideia
de “governança global” compartilhada. Nessa leitura, a categoria imperialismo
declina junto com a de Estado-nação. O imperialismo teria sido uma ideia
apropriada para a época moderna do capitalismo. Na pós-modernidade,
diferentemente dos conflitos interimperiais clássicos e empresas atendendo
e atuando através dos seus Estados nacionais, o que há é uma ordem global
relativamente integrada, o que eles chamam de império, e os conflitos foram
reconfigurados. Nessa nova ordem as desigualdades estruturais teriam
sido mais diluídas, na medida em que a periferia também está no centro. Na
minha avaliação crítica dessa noção, a divisão econômica do mundo não apenas se
manteve, mas também se aprofundou. Os Estados centrais seguem sendo centrais e
seguem sendo imperialistas. A governança global não foi substituída pelos
organismos multilaterais, basta ver o papel patético e inoperante que, hoje,
cabe à ONU. Além disso, a ideia
de fim do imperialismo foi, justamente, proclamada quando a realidade
acirrou um conjunto de guerras, golpes e pressões políticas externas. Portanto,
repito, o mundo não passou pela preponderância de uma governança difusa, ele
seguiu tendo instrumentos militares e, sobretudo, estatais muito claros. Na
filiação leninista que eu assumo, o imperialismo é a forma política
do capitalismo quando este atinge o estágio de
concentração/centralização de capitais e de oligopolização/monopolização.
Portanto, enquanto houver capitalismo nessa fase histórica, haverá
imperialismo.
·
É possível pensar o anti-imperialismo a partir de uma
perspectiva decolonial e da autonomia dos povos?
Juliane
Furno – O imperialismo não é só uma “política externa”, mas um
sistema de dominação que organiza hierarquias globais e produz subordinação por
mecanismos econômicos, políticos e militares. Nessa chave de leitura,
o anti-imperialismo é uma luta por autonomia e
autodeterminação dos povos, ou seja, sobre a capacidade dos povos decidirem sobre o
uso do seu território, sobre o excedente do trabalho social, sobre o emprego de
tecnologias e de formas de vida. A luta pela “autodeterminação” dos povos foi
um dos temas centrais que mobilizou a reflexão e a polêmica entre diversos
marxistas no contexto da II Internacional Socialista. Lenin foi
o vencedor desse debate, apontando a centralidade das lutas anticoloniais e por
autodeterminação dos povos, inclusive em contrariedade a importantes teóricos
marxistas como Bukharin e Rosa Luxemburgo. Sobre a
perspectiva decolonial, eu não trabalho com essa categoria ou nessa
filiação teórica. Sou marxista, parto da crítica da economia política e, embora
eu acredite que a colonização e as lutas anticoloniais são centrais, a
perspectiva decolonial tende a privilegiar elementos, como epistemologias e
cosmovisões, os quais eu não aprofundo.
Fonte: Entrevista
com Juliane Furno, para IHU

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