terça-feira, 24 de março de 2026

Verbena Córdula: O preço da supremacia - as lições do Estreito de Ormuz

Observamos, com certa perplexidade (e com satisfação), que os Estados Unidos — autoproclamados “guardiões da ordem internacional” — recorreram recentemente a uma prática desconcertante (para eles). Solicitar a colaboração de aliados e, pasme-se, de rivais estratégicos como a China, para intervir no estreito de Ormuz, sugere uma curiosa inversão de papéis — o “império”, acostumado a ditar regras, agora depende de outros para garantir a segurança de uma rota vital. Essa circunstância indica, de forma sutil (mas reveladora), que a supremacia estadunidense talvez não seja tão incontestável quanto se proclama. É um lembrete irônico de que até hegemonias ostensivas enfrentam os limites da realidade.

<><> Simbólico e ineficaz

É particularmente interessante refletir sobre a escolha de interlocutores nesse contexto. A China, tradicionalmente apresentada nos discursos estadunidenses como rival estratégico quase absoluto, é convocada a colaborar em um assunto que afeta diretamente os interesses do “império”. A situação tem um quê de tragicômico — ou, se quisermos manter a compostura acadêmica, de profundamente simbólico — ao revelar que o poder estadunidense, mesmo com a habitual retórica de firmeza, enfrenta limites práticos que a força militar não consegue transpor. Apelar para a cooperação de atores historicamente percebidos como “ameaças”, como a China comunista, expõe a fragilidade de uma narrativa que insiste em demarcar a posição global dos EUA como incontestável. É como se, discretamente, o “império” admitisse que seu monopólio sobre a segurança global — conceito tantas vezes reiterado em discursos oficiais — não passa de uma convenção vulnerável às necessidades do momento.

E, para completar o quadro, imaginemos Trump, em tom de ultimato diplomático, que mistura pirotecnia retórica com improviso presidencial, afirmando: “Se a China não colaborar, cancelarei minha ida a Pequim”. O gigante armado até os dentes, que possui aliados e bases militares espalhadas pelo mundo, agora parece negociar sua autoridade com base em agendas de viagem e ameaças quase pessoais (é muito risível). Em um mundo globalizado e interdependente, até a projeção de poder mais ostensiva se submete a pequenos gestos de diplomacia performática. E tem mais. A reação chinesa (quase que com certeza equilibrada entre pragmatismo e ceticismo) reforça o ponto central da ironia. A cooperação, se ocorrer, será motivada não pelo receio de retaliação verbal, mas pelo cálculo estratégico e pelos interesses próprios de Pequim. Aliás, sobre essa questão estratégica, já escrevi um artigo aqui, na revista Diálogos do Sul Global, refletindo sobre o papel da China e da Rússia frente às ameaças estadunidenses, na ocasião da invasão da Venezuela e captura do presidente Maduro e de sua esposa. Mas, voltando ao ultimato de Trump, podemos afirmar que revela-se tão simbólico quanto ineficaz. O “império”, acostumado a ver seus desejos transformados em ação, descobre que nem sempre o poder se traduz automaticamente em obediência — e que força bruta ou “blá-blá-blá” retórico têm limites concretos no mundo real.

O episódio adquire ainda maior densidade sarcástica quando lembramos que a narrativa oficial dos EUA insiste em transmitir invencibilidade e autoridade plena. Dessa forma, enquanto os discursos evocam prontidão militar e influência global incontestável, a prática cotidiana mostra que a hegemonia estadunidense depende da aceitação tácita de outros atores, de negociações delicadas e, em alguns casos, da simples boa vontade de um rival estratégico que não tem obrigação de colaborar. A discrepância entre a pompa do discurso e a necessidade de persuasão é, por si só, um lembrete sutil de que o poder global moderno é relacional, contingente e, frequentemente, precário.

A conjunção de dependência estratégica, de rivalidades internacionais e de improvisos presidenciais cria um quadro quase caricatural, mas ilustrativo. Porque o “império” que outrora se apresentava como árbitro incontestável de segurança global agora se vê forçado a articular soluções complexas enquanto lida com as próprias limitações internas — políticas, diplomáticas e até pessoais. Nesse contexto, a política externa estadunidense se transforma em um jogo de equilíbrio não tão firme quanto dissimula, no qual as ameaças retóricas, as agendas presidenciais e os interesses estratégicos alheios coexistem em tensão constante, revelando que até “impérios” bem-armados podem depender de gestos simbólicos e de negociações minuciosas para sustentar sua autoridade.

Solicitar apoio externo em uma região tão sensível também demonstra um fenômeno frequentemente negligenciado, qual seja, a diplomacia da dependência. Por décadas, os EUA se apresentaram como a força que poderia (com base em sua superioridade tecnológica e militar) assegurar o fluxo de petróleo e de gás natural que alimenta economias do mundo inteiro. Hoje, no entanto, vê-se obrigado a mobilizar aliados e rivais em nome de uma operação de segurança que, em teoria, deveria ser sua responsabilidade primária. A ironia, neste caso, reside na inversão das expectativas clássicas — o país que sempre ofereceu proteção como condição de estabilidade internacional, agora demonstra que sua autonomia é relativa, e que sua capacidade de agir unilateralmente encontra limites concretos na geopolítica contemporânea. Esse  cenário sugere que a narrativa de supremacia plena talvez seja menos um reflexo da realidade e mais um esforço retórico cuidadosamente cultivado.

<><> Aparência de invencibilidade versus realidade

Não deixa de ser interessante também examinar o simbolismo do estreito de Ormuz nessa equação. Este corredor estratégico, por onde passam diariamente milhões de barris de petróleo, tornou-se, ao longo do tempo, um ícone de vulnerabilidade global — e, de maneira paradoxal, um espelho das próprias fragilidades do poder estadunidense. A insistência em recorrer a terceiros para “garantir” a segurança do estreito pode ser interpretada como um sinal de que o “império” (embora ainda poderoso, não nos esqueçamos) reconhece, mesmo que implicitamente, que seu controle direto sobre os acontecimentos é limitado. A grande potência que se orgulha de sua capacidade de projetar poder global, hoje se encontra em posição de dependência estratégica, o que é, no mínimo, digno de reflexão irônica. A magnitude da dependência revela, por si só, que hegemonia e vulnerabilidade coexistem de forma inesperadamente próxima (o mundo dá tantas voltas…).

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No plano simbólico, há, ainda, uma dimensão quase tragicômica na forma como a narrativa de supremacia estadunidense se choca com a prática real. A retórica oficial insiste em ressaltar a ideia de força implacável, mas a realidade do pedido de colaboração feito por Trump sugere que a manutenção da influência global não é mais uma questão de mera imposição, e sim de articulação habilidosa — negociação, concessões e, em alguns casos, apelos discretos a rivais potenciais. É uma ironia que se desdobra. Vejamos. A aparência de invencibilidade permanece, mas a prática cotidiana revela que a autoridade se sustenta mais na interdependência estratégica do que na pura capacidade coercitiva. Ademais, esta dualidade, se analisada com lentes acadêmicas, oferece uma janela rara para compreender o caráter mutável do poder global contemporâneo.

Essa tensão entre discurso e prática se manifesta de forma ainda mais evidente quando se considera a necessidade de negociação com atores tradicionalmente classificados como rivais ou adversários. O “império” que se apresenta como detentor incontestável de regras globais se vê obrigado a lidar com a autonomia e os interesses próprios de outros Estados, confrontando limitações que nem sua superioridade militar consegue contornar. Uma condição que diminui, mesmo que discretamente, a margem de manobra unilateral e revela a fragilidade das certezas retóricas proclamadas em discursos oficiais. O cenário expõe, de forma sutil e irônica, que a autoridade global não é linear — é relacional, é negociada e, acima de tudo, dependente do contexto político internacional, lembrando que até hegemonias ostensivas enfrentam fronteiras invisíveis de poder e influência.

<><> Lição histórica valiosa

Além disso, a insistência em manter uma narrativa de força absoluta cria um contraste quase tragicômico quando confrontada com a realidade logística e política. Os EUA continuam ostentando bases militares, equipamentos sofisticados e presença global ostensiva, mas estes recursos, por si só, não garantem a obediência nem a cooperação automática. A resistência (ou neutralidade de aliados, como se queira classificar), como se observou com Alemanha, Grécia e Reino Unido, demonstra que a execução do poder estadunidense depende tanto de capacidades materiais, como também (e talvez, principalmente) de consentimento estratégico — algo que a retórica de supremacia raramente admite. É a prova de que hegemonias bem-armadas podem ser poderosas em aparência, mas vulneráveis na prática.

A dimensão econômica do poder também reforça essa ironia. O estreito de Ormuz, por onde passa grande parte do petróleo mundial, é vital para a economia global. Qualquer crise naquela região afeta o fluxo de energia e expõe, publicamente, os limites da capacidade de Trump e sua “gangue” de proteger interesses estratégicos sem cooperação internacional. A necessidade de articular soluções com atores que possuem agendas próprias evidencia que o controle sobre rotas vitais não é absoluto — e que a narrativa de invencibilidade deve coexistir com uma realidade de dependência econômica e diplomática. Aqui, o “império” descobre que nem mesmo o dinheiro (aliado histórico da força) resolve todos os impasses.

Discursos oficiais, mídia e relatórios de política externa insistem em ressaltar a superioridade estadunidense e a prontidão para intervir em qualquer ponto do globo. No entanto, o mundo precisa enxergar, com a acuidade necessária, que o “império” precisa negociar, ceder e até suplicar, em termos diplomáticos, por apoio ou neutralidade. Essa disparidade entre narrativa e prática oferece uma lição estratégica. Sim. A de que o poder contemporâneo não é refém unicamente da capacidade militar, mas precisa, de modo equivalente, da habilidade de gerir relações complexas, de adaptar-se a contingências e de aceitar que, mesmo as potências mais ostensivas, enfrentam limitações significativas.

Esse pedido de socorro feito por Trump revela que a supremacia estadunidense atual é, na prática, dependente de múltiplos fatores externos, sobretudo da disposição de outros Estados. É um lembrete de que hegemonias contemporâneas se sustentam tanto na percepção de poder como também na capacidade de negociar, e que a vulnerabilidade é um componente inseparável da autoridade global. Tenho que admitir: é bom ver essa vulnerabilidade em um “império” tão arrogante. Lamento, no entanto, que isso esteja ocorrendo em um contexto tão triste e catastrófico como é um contexto de guerra.

Mas, sentimentos particulares à parte, o que isso significa, de verdade?

Para os países tradicionalmente ameaçados ou pressionados pelos EUA, essa situação oferece uma lição estratégica valiosa. A vulnerabilidade do “império” mostra que a unidade regional e a cooperação estratégica podem servir como instrumentos concretos para equilibrar a balança de poder. Aprender com os limites de “Golias” permite que nações previamente isoladas compreendam que a autonomia coletiva e o planejamento coordenado podem ser mais eficazes do que a subordinação ou a reação impulsiva.

O momento atual oferece uma lição histórica extremamente valiosa, qual seja, a de que a fragilidade percebida do “império”, junto à dependência que ele revela, cria oportunidade para que países ameaçados se unam, desenvolvam capacidade estratégica própria e explorem a interdependência global. Trata-se de um convite sutil à reflexão estratégica, lembrando que a vigilância, a coordenação e a inteligência coletiva podem transformar fragilidade alheia em vantagem concreta. É, em última instância, um lembrete irônico (e pedagógico) de que até os “impérios” mais ostensivos podem ensinar algo — desde que os outros saibam aproveitar a lição com inteligência e cooperação.

A questão, agora, é se (e quando) colocaremos essa lição em prática.

¨      O colapso do mito da invencibilidade de Israel. Por Sayid Marcos Tenório

A atual conjuntura no Oriente Médio não pode ser compreendida como uma mera escalada militar ou uma sequência de confrontos isolados. Trata-se de um momento de inflexão histórica, no qual se evidencia o esgotamento de um modelo de dominação regional sustentado pela supremacia militar de Israel e pelo respaldo estratégico dos Estados Unidos.

Durante décadas, o regime sionista operou sob a premissa de sua invencibilidade. Esse pressuposto não apenas estruturou sua doutrina militar, mas também garantiu sua posição privilegiada no sistema internacional, permitindo-lhe atuar com ampla margem de impunidade diante de reiteradas violações do direito internacional.

No entanto, essa invencibilidade sempre foi menos um fato objetivo e mais um instrumento político, que se sustentou sobre três pilares fundamentais: a assimetria militar em relação aos seus adversários imediatos, o apoio irrestrito das potências ocidentais, em especial dos EUA, e a construção de uma narrativa internacional que legitimava suas ações como defensivas.

Os acontecimentos recentes demonstram que esses três pilares estão, simultaneamente, em processo de erosão.

Na Faixa de Gaza, após um prolongado ciclo de operações marcado por níveis extremos de destruição e genocídio de palestinos, Israel não foi capaz de alcançar seus objetivos estratégicos. A resistência palestina, longe de ser eliminada, manteve-se como ator político e militar relevante.

Esse impasse evidencia uma contradição estrutural: a incapacidade de um projeto de dominação colonial de converter superioridade militar em controle político estável.

No norte dos territórios palestinos ocupados, a consolidação da capacidade dissuasória do Hezbollah impõe limites concretos à ação militar israelense. No Iêmen, forças alinhadas ao campo da resistência demonstram capacidade de interferir em dinâmicas estratégicas globais, ampliando os custos do conflito para o eixo ocidental.

Esse conjunto de fatores revela uma transformação qualitativa no ambiente regional, no qual Israel já não opera em um espaço de superioridade incontestada, mas em um cenário de crescente contenção e desgaste.

O elemento decisivo dessa mudança reside, contudo, no confronto com o Irã.

A resposta iraniana às agressões de Israel e dos EUA representa um ponto de inflexão ao introduzir um novo padrão de dissuasão regional. Ao demonstrar capacidade de atingir alvos estratégicos e de impor custos reais, Teerã rompe com a lógica que, por décadas, sustentou a liberdade de ação israelense.

Essa ruptura tem implicações estruturais. A possibilidade de conduzir operações ofensivas sem sofrer retaliações proporcionais, um dos fundamentos da estratégia israelense, torna-se insustentável.

Dessa forma, o eixo da resistência deixa de operar apenas como força reativa e passa a constituir um polo ativo de equilíbrio estratégico.

Paralelamente, observa-se um processo de desgaste da capacidade dos EUA de sustentar sua posição hegemônica na região. Embora o apoio a Israel permaneça central, ele já não é suficiente para garantir estabilidade nem para conter a crescente capacidade de resposta de atores regionais.

A exposição de bases militares norte-americanas, a ampliação dos custos do engajamento regional e o questionamento crescente de sua legitimidade política indicam limites cada vez mais evidentes ao poder de projeção dos EUA.

Esse processo sugere não apenas uma crise conjuntural, mas uma reconfiguração mais ampla da ordem internacional no Oriente Médio. A transformação em curso não se restringe ao plano militar. Ela é acompanhada por uma erosão significativa da legitimidade internacional de Israel.

As operações em Gaza intensificaram denúncias de violações graves do direito internacional humanitário, contribuindo para uma mudança perceptível na opinião pública global. Mobilizações sociais, campanhas de boicote e o avanço do reconhecimento internacional da Palestina indicam uma inflexão na narrativa dominante.

Nesse contexto, a questão palestina reafirma-se não como um conflito entre partes equivalentes, mas como uma luta de libertação nacional frente a um regime de ocupação e colonização.

As derrotas acumuladas por Israel e pelos EUA, em Gaza, no Líbano, no Iêmen e, de forma decisiva, no confronto com o Irã, devem ser compreendidas como manifestações de um processo mais profundo, de esgotamento de um modelo de dominação baseado na supremacia militar e na intervenção externa.

O chamado Eixo da Resistência emerge, nesse contexto, não apenas como um conjunto de atores reativos, mas como um polo estratégico em ascensão, capaz de redefinir a correlação de forças na região.

Essa transformação aponta para a constituição de um novo arranjo geopolítico no Oriente Médio, no qual a capacidade de impor custos ao eixo dominante altera os parâmetros tradicionais de poder.

O “mito da invencibilidade” de Israel não era apenas uma narrativa simbólica, mas um elemento estruturante de sua estratégia política e militar. Sua erosão não implica o colapso imediato do poder israelense, mas sinaliza a entrada em uma fase de crise estrutural, na qual as bases que sustentavam sua hegemonia deixam de operar com a mesma eficácia.

No caso do Oriente Médio, o que se delineia é a transição de uma ordem regional centrada na dominação externa para uma configuração na qual atores historicamente marginalizados assumem papel central na definição dos rumos políticos e estratégicos da região. Mais do que o fim de um mito, trata-se do início de um novo paradigma.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/Opera Mundi

 

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