Verbena
Córdula: O preço da supremacia - as lições do Estreito de Ormuz
Observamos,
com certa perplexidade (e com satisfação), que os Estados Unidos —
autoproclamados “guardiões da ordem internacional” — recorreram recentemente a
uma prática desconcertante (para eles). Solicitar a colaboração de aliados e,
pasme-se, de rivais estratégicos como a China, para intervir no estreito de
Ormuz, sugere uma curiosa inversão de papéis — o “império”, acostumado a ditar
regras, agora depende de outros para garantir a segurança de uma rota vital.
Essa circunstância indica, de forma sutil (mas reveladora), que a supremacia
estadunidense talvez não seja tão incontestável quanto se proclama. É um
lembrete irônico de que até hegemonias ostensivas enfrentam os limites da
realidade.
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Simbólico e ineficaz
É
particularmente interessante refletir sobre a escolha de interlocutores nesse
contexto. A China, tradicionalmente apresentada nos discursos estadunidenses
como rival estratégico quase absoluto, é convocada a colaborar em um assunto
que afeta diretamente os interesses do “império”. A situação tem um quê de
tragicômico — ou, se quisermos manter a compostura acadêmica, de profundamente
simbólico — ao revelar que o poder estadunidense, mesmo com a habitual retórica
de firmeza, enfrenta limites práticos que a força militar não consegue
transpor. Apelar para a cooperação de atores historicamente percebidos como
“ameaças”, como a China comunista, expõe a fragilidade de uma narrativa que
insiste em demarcar a posição global dos EUA como incontestável. É como se,
discretamente, o “império” admitisse que seu monopólio sobre a segurança global
— conceito tantas vezes reiterado em discursos oficiais — não passa de uma
convenção vulnerável às necessidades do momento.
E, para
completar o quadro, imaginemos Trump, em tom de ultimato diplomático, que
mistura pirotecnia retórica com improviso presidencial, afirmando: “Se a China
não colaborar, cancelarei minha ida a Pequim”. O gigante armado até os dentes,
que possui aliados e bases militares espalhadas pelo mundo, agora parece
negociar sua autoridade com base em agendas de viagem e ameaças quase pessoais
(é muito risível). Em um mundo globalizado e interdependente, até a projeção de
poder mais ostensiva se submete a pequenos gestos de diplomacia performática. E
tem mais. A reação chinesa (quase que com certeza equilibrada entre pragmatismo
e ceticismo) reforça o ponto central da ironia. A cooperação, se ocorrer, será
motivada não pelo receio de retaliação verbal, mas pelo cálculo estratégico e
pelos interesses próprios de Pequim. Aliás, sobre essa questão
estratégica, já escrevi um artigo aqui, na revista
Diálogos do Sul Global, refletindo sobre o papel da China e da Rússia frente às
ameaças estadunidenses, na ocasião da invasão da Venezuela e captura do
presidente Maduro e de sua esposa. Mas, voltando ao ultimato de Trump, podemos
afirmar que revela-se tão simbólico quanto ineficaz. O “império”, acostumado a
ver seus desejos transformados em ação, descobre que nem sempre o poder se
traduz automaticamente em obediência — e que força bruta ou “blá-blá-blá”
retórico têm limites concretos no mundo real.
O
episódio adquire ainda maior densidade sarcástica quando lembramos que a
narrativa oficial dos EUA insiste em transmitir invencibilidade e autoridade
plena. Dessa forma, enquanto os discursos evocam prontidão militar e influência
global incontestável, a prática cotidiana mostra que a hegemonia estadunidense
depende da aceitação tácita de outros atores, de negociações delicadas e, em
alguns casos, da simples boa vontade de um rival estratégico que não tem
obrigação de colaborar. A discrepância entre a pompa do discurso e a
necessidade de persuasão é, por si só, um lembrete sutil de que o poder global
moderno é relacional, contingente e, frequentemente, precário.
A
conjunção de dependência estratégica, de rivalidades internacionais e de
improvisos presidenciais cria um quadro quase caricatural, mas ilustrativo.
Porque o “império” que outrora se apresentava como árbitro incontestável de
segurança global agora se vê forçado a articular soluções complexas enquanto
lida com as próprias limitações internas — políticas, diplomáticas e até
pessoais. Nesse contexto, a política externa estadunidense se transforma em um
jogo de equilíbrio não tão firme quanto dissimula, no qual as ameaças
retóricas, as agendas presidenciais e os interesses estratégicos alheios
coexistem em tensão constante, revelando que até “impérios” bem-armados podem
depender de gestos simbólicos e de negociações minuciosas para sustentar sua
autoridade.
Solicitar
apoio externo em uma região tão sensível também demonstra um fenômeno
frequentemente negligenciado, qual seja, a diplomacia da dependência. Por
décadas, os EUA se apresentaram como a força que poderia (com base em sua
superioridade tecnológica e militar) assegurar o fluxo de petróleo e de gás
natural que alimenta economias do mundo inteiro. Hoje, no entanto, vê-se
obrigado a mobilizar aliados e rivais em nome de uma operação de segurança que,
em teoria, deveria ser sua responsabilidade primária. A ironia, neste caso,
reside na inversão das expectativas clássicas — o país que sempre ofereceu
proteção como condição de estabilidade internacional, agora demonstra que sua
autonomia é relativa, e que sua capacidade de agir unilateralmente encontra
limites concretos na geopolítica contemporânea. Esse cenário sugere que a
narrativa de supremacia plena talvez seja menos um reflexo da realidade e mais
um esforço retórico cuidadosamente cultivado.
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Aparência de invencibilidade versus realidade
Não
deixa de ser interessante também examinar o simbolismo do estreito de Ormuz
nessa equação. Este corredor estratégico, por onde passam diariamente milhões
de barris de petróleo, tornou-se, ao longo do tempo, um ícone de
vulnerabilidade global — e, de maneira paradoxal, um espelho das próprias
fragilidades do poder estadunidense. A insistência em recorrer a terceiros para
“garantir” a segurança do estreito pode ser interpretada como um sinal de que o
“império” (embora ainda poderoso, não nos esqueçamos) reconhece, mesmo que
implicitamente, que seu controle direto sobre os acontecimentos é limitado. A
grande potência que se orgulha de sua capacidade de projetar poder global, hoje
se encontra em posição de dependência estratégica, o que é, no mínimo, digno de
reflexão irônica. A magnitude da dependência revela, por si só, que hegemonia e
vulnerabilidade coexistem de forma inesperadamente próxima (o mundo dá tantas
voltas…).
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No
plano simbólico, há, ainda, uma dimensão quase tragicômica na forma como a
narrativa de supremacia estadunidense se choca com a prática real. A retórica
oficial insiste em ressaltar a ideia de força implacável, mas a realidade do
pedido de colaboração feito por Trump sugere que a manutenção da influência
global não é mais uma questão de mera imposição, e sim de articulação
habilidosa — negociação, concessões e, em alguns casos, apelos discretos a
rivais potenciais. É uma ironia que se desdobra. Vejamos. A aparência de
invencibilidade permanece, mas a prática cotidiana revela que a autoridade se
sustenta mais na interdependência estratégica do que na pura capacidade
coercitiva. Ademais, esta dualidade, se analisada com lentes acadêmicas,
oferece uma janela rara para compreender o caráter mutável do poder global
contemporâneo.
Essa
tensão entre discurso e prática se manifesta de forma ainda mais evidente
quando se considera a necessidade de negociação com atores tradicionalmente
classificados como rivais ou adversários. O “império” que se apresenta como
detentor incontestável de regras globais se vê obrigado a lidar com a autonomia
e os interesses próprios de outros Estados, confrontando limitações que nem sua
superioridade militar consegue contornar. Uma condição que diminui, mesmo que
discretamente, a margem de manobra unilateral e revela a fragilidade das
certezas retóricas proclamadas em discursos oficiais. O cenário expõe, de forma
sutil e irônica, que a autoridade global não é linear — é relacional, é
negociada e, acima de tudo, dependente do contexto político internacional,
lembrando que até hegemonias ostensivas enfrentam fronteiras invisíveis de
poder e influência.
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Lição histórica valiosa
Além
disso, a insistência em manter uma narrativa de força absoluta cria um
contraste quase tragicômico quando confrontada com a realidade logística e
política. Os EUA continuam ostentando bases militares, equipamentos
sofisticados e presença global ostensiva, mas estes recursos, por si só, não
garantem a obediência nem a cooperação automática. A resistência (ou
neutralidade de aliados, como se queira classificar), como se observou
com Alemanha, Grécia e
Reino Unido,
demonstra que a execução do poder estadunidense depende tanto de capacidades
materiais, como também (e talvez, principalmente) de consentimento estratégico
— algo que a retórica de supremacia raramente admite. É a prova de que
hegemonias bem-armadas podem ser poderosas em aparência, mas vulneráveis na
prática.
A
dimensão econômica do poder também reforça essa ironia. O estreito de Ormuz,
por onde passa grande parte do petróleo mundial, é vital para a economia
global. Qualquer crise naquela região afeta o fluxo de energia e expõe,
publicamente, os limites da capacidade de Trump e sua “gangue” de proteger
interesses estratégicos sem cooperação internacional. A necessidade de
articular soluções com atores que possuem agendas próprias evidencia que o
controle sobre rotas vitais não é absoluto — e que a narrativa de invencibilidade
deve coexistir com uma realidade de dependência econômica e diplomática. Aqui,
o “império” descobre que nem mesmo o dinheiro (aliado histórico da força)
resolve todos os impasses.
Discursos
oficiais, mídia e relatórios de política externa insistem em ressaltar a
superioridade estadunidense e a prontidão para intervir em qualquer ponto do
globo. No entanto, o mundo precisa enxergar, com a acuidade necessária, que o
“império” precisa negociar, ceder e até suplicar, em termos diplomáticos, por
apoio ou neutralidade. Essa disparidade entre narrativa e prática oferece uma
lição estratégica. Sim. A de que o poder contemporâneo não é refém unicamente
da capacidade militar, mas precisa, de modo equivalente, da habilidade de gerir
relações complexas, de adaptar-se a contingências e de aceitar que, mesmo as
potências mais ostensivas, enfrentam limitações significativas.
Esse
pedido de socorro feito por Trump revela que a supremacia estadunidense atual
é, na prática, dependente de múltiplos fatores externos, sobretudo da
disposição de outros Estados. É um lembrete de que hegemonias contemporâneas se
sustentam tanto na percepção de poder como também na capacidade de negociar, e
que a vulnerabilidade é um componente inseparável da autoridade global. Tenho
que admitir: é bom ver essa vulnerabilidade em um “império” tão arrogante.
Lamento, no entanto, que isso esteja ocorrendo em um contexto tão triste e
catastrófico como é um contexto de guerra.
Mas,
sentimentos particulares à parte, o que isso significa, de verdade?
Para os
países tradicionalmente ameaçados ou pressionados pelos EUA, essa situação
oferece uma lição estratégica valiosa. A vulnerabilidade do “império” mostra
que a unidade regional e a cooperação estratégica podem servir como
instrumentos concretos para equilibrar a balança de poder. Aprender com os
limites de “Golias” permite que nações previamente isoladas compreendam que a
autonomia coletiva e o planejamento coordenado podem ser mais eficazes do que a
subordinação ou a reação impulsiva.
O
momento atual oferece uma lição histórica extremamente valiosa, qual seja, a de
que a fragilidade percebida do “império”, junto à dependência que ele revela,
cria oportunidade para que países ameaçados se unam, desenvolvam capacidade
estratégica própria e explorem a interdependência global. Trata-se de um
convite sutil à reflexão estratégica, lembrando que a vigilância, a coordenação
e a inteligência coletiva podem transformar fragilidade alheia em vantagem
concreta. É, em última instância, um lembrete irônico (e pedagógico) de que até
os “impérios” mais ostensivos podem ensinar algo — desde que os outros saibam
aproveitar a lição com inteligência e cooperação.
A
questão, agora, é se (e quando) colocaremos essa lição em prática.
¨
O colapso do mito da invencibilidade de Israel. Por Sayid
Marcos Tenório
A atual
conjuntura no Oriente Médio não pode ser compreendida como uma mera escalada
militar ou uma sequência de confrontos isolados. Trata-se de um momento de
inflexão histórica, no qual se evidencia o esgotamento de um modelo de
dominação regional sustentado pela supremacia militar de Israel e pelo respaldo
estratégico dos Estados Unidos.
Durante
décadas, o regime sionista operou sob a premissa de sua invencibilidade. Esse
pressuposto não apenas estruturou sua doutrina militar, mas também garantiu sua
posição privilegiada no sistema internacional, permitindo-lhe atuar com ampla
margem de impunidade diante de reiteradas violações do direito internacional.
No
entanto, essa invencibilidade sempre foi menos um fato objetivo e mais um
instrumento político, que se sustentou sobre três pilares fundamentais: a
assimetria militar em relação aos seus adversários imediatos, o apoio
irrestrito das potências ocidentais, em especial dos EUA, e a construção de uma
narrativa internacional que legitimava suas ações como defensivas.
Os
acontecimentos recentes demonstram que esses três pilares estão,
simultaneamente, em processo de erosão.
Na
Faixa de Gaza, após um prolongado ciclo de operações marcado por níveis
extremos de destruição e genocídio de palestinos, Israel não foi capaz de
alcançar seus objetivos estratégicos. A resistência palestina, longe de ser
eliminada, manteve-se como ator político e militar relevante.
Esse
impasse evidencia uma contradição estrutural: a incapacidade de um projeto de
dominação colonial de converter superioridade militar em controle político
estável.
No
norte dos territórios palestinos ocupados, a consolidação da capacidade
dissuasória do Hezbollah impõe limites concretos à ação militar israelense. No
Iêmen, forças alinhadas ao campo da resistência demonstram capacidade de
interferir em dinâmicas estratégicas globais, ampliando os custos do conflito
para o eixo ocidental.
Esse
conjunto de fatores revela uma transformação qualitativa no ambiente regional,
no qual Israel já não opera em um espaço de superioridade incontestada, mas em
um cenário de crescente contenção e desgaste.
O
elemento decisivo dessa mudança reside, contudo, no confronto com o Irã.
A
resposta iraniana às agressões de Israel e dos EUA representa um ponto de
inflexão ao introduzir um novo padrão de dissuasão regional. Ao demonstrar
capacidade de atingir alvos estratégicos e de impor custos reais, Teerã rompe
com a lógica que, por décadas, sustentou a liberdade de ação israelense.
Essa
ruptura tem implicações estruturais. A possibilidade de conduzir operações
ofensivas sem sofrer retaliações proporcionais, um dos fundamentos da
estratégia israelense, torna-se insustentável.
Dessa
forma, o eixo da resistência deixa de operar apenas como força reativa e passa
a constituir um polo ativo de equilíbrio estratégico.
Paralelamente,
observa-se um processo de desgaste da capacidade dos EUA de sustentar sua
posição hegemônica na região. Embora o apoio a Israel permaneça central, ele já
não é suficiente para garantir estabilidade nem para conter a crescente
capacidade de resposta de atores regionais.
A
exposição de bases militares norte-americanas, a ampliação dos custos do
engajamento regional e o questionamento crescente de sua legitimidade política
indicam limites cada vez mais evidentes ao poder de projeção dos EUA.
Esse
processo sugere não apenas uma crise conjuntural, mas uma reconfiguração mais
ampla da ordem internacional no Oriente Médio. A transformação em curso não se
restringe ao plano militar. Ela é acompanhada por uma erosão significativa da
legitimidade internacional de Israel.
As
operações em Gaza intensificaram denúncias de violações graves do direito
internacional humanitário, contribuindo para uma mudança perceptível na opinião
pública global. Mobilizações sociais, campanhas de boicote e o avanço do
reconhecimento internacional da Palestina indicam uma inflexão na narrativa
dominante.
Nesse
contexto, a questão palestina reafirma-se não como um conflito entre partes
equivalentes, mas como uma luta de libertação nacional frente a um regime de
ocupação e colonização.
As
derrotas acumuladas por Israel e pelos EUA, em Gaza, no Líbano, no Iêmen e, de
forma decisiva, no confronto com o Irã, devem ser compreendidas como
manifestações de um processo mais profundo, de esgotamento de um modelo de
dominação baseado na supremacia militar e na intervenção externa.
O
chamado Eixo da Resistência emerge, nesse contexto, não apenas como um conjunto
de atores reativos, mas como um polo estratégico em ascensão, capaz de
redefinir a correlação de forças na região.
Essa
transformação aponta para a constituição de um novo arranjo geopolítico no
Oriente Médio, no qual a capacidade de impor custos ao eixo dominante altera os
parâmetros tradicionais de poder.
O “mito
da invencibilidade” de Israel não era apenas uma narrativa simbólica, mas um
elemento estruturante de sua estratégia política e militar. Sua erosão não
implica o colapso imediato do poder israelense, mas sinaliza a entrada em uma
fase de crise estrutural, na qual as bases que sustentavam sua hegemonia deixam
de operar com a mesma eficácia.
No caso
do Oriente Médio, o que se delineia é a transição de uma ordem regional
centrada na dominação externa para uma configuração na qual atores
historicamente marginalizados assumem papel central na definição dos rumos
políticos e estratégicos da região. Mais do que o fim de um mito, trata-se do
início de um novo paradigma.
Fonte:
Diálogos do Sul Global/Opera Mundi

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