Mulheres
no Brasil trabalharam "de graça" até agora em 2026
Se as
mulheres recebessem salários equivalentes aos dos homens no Brasil, elas não
precisariam ter trabalhado desde 1° de janeiro até este sábado (21/03) para
fechar o ano de 2026 com a mesma renda que eles.
É o que
revela um cálculo a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
Contínua (PNADc) do último trimestre de 2025, realizado a pedido da DW. A
pesquisa é do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Segundo
Thaís Barcellos, estudiosa dos dados sobre desigualdade de gênero, as
brasileiras ganham em média 22% a menos do que os pares do sexo masculino. O
índice é uma comparação de quanto ganham por hora trabalhadoras e trabalhadores
nas mesmas faixas de escolaridade, idade, estado, setor de ocupação e posição
hierárquica.
"Quando
olhamos para estes grupos parecidos, vemos que, se as mulheres ganhassem o
mesmo que os homens, elas poderiam começar a trabalhar em 22 de março,"
explica Barcellos, autora do cálculo no contexto brasileiro. "Até então,
elas poderiam ter estado 'de férias' e, a partir daí, teriam o mesmo rendimento
que os homens para o ano."
Seria o
mesmo dizer que, para obterem o ganho anual dos homens, as mulheres precisam
trabalhar, a cada 365 dias, outros 80 a mais em média. Isto é, apenas neste
sábado elas conseguiriam inteirar a diferença entre o valor que chegou aos seus
bolsos e aos deles em 2025.
As
mulheres também participam menos do mercado e estão mais expostas ao trabalho
precarizado, destaca a secretária-executiva do Ministério das Mulheres, Eutália
Barbosa. "Estes fatores, combinados, traduzem uma grande desigualdade de
gênero no mundo do trabalho, com uma condição de maior vulnerabilidade para as
mulheres," afirmou à DW.
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Marco internacional
A data
anual em que as mulheres deixam de trabalhar "de graça" leva o nome
de "Dia da Igualdade Salarial" (Equal Pay Day, em inglês) em outros
lugares do mundo. Cada país tem o seu dia-marco, que é móvel de acordo com a
variação da desigualdade salarial entre os gêneros ao longo dos anos.
Esta
matemática já virou tradição na Europa. Na Alemanha, por exemplo, a data caiu
neste ano em 27 de fevereiro, refletindo a disparidade média de 16%, sem ajuste
para atividades, qualificações e volume de trabalho comparáveis. No cálculo
ajustado, a diferença cai para 6%, em comparação aos 22% do Brasil, onde o
Equal Pay Day é 21 de março.
Já no
Reino Unido, as mulheres trabalharam "de graça" pelos primeiros 47
dias deste ano, até a metade de fevereiro, estimou o Trades Union Congress
(TUC). O órgão sindical calculou a desigualdade britânica média em 12,8%, com
base em dados do governo. "No ritmo atual, serão necessários 30 anos – até
2056 – para eliminar a diferença salarial entre homens e mulheres."
Outros
países jogam os dias excedentes de expediente das mulheres para o fim do ano.
Para toda a União Europeia (UE), o Equal Pay Day foi 25 de novembro em 2025. Ou
seja, foi quando as mulheres "pararam" de receber em comparação aos
homens naquele ano, acumulando um mês e meio a mais de trabalho.
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Brasil: 118º lugar em ranking mundial
No
Brasil, a disparidade salarial entre gêneros se alinha à média global –
estimada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) em 20% para homens e
mulheres nas mesmas funções. Ainda assim, o país ficou na 118ª posição num
ranking do Fórum Econômico Mundial que, no ano passado, comparou a percepção de
equidade salarial entre os gêneros entre 148 economias.
"O
problema não é de qualificação. O gargalo está na remuneração e ascensão a
cargos de liderança," diz Gallianne Palayret, Representante da ONU
Mulheres no Brasil. Dados do IBGE confirmam que as mulheres tendem a ser mais
escolarizadas do que os homens.
Menos
da metade (40%) dos cargos de diretores e dirigentes nas empresas são ocupados
por mulheres, complementa Lorena Hakak, professora da Fundação Getúlio Vargas
(FGV), com base em dados da PNADc de 2012 a 2024.
Os
setores mais díspares são os da administração pública, defesa, seguridade
social, educação, saúde humana e serviços sociais, de acordo com o mais recente
Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam), do Ministério das Mulheres.
Neles,
as mulheres ganhavam em média 35% a menos do que os homens em 2024, em
comparação a 30% na indústria e 15% na agricultura e pecuária. "Reduzir
essa desigualdade é fundamental também para fortalecer o desenvolvimento
econômico e social do país", argumenta Barbosa, secretária-executiva da
pasta.
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O peso sobre as mulheres negras
Era
ligeiramente maior a diferença salarial medida pelo Raseam entre brancos e
brancas (24%) do que entre negros e negras (20%) – ela tende a ser maior quando
o nível salarial é mais alto.
Mas, no
fim das contas, as mulheres negras têm os salários mais baixos de todos,
seguidas por homens negros, mulheres brancas e homens brancos. "A
interseccionalidade entre gênero e raça no mercado de trabalho penaliza mais
mulheres negras," destaca Hakak, da FGV.
Na
comparação com homens brancos, o salário médio da mulher negra não chega à
metade. O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) estimou em 2024 a remuneração
média delas em R$ 2,8 mil, em comparação a R$ 6 mil para não negros do sexo
masculino.
Além
disso, a vulnerabilidade financeira é maior nos domicílios chefiados por
mulheres negras: em 2024, 70% destes lares tinham rendimento domiciliar de até
um salário mínimo per capita. Nas casas chefiadas por mulheres brancas, a
proporção era de pouco menos de 44%.
Sobre
os ombros das mulheres negras também pesa mais a exclusão do mercado de
trabalho formal. A informalidade era maior entre pretas ou pardas (41%) que
entre brancas (32%), sendo mais acentuada no Norte e Nordeste. Segundo a ONU
Mulheres, o índice de informalidade entre as mulheres na América Latina é de
51%.
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Cuidado é trabalho
Mesmo
sem trabalho remunerado no que foi até agora de 2026, teria sido altamente
improvável para uma brasileira desfrutar do descanso. Quando não estão em
expediente – por escolha ou não –, elas tradicionalmente acumulam várias outras
funções, sobretudo os cuidados da casa e da família.
Em
média, as mulheres dedicam quase 10 horas semanais a mais a este tipo de
trabalho do que os homens. O tempo gasto pode chegar a 22,4 horas semanais para
as mulheres negras, revelou estudo da Organização Internacional do Trabalho
(OIT) e do governo brasileiro do ano passado.
A
sobrecarga na vida doméstica é causa para a histórica tendência de menor
participação feminina no mercado. Sejam brancas, pardas ou negras, elas
costumam entrar no mercado mais tarde e têm maior dificuldade de encontrar
emprego.
A
representante da ONU Mulheres enxerga este como o principal fator da
desigualdade laboral de gênero no Brasil. "Enquanto o cuidado for tratado
como responsabilidade exclusiva ou primária das mulheres, elas vão continuar a
ter menos tempo e condições de competir no mercado de trabalho," pondera
Palayret.
O
Raseam, por sua vez, revelou que só 53% das mulheres estavam ocupadas em 2024,
contra 72% dos homens. De novo, as nordestinas e nortistas eram as mais
afetadas, com menor inserção na força de trabalho (43% e 48% de participação,
respectivamente).
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Políticas necessárias
Em
2023, entrou em vigor no Brasil a Lei da Igualdade Salarial, estabelecendo que
mulheres e homens devem receber o mesmo por funções iguais.
"Se
uma mulher identificar diferença salarial injustificada, ela pode procurar o
setor de Recursos Humanos da empresa, buscar orientação no sindicato da sua
categoria, registrar denúncia no Ministério Público do Trabalho e Emprego ou
recorrer à Justiça do Trabalho," orienta Barbosa, do Ministério das
Mulheres.
Acompanhada
de um plano para o tema, a legislação também determinou que cerca de 50 mil
empresas com mais de 100 empregados devem mostrar ações concretas. Elas incluem
garantir transparência salarial, fiscalizar práticas discriminatórias, criar
canais de denúncia, promover programas de inclusão e incentivar a capacitação
das mulheres.
Uma das
obrigações dos empregadores é oferecer dados ao governo federal, que alimentam
relatórios periódicos sobre a paridade salarial dentro de cada empresa, e
divulgar os resultados em canais oficiais. Diferenças salariais injustificáveis
podem acarretar penalidade administrativa de até 3% da folha de pagamentos.
Palayret
vê um avanço neste tipo de legislação, ausente em quase metade dos países do
mundo. Mas ainda é insuficiente. "É preciso que as empresas adotem as
medidas necessárias para identificar onde estão as lacunas salariais e as suas
causas."
Outros
programas em vigor no Brasil focam em garantir a equidade laboral com foco
também no fator racial e ampliar serviços e políticas de cuidado, destaca o
Ministério das Mulheres. Para pesquisadoras como Hakak, medidas úteis incluem
uma nova ampliação da licença-paternidade, a maior oferta de creches, o
incentivo a jornadas de trabalho mais flexíveis e a implementação de políticas
contra o assédio.
Fonte:
DW Brasil

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