Luiz
Carlos Azedo: Tão longe, tão perto - a guerra do Irã pode decidir as eleições
no Brasil
Neste
ano eleitoral, há três fatores imponderáveis para os humores da sociedade: o
desfecho do escândalo do Banco Master, em relação à credibilidade das
instituições; a prisão em regime fechado do ex-presidente Jair Bolsonaro, com
suas recorrentes internações por problemas de saúde; e a guerra do Irã, com
forte impacto no preço dos combustíveis e, consequentemente, na inflação. O
primeiro favorece uma candidatura outsider, o segundo a do senador Flávio
Bolsonaro e, o terceiro, qualquer um dos dois ou um candidato de "terceira
via". Ou seja, para se reeleger, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
precisa ser esperto, o tempo fechou.
Desses
fatores, a guerra do Irã é aquela que está completamente fora do alcance da
política brasileira. Embora traga a política externa para o debate interno,
devido às relações do governo brasileiro com o regime dos aiatolás, o
contencioso com Israel e as fricções entre Lula e o presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump, é uma "externalidade negativa" que precisa ser
mitigada.
Entretanto,
o Itamaraty não pode influenciar o destino da guerra e seu impacto na economia
depende de sua duração. Hoje, é o fator mais crítico para a economia global,
sobretudo devidos à escala dos danos permanentes causados à infraestrutura da
região. Historicamente, o preço do petróleo acompanha as crises do Oriente
Médio.
A
Guerra do Yom Kippur (1973), que durou três semanas, foi a causa do primeiro
"choque de petróleo". Em retaliação ao apoio a Israel, a OPEP
(Organização dos Países Exportadores de Petróleo), fundada em 1960, um cartel
inicialmente formado por Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait e Venezuela,
quadruplicou o preço do petróleo, que saltou de 3 para 12 dólares o barril.
Aqui no Brasil, isso provocou o fim do "milagre econômico" no governo
Geisel e a derrota eleitoral dos militares em 1974.
Outras
guerras causaram elevação do preço do petróleo e grande instabilidade nos
mercados. A Guerra Irã-Iraque (1980-1988), durou oito anos e foi responsável
pelo Segundo Choque do Petróleo, em 1982, e a Crise da Dívida dos países em
desenvolvimento. A alta nos preços do combustível e a elevação dos juros
americanos foram o estopim da hiperinflação no Brasil, só superada com o Plano
Real, em 1994.
Em
1991, a Guerra do Golfo (invasão do Kuwait pelo Iraque) durou sete meses e
provocou forte alta do petróleo, somente contida pela intervenção dos Estados
Unidos e o uso de reservas estratégicas de combustível. Nova crise no mercado
se deu com a Guerra do Iraque, em 2003, com a invasão do país pelos Estados
Unidos, sob o falso pretexto de que Sadam Hussein estaria produzindo armas
químicas de extermínio em massa. Seis semanas de ocupação não confirmaram a
acusação e desestabilizaram o país até hoje. Na época, os preços chegaram a 40
dólares o barril de petróleo.
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Nacionalismo
Nessa
guerra do Irã, ataques a refinarias no Kuwait e Arábia Saudita fizeram o
petróleo Brent disparar mais de 6% em um único dia. Dependendo da escala, o
barril pode atingir os US$ 200. Depois de realizar cerca de oito mil voos sobre
o território iraniano, atingir cerca de 7 mil a 7,8 mil alvos no país e matar o
líder supremo da República Islâmica, Ali Khamenei, e parcela considerável da
cúpula do regime, os Estados Unidos ainda parecem longe de atingir os objetivos
anunciados no início das hostilidades.
A
guerra provoca a maior disrupção de oferta de petróleo da história, segundo a
Agência Internacional de Energia (AIE), com a cotação do barril atingindo quase
US$ 120 esta semana, além de causar pressão inflacionária global e abalo de
cadeias produtivas. O preço do petróleo na sexta-feira estava a US$ 113,10 (R$
590,04), alta de 4,05% na comparação com o dia anterior.
O
mercado trabalha com três cenários: choque temporário, barril a US$ 73,1, com
menor impacto na inflação; choque persistente, com preço médio do barril em US$
82; e choque disruptivo: preço médio do barril acima de US$ 100, com aumento
significativo da inflação global e do valor dos combustíveis.
Iniciada
em 28 de fevereiro, a Operação Fúria Épica parece distante de um fim próximo,
embora tenha sido concebida para durar poucos dias. O nó górdio da guerra é o
bloqueio do Golfo de Ormuz, controlado pelo Irã, por onde circulam 20% da
produção mundial, e a estratégia de escalada e guerra assimétrica agora adotada
pelo regime dos aiatolás.
No
Brasil, o presidente Lula zerou o PIS/Cofins sobre combustíveis e pressiona
governadores pela redução do ICMS, mas os efeitos ainda não chegaram às bombas.
A crise reacendeu o debate entre privatização e estatização, considerado
superado pelo mercado. Em visita à Refinaria Gabriel Passos (Regap), entre
Betim e Ibirité (MG), em Minas, Lula disse que "a Petrobras voltou a ser a
empresa mais rentável do país", e anunciou a recompra da Refinaria
Landulpho Alves (RLAM), na Bahia.
Lula
criticou também a privatização da BR Distribuidora (atual Vibra Energia), com o
argumento de que sua venda reduziu a capacidade de regulação de preços. Ao que
tudo indica, pretende politizar a crise e resgatar uma velha bandeira de defesa
da Petrobras: "o petróleo é nosso". Em 2006, deu certo contra o então
candidato tucano Geraldo Alckmin, hoje no PSB e seu vice-presidente.
• Não é 2022 outra vez: por que as medidas
de Lula sobre combustíveis são diferentes das de Bolsonaro
A
disparada do petróleo provocada pela guerra no Oriente Médio reacendeu no
Brasil um debate recorrente: como proteger a economia doméstica quando o preço
internacional da energia sobe abruptamente.
Nos
últimos dias, parte do debate público tentou estabelecer um paralelo automático
entre as medidas anunciadas agora pelo governo Lula e as decisões tomadas pelo
governo Bolsonaro em 2022, durante a crise causada pela guerra na Ucrânia. A
comparação, no entanto, não se sustenta quando se examinam os instrumentos
adotados.
Há
diferenças fundamentais de método, de impacto institucional e de racionalidade
econômica.
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1- Não houve intervenção na Petrobras
A
primeira diferença – talvez a mais importante – é institucional.
Em
2022, o governo Bolsonaro interferiu diretamente na Petrobras. Houve sucessivas
trocas na presidência da companhia e forte pressão política para alterar a
política de preços da estatal. A empresa foi transformada em instrumento direto
da disputa eleitoral.
Nada
disso ocorreu agora.
A
Petrobras manteve sua estratégia comercial e sua autonomia operacional. A
própria companhia afirmou que aderirá ao programa de subvenção ao diesel sem
alterar sua estratégia de preços, preservando sua política comercial e a gestão
dos seus ativos de refino.
Ou
seja: o governo optou por atuar fora da governança da empresa, utilizando
instrumentos de política pública, e não a intervenção direta na estatal.
Essa
distinção é essencial para quem se preocupa com segurança institucional e
previsibilidade regulatória.
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2. A desoneração do PIS/Cofins é a única semelhança
A única
medida que de fato lembra 2022 é a redução de tributos federais sobre o diesel.
O
governo decidiu zerar PIS/Cofins e complementar essa redução com uma subvenção
temporária de R$ 0,32 por litro, com o objetivo de reduzir cerca de R$ 0,64 no
preço final ao consumidor.
Essa é
uma ferramenta clássica de política anticíclica para amortecer choques
internacionais de preços.
Mas há
uma diferença relevante em relação ao passado: em 2022 o governo federal
transferiu parte do custo para os Estados, ao reduzir o ICMS por lei federal.
Agora, o ajuste está sendo feito no âmbito dos tributos federais, sem impor
perdas fiscais automáticas aos governos estaduais.
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3. O imposto de exportação não é intervenção: é captura de windfall
A
medida mais criticada foi a criação de um imposto temporário sobre exportações
de petróleo.
Do
ponto de vista econômico, porém, trata-se de um instrumento bastante conhecido.
Em
momentos de choque geopolítico, empresas produtoras de petróleo costumam
registrar ganhos extraordinários – os chamados windfall profits – decorrentes
não de investimentos adicionais, mas de eventos externos que elevam
abruptamente os preços internacionais.
É
exatamente isso que está ocorrendo agora: em poucos dias, as receitas do setor
praticamente dobraram em função da escalada de preços causada pelo conflito no
Oriente Médio.
O
imposto temporário sobre exportações busca capturar parte desse ganho
extraordinário para financiar a proteção do mercado interno.
Esse
tipo de mecanismo já foi utilizado em diversos países produtores – inclusive no
Reino Unido, na Noruega, na Itália e nos Estados Unidos – justamente para lidar
com choques de preços no setor energético.
Não se
trata de confisco nem de mudança estrutural de regras. Trata-se de instrumento
emergencial de estabilização.
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4. A medida também busca garantir abastecimento
Há
ainda um aspecto operacional que tem sido pouco discutido.
Com a
disparada dos preços internacionais, empresas produtoras e traders passam a ter
incentivo econômico para exportar petróleo bruto em vez de direcionar volumes
para o mercado interno.
Esse
comportamento foi apontado como um dos fatores de tensão no abastecimento
doméstico.
O
imposto temporário funciona também como um mecanismo de equilíbrio entre
exportação e suprimento doméstico, garantindo que refinarias e distribuidoras
tenham acesso ao produto necessário para atender o mercado nacional.
Em
outras palavras: a medida busca preservar a segurança energética.
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5. Autossuficiência energética existe exatamente para isso
Há um
ponto conceitual que raramente aparece nesse debate.
O
Brasil buscou durante décadas alcançar a autossuficiência em petróleo – e ainda
busca ampliá-la no refino e nos combustíveis – exatamente para ter a capacidade
de proteger sua economia em momentos de alta volatilidade internacional.
Esse
foi um objetivo estratégico de Estado.
Se a
política fosse aplicar mecanicamente a paridade de importação em todas as
circunstâncias, independentemente das condições internas do país, não faria
sentido investir bilhões de dólares em exploração e produção doméstica.
A
lógica da autossuficiência energética é justamente permitir alguma capacidade
de amortecimento interno em períodos de crise global – sem perder de vista as
tendências internacionais de preços, mas também sem submeter integralmente a
economia nacional a choques externos.
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6. Diferente de 2022, não houve confronto com os Estados
Outra
diferença importante diz respeito à relação federativa.
Em
2022, o governo Bolsonaro impôs uma redução do ICMS sobre combustíveis,
transferindo para Estados e municípios uma perda bilionária de arrecadação.
Foi uma
decisão unilateral que gerou forte tensão institucional e desequilíbrios
fiscais nos entes subnacionais
Agora,
Lula seguiu caminho oposto.
O
governo federal reduziu seus próprios tributos e apenas sugeriu que os Estados
avaliem, se possível, eventuais reduções de ICMS como parte de um esforço
cooperativo nacional.
Mas
respeitou a autonomia de cada governador e de cada Estado para decidir conforme
sua realidade fiscal.
Isso é
particularmente relevante porque o ICMS sobre combustíveis é uma das principais
fontes de financiamento de Estados e municípios – muito mais essencial para
suas finanças do que o PIS/Cofins é para o orçamento federal.
Ou
seja, evitou-se repetir a lógica de “bondade com o chapéu alheio” que marcou a
crise de 2022.
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7. O objetivo central é estabilizar a economia
A
disparada recente levou o Brent novamente acima de US$ 100 por barril e ocorre
em meio à maior interrupção de oferta global já registrada no mercado de
petróleo, segundo avaliações internacionais.
Choques
desse tipo afetam diretamente inflação, transporte, produção agrícola e
atividade econômica.
Diante
disso, governos responsáveis precisam agir. A questão não é se agir – mas como
agir.
>>>
8. Gestão de crise, não intervenção
Comparar
as medidas atuais com as decisões de 2022 ignora diferenças fundamentais.
Em
2022, houve:
– intervenção
direta na Petrobras
–
instabilidade institucional na empresa
–
redução compulsória de tributos estaduais
– forte
politização da política de preços.
Agora,
o que existe é um pacote de medidas temporárias:
–
desoneração tributária federal
–
subvenção transitória ao diesel
–
captura de lucros extraordinários de exportação
–
reforço da fiscalização do mercado.
Não se
trata de intervenção na Petrobras nem de manipulação da política de preços da
estatal.
Trata-se
de gestão de crise em um mercado global volátil.
E,
nesse contexto, a política pública precisa cumprir exatamente o papel para o
qual existe: proteger a economia e a população em momentos excepcionais.
• Greve dos Caminhoneiros: como o
ministério de Boulos agiu para evitar uso eleitoral da paralisação, que foi
cancelada
As
especulações sobre uma possível greve dos caminhoneiros, incitada por
influenciadores e pelo ecossistema midiático bolsonarista no início da semana,
envolveu uma verdadeira operação de guerra na Secretaria-Geral da Presidência,
ministério comandando por Guilherme Boulos, que impediu o uso eleitoreiro da
categoria e aproximou o governo dos profissionais autônomos, que já foram
usados como massa de manobra eleitoreira por Jair Bolsonaro (PL) em 2018 e em
2022.
Nos
grupos de Telegram bolsonaristas, Carlos Bolsonaro (PL-RJ), comandante do
reativado Gabinete do Ódio, liderou a ofensiva com publicações sobre a alta dos
combustíveis – provocada pela guerra no Irã, desencadeada por Donald Trump e
Benjamin Netanyahu – e uma mentirosa crise de abastecimento.
Segundo
apuração da Fórum, o movimento foi detectado pela Secretaria-Geral da
Presidência, que se aproximou principalmente dos caminhoneiros autônomos, que
ficam mais suscetíveis aos achaques eleitorais por arcarem com os aumentos dos
combustíveis.
Como
Lula e Fernando Haddad, que deixou o Ministério da Fazenda para disputar o
governo de São Paulo, já haviam zerado os impostos federais – Pis e Cofins –
sobre o diesel, coube à equipe de Boulos ouvir as demandas dos caminhoneiros.
Enquanto
a Polícia Federal intensificou a ação contra especuladores, especialmente
empresários e distribuidoras, com mais de 400 operações contra aumentos
abusivos dos combustíveis, a equipe de Boulos levou a principal demanda dos
caminhoneiros ao gabinete de Lula no Palácio do Planalto.
“Ontem
o Lula assinou uma Medida Provisória que endurece a fiscalização do piso do
frete. Porque tem muito empresário malandro neste país e eles não estavam
pagando o piso do frete dos caminhoneiros. Em 2018, na greve histórica, foi
estabelecido que cada caminhoneiro autônomo tem que receber o piso. E eles
estavam burlando isso. Então, o governo agora vai pra cima pra garantir que se
pague o mínimo, com fiscalização eletrônica nas empresas, que podem ter até
cassação de registro de operação”, afirmou em entrevista à Rádio Nacional na
manhã desta sexta-feira (19).
Toda
negociação, que resultou ainda em uma reunião com a categoria que acontece na
próxima quarta-feira (25), foi conduzida pela equipe de Boulos, que recebeu o
sinal positivo dos caminhoneiros nesta quinta-feira (19), com o cancelamento da
greve.
“É uma
Medida Provisória que a gente ficou muito feliz. Desde 2018 que não tinha nada
parecido, o governo se preocupou. Para a gente, não existe partido ou político
de estimação. Seja A ou seja B, seja Lula, Bolsonaro, Ciro, quem estiver lá a
gente vai respeitar. E, felizmente, está sendo atendido hoje. O governo que
está no poder está atendendo nossa categoria. Foi explicado pelo presidente
Lula que, ao olhar do governo e do presidente, o preço mínimo de frete segue o
mesmo parâmetro do salário mínimo do trabalhador. Então, é válido. O governo
vai trabalhar para que isso aí seja permanente”, anunciou Luciano Santos,
presidente do Sindicato dos Caminhoneiros da Baixada Santista (Sindicam).
“O
governo ficou bem atento nessa questão, atendeu o nosso pedido, fez uma medida
provisória de ontem para hoje que atende um pedido desde 2018 que ninguém fez.
Agora estamos sendo atendidos. É o início do sonho, que nem a gente sempre diz,
que o piso mínimo é vida, o piso mínimo sendo cumprido”, afirmou.
“Tem
alguns caminhoneiro chateados que queriam fazer greve. Greve a gente faz quando
a gente perde. O óleo diesel aumenta, o frete tem que aumentar”, emendou o
caminhoneiro, ressaltando a negociação com o governo Lula.
Além de
Santos, o líder da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos
Automotores, Wallace Landim, conhecido como Chorão, também estará na comitiva
de caminhoneiros que será recebida por Boulos.
“Agora
a gente vai trabalhar em conjunto com todas as lideranças, a partir de
segunda-feira, reunião em Brasília, para a gente colocar as emendas dentro da
MP para proteger a categoria referente à questão dos seguros, GRs, referente à
igualização do peso dos caminhões e outras coisas que a gente precisa colocar
lá na MP”, afirmou Landim.
Fonte:
Correio Braziliense/JB

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