terça-feira, 24 de março de 2026

'Projeto Cofre':  EUA querem assegurar reserva estratégica de minerais críticos, de olho na América Latina

Em cavernas subterrâneas escavadas em sal-gema, os Estados Unidos guardam desde os anos 1970 cerca de 714 milhões de barris de petróleo em sua enorme "Reserva Estratégica de Petróleo", criada após uma crise energética grave provocada pelo corte de fornecimento por países árabes.

Meio século depois, o governo americano quer construir uma nova reserva chamada Project Vault ("Projeto Cofre", em tradução livre), mas desta vez voltada a minerais críticos, e não ao petróleo.

O plano, estimado em US$ 12 bilhões (cerca de R$ 60 bilhões), busca reduzir a grande dependência do país em relação à China na produção e no processamento desses minerais. E nesse contexto, o Brasil ganha especial importância por possuir a segunda maior reserva de terras raras do mundo (leia abaixo na reportagem).

"Hoje lançamos o que será conhecido como Projeto Cofre para garantir que as empresas e os trabalhadores americanos nunca sejam prejudicados pela escassez", declarou o presidente americano, Donald Trump, no início de fevereiro, na Casa Branca.

Em meio ao conflito tarifário entre EUA e China, o líder chinês, Xi Jinping, reagiu em 2025 contra Trump restringindo a exportação de terras raras, deixando claro que o domínio chinês na mineração estratégica é uma de suas principais armas nas negociações comerciais.

"Não queremos voltar a passar pelo que passamos há um ano", declarou Trump.

As terras raras são apenas uma parte da extensa lista de 60 minerais críticos definidos pelos EUA.

Esses minerais são essenciais para a fabricação de produtos estratégicos como aviões de guerra, semicondutores, veículos elétricos, sistemas de inteligência artificial, dispositivos médicos, computadores e telefones — em suma, praticamente toda a tecnologia que move o mundo. Estima-se que um único caça F-35 precise de mais de 400 quilos de terras raras para ser fabricado.

E quem extrai 70% das terras raras do mundo e faz o processamento químico de 90% do fornecimento global? A China.

Agora, os minerais considerados críticos pelos EUA (que vão muito além das cobiçadas terras raras) não são apenas a chave para novas tecnologias, a indústria militar ou a segurança energética. Eles também são essenciais para algo tão básico quanto o funcionamento diário de um país.

Basta observar a lista definida pela Casa Branca. Ela inclui minerais historicamente fundamentais, como o cobre — que é o "sangue" que corre pelas veias da infraestrutura elétrica, das telecomunicações, da construção, do transporte e de diversos dispositivos tecnológicos — e o níquel — essencial na fabricação de aço inoxidável, baterias e componentes da indústria aeroespacial.

Os EUA também querem garantir reservas de minerais como cobalto, lítio, grafite e gálio.

Embora o Pentágono mantenha uma reserva nacional de minerais críticos armazenada em seis locais, esses depósitos são destinados exclusivamente a situações de emergência nacional, segundo informações divulgadas pelo Departamento de Estado dos EUA.

Para Jeff Dickerson, consultor principal em minerais críticos da empresa de pesquisa energética Rystad, os EUA deveriam ter estocado esses minerais com muito mais antecedência.

Como isso não aconteceu, agora "a corrida para recuperar o terreno perdido é real", e não é fácil mobilizar capital diante da incerteza, afirmou em entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

Um dos grandes desafios atualmente, segundo Dickerson, é convencer investidores a entrar nesse setor.

Do outro lado da balança está a China, que tem grande capacidade de extração e, sobretudo, controle sobre o processamento de minerais críticos.

"É necessário construir uma ponte entre as matérias-primas e o processamento final. Esse é o componente-chave que falta" para reduzir a dependência do gigante asiático, explica o especialista.

No fim das contas, as matérias-primas só se tornam realmente úteis quando são transformadas em materiais processados, acrescenta.

<><> O papel da América Latina

O interesse dos EUA por esses minerais não é novo, mas a recente atenção da Casa Branca à América Latina, por razões geopolíticas e econômicas, colocou os recursos minerais da região no radar do governo Trump.

A América Latina possui grande riqueza mineral, que vai de recursos tradicionais como cobre até lítio e terras raras. Essa diversidade torna a região particularmente atraente tanto para investidores quanto para governos.

Com a volta de Trump à Casa Branca, os EUA passaram a adotar uma estratégia mais ampla em relação à região, afirma Henry Ziemer, pesquisador associado do Programa Américas do Center for Strategic and International Studies (CSIS).

Nesse contexto, o governo dos EUA está prestando muito mais atenção à riqueza mineral do hemisfério ocidental e da América Latina, afirma Ziemer. A América Latina, explica, "tem se tornado cada vez mais um campo de batalha entre China e EUA na questão dos minerais".

Essa disputa vem sendo travada em vários países e a China, que há décadas conquista contratos de mineração na região e leva uma vantagem indiscutível, especialmente no Cone Sul (subregião que inclui Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai).

"Os EUA estão chegando tarde", afirma Tilsa Oré Mónago, pesquisadora do Centro de Estudos Energéticos do Instituto Baker para Políticas Públicas e professora de economia na Universidade Rice, em Houston (EUA).

O "descuido" com as alianças com a América Latina, diz ela à BBC News Mundo, acabou deixando o caminho mais aberto para a China.

Uma aliança com o Brasil, por exemplo, seria um passo importante para os EUA em sua tentativa de reduzir a dependência da China, afirma a especialista, no novo contexto de urgência para obter minerais críticos.

O Brasil surgiu como um mercado de mineração especialmente atraente por possuir a segunda maior reserva de terras raras do mundo.

Estima-se que o Brasil tenha entre 20% e 23% das reservas mundiais de terras raras, por exemplo, a segunda maior atrás apenas da China. Em 2025 o Brasil exportou US$ 12 milhões (cerca de R$ 60 milhões) em terras raras, sendo que 99,4% desse total foi para compradores chineses.

No entanto, o governo Lula parece não ter motivos para ter pressa em assinar o acordo com os americanos por conta da posição supostamente privilegiada do Brasil como detentor de uma matéria-prima desejada pelo governo Trump.

Além disso, o governo já se mostrou contrário ao desejo expressado pelos americanos de que países que façam acordo com os EUA fechem as portas para o mercado chinês.

Dias após o anúncio do Projeto Cofre, o Departamento de Estado dos EUA assinou 11 acordos sobre minerais críticos que declaram a intenção de outros países de colaborar com a Casa Branca.

Argentina, Equador, Paraguai e Peru foram os quatro países latino-americanos signatários, enquanto o México concordou com um Plano de Ação sobre Minerais Críticos.

Faltando poucos meses para o início formal da revisão do acordo de livre-comércio T-MEC entre EUA, México e Canadá, o pacto com o México inclui "identificar projetos de extração", processamento e fabricação de minerais críticos de interesse para os dois países, afirmou o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer.

O México possui reservas ou, em alguns casos, operações de lítio, prata, cobre, zinco, chumbo, manganês e grafite, além de alguns depósitos de terras raras.

Calcula-se que a mina Bacadehuachi, no Estado de Sonora (México), tenha cerca de 8,8 milhões de toneladas de lítio. Até agora, não entrou em operação devido a litígios pendentes com a empresa chinesa Ganfeng Lithium, após o governo de Andrés Manuel López Obrador (2018–2024) anunciar a nacionalização do mineral há três anos, gerando incerteza entre investidores.

E há alguns dias o governo do Chile, que possui uma das maiores reservas de lítio e é o maior produtor de cobre do mundo, assinou uma declaração com os EUA para estabelecer consultas bilaterais sobre recursos estratégicos.

Embora os países latino-americanos tenham muitos dos minerais críticos de que o mundo necessita, ainda há um elo perdido.

Nesse sentido, Jeff Dickerson, da Rystad, afirma que a grande pergunta dos EUA continua sendo o que fazer para que os minerais críticos latino-americanos não precisem necessariamente passar por fundição e refino na China.

A região "pode desempenhar um papel fundamental como potencial fornecedora", particularmente por sua proximidade com os EUA, afirma.

Por isso, acrescenta, na construção dessa "ponte" entre a extração e o mineral final está um dos fatores que podem determinar o sucesso do plano dos EUA para reduzir sua dependência da China.

Por que Trump mira terras raras e minerais no mundo todo

Lítio, nióbio, cobre, manganês e terras-raras, entre outros minérios, estão no centro de uma das disputas mais acirradas do século 21.

Essas matérias-primas são essenciais para a fabricação de tecnologias que moldam o futuro: desde carros elétricos e painéis solares até equipamentos militares de ponta e smartphones.

São também a base da transição energética global e, por isso, tornaram-se alvo de uma verdadeira corrida geopolítica, movida por interesses bilionários, disputas territoriais e estratégias de poder.

A demanda por esses minérios deve crescer 1,5 mil por cento até 2050, segundo relatório da Unctad, a agência de desenvolvimento da ONU. É muito acima do que a produção global dá conta no momento.

<><> Terras raras

Terras raras é o nome que se dá a um grupo de 17 elementos que não são exatamente raros, mas sim de difícil exploração, presentes nos celulares, nas telas, nas turbinas eólicas, nos carros elétricos, nos painéis solares e até nos mísseis supersônicos.

A geógrafa e pesquisadora Julie Klinger, especialista em mineração, detalhou à BBC Reel por que esses elementos se tornaram tão cruciais:

"Eles têm propriedades magnéticas e de condutividade fantásticas, que permitiram a miniaturização dos nossos eletrônicos: para que nossos computadores ficassem do tamanho de celulares e laptops, em vez de serem do tamanho de um prédio. Permitiram também veículos mais eficientes, por simplesmente torná-los mais leves e resistentes ao mesmo tempo", disse ela, em entrevista concedida em março de 2025.

Outra área em que eles têm papel crescente é na militar. A Otan, aliança militar ocidental, recentemente listou 12 minerais críticos pra produzir caças, tanques, submarinos e mísseis.

A aliança diz que o abastecimento desses minérios, inclusive os terras-raras, é "vital para manter a vantagem tecnológica e a prontidão operacional da Otan".

E um dos que estão de olho nesse mapa mineral é Donald Trump.

Em março, o presidente americano assinou um decreto que ordena a ampliação da produção de minérios críticos e terras raras.

Além disso, seu governo já demonstrou interesse pela produção mineral de lugares como Groenlândia, Ucrânia, Rússia, República Democrática do Congo — e agora, Brasil.

Os Estados Unidos ainda dependem fortemente das importações, enquanto sua maior rival, a China, sob muitos aspectos está à frente: concentra 60% da produção global e 90% do refinamento de terras raras, segundo a Agência Internacional de Energia.

O caso da Ucrânia foi especialmente emblemático. Trump exigiu acordo para exploração de minerais e terras raras ucranianas como condição para seguir apoiando militarmente o país, em guerra com a Rússia desde 2022.

"Como vocês sabem, estamos constantemente procurando terras raras. Eles [ucranianos] têm muitas delas, e fizemos um acordo para que possamos começar a cavar e fazer o que precisamos", disse o presidente americano, sobre o pacto.

<><> Brasil: terras raras e nióbio

Nessa corrida global, o Brasil também tem papel importante: o relatório U.S. Mineral Commodity Summaries estima que o país detenha até 23% das reservas conhecidas de terras raras no mundo.

O professor Sidney Ribeiro, do Instituto de Química da Unesp (Universidade Estadual Paulista), explica à BBC News Brasil que o país acumula décadas de pesquisas acadêmicas sobre esses minérios e já faz a mineração de terras raras em Estados como Minas Gerais e Goiás.

Ainda assim, responde por menos de 1% da produção, porque muitas das reservas inexploradas estão em áreas como a Amazônia. Então é enorme o desafio de aproveitar o potencial mineral brasileiro e ao mesmo tempo manter de pé uma floresta já muito degradada.

Além das terras raras, o Brasil tem reservas de outros minérios cobiçados, como o nióbio — usado em ligas metálicas de alta resistência, fundamentais para siderurgia, construção civil, turbinas, trens de alta velocidade, baterias e equipamentos aeroespaciais e militares, como mísseis hipersônicos.

O país concentra cerca de 92% da produção do metal, que é leve e resistente a altas temperaturas e ganhou popularidade na última década, depois de ter sido reiteradamente defendido por Jair Bolsonaro como recurso estratégico para o país.

O maior mercado consumidor do nióbio brasileiro é a Ásia (em particular a China), mas os Estados Unidos têm posição de destaque como quarto maior importador.

O Brasil respondeu por cerca de 66% do que foi comprado pelos EUA entre 2020 e 2023, segundo o mais recente relatório sobre minerais críticos do Serviço Geológico dos EUA (U.S. Geological Survey - USGS), fornecendo 83% do óxido de nióbio que desembarcou no país nesse período e 66% do ferronióbio.

O volume de nióbio importado pelos americanos cresceu de cerca de 7,1 mil toneladas em 2020 para 10,1 mil em 2023.

Por conta da concentração das jazidas no Brasil — ou seja, a quantidade limitada de fornecedores — o nióbio foi considerado pelo USGS como o segundo recurso mineral mais crítico para o país quando se leva em consideração os riscos potenciais da cadeia de suprimentos - ou seja, se o envio brasileiro falhar por algum motivo, é difícil substitui-lo.

<><> Disputa de potências e 'neocolonialismo'

E enquanto os EUA tentam abocanhar novas fontes de suprimento, outras duas grandes potências — Rússia e China — também avançam.

Moscou afirmou ter planos de ampliar a produção de terras raras pra diminuir em 15% a importação de minérios até 2030.

E Vladimir Putin também cobiça projetos minerais em países aliados, por exemplo na África.

A Rússia tem uma presença forte no Sahel, região de países vulneráveis no norte da África que concentra grandes reservas de urânio e ouro, por exemplo.

A China, por sua vez, também já investe em projetos de mineração e infraestrutura no continente africano — e quer avançar na região.

Mas muitos analistas acham que as investidas de todas essas potências mundiais têm o que chamam de um caráter neocolonialista: ou seja, de explorar as riquezas de países ou territórios em situação frágil sem de fato levar desenvolvimento econômico e social pra essas regiões.

O relatório da Unctad mencionado no início da reportagem alerta que a dependência da exportação de commodities – ou seja, matérias-primas como minérios — é um grande desafio para países em desenvolvimento e pode criar armadilhas socioeconômicas parecidas às sofridas por países dependentes da exportação de petróleo.

"Essa dependência impede o desenvolvimento econômico e perpetua desigualdades e vulnerabilidades pela África Subsaariana, a América do Sul, o Pacífico e o Oriente Médio", diz o relatório.

Globalmente, a ONU estima que o mundo precisará investir até US$ 450 bilhões em minérios críticos até 2030 pra dar conta da demanda.

Alguns especialistas afirmam que será preciso otimizar práticas de mineração já existentes.

"Muitas vezes, elementos de terras raras estão presentes nos resíduos de outros tipos de mineração, em especial minas de fosfato e prata", afirmou Julie Klinger à BBC Reel.

"Devemos trabalhar pra reimaginar esses processos, como uma fonte potencialmente abundante de terras raras, pra atender às preocupações e à escassez da cadeia de suprimentos sem ter que abrir novos buracos na terra."

Outra possibilidade, diz Sidney Ribeiro, é reciclar as muitas toneladas de lixo eletrônico que são jogados fora todos os dias.

"Hoje se fala muito no que a gente chama de mineração urbana, você já usar lixo eletrônico pra recuperar a terra rara que já está ali para essas aplicações", afirma o professor da Unesp, citando como exemplo projetos para purificar os elementos de terra-rara de lâmpadas luminescentes.

De qualquer modo, a disputa por esses elementos minerais só tende a crescer — dentro e fora de fronteiras.

Cálculos da ONU apontam que, de todos os conflitos intra-Estados registrados nas últimas décadas, 40% eram relacionados a recursos naturais — inclusive ao acesso a minérios.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

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