'Projeto
Cofre': EUA querem assegurar reserva
estratégica de minerais críticos, de olho na América Latina
Em
cavernas subterrâneas escavadas em sal-gema, os Estados Unidos guardam desde os
anos 1970 cerca de 714 milhões de barris de petróleo em sua enorme
"Reserva Estratégica de Petróleo", criada após uma crise energética
grave provocada pelo corte de fornecimento por países árabes.
Meio
século depois, o governo americano quer construir uma nova reserva chamada
Project Vault ("Projeto Cofre", em tradução livre), mas desta vez
voltada a minerais críticos, e não ao petróleo.
O
plano, estimado em US$ 12 bilhões (cerca de R$ 60 bilhões), busca reduzir a
grande dependência do país em relação à China na produção e no processamento
desses minerais. E nesse contexto, o Brasil ganha especial importância por
possuir a segunda maior reserva de terras raras do mundo (leia abaixo na
reportagem).
"Hoje
lançamos o que será conhecido como Projeto Cofre para garantir que as empresas
e os trabalhadores americanos nunca sejam prejudicados pela escassez",
declarou o presidente americano, Donald Trump, no início de fevereiro, na Casa
Branca.
Em meio
ao conflito tarifário entre EUA e China, o líder chinês, Xi Jinping, reagiu em
2025 contra Trump restringindo a exportação de terras raras, deixando claro que
o domínio chinês na mineração estratégica é uma de suas principais armas nas
negociações comerciais.
"Não
queremos voltar a passar pelo que passamos há um ano", declarou Trump.
As
terras raras são apenas uma parte da extensa lista de 60 minerais críticos
definidos pelos EUA.
Esses
minerais são essenciais para a fabricação de produtos estratégicos como aviões
de guerra, semicondutores, veículos elétricos, sistemas de inteligência
artificial, dispositivos médicos, computadores e telefones — em suma,
praticamente toda a tecnologia que move o mundo. Estima-se que um único caça
F-35 precise de mais de 400 quilos de terras raras para ser fabricado.
E quem
extrai 70% das terras raras do mundo e faz o processamento químico de 90% do
fornecimento global? A China.
Agora,
os minerais considerados críticos pelos EUA (que vão muito além das cobiçadas
terras raras) não são apenas a chave para novas tecnologias, a indústria
militar ou a segurança energética. Eles também são essenciais para algo tão
básico quanto o funcionamento diário de um país.
Basta
observar a lista definida pela Casa Branca. Ela inclui minerais historicamente
fundamentais, como o cobre — que é o "sangue" que corre pelas veias
da infraestrutura elétrica, das telecomunicações, da construção, do transporte
e de diversos dispositivos tecnológicos — e o níquel — essencial na fabricação
de aço inoxidável, baterias e componentes da indústria aeroespacial.
Os EUA
também querem garantir reservas de minerais como cobalto, lítio, grafite e
gálio.
Embora
o Pentágono mantenha uma reserva nacional de minerais críticos armazenada em
seis locais, esses depósitos são destinados exclusivamente a situações de
emergência nacional, segundo informações divulgadas pelo Departamento de Estado
dos EUA.
Para
Jeff Dickerson, consultor principal em minerais críticos da empresa de pesquisa
energética Rystad, os EUA deveriam ter estocado esses minerais com muito mais
antecedência.
Como
isso não aconteceu, agora "a corrida para recuperar o terreno perdido é
real", e não é fácil mobilizar capital diante da incerteza, afirmou em
entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.
Um dos
grandes desafios atualmente, segundo Dickerson, é convencer investidores a
entrar nesse setor.
Do
outro lado da balança está a China, que tem grande capacidade de extração e,
sobretudo, controle sobre o processamento de minerais críticos.
"É
necessário construir uma ponte entre as matérias-primas e o processamento
final. Esse é o componente-chave que falta" para reduzir a dependência do
gigante asiático, explica o especialista.
No fim
das contas, as matérias-primas só se tornam realmente úteis quando são
transformadas em materiais processados, acrescenta.
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O papel da América Latina
O
interesse dos EUA por esses minerais não é novo, mas a recente atenção da Casa
Branca à América Latina, por razões geopolíticas e econômicas, colocou os
recursos minerais da região no radar do governo Trump.
A
América Latina possui grande riqueza mineral, que vai de recursos tradicionais
como cobre até lítio e terras raras. Essa diversidade torna a região
particularmente atraente tanto para investidores quanto para governos.
Com a
volta de Trump à Casa Branca, os EUA passaram a adotar uma estratégia mais
ampla em relação à região, afirma Henry Ziemer, pesquisador associado do
Programa Américas do Center for Strategic and International Studies (CSIS).
Nesse
contexto, o governo dos EUA está prestando muito mais atenção à riqueza mineral
do hemisfério ocidental e da América Latina, afirma Ziemer. A América Latina,
explica, "tem se tornado cada vez mais um campo de batalha entre China e
EUA na questão dos minerais".
Essa
disputa vem sendo travada em vários países e a China, que há décadas conquista
contratos de mineração na região e leva uma vantagem indiscutível,
especialmente no Cone Sul (subregião que inclui Argentina, Brasil, Chile,
Paraguai e Uruguai).
"Os
EUA estão chegando tarde", afirma Tilsa Oré Mónago, pesquisadora do Centro
de Estudos Energéticos do Instituto Baker para Políticas Públicas e professora
de economia na Universidade Rice, em Houston (EUA).
O
"descuido" com as alianças com a América Latina, diz ela à BBC News
Mundo, acabou deixando o caminho mais aberto para a China.
Uma
aliança com o Brasil, por exemplo, seria um passo importante para os EUA em sua
tentativa de reduzir a dependência da China, afirma a especialista, no novo
contexto de urgência para obter minerais críticos.
O
Brasil surgiu como um mercado de mineração especialmente atraente por possuir a
segunda maior reserva de terras raras do mundo.
Estima-se
que o Brasil tenha entre 20% e 23% das reservas mundiais de terras raras, por
exemplo, a segunda maior atrás apenas da China. Em 2025 o Brasil exportou US$
12 milhões (cerca de R$ 60 milhões) em terras raras, sendo que 99,4% desse
total foi para compradores chineses.
No
entanto, o governo Lula parece não ter motivos para ter pressa em assinar o
acordo com os americanos por conta da posição supostamente privilegiada do
Brasil como detentor de uma matéria-prima desejada pelo governo Trump.
Além
disso, o governo já se mostrou contrário ao desejo expressado pelos americanos
de que países que façam acordo com os EUA fechem as portas para o mercado
chinês.
Dias
após o anúncio do Projeto Cofre, o Departamento de Estado dos EUA assinou 11
acordos sobre minerais críticos que declaram a intenção de outros países de
colaborar com a Casa Branca.
Argentina,
Equador, Paraguai e Peru foram os quatro países latino-americanos signatários,
enquanto o México concordou com um Plano de Ação sobre Minerais Críticos.
Faltando
poucos meses para o início formal da revisão do acordo de livre-comércio T-MEC
entre EUA, México e Canadá, o pacto com o México inclui "identificar
projetos de extração", processamento e fabricação de minerais críticos de
interesse para os dois países, afirmou o representante comercial dos EUA,
Jamieson Greer.
O
México possui reservas ou, em alguns casos, operações de lítio, prata, cobre,
zinco, chumbo, manganês e grafite, além de alguns depósitos de terras raras.
Calcula-se
que a mina Bacadehuachi, no Estado de Sonora (México), tenha cerca de 8,8
milhões de toneladas de lítio. Até agora, não entrou em operação devido a
litígios pendentes com a empresa chinesa Ganfeng Lithium, após o governo de
Andrés Manuel López Obrador (2018–2024) anunciar a nacionalização do mineral há
três anos, gerando incerteza entre investidores.
E há
alguns dias o governo do Chile, que possui uma das maiores reservas de lítio e
é o maior produtor de cobre do mundo, assinou uma declaração com os EUA para
estabelecer consultas bilaterais sobre recursos estratégicos.
Embora
os países latino-americanos tenham muitos dos minerais críticos de que o mundo
necessita, ainda há um elo perdido.
Nesse
sentido, Jeff Dickerson, da Rystad, afirma que a grande pergunta dos EUA
continua sendo o que fazer para que os minerais críticos latino-americanos não
precisem necessariamente passar por fundição e refino na China.
A
região "pode desempenhar um papel fundamental como potencial
fornecedora", particularmente por sua proximidade com os EUA, afirma.
Por
isso, acrescenta, na construção dessa "ponte" entre a extração e o
mineral final está um dos fatores que podem determinar o sucesso do plano dos
EUA para reduzir sua dependência da China.
Por que
Trump mira terras raras e minerais no mundo todo
Lítio,
nióbio, cobre, manganês e terras-raras, entre outros minérios, estão no centro
de uma das disputas mais acirradas do século 21.
Essas
matérias-primas são essenciais para a fabricação de tecnologias que moldam o
futuro: desde carros elétricos e painéis solares até equipamentos militares de
ponta e smartphones.
São
também a base da transição energética global e, por isso, tornaram-se alvo de
uma verdadeira corrida geopolítica, movida por interesses bilionários, disputas
territoriais e estratégias de poder.
A
demanda por esses minérios deve crescer 1,5 mil por cento até 2050, segundo
relatório da Unctad, a agência de desenvolvimento da ONU. É muito acima do que
a produção global dá conta no momento.
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Terras raras
Terras
raras é o nome que se dá a um grupo de 17 elementos que não são exatamente
raros, mas sim de difícil exploração, presentes nos celulares, nas telas, nas
turbinas eólicas, nos carros elétricos, nos painéis solares e até nos mísseis
supersônicos.
A
geógrafa e pesquisadora Julie Klinger, especialista em mineração, detalhou à
BBC Reel por que esses elementos se tornaram tão cruciais:
"Eles
têm propriedades magnéticas e de condutividade fantásticas, que permitiram a
miniaturização dos nossos eletrônicos: para que nossos computadores ficassem do
tamanho de celulares e laptops, em vez de serem do tamanho de um prédio.
Permitiram também veículos mais eficientes, por simplesmente torná-los mais
leves e resistentes ao mesmo tempo", disse ela, em entrevista concedida em
março de 2025.
Outra
área em que eles têm papel crescente é na militar. A Otan, aliança militar
ocidental, recentemente listou 12 minerais críticos pra produzir caças,
tanques, submarinos e mísseis.
A
aliança diz que o abastecimento desses minérios, inclusive os terras-raras, é
"vital para manter a vantagem tecnológica e a prontidão operacional da
Otan".
E um
dos que estão de olho nesse mapa mineral é Donald Trump.
Em
março, o presidente americano assinou um decreto que ordena a ampliação da
produção de minérios críticos e terras raras.
Além
disso, seu governo já demonstrou interesse pela produção mineral de lugares
como Groenlândia, Ucrânia, Rússia, República Democrática do Congo — e agora,
Brasil.
Os
Estados Unidos ainda dependem fortemente das importações, enquanto sua maior
rival, a China, sob muitos aspectos está à frente: concentra 60% da produção
global e 90% do refinamento de terras raras, segundo a Agência Internacional de
Energia.
O caso
da Ucrânia foi especialmente emblemático. Trump exigiu acordo para exploração
de minerais e terras raras ucranianas como condição para seguir apoiando
militarmente o país, em guerra com a Rússia desde 2022.
"Como
vocês sabem, estamos constantemente procurando terras raras. Eles [ucranianos]
têm muitas delas, e fizemos um acordo para que possamos começar a cavar e fazer
o que precisamos", disse o presidente americano, sobre o pacto.
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Brasil: terras raras e nióbio
Nessa
corrida global, o Brasil também tem papel importante: o relatório U.S. Mineral
Commodity Summaries estima que o país detenha até 23% das reservas conhecidas
de terras raras no mundo.
O
professor Sidney Ribeiro, do Instituto de Química da Unesp (Universidade
Estadual Paulista), explica à BBC News Brasil que o país acumula décadas de
pesquisas acadêmicas sobre esses minérios e já faz a mineração de terras raras
em Estados como Minas Gerais e Goiás.
Ainda
assim, responde por menos de 1% da produção, porque muitas das reservas
inexploradas estão em áreas como a Amazônia. Então é enorme o desafio de
aproveitar o potencial mineral brasileiro e ao mesmo tempo manter de pé uma
floresta já muito degradada.
Além
das terras raras, o Brasil tem reservas de outros minérios cobiçados, como o
nióbio — usado em ligas metálicas de alta resistência, fundamentais para
siderurgia, construção civil, turbinas, trens de alta velocidade, baterias e
equipamentos aeroespaciais e militares, como mísseis hipersônicos.
O país
concentra cerca de 92% da produção do metal, que é leve e resistente a altas
temperaturas e ganhou popularidade na última década, depois de ter sido
reiteradamente defendido por Jair Bolsonaro como recurso estratégico para o
país.
O maior
mercado consumidor do nióbio brasileiro é a Ásia (em particular a China), mas
os Estados Unidos têm posição de destaque como quarto maior importador.
O
Brasil respondeu por cerca de 66% do que foi comprado pelos EUA entre 2020 e
2023, segundo o mais recente relatório sobre minerais críticos do Serviço
Geológico dos EUA (U.S. Geological Survey - USGS), fornecendo 83% do óxido de
nióbio que desembarcou no país nesse período e 66% do ferronióbio.
O
volume de nióbio importado pelos americanos cresceu de cerca de 7,1 mil
toneladas em 2020 para 10,1 mil em 2023.
Por
conta da concentração das jazidas no Brasil — ou seja, a quantidade limitada de
fornecedores — o nióbio foi considerado pelo USGS como o segundo recurso
mineral mais crítico para o país quando se leva em consideração os riscos
potenciais da cadeia de suprimentos - ou seja, se o envio brasileiro falhar por
algum motivo, é difícil substitui-lo.
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Disputa de potências e 'neocolonialismo'
E
enquanto os EUA tentam abocanhar novas fontes de suprimento, outras duas
grandes potências — Rússia e China — também avançam.
Moscou
afirmou ter planos de ampliar a produção de terras raras pra diminuir em 15% a
importação de minérios até 2030.
E
Vladimir Putin também cobiça projetos minerais em países aliados, por exemplo
na África.
A
Rússia tem uma presença forte no Sahel, região de países vulneráveis no norte
da África que concentra grandes reservas de urânio e ouro, por exemplo.
A
China, por sua vez, também já investe em projetos de mineração e infraestrutura
no continente africano — e quer avançar na região.
Mas
muitos analistas acham que as investidas de todas essas potências mundiais têm
o que chamam de um caráter neocolonialista: ou seja, de explorar as riquezas de
países ou territórios em situação frágil sem de fato levar desenvolvimento
econômico e social pra essas regiões.
O
relatório da Unctad mencionado no início da reportagem alerta que a dependência
da exportação de commodities – ou seja, matérias-primas como minérios — é um
grande desafio para países em desenvolvimento e pode criar armadilhas
socioeconômicas parecidas às sofridas por países dependentes da exportação de
petróleo.
"Essa
dependência impede o desenvolvimento econômico e perpetua desigualdades e
vulnerabilidades pela África Subsaariana, a América do Sul, o Pacífico e o
Oriente Médio", diz o relatório.
Globalmente,
a ONU estima que o mundo precisará investir até US$ 450 bilhões em minérios
críticos até 2030 pra dar conta da demanda.
Alguns
especialistas afirmam que será preciso otimizar práticas de mineração já
existentes.
"Muitas
vezes, elementos de terras raras estão presentes nos resíduos de outros tipos
de mineração, em especial minas de fosfato e prata", afirmou Julie Klinger
à BBC Reel.
"Devemos
trabalhar pra reimaginar esses processos, como uma fonte potencialmente
abundante de terras raras, pra atender às preocupações e à escassez da cadeia
de suprimentos sem ter que abrir novos buracos na terra."
Outra
possibilidade, diz Sidney Ribeiro, é reciclar as muitas toneladas de lixo
eletrônico que são jogados fora todos os dias.
"Hoje
se fala muito no que a gente chama de mineração urbana, você já usar lixo
eletrônico pra recuperar a terra rara que já está ali para essas
aplicações", afirma o professor da Unesp, citando como exemplo projetos
para purificar os elementos de terra-rara de lâmpadas luminescentes.
De
qualquer modo, a disputa por esses elementos minerais só tende a crescer —
dentro e fora de fronteiras.
Cálculos
da ONU apontam que, de todos os conflitos intra-Estados registrados nas últimas
décadas, 40% eram relacionados a recursos naturais — inclusive ao acesso a
minérios.
Fonte:
BBC News Brasil

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